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Testemunhos

Em dezembro de 2020, eu e o Papá tomámos a decisão de, em janeiro de 2021, procurarmos ajuda para conseguirmos o nosso tão desejado bebé que, durante 10 anos não tínhamos conseguido.

E a vida, em janeiro de 2021, acabou por nos presentear com uma bebé, quando nós mesmos já tínhamos perdido a esperança…estava grávida de 4 semanas.

Foi uma emoção tão grande! No meio de tantos negativos, aquele positivo foi um misto de sensações que não soubemos controlar.

Para que tudo corresse bem, procurámos as melhores clínicas de Portugal para realizar todos os exames, no qual todos estavam bem e a correr dentro da normalidade.

Dois dias após perder a minha avó (que era mais que minha mãe), realizei a primeira ecografia mais profunda onde se iria saber o sexo da bebé e ver se estava tudo OK. Foi impedida a entrada de acompanhantes.

Foi detetada uma translucência nucal muito elevada e a menina estava muito inchada, ao qual a médica me disse, sem problemas “A bebé não vai sobreviver, pode morrer a qualquer momento “…

Seguiu-se uma série de exames e ecografias, tal como a biópsia das vilosidades, que não detectou nada…a menina era, aparentemente, saudável.

Chegando às 21 semanas, nas últimas ecografias que realizei, a médica informou-me que a menina tinha uma hérnia diafragmática congénita, problemas cardíacos graves e estômago colapsado. O mais certo era a menina morrer ainda na barriga… mas, caso não acontecesse, acabaria por morrer numa das operações que iria ter que realizar à nascença.

Informaram-me que o melhor seria interromper a gravidez…Não quis acreditar que a vida me iria tirar o chão!

Tinha acabado de perder a minha avó e iria ter que acabar por perder a bebé que me deu força naquela partida tão dura.

A Benedita era a bebé mais desejada deste mundo. Tanto eu, como o Papá dela, a desejávamos com todo o nosso coração.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida

A Benedita já tinha o quartinho pronto e mais roupa que os Papás, que reviraram o mundo e percorreram em 6 meses mais médicos diferentes que em 6 gravidezes normais juntas.

A Benedita esteve 21 semanas e 3 dias dentro de mim. Permitiu-me ser mãe, realizou-me um sonho, mesmo tendo-me tornado mãe de colo vazio. A Benedita deixou-me senti-la durante horas, logo após as 17 semanas; não deixava dormir a Mamã e acalmava sempre que sentia o Papá.

Tinha o narizinho e os pés do Papá e adorava dormir toda enroladinha como a Mamã.

A vida é de facto injusta, e comigo tem sido avassaladora desde sempre. Quem diria que eu, que desde pequenina que sonhava com esta menina, iria ter que passar um processo destes tão doloroso. Eu, que me agarrei à esperança de que ela estivesse em crescimento e fosse apenas teimosa como a Mamã.

Tive que ter o acto de coragem mais difícil de toda a minha vida, por ela, para que não sofresse.

Passei pelo meu primeiro parto, sozinha, 4 dias num hospital, devido à pandemia “mais devastadora” do momento. Senti-a encostada às minhas pernas, grandinha e quentinha.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida.

O mais fácil é sempre dizer : “ És nova, terás outro! ” … A questão não está em ter outro, a questão está em ter sido uma bebé tão desejada durante anos.

Ninguém sabe, para além de mim e do Papá dela, o quão difícil foi aquele primeiro positivo, que nem sabíamos como reagir de tão felizes que estávamos.

O medo permanecerá sempre. E a saudade também.

E se há coisa que me faz sentir perto da minha filha, é estar abraçada ao Papá dela.

A Benedita será sempre o meu anjinho mais bonito do céu. Tudo acontece por uma razão…O meu arco-íris há-de chegar… Mas a Benedita fará sempre parte das conversas do dia-a-dia cá de casa! E será das maiores luzes na nossa vida, como o tem sido até agora, desde a sua partida para longe de nós!

Benedita, 06-05-2021 / 12h55

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Testemunhos

Soube que estava grávida do Gabriel já com 12 semanas.

Sentia-me mais cansada do que o normal, então resolvi fazer o teste de gravidez. E lá estava ele positivo…era nosso 4º bebé: temos 2 meninas e 1 menino, ficámos com 2 casais, o que o pai sempre disse que haveria de ter.

No dia 22 de novembro fiz a primeira eco. Tudo bem um bebé praticamente formado e muito mexido. Correu tudo normal até às 16 semanas, quando tive uma perda de sangue enorme. Pensava mesmo que já não tinha o bebé, mas não, ele era forte e aguentou. No entanto, a placenta tinha começado a descolar.

Vim para casa de repouso. Fiz uma ecografia no dia 2 de janeiro, na qual a médica me diz “está tudo bem mãe, não se preocupe”. Mas o meu coração não descansava, havia algo que não me deixava descansar. Até que, no dia 27 de janeiro, comecei com contrações, fomos logo deixar os irmãos  e seguimos para hospital.

Quando fui observada, vi logo que havia algo de complicado. O médico chamou logo outra médica para vir ver. A bolsa estava a sair com o bebé lá dentro. Foi-me dito que estava a entrar em trabalho de parto com 22 semanas. Nem tinha noção do que viria depois, só queria perceber se estava vivo. E estava, tinha batimentos cardíacos.

O Gabriel nasceu com 25cm e 480 gramas (…) um bebé perfeito, só faltava crescer

Fui para a sala de partos, chamaram o pai para perto de mim e disseram-me: “o médico já vos vem esclarecer e contar ao pai o que está a acontecer.”

As horas passaram e não apareceu ninguém… Até que as águas rebentaram. Fiz outra ecografia para percebem se o bebé tinha batimentos e sim, mais uma vez tinha.

Na minha inocência perguntei se ia ficar ali ou teria de ir para outro hospital… A resposta que me foi dada foi que era um bebé muito pequeno, mesmo que nasça com vida não iam fazer nada…se já estava mal naquele momento caiu o resto.

É o meu filho, aquela médica estava a falar do meu filho!

Voltei para a sala de parto onde ele nasceu às 02:45 do dia 28 de Janeiro.

Não sei dizer quanto tempo, se segundos, se minutos…se foram minutos não foram muitos, estava completamente desnorteada mas só ouvi a parteira a dizer que já não tinha batimentos.

Levaram-no para medir e pesar e, no fim, trouxeram-no enrolado num lençol branco…O Gabriel nasceu com 25cm e 480 gramas. Lindo, perfeito e nada vermelho; um bebé perfeito, só faltava crescer.

Esteve deitado ao meu lado, até me dizerem que tinham que o levar. As horas a seguir não foram nada fáceis, ainda passei pelo bloco operatório, a placenta tinha sido retida então foi fazer a limpeza.

Só pensava em sair dali ir para casa, para junto dos meus filhos. A mais velha fazia 9 anos no dia a seguir. Só não queria que se soubesse nada naquele momento.

Saí no dia 29 de janeiro com um termo de responsabilidade. Ela não podia saber que tinha perdido um irmão na véspera dos anos dela. Vim para casa e só lhe contamos uma semana depois…

Hoje todos nós temos um anjinho bo céu a olhar por nós.


O nosso Gabriel que nunca vai ser esquecido.

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Perda gestacional

Temos um miminho para quem nos visita. Sabemos que, infelizmente, em muitos casos, não há sequer um registo de nascimento e de óbito. Pouco é o que guardamos, em termos físicos, dos nossos filhos que tanto amamos. Por isso, prepararmos estes certificados que podem descarregar e preencher com os dados do vosso(s) bebé(s).

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Infertilidade

Há mais de dois anos entrou nas nossas vidas a nossa Ana do Carmo. ❤

Não foi fácil, mas nenhum filho nos facilita a vida. Logo logo quando ia desistir, ela finalmente apareceu e tem sido uma crescente emoção na nossa vida e na vida dela.

A nossa história começa com uns longos nove anos de namoro. Eu e o Martim casámos e, logo a seguir engravidei, mas infelizmente perdi o bebé às doze semanas. Foi um choque para mim (para nós) pois sempre idealizei ser Mãe de quatro… e achei que nunca teria problemas em engravidar. Mas a vida prega-nos destas partidas.

Foi um processo doloroso pois acabei por ter um parto normal, vi o meu bebé e tive de fazer duas raspagens no espaço de dois dias! Enfim, uma violência logo de início!

Mas, como sou uma pessoa positivista, logo a seguir comecei a pensar em engravidar novamente, mas descobri que também tinha hipotiroidismo, endometriose e pouca reserva ovárica. Assim, estive cerca de quatro anos para voltar a engravidar quer pela consulta de infertilidade no público, quer pelo privado: sempre a tentar e a ter desmanchos. Foram longos anos a fazer estimulação com injeções, se não me falha a memória foram três, pelo meio uma menopausa precoce… enfim… resumidamente: um filme.

No meio de tudo isto tinha uma grande vontade de adotar e o meu marido, que sempre me disse durante este processo todo que tinha casado comigo por mim e não para ter filhos, que se eles viessem tanto melhor ❤

Até que em 2010/2011 metemos o processo de adoção, pensando até em adotar irmãos. Continuámos com o processo de infertilidade e, em janeiro de 2012, fiz uma FIV finalmente com 2 embriões e engravidei, não vingaram e, mais uma vez, a desilusão.

Mas, como a vida dá muitas voltas, tivemos uma surpresa no mês a seguir de fazer a FIV: engravidei naturalmente da minha primeira filha, a Constança. Um verdadeiro milagre da natureza, para nós, mas também para os médicos.

Foram 41 semanas de uma santa gravidez, embora com um mix de medo e felicidade, mas correu super bem. Pelo meio tive de comunicar às assistentes sociais que estava grávida e fomos aconselhados a suspender a adopção para “vivenciar” a gravidez. Embora não concordássemos muito, lá aceitámos.

A Constança nasceu e passado pouco tempo descobrimos que ela era surda. Lidámos muito bem com isso, dentro do que se pode lidar e partimos para a colocação de implantes cocleares…mas isto já dava outra história…o que interessava é que afinal tinha nascido uma filha que era o que mais queríamos!❤️

Passado 9 meses de a Constança nascer, engravidei novamente e mais uma vez perdi. É aí que decidimos reforçar à segurança social a nossa vontade de continuar no processo de adoção e, até 2017, nada aconteceu.

A nossa Ana do Carmo chega quando menos esperávamos. 🙂
Eu já tinha dito ao Martim que esperava até aos 45…depois disso desistia pois não fazia mais sentido. Mas eis que em Fevereiro de 2017 chamaram-nos para fazer uma formação e lá fomos nós sem expectativa nenhuma. Lembro-me de dizer ao Martim…”já não vai acontecer connosco, é tão difícil!!”.

Em Março desse mesmo ano, a 4 dias antes de fazer anos…estava a trabalhar e ligaram da segurança social a dizer que havia uma menina, fiquei a tremer de todos os lados…isto está mesmo a acontecer ?!?! Tinha metido o dia de anos de férias (meto sempre) e nesse mesmo dia lá fomos à segurança social e lá estava a foto com ela. ❤

Em dois dias tivemos de decidir e em quinze dias tínhamos de lá estar a ir buscá-la! Foi um turbilhão de emoções, uma série de decisões a fazer, tais como logística (comprar bilhetes de avião, alterar o quarto delas para comportar mais uma), preparar a nossa filha Constança da vinda da irmã, etc e, por fim, lá fomos nós.

Mais giro ainda foi que a Ana do Carmo estava aos cuidados de uma instituição cuja Freira já de idade tinha sido Freira no Colégio onde o Martim tinha andado e inclusive ela fazia-lhe ovos estrelados quando o Pai se atrasava a ir buscar-lo. Que coincidência inacreditável!!!

Caíram os dois nos braços um e do outro, não se viam desde que o Martim era miúdo. E agora era ela quem cuidava da Ana e ficou super feliz por ficarmos com ela, dizia ela que levávamos um tesouro e nós tão contentes por sabermos que a Ana tinha tido tanto amor dela.

Ela começou de imediato a chamar-nos Mãe e Pai….pois a psicóloga da instituição trabalhou muito bem a integração, aliás ela ao terceiro dia de chegarmos, ficou a dormir connosco.

Não foi de todo um processo fácil, principalmente para ela: de repente vê-se com dois adultos estranhos….lembro-me que nem a mão queria para adormecer…para mim também era tão estranho…a Constança adora que lhe dê festas e a mão e a Ana nada…tirava a mão…

Mas agora já diz “mãe dá miminho e festinhas” ou então “Mãe, gosto de ti até à Lua” ou ainda “Gosto muito da minha família…” e começa a enumerar cada um de nós.

Desde então, tem sido uma descoberta e um crescimento fantástico, mas nem tudo é um mar de rosas, porque não é fácil de repente amar alguém de um dia para o outro. É um processo gradual de conhecimento mútuo, um amor que vai crescendo de dia para dia.


Hoje, já não vemos a nossa vida sem ela! A nossa querida teimosa Anocas ❤

Mariana e Martim, Porto

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Testemunhos

Senti necessidade de escrever sobre a minha grande perda. Está quase a fazer 6 anos, e este ano está a ser difícil. Estou a relembrar-me de tudo, e parece que estou a viver tudo novamente. 

Estava grávida, tinha acabado de completar 18 anos há pouquinhos meses, estava tão feliz. Levantei-me calmamente, mas eufórica. 

Era só mais uma ecografia, (na realidade não era mais uma eco, era o dia em que ia descobrir o sexo do bebé) mas naquele dia não estava com aquele brilho nos olhos.  Parece que estava com algum pressentimento. “São coisas da tua cabeça” pensava eu.Depois de mais uma hora de espera, entrei no gabinete. Deitei-me na maca, o médico foi falando durante a eco. Apontado medidas, até que me diz “é um menino.”

O sorriso apoderou-se da minha face, até que de repente oiço um ” está tudo bem, mas temos de ir ao hospital ver aqui um problema”. Ao sair do gabinete, o obstetra disse à secretária para desmarcar as próximas ecos. Achei estranho, mas não desconfiei. O médico dirigiu-se comigo ao hospital (era à frente da clinica). Fez a minha ficha, e entrou para ir falar com um dos colegas de serviço.


Passados poucos minutos, que mais pareceram uma eternidade, chamaram-me. Deitei-me na maca.  O médico colocou gel na minha barriga, e começou a fazer a eco. O colega de serviço disse para o outro “É sem dúvida o que mais temias.” Eu sem perceber nada, sem respostas de nada! O “meu obstetra” sai, e entra com vários estagiários. 

Eu estava imóvel, com a cabeça cheia de perguntas, até que oiço “Veem como o diafragma não fechou? Os órgãos subiram”. Continuei a questionar, até que acabaram a eco. Vesti-me e sentei-me. Deram-me um copo de água. “O seu feto tem uma hérnia diafragmática. É grave, e tem de ir já para o Hospital da Estefânia, para ser vista por um cirurgião pediátrico e outro obstetra”. Aquelas palavras na minha cabeça não fizeram sentido. Não percebi o significado.

Desloquei-me ao Hospital D. Estefânia. Fui muito bem recebida, aconselharam a fazer uma amniocentese para se perceber o que se passava, se havia mais alguma anomalia e uma ressonância magnética. 
No fim da amniocentese, uma médica obstetra disse-me “Não vale a pena fazer repouso”. Foi nesse momento que percebi seriamente que algo não estava bem.

Esperei alguns minutos, e um cirurgião pediátrico veio falar comigo. Explicou-me a gravidade da situação, e que com base nos exames, só havia 10% de probabilidades do bebé sobreviver. Aquelas palavras doeram bastante. São palavras que nenhuma grávida quer ouvir. Pareciam que me estavam a tirar o meu filho. O bebé que eu sempre quis! Fui para casa, com a condição de voltar passados 2 dias com uma decisão tomada. 

No dia seguinte, comecei a perder líquido e com medo ser líquido amniótico desloquei-me ao Hospital. Expliquei ao médico que me atendeu o que se estava a passar, e ele confirmou com a eco a gravidade da situação, e disse que eu já não ia para casa. Fui internada por suspeita de rutura de bolsa. Foi uma noite tão difícil, lembro-me que estive a chorar até adormecer. Tomei a decisão de interromper a gravidez, tinha 23 semanas e uns dias. Foi-me explicado que seria preciso assinaturas de 3 médicos para ser legal interromper a gravidez. Esperei 4 dias, até terem as assinaturas. Comecei então o processo de interrupção. Deitei-me numa maca, enquanto um outro obstetra me fez uma eco, e disse-me ” esta injeção vai parar o coração do bebé.”

As lágrimas escorriam-me. Estava a perder o bebé que eu sonhei. O meu bebé! Não era o bebé de ninguém, era o meu bebé!

Passados uns terríveis minutos, o médico que me tinha dado a injeção voltou-se para duas estagiárias que estavam na sala e disse ” Sabem o que têm de pensar? É que este feto não tem viabilidade, mas naquela sala (apontado para o bloco de partos) estão ali vidas. Estão ali bebés para nascer.”

Fui para o quarto preparando-me para o inicio do processo. Foram-me colocados 3 comprimidos vaginais. Colocados á bruta. Passaram horas e horas, e sem sinais evidentes de parto. Mais 3 comprimidos vaginais. No dia seguinte, como não haviam sinais, foram colocados mais 3 comprimidos vaginais. E oxitocina na veia. Comecei a sentir dores, não sabia que seriam contrações. Toquei à campainha, expliquei a uma enfermeira que me disse que era mesmo assim, e que ainda ia demorar. Olhei ao relógio, eram 16:31h. Deixei de ver, não conseguia sentir. Estava péssima. Até que me deu uma dor tão forte, que só me deu tempo de agarrar à cama e apertar as barras de ferro. Fiz uma força enorme, força que eu nem sabia que tinha, e saiu. O meu bebé saiu dentro de mim. A enfermeira apareceu com os meus gritos, e disse-me muito nervosa “não te mexas que eu volto já” Tentei não me mexer. Entrou no quarto a enfermeira, e outra colega. Tinham na mão um balde amarelo e instrumentos médicos que eu nem sei o que eram. Fechei os olhos, e escolhi não ver. Hoje arrependo-me, arrependo-me de não ter visto o meu bebé! Foi assim que nasceu a minha estrelinha, o meu príncipe. 

Poucos minutos depois, entra no quarto o médico com um papel para eu assinar e explica-me que é melhor fazermos uma autópsia, e deu-me um grande abraço. Aquele abraço soube-me tão bem! Eu estava tão frágil, acabada de fazer 18 anos, sem conhecer nada da vida! e a perder o meu filho. Tive alta no dia seguinte, com uma frase do médico ” um raio não caí duas vezes no mesmo sitio”. Essa frase entrou-me na cabeça e ainda hoje me lembro. Foram tempos muito difíceis, chorei tanto. Sentia que tinha perdido uma metade de mim.

O meu Kévin nasceu às 16:46h do dia 26 de Junho de 2015, com 497g e 24 semanas. Com uma hérnia diafragmática esquerda e outros problemas confirmados pela autópsia.

Passaram quase 6 anos. Nesses 6 anos, tive duas princesas lindas e saudáveis, mas não vieram substituir o meu menino. E sei que um dia vou voltar a reencontrá-lo. Porque nunca foi um Adeus, foi sempre um Até Já! ❤

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Testemunhos

Para aumentar a dor de já ter perdido o meu filho Rodrigo, com 4 anos de idade em Maio de 2015, depois de lutar durante 2 anos contra um cancro cerebral em fase terminal (AT/RT), descobrimos que estava grávida – era o nosso bebé arco-íris -, que se tornou, novamente, no nosso maior pesadelo em outubro de 2020.

Estava grávida de 26 semanas de gémeos, quando me disseram que um tinha sido absorvido pelo meu próprio corpo, e pelo irmão. O Lucas, a 18 de abril de 2020, fez o nosso mundo cair, mas estávamos felizes porque o Benjamim estava a crescer bem. Estava bem nas ecografias e via-se, nas ecografias, o nosso tão desejado menino a rir.

O parto estava planeado para outubro de 2020, mas como eu tenho endometriose, era uma gravidez de risco e tinha que ser mais vigiada. A obstetra dizia estar sempre tudo bem e nunca valorizou as minhas queixas com dores e perdas de sangue. A partir de setembro, quando ia quase todas as semanas ao hospital, apenas ligava o CTG e fazia ecografia e estava sempre tudo bem; mesmo quando eu deixei de sentir o meu Ben em inícios de outubro, estava sempre tudo bem.

Pude conhecer o meu filho, dar mimo e dar-lhe um beijinho de mãe.

No dia 15 de outubro de 2020, às 3 da manhã, senti uma dor enorme e estava a perder sangue. Eu sabia que não estava tudo bem e fui de emergência para o hospital. Cheguei lá de 39 semanas e disseram-me que já não havia batimentos cardíacos e que tinha fluido na minha barriga. Tinha de dar à luz de imediato, pois corria risco de vida e já não havia nada a fazer, pois o Benjamim já tinha partido.

Altura de Covid-19, pico alto da pandemia e aí sonhos destruídos. No dia seguinte voltámos a casa de coração cheio e colo vazio.

Pude conhecer o meu filho, dar mimo e dar-lhe um beijinho de mãe. O meu filho estava sereno, no sono eterno.

Não há maior dor que dar à luz um filho e não o ouvir chorar…Já lá vão 7 meses e a dor é a mesma.

Os meus anjinhos no céu.

A autópsia, obviamente, deu inconclusiva, mas sim, se a obstetra tivesse provocado o parto no dia 5 de outubro de 2020, quando eu lhe disse que não me sentia bem, o meu filho teria 7 meses.

A mamã e o papá amam-te daqui até ao céu.

Coração cheio, colo vazio.

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Perda gestacional Perda precoce

A dor e a surpresa de uma perda gestacional precoce são, por si só, uma experiência traumatizante. No entanto, há famílias que passam por este tipo de perda uma, outra e outra vez. Quando três abortos consecutivos ocorrem antes das 22 semanas, com os mesmos progenitores, considera-se uma situação de aborto de repetição.

O aborto de repetição afeta entre 1 a 5% das mulheres em idade reprodutiva.

Atualmente, em Portugal, podem ser realizados exames para apurar possíveis causas de perdas gestacionais precoces após a terceira perda. Ainda assim, mesmo depois de investigação, cerca de 50% dos casos continuam sem explicação clínica.

Aborto de repetição: possíveis causas

Apesar das causas genéticas serem, geralmente, responsáveis por cerca de 50% dos casos de aborto antes das 10 semanas de gestação, outras causas incluem:

  • causas anatómicas (como o útero septado e o útero bicórneo),
  • causas endócrinas (como alterações da tiroide)
  • causas imunológicas, infeciosas
  • Trombofilias (alterações da coagulação do sangue que podem resultar em trombose) e outras. 

De facto, há, ainda, muitas áreas cinzentas no que diz respeito às causas e tratamentos de abortos de repetição e outras perdas gestacionais. Contudo, segundo um estudo recente do The Lancet, podem estar relacionadas com o uso de progesterona em gravidezes após a perda para que a gestação seja levada a termo com taxas substanciais de sucesso. Num outro estudo, a Tommys publicou informação também muito útil em relação à progesterona e medicação ligada à diabetes para otimizar as probabilidades de uma gravidez com sucesso.

Contudo, há muitos fatores em jogo que podem afetar o risco de aborto como a idade materna ou dos progenitores, historial de perdas anteriores, entre outros.

Por isso, é importante oficializar, clinicamente, as perdas que se tem. Sabemos que é triste, mas, desta forma, ser-lhe-ão oferecidos exames que poderão prevenir futuros abortos espontâneos.

Infelizmente, há ainda muitos casos em que as causas não são descobertas e isto afeta imenso os casais.

De qualquer forma, como já notamos, para a maioria das mulheres em idade reprodutiva, a gravidez é, por si só, um acontecimento transformativo e o aborto, representa mais do que simplesmente a perda do produto de conceção.

Representa, principalmente, a morte de um filho, a mudança súbita de planos e expectativas e pode, até, despertar dúvidas sobre a sua competência como mulher e como pais. E o processo de luto não é fácil. Tem direito a chorar pelo bebé que perdeu. Seja ele o primeiro, segundo, terceiro…São todos seus e todos importam.

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Perda gestacional Pós-Perda

Qualquer gravidez requer alguma preparação por parte dos pais. Acima de tudo, esta serve para assegurar que tudo o que está sob o nosso controlo e que vai correr bem. Sobretudo, após uma perda, este sentimento torna-se, ainda mais, acentuado. Afinal, uma perda é algo que não se controla e, por isso, é natural que se queira fazer o possível e impossível para dar a uma futura gravidez as melhores probabilidades possíveis. A isto, chamamos de pré-conceção consciente.

Deste modo, disponibilizamos algumas dicas para estar o mais preparada possível.

Pré-concepção consciente: Alimentação e nutrição

Uma alimentação equilibrada, por parte dos progenitores, contribui para a fertilidade do casal, tal como oferece os nutrientes que a mãe necessita em quantidades suficientes para ela e o bebé. A sua dieta pode afetar o desenvolvimento físico e neurológico do bebé.

Entre as vitaminas a incluir na sua dieta estão, por exemplo, o Ácido Fólico, Vitaminha D e Vitamina B12.

Por exemplo, o zinco atua no sistema imunológico e o cálcio, na divisão celular. Já nutrientes como ácido fólico, ómega 3 e vitamina B12 influenciam diretamente a formação do sistema nervoso do bebé.

Pré-concepção consciente: Exercício Físico

Durante uma gravidez, existem múltiplas transformações no corpo da mulher: a nível hormonal, mudanças anatómicas e cardiovasculares, aumento de peso e outras que podem afetar o seu sistema. O exercício durante a gravidez (exceto em casos em que há contraindicações) é recomendado e influencia como se sente com o seu corpo e até afetar a forma como experiencia o parto. Em Portugal, empresas como a Bebé e Barriguitas, focam-se no exercício físico para mamãs e preparam-nas para o parto (além de as acompanhar durante o pós-parto também).

Pré-concepção consciente: Pediatria pré-natal e obstetrícia

Muitas mulheres já terão o seu ginecologista/obstetra antes da gravidez, mas caso não tenham, e especialmente depois de uma perda, é aconselhável que procure apoio adicional que a possa tranquilizar durante a gestação.

Em relação à pediatria pré-natal, este é o primeiro passo no estabelecimento da relação entre os pais e o médico. O pediatra pode iniciar a família na sua função de pais para que estes possam responder adequadamente às necessidades e comportamento do bebé.

Aconselha-se que a primeira consulta ocorra algures depois das 30 semanas, mas pode começar mais cedo ou mais tarde se assim o desejar.

Estilo de vida

Factores que poderão afetar a sua gravidez:

  • Excesso de peso
  • Excesso de cafeína
  • Consumo de alcool, de drogas e tabaco
  • Medicação que está a tomar
  • Entre outras

Uma gravidez após uma perda é mentalmente difícil. Procure ajuda se precisar.

Apoio Psicológico

Voltar a pensar em recomeçar e voltar a tentar, pode ser muito díficil mentalmente. Assim, pode ser necessário apoio psicológico como acompanhamento por um profissional de saúde ou de uma doula. Apesar de estas áreas serem diferentes, são complementares ao bem estar dos pais.

Pode procurar ajuda aqui.

Importante: Por favor tenha em conta que, apesar da informação presente neste artigo ir de encontro às recomendações de médicos de família e profissionais de saúde, esta não substitui o apoio qualificado. Consulte sempre o seu médico de família e/ou obstetra e outros profissionais que o irão aconselhar de acordo com as suas necessidades.

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Perda tardia Testemunhos

Depois de 2 anos a tentar engravidar, e já em consultas de PMA (infertilidade), engravidei naturalmente. Soubemos em Novembro de 2020, estávamos mega felizes…

Tudo correu bem até à segunda ecografia, em que a médica me diz (devido à pandemia, estava sozinha) que o bebé tinha uma malformação muito grave…

Mandou entrar o meu marido, também lhe explicou o que passava, e marcou-nos consulta para uns dias mais tarde, onde iríamos decidir o que fazer. Disse-nos para até lá irmos pensando.

Ficamos completamente desnorteados, o mundo caiu-nos em cima.  Tínhamos em mãos a pior das decisões para tomar, tirar a vida ao nosso bebé, era um rapaz…depois da decisão, foram mais uns dias até fazer a interrupção, porque até nestas situações a burocracia impera, e esses só foram os piores dias da minha vida.

Era um bebé perfeito

Continuar a ter dentro de mim um bebé, que sabia ia ficar sem ele, um bebé com vida, que eu lhe ia tirar…

E no dia 14 de março de 2021, nasceu o nosso bebé sem vida, uma vida que fomos nós que decidimos terminar, mas que no fundo sabemos que foi o melhor.

Era um bebé perfeito (decidimos que o queríamos conhecer), não fosse ter “espinha bífida aberta”.

E no fim de tudo isto, fica uma dor enorme…. não há dia que não pense, não há dia que não me lembre, e tenho a certeza que será eternamente assim, porque não há maior dor, do que a de perder um filho…. 

Um beijinho do tamanho do mundo e um xi-coração apertado.

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Perda tardia Testemunhos

O meu nome é Vanessa tenho 31 anos e em 2020, no dia 20 de maio soube que estava grávida de 6 semanas.

Uma gravidez desejada, tudo super tranquilo até ao dia 19 de outubro já com 29 semanas…comecei a sentir umas picadas na barriga, um ligeiro corrimento com sangue; pensei logo que seria uma infeção urinária porque já tinha tido durante a gravidez.

Dirigi-me às urgências onde me foi dito que com o bebé estava tudo bem. Iríamos então fazer análises à urina e à urina acética (esta análise demoraria 2 dias até sair o resultado, até lá iria tomar progesterona. Assim foi. Fiz um CTG tudo normal.

O Afonso nasceu no dia 21 de Outubro às 23h45, um parto normal com uma equipa médica fantástica.

Dia 21 de outubro, mesmas dores mas mais fortes. Vou à consulta médica, só por precaução, quando a médica me diz “não há batimento cardíaco”… Nesse momento o mundo para, fico sem chão, sozinha no consultório.

Então a medica decide “vamos mudar de máquina pode ser uma avaria”… mas não era! O meu Afonso partiu e eu não consegui perceber quando ele deixou de se mexer. Já estava a entrar em trabalho de parto!

Na altura só pensei “e agora?!”. Lá fui para o hospital, nas urgências sozinha, só tive o meu namorado comigo às 17h30, dei entrada ao 12h30. Fui sujeita a todo o tipo de estudo_ amniocentese, análises, tudo!

O Afonso nasceu no dia 21 de outubro às 23h45, um parto normal com uma equipa médica fantástica. Não vi o meu filho porquem quando dei entrada no hospital, a médica disse-me “sente-se preparada para ver o seu filho, sabe que ele pode não ter uma aparência normal “… fiquei assustada e não vi. A médica disse isso porque o Afonso tinha a translucência da nuca um pouco elevada, mas fiz todos os exames e o meu bebé era normal.

Tenho alta no dia seguinte – se havia dia para saírem mães com ovinhos foi no dia que eu saí de colo vazio ainda em choque com o que nos aconteceu. Tinha tudo planeado, roupinhas e de repente a vida pregou-me uma partida.

Fizemos muitos exames morte inexplicada foi o resultado, e é isto que me dizem, sujeitei-me a tudo a nível de exames mas “a medicina ainda não está assim tão evoluída”.

Felizmente descobri o vosso blogue que tem sido uma grande ajuda a nível psicológico, porque sempre que vejo uma grávida, um bebé no ovinho pergunto-me quando será a minha vez.

E como fazemos tantos exames e ninguém vê que algo está errado com o bebé.

Espero que a minha história ajude quem também passou por uma perda.
Sou mãe de primeira viagem de um anjo que tenho a certeza me vai proteger 💙