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Perda tardia Testemunhos Testemunhos Perda Tardia

A minha história com a minha Benedita começou no dia em que descobri que estava grávida.

Desde o primeiro momento, aquela bebé passou a fazer parte de todos os meus sonhos, comecei a imaginar como seria, a falar com ela, a pensar em como seria finalmente tê-la nos meus braços.

Aos poucos, deixou de ser apenas o bebé que estava dentro da minha barriga e passou a ser a minha Beni, a minha menina, a minha princesa.


A gravidez foi, de uma forma geral, perfeita. Fiz todas as consultas e ecografias no mesmo hospital e, tirando a questão dos percentis e das estimativas do peso, nunca imaginei que pudesse acontecer alguma coisa à minha filha.

Às 36+1 semanas, no dia 26 de janeiro, estimaram que ela pesava 2.561 g, entre o percentil 10 e 25. Na última ecografia, a 12 de fevereiro, às 38+4 semanas, estimaram 3.465 g, correspondente ao percentil 65,6. Quando nasceu, às 39+5 semanas, pesava 2.830 g, aproximadamente no percentil 20.

Na altura, eu não imaginava que algum dia iria olhar para estes números tantas vezes e perguntar-me se havia alguma coisa que não vimos. Eu acreditava que a minha filha estava bem. Estava no fim da gravidez e só pensava em conhecê-la.
Já tinha imaginado a nossa vida com ela. Imaginava a Inês a conhecer a irmã, as duas juntas, a nossa casa cheia de meninas. Imaginava os primeiros banhos, as primeiras fotografias, os passeios, as noites, as roupas pequeninas e todas aquelas coisas simples que uma mãe acredita que terá oportunidade de viver. Eu tinha tantos sonhos para a minha Benedita e já a amava de uma forma que não consigo explicar.


Até que chegou o dia 20 de fevereiro de 2026, eu estava com 39 semanas e 5 dias, estava tão perto de finalmente levar a minha bebé para casa, era suposto ser o início de uma das fases mais bonitas da minha vida.

Eu tinha tantos sonhos para a minha Benedita e já a amava de uma forma que não consigo explicar.

Mas tornou-se o pior dia da minha vida.
A minha Benedita nasceu e eu tive de me despedir dela no mesmo momento…


Ainda hoje custa escrever estas palavras. Passei meses a preparar-me para conhecer a minha filha e, quando finalmente chegou o momento, tive de aceitar que não a levaria comigo para casa. Eu queria vê-la crescer. Queria descobrir a personalidade dela, saber a quem se parecia, ouvir a voz dela, vê-la sorrir, pegar nela ao colo, dar-lhe banho, vesti-la e adormecê-la. Queria vê-la crescer ao lado da Inês. Queria viver uma vida inteira com a minha filha e, de repente, tive de aprender a viver sem ela.


Perder um bebé é perder muito mais do que aquilo que conseguimos explicar. Eu tenho saudades da minha filha, mas também tenho saudades de tudo aquilo que nunca vou conhecer. Tenho saudades da bebé de seis meses que ela teria agora. Penso em como estaria, no que já faria, no sorriso que teria, nas pequenas manias que teria, em como seria vê-la com a irmã. Tenho saudades de uma vida inteira que imaginei e que nunca tivemos oportunidade de viver.


Depois da perda vieram as perguntas. O que aconteceu? Porquê? Havia algum sinal que não vimos? Havia alguma coisa que pudesse ter sido diferente? Vieram os exames, os relatórios, as esperas e a procura por respostas…Continuo a aguardar algumas respostas e os resultados da autópsia, porque ainda sinto necessidade de perceber o que aconteceu à minha menina.


Mas, no meio de todas as perguntas, há uma coisa de que nunca tive dúvidas: a Benedita foi profundamente amada. Foi amada desde o primeiro momento, foi amada em cada dia da gravidez, em cada movimento que senti, em cada ecografia, em cada plano que fiz, foi amada antes de eu conhecer o rosto dela, antes de ouvir a voz dela, antes de saber como seria o seu sorriso.

Por isso, se estás a ler a minha história porque também perdeste o teu bebé, quero que saibas que não estás sozinho. Não precisas de ser forte todos os dias. Não precisas de fingir que está tudo bem. Chora quando precisares, fala do teu bebé quando quiseres, guarda as fotografias, diz o nome dele ou dela. Não existe uma maneira certa de viver o luto.


Foi amada simplesmente porque era minha filha, e continua a ser.
Já passaram quase seis meses desde aquele dia, seis meses desde que a minha Beni nasceu e desde que a minha vida mudou para sempre. O tempo continua a passar, mesmo quando nós sentimos que ficámos presos naquele dia. A minha filha teria agora quase seis mesinhos e eu continuo a imaginar como seria tê-la comigo. Continuo a imaginar a nossa casa, a Inês com a irmã, os nossos dias, os momentos que estaríamos a viver.

Há dias em que consigo falar dela e sorrir. Há outros em que a saudade chega sem avisar e parece que tudo aconteceu ontem. Há dias em que penso que estou a aprender a viver com esta dor e outros em que ela volta com uma força enorme.


Mas hoje sei uma coisa que talvez no início não acreditasse ser possível: somos muito mais fortes do que pensamos.
Eu achava que não ia conseguir. Houve momentos em que não sabia como iria levantar-me no dia seguinte, como iria continuar a cuidar da minha família, como iria voltar a sorrir, como seria possível viver num mundo onde a minha filha não estava. E, mesmo sem saber como, fui conseguindo. Um dia de cada vez. Às vezes uma hora de cada vez.
Não significa que tenha deixado de doer. Não significa que aceitei ou que esqueci. Significa apenas que aprendi que podemos carregar uma dor enorme dentro de nós e, ainda assim, continuar a amar, continuar a viver e continuar a caminhar.


Por isso, se estás a ler a minha história porque também perdeste o teu bebé, quero que saibas que não estás sozinho. Não precisas de ser forte todos os dias. Não precisas de fingir que está tudo bem. Chora quando precisares, fala do teu bebé quando quiseres, guarda as fotografias, diz o nome dele ou dela. Não existe uma maneira certa de viver o luto.
E, mesmo que agora não consigas imaginar, um dia vais perceber que conseguiste chegar mais longe do que alguma vez pensaste.
Eu ainda estou a aprender.
Ainda tenho dias muito difíceis.
Ainda tenho saudades da minha Beni todos os dias.
Mas estou aqui.
E continuo a ser mãe dela
Continuo a amar a minha filha.
E continuo a levar a minha Benedita comigo, todos os dias, no lugar onde ela estará para sempre: dentro do meu coração.

A minha Beni. A minha princesa. A minha filha.

🕊️

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Xavier

Iniciei o meu papel de mãe em 2017, com o nascimento do Dinis, uma gravidez que correu dentro do “normal”. E assim pensava que era sempre, até descobrir que as coisas podem correr de outra forma.

Passados uns aninhos, surgiu a vontade de ser mãe novamente e, depois de deixarmos passar primeiro a “crise da COVID”, começaram as tentativas. Fiquei grávida novamente em 2023. Infelizmente, esse sonho desvaneceu rapidamente, pois a gravidez acabou num aborto espontâneo perto das 9 semanas. “Lamento, mas não ouvimos o coração do bebé…” Fiquei sem chão e descobri que é uma coisa bastante comum, só que ninguém fala nisso. Quando não há um bebé visível para a sociedade, a dor da mãe e a existência de uma vida são descartadas. 

Após ter “ultrapassado” de alguma forma esta perda, voltei a tentar engravidar e, em setembro de 2024 surge o Xavier.

Uma gravidez ansiada por todos cá em casa, um novo membro na família, um irmão mais novo! A gravidez vai avançando, com medo, ansiedade e muita alegria à mistura. O partilhar da novidade no tempo certo, pois os médicos aconselharam a que deixássemos passar os “3 meses”, dado o histórico anterior. Que alegria e entusiasmo quando o mano recebeu a notícia! Não podíamos estar mais felizes! Apesar de um grande susto, resultado de um ligeiro descolamento de placenta perto das 12 semanas.

O Natal passou, já se faziam planos, o Ano Novo e os nossos desejos… e chegara a altura da ecografia morfológica, um dia que jamais vou esquecer: 15 de janeiro de 2025.

Estamos na sala de ecografia, eu, o pai e o médico. No decorrer da ecografia começam a surgir perguntas: se já tínhamos algum filho, se tinha corrido tudo bem e a cara muito séria e concentrada do médico, que nos diz “não tenho boas notícias para vos dar…” “o vosso bebé tem uma hérnia”. O quê? Não, isto não é verdade, estou a ter um pesadelo… agarrei na mão do pai e não ouvi mais nada. Gelei e aquela parede branca com um relógio que tinha à minha frente, parecia afunilar e a sensação que caía num buraco sem fundo. Uma Hérnia Diafragmática Congénita, foi o diagnóstico dado. Ficámos em choque, não tive reação, só queria sair dali ou acordar e ver que era tudo mentira.

Eu e o pai mantivemo-nos “firmes” até passarmos as portas do hospital. Desabámos ali, os dois abraçados e incrédulos com o que se estava a passar. Ficámos horas no carro a interiorizar toda a informação, sem conseguirmos falar e comer sequer.

Decidimos, a conselho também do médico que nos fez a ecografia, procurar outras opiniões e pesquisar sobre o diagnóstico.

Fomos falar com o médico de família, ainda no próprio dia que nos colocou mais a par do que era este tipo de diagnóstico, ou pelo menos prestei mais atenção. Disse-nos que estávamos bem entregues ao médico do hospital mas que teríamos toda a validade para procurar outras opiniões e ele aconselhou-nos um obstetra bem referenciado da nossa zona de residência.

Recorremos a esse médico no dia seguinte, deixámos a ecografia para ele analisar e, no mesmo dia telefonou-nos a dar feedback. Já tinha falado com o médico que nos tinha feito a ecografia e tinham trocado opiniões e, possivelmente iriam reencaminhar para outro hospital/ maternidade.

Seguiram-se exames mais específicos, um deles mais prioritário, a amniocentese. Nunca um exame me doeu tanto como este, para além da dor física, tinha a dor emocional. Estava sozinha na sala com os médicos, pois não deixaram entrar o pai. Chorei muito, tive alguém da equipa médica que me deu a mão e me acarinhou a cabeça dando-me algum alento. Acabei por ser seguida na MAC, com uma equipa que me seguiu até ao fim. Foram-nos apresentados todos os cenários hipotéticos, deram-nos a conhecer a equipa e todas as etapas pelas quais o Xavier iria passar, desde a obstetra, neonatologista, cirurgião, pois ele teria de ser operado após o nascimento, assim que estabilizasse.

Como havia dois tipos de resultados a sair da amniocentese e, um deles, demorou mais tempo, foi colocada a hipótese de interromper a gravidez e, para isso, tinha de assinar um papel em como autorizava a fazê-lo depois das 24 semanas, pois estávamos a chegar a esse prazo. Recusei. Se houvesse algo a acontecer, não seria por minha decisão, pois senti que poderia estar a “assinar uma sentença”; apesar de tudo, a taxa de sucesso era de 64% e tínhamos de nos agarrar a isso. Mais exames, eletrocardiogramas fetais, ressonância, tudo o resto estava bem, ele estava a desenvolver e a crescer no ritmo normal.

Era perfeito o meu filho! Tão lindo e tão frágil (…) senti o seu peso, o seu cheiro, toquei-lhe as mãos, a cara, a cabeça, os pés… não era visível nenhuma imperfeição.

Os meses passaram e rapidamente chegámos a maio. Fui internada para indução no dia 27. O parto teria de ser induzido, pois a equipa médica tinha de estar pronta a recebê-lo, devido ao diagnóstico. O processo iniciou ao final do dia, vieram as contrações, a dilatação avançava devagar, tinha duche e bola à disposição. Apesar de alguma ansiedade, tinha fé. Dia 28, o processo seguia bem mas, como o meu cansaço era evidente ao final do dia, acharam por bem retirar-me a ocitocina nessa noite para que pudesse descansar. Retomaríamos na manhã do dia 29, não podiam correr o risco de a equipa estar cansada para receber o Xavier, que como me foi dito pelo médico que me seguia “quero os médicos frescos e bem acordados”.

Dia 29, apesar da reintrodução da ocitocina, o processo não avançou tão rapidamente quanto o desejado e acabámos por ir para cesariana, ele tinha de nascer durante o dia. Estava acordada, “senti” tudo, até quando o tiraram da barriga; a médica disse-me “Já nasceu!” eram 18h17. Não houve contacto, pois ele tinha de ser imediatamente entubado e levado para a Neo. Vou recordar-me deste dia para sempre. O pai conheceu-o primeiro que eu, no corredor, quando estava a ser levado.

Só o consegui ver no dia seguinte. Era perfeito o meu filho! Tão lindo e tão frágil. E eu, impotente perante aquele cenário impressionável, uma incubadora num gabinete cheio de máquinas, monitores, apitos…

No final do dia 30, após análise e examinação da médica obstetra, o meu bebé foi transferido o hospital onde iria ser sujeito à delicada cirurgia, pois havia estabilizado. Ficámos felizes e de novo a esperança surgia.

Mas… na manhã do dia 31 recebi uma chamada que ninguém quer receber. A médica, do outro lado do telefone, pedia para falar com os pais do Xavier, ou na impossibilidade de serem os dois, que fosse o pai. Aí perdi a esperança e fiquei com um nó no peito, toda eu tremia. O tipo de discurso da médica aliado ao coração de mãe não enganam.

Liguei ao pai e pedi que me fosse buscar porque, já que estava a recuperar bem e tendo em conta toda situação foi-me concedida a alta. 

Chegámos ao hospital, onde nos receberam muito bem mas, deram-nos a notícia que mais temíamos… o Xavier não tinha passado bem a noite e começou a dar sinais de vulnerabilidade e, apesar de todos os esforços médicos feitos para o manter vivo, o seu coração deixou de responder e partiu às 10h10 deste fatídico dia. Foi-nos permitido fazer a despedida. Uma despedida que era ao mesmo tempo uma apresentação, pois foi a primeira e última vez que o peguei no colo, senti o seu peso, o seu cheiro, toquei-lhe as mãos, a cara, a cabeça, os pés… não era visível nenhuma imperfeição. Não tinha visto ainda a cor dos seus olhos e, com ajuda da enfermeira, que ficou ao nosso lado a pedido, descobrimos que eram azuis.

A vida rasteirou-nos, abriu-nos um buraco no chão e no peito para sempre. Sentimo-nos perdidos e sem rumo, completamento impotentes. Nesse dia, só me preocupava a forma como iria dizer ao mano que o Xavier não iria para casa. Nunca escondemos nada do mano mais velho, pois queríamos que ele soubesse sempre o que se passava. Também lhe foi permitido despedir-se do mano, ainda que noutro contexto, tendo sempre em conta a sua vontade. Ele fala muito nele e quero que assim continue.

A ausência, a saudade doem, uns dias mais que outros, mas seguimos honrando a sua breve existência.

Hoje, passado um ano, ainda estamos a aprender a viver com a sua ausência, mas fazemos questão de o lembrar enquanto cá estivermos e de mantermos viva a sua memória.

Amamos-te para sempre,

O papá, a mamã e o mano.

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

Em abril de 2024 (ao fim de 3 anos) numa consulta de rotina de ginecologia, descobri finalmente que estava grávida. Ficamos muito felizes, mas ao mesmo tempo com aquele pânico inicial de primeira gravidez. 

Fiz as análises ao sangue, rastreio bioquímico, ecografia do primeiro trimestre e consultas de rotina e sempre tudo ok.

Na ecografia do segundo trimestre (22 semanas) a médica esteve muito tempo a observar sem nos dizer nada. Só ao fim de um tempo me perguntou se podia ver o resultado do rastreio bioquímico.

Nessa ecografia foi detetado que a nossa bebé, a Diana, tinha o osso do nariz mais pequeno que as medições normais, um defeito no intestino e só era detetada 1 artéria no coração. Disse-nos que eram tudo sintomas de trissomia 21.

Tratou logo das coisas e encaminhou-me para a Bissaya Barreto para fazer a amniocentese, e uma ecografia com um cardiologista direcionado ao coração da bebé. No dia que fiz a ecografia ao coração da bebé foi no dia em que nos disseram que a trissomia 21 estava confirmada, que os problemas no coração eram muito graves e tinha também um problema no cérebro e que tínhamos de decidir naquele momento se queríamos seguir com a gravidez ou não. 

Já tínhamos conversado só os dois antes de termos os resultados de todos os exames e tínhamos os 2 a mesma opinião: sempre estivemos de acordo e, apesar de ter sido a decisão mais difícil que já tomamos em toda a nossa vida, sabíamos que seria a decisão mais acertada a tomar.

Com 24s 6d provocaram-me a interrupção da gravidez, um parto normal.

No hospital eu estive sempre muito tranquila, o pior foi quando cheguei a casa, só chorava. Foi terrível. 

Este processo foi todo em agosto de 2024. Disseram-nos para esperar pelo menos 4 meses para voltar a engravidar. Em fevereiro, novo positivo. 6 semanas de gestação tive um sangramento no trabalho. Fui logo à minha médica onde viu que o feto já não tinha batimentos cardíacos. Aconselhou-nos a deixar passar pelo menos 1 menstruação para voltarmos a tentar. 

Nunca desistimos e em maio de 2025 um novo positivo. 

A gravidez foi toda super tranquila, o meu psicológico é que não estava nada tranquilo.

Às 10 semanas de gestação fiquei logo de baixa por gravidez de risco devido ao que tinha acontecido na segunda gravidez.

Fiz o NIPT; foi 1 semana e meia de muita ansiedade à espera do resultado. Estava tudo normal, ecografia do primeiro trimestre também tudo ok. Muitos nervos no dia da ecografia do segundo trimestre, mas estava tudo bem e esteve sempre tudo bem até ao fim da gravidez. 

A Diana terá sempre um lugar no nosso coração e será sempre falada à Clara.

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

Partilhar porque nos ajuda neste caminho de encontro da paz com a nossa história mas, acima de tudo, por todas as pessoas que neste momento passam por situações semelhantes – não estão e nunca estarão sozinhas. Este tem sido o nosso lema na partilha da nossa história com amigos, com amigos de amigos e muitas vezes até com pessoas desconhecidas que se vão cruzando no nosso caminho e a quem achamos que contar pode fazer a diferença.

Durante três anos e em quatro ocasiões diferentes visitámos a Lindo Wing em Londres para ver o nosso bebé e acabávamos sempre por ouvir “Lamentamos mas já não detectamos batimentos cardíacos”. Palavras que se tornavam tão recorrentes como assustadoras, e que cada vez nos afastavam mais daquilo que mais queríamos – ter o nosso bebé nos braços.

Com os quatros bebés que perdemos – entre as 8 e as 11 semanas – tivemos o privilégio de lhes ouvir sempre o coração e sabemos que (pelo menos) dois deles eram meninas (graças à indicação médica de testar os embriões que foram retirados no bloco – o que infelizmente não aconteceu nos dois primeiros). Infelizmente, durante todo este processo ouvimos algumas vezes “acontece, têm que tentar outra vez” – até hoje não consigo aceitar que um profissional de saúde seja capaz de colocar as coisas desta forma tão fria para quem está a sofrer tanto fisica e emocionalmente. Li muito, pesquisei muito e tentei muitos procedimentos (muitos deles mais alternativos e até invasivos) que em nada adiantaram mas que me foram dando a sensação de mover em frente. E às vezes era só isto que queríamos ter, a sensação de que estávamos a fazer alguma coisa diferente em cada uma das vezes.

Felizmente também tivemos o apoio de profissionais de excelência que nos trouxeram de volta para o caminho certo da investigação.

Ao Dr Raj Rai e ao Prof Pedro Xavier estaremos para sempre gratos pela sua disponibilidade, dedicação e empatia pela nossa causa. Nunca ouvimos uma palavra de dúvida sobre se iríamos conseguir, pelo contrário , o que ouvíamos eram planos de ação concretos que nos davam novamente alento nesta longa jornada. Sem nunca termos chegado a nenhum diagnóstico concreto, fomos encaminhados para FIV com indicação para testarmos os embriões antes da implantação dos embriões. Numa segunda tentativa estava novamente grávida pela quinta vez. Chegar às 12 semanas pareceu uma autêntica maratona e chegar às 40semanas foi muitas vezes um sufoco de ansiedade. Com o apoio de (bastante) medicação, com apoio psicológico e com uma rede de apoio incrível, o meu primeiro filho nasceu a 25 de Julho de 2023 – 3 anos e 3 meses depois de termos recebido a primeira má notícia que iria mudar a nossa vida para sempre. Lembro-me de dizer à minha mãe depois do primeiro aborto – “podemos nem estar a meio desta caminhada e temos que nos preparar para esse cenário”. Esta frase acompanhou-me durante o processo todo e ajudou-me a gerir as minhas próprias expectativas.

Hoje escrevo-vos grávida do meu segundo filho e com lágrimas nos olhos pela família bonita que fomos construindo ao longo destes anos e da qual nunca foi opção desistir. Hoje olho para o Dinis Maria e vejo toda a caminhada feita até o recebermos, as dores físicas, os procedimentos realizados, as horas em clínicas e hospitais, as noites sem dormir, o sofrimento muitas vezes apenas vivido a dois e na maior parte das vezes em silêncio.

Hoje, olho para o meu marido e lembro-me sempre que “no fim das contas é a parceria que vai fazer a diferença”. Nunca me falhou, nunca me faltou.

Esta é uma história dificil com um final feliz mas sabemos que nem sempre é assim. Perdas gestacionais nem sempre acabam com um bebé nos braços, nem sempre sabemos o que as outras pessoas estão a passar por isso a palavra empatia tem estado desde então muito presente na nossa vida.

A todas as pessoas que estão neste momento a passar por um processo semelhante, que possam ver nestes testemunhos a luz que muitas vezes teima em não aparecer. Não estão sozinhas.

Rita

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Testemunhos Testemunhos Perda Tardia

O Martim foi o sonho mais bonito que o meu coração já sonhou.

Quando descobri que ele existia, tudo mudou. O mundo ficou mais leve, o ar mais doce, e o meu coração começou a bater num novo ritmo — o dele. O Martim foi o amor mais puro e verdadeiro que alguma vez senti.

Durante as 21 semanas mais bonitas da minha vida, vivi entre sonhos, planos e promessas. Falava com ele todos os dias, imaginava o seu rostinho, o seu cheirinho, o som da sua voz. Cada pontapé era uma conversa, cada ecografia uma esperança, cada batimento uma prova de amor. Mesmo antes de o ver, o Martim já era tudo para mim.

Mas enquanto eu vivia esse amor imenso, o pai do Martim nunca mostrou o cuidado, o carinho ou a presença que o nosso filho merecia. E a família dele também escolheu o silêncio — um silêncio que magoava mais do que qualquer palavra. Faltou-lhes amor, faltou-lhes empatia. E no meio de tudo isso, sobrava-me a solidão.

Mesmo assim, amei por todos.

Falei com o Martim, cantei-lhe, contei-lhe segredos, prometi-lhe um mundo cheio de amor. Quis que ele sentisse, dentro de mim, tudo o que cá fora lhe faltava. E sei que sentiu. Porque havia uma ligação entre nós que nem o tempo, nem a distância, nem a morte podem quebrar.

Quando chegou o momento da despedida, o mundo desabou. O chão desapareceu, e o silêncio tomou conta de tudo. Nenhuma mãe está preparada para dizer adeus ao seu filho, muito menos quando o amor ainda estava a começar. A dor é impossível de descrever — é um vazio que se instala no peito e nunca mais nos deixa ser as mesmas.

Mas o Martim ensinou-me o verdadeiro significado do amor eterno.

Mesmo sem o poder ver crescer, ele continua comigo todos os dias. Vive nas minhas lembranças, nas minhas lágrimas, nas pequenas coisas que me fazem parar e olhar para o céu.

O Martim foi o maior presente que a vida me deu, e também a maior saudade que alguma vez vou carregar.

Ele é o meu anjo, o meu orgulho, o meu pedaço de céu.

O meu filho não ficou nos meus braços, mas ficou para sempre no mais bonito lugar que existe: dentro de mim, para sempre. 

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Ajuda prática Perda gestacional

Este artigo é especialmente dedicado a muitas mamãs que não tiveram oportunidade de criar muitas memórias com os seus bebés que, infelizmente, partiram cedo demais.

Mas também para mamãs que queiram acrescentar mais detalhes importantes nas suas caixas de memória.

Se souber o peso e/ou altura do seu bebé, poderá, por exemplo, colocar um pequeno objeto de igual peso/comprimento na caixinha. De certa forma, representará o que o seu bebé media e pesava.

Esta memória e ação é muito importante para quem também não pôde/conseguiu segurar no colo ou ver – e está tudo bem se foi como aconteceu porque são decisões muito pessoais e de sobrevivência.

Pode colocar um pedacinho de cordel ou de corda ou um fio ou fita que gostar e de uma cor que associe ao seu bebé e colocar lá: exatamente com o tamanho com que ele(a) nasceu.

Se não souber ou conseguir saber a medida do seu bebé, pode procurar a altura média por semanas.

Seja como for, pegue numa fita métrica, meça e corte uma fita ou fio bonito, de uma cor que goste ou que associe ao seu bebé e corte na medida dele(a). Pode deixá-la tal e qual na caixinha ou pode colocá-la num saquinho fofinho ou decorá-la a seu gosto, por exemplo, fazer um desenho ou colocar o nome dele(a).

Pode colocar algodão ou outro material numa caixinha pequena ou num saquinho com o peso que ele(a) tinha.

Outra sugestão é colocar uma moldura com as ecografias que tenha. Pode também guardar o livro de grávida, que é a história do seu bebé.

Música, construções, desenhos e família

Tinha uma música que costumava cantar quando o seu bebé estava na sua barriga? Alguma música especial? Pode adicionar à caixinha a letra da música, por exemplo. Pode imprimir a letra, os acordes, a partitura, o que quiser, colocar num papel decorado por si, enrolar e amarrar com uma fita bonita!

Se tiver filhos mais velhos, pode incluí-los na construção da caixinha com um desenho ou pintura que tenham feitam em homenagem ao mano/mana.

Pode também colocar as primeiras roupinhas do seu bebé, miminhos que lhe tenham oferecido ou até mesmo um gorrinho ou um miminho feito por si, mesmo que tenha sido depois dele nascer.

Já tem a sua caixa de memória e tem outras sugestões que gostaria de partilhar com outras mamãs?

Escreva-nos para: amorparaalemdalua@gmail.com

Teremos o maior gosto em incluí-las neste artigo.

Esperamos que estas ideias, inspiradas em publicações da Associação A contracor e na nossa experiência, vos possam ajudar!

Um abraço apertado!

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Testemunhos Testemunhos Perda Precoce

É com um coração ainda pesado que partilho a minha história. No espaço de 6 meses passei por duas perdas gestacionais às 5 semanas. Já sou mãe de um menino maravilhoso que também só chegou depois de uma espera de mais de um ano. Por já ser mãe, sinto que talvez esteja a pedir demasiado ao universo. 

Mais do que trazer o palavreado médico que já está demasiado presente nas minhas conversas hoje em dia, gostava de falar sobre um pouco do que vai na minha cabeça e coração, que tão rapidamente tenho censurado. 

Começo pelo medo: esse bicho papão que intimida os meus dias. Medo de voltar a passar pelo mesmo. Medo do contra-relógio que são os meses a passar e a idade a pesar. Medo de perder aquilo que tenho de mais precioso, depois de tantas derrotas seguidas. 

Depois vem o ressentimento: por todas as pessoas que podem experienciar uma gravidez com a inocência do “tudo vai correr bem”. Pelo meu marido, que parece não sofrer da mesma forma que eu. Por não conseguir lidar com todas as grávidas à minha volta, algo que me deixa culpada e, de certa forma, envergonhada.

Por fim, o luto: uma sombra sempre presente mas nunca reconhecida. Como podemos fazer o luto por algo que nunca tivemos nos braços? Por um coração que não cheguei a ouvir? Como fazer o luto sem perder a vontade de seguir em frente? Sou grata pela vida que tenho, mas desde que vi aqueles dois positivos nos testes de gravidez, a sensação de incompletude é constante. 

Espero um dia conseguir aumentar a minha família, dar um irmão ou irmã ao meu menino maravilha que já cá está. Espero um dia voltar a sentir pontapés e soluços na minha barriga. Enviar fotografias de ecografias à minha família. Se essa felicidade nunca chegar, espero conseguir fazer as pazes com o que a vida me reservou. 

Um abraço apertado a todas as pessoas que possam ler estas palavras e, de alguma forma, rever-se nelas. Não estão sozinhas. 

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Testemunhos Testemunhos Perda Neonatal Testemunhos Perda Precoce

Existe um tempo e uma forma para contar cada história. E eu sinto que chegou a altura de contar a minha. Mas vou começar pelo fim. Um fim que é um início.

O meu filho Rodrigo nasceu a 17 de janeiro deste ano. Saudável. Perfeito. A berrar a plenos pulmões mal o obstetra o ergueu sobre o pano verde que ocultava o cenário de uma cesariana mais do que programada. Quando o levaram para fora do alcance da minha vista e o conforto de algum par de mãos lhe calou o choro, eu sabia que ele continuava algures naquela sala, por isso pedi-lhe alto: “Chora filho! Chora para a tua mãe ouvir!”. Mas que tipo de mãe quer ouvir um filho chorar? É simples. Uma mãe que já deu à luz antes mas nunca chegou a ouvir o choro do seu bebé. O choro. Esse sopro divino que anuncia o milagre da vida.

Em março de 2022 descobri que estava grávida pela primeira vez. E foi uma gravidez perfeita. Logo eu, que nunca pintei a maternidade de cor de rosa e estive sempre consciente sobre todos os desafios que nas diversas fases da gestação poderiam surgir. Sem enjoos, noites mal dormidas ou desconfortos maiores, eu agradecia diariamente aos céus pela plenitude física com que tinha sido brindada. Semana após semana, senti-me cada vez mais confiante sobre aquela vida que eu guardava no meu ventre e que cada ecografia confirmava: Era uma bebé saudável.

E às 40 semanas a Laura decidiu nascer. Observada pelo médico, constatou-se o que eu já calculava: ia demorar. Assim, fui instalada numa pequena ala com outras mulheres e respectivos companheiros. Deitada, sempre com o meu marido ao lado, de tão tranquila e confortável chegava a dormitar, mas depressa era acordada pelos gemidos de dor daquelas mulheres que embora eu não visse através das cortinas, ouvia muito atentamente, indagando-me quando seria eu. Nunca fui. A determinada altura uma enfermeira perguntou-me se precisava tomar algo para as dores. Estranhei a pergunta. Respondi-lhe que não tinha qualquer dor e ela estranhou a resposta. “Mas já tem contrações fortes mamã”, respondeu-me. Nesse momento senti de imediato que algo estava errado.

A enfermeira regressou à sala de monitorização e confirmou o registo das contrações que eu nunca senti. Voltou com uma médica e no momento em que eu me posicionava para ser examinada detectamos uma grave hemorragia. Silenciosa. Indolor. Vieram mais médicos e a minha calma escalou a pânico. Em menos de 10 minutos estava no bloco operatório para uma cesariana de emergência com anestesia geral. Contei pelo menos 8 pessoas a manobrar todo o meu corpo em simultâneo, a uma velocidade tão rápida que o meu raciocínio já não acompanhava. Perguntaram-me o meu peso. Só pela terceira vez fui capaz de responder. De seguida, disseram-me que ia adormecer. E a última coisa que eu pensei foi que já não acordava. Mas que pelo menos a minha filha pudesse viver.

Quando abri os olhos, ainda muito entorpecida pela anestesia, procurei-a ao meu lado. Não havia nenhum bebé. Era óbvio que as coisas não tinham corrido bem e provavelmente ela estaria em neonatologia – foi a minha conclusão de segundos. Identifiquei a imagem do meu marido e de 4 profissionais de saúde, entre eles a médica que me acompanhou até ao bloco cirúrgico. À medida que os seus rostos ficavam nítidos eu notava um semblante cada vez mais pesado. Perguntei pela minha bebé e vi o rosto da médica fechar-se ainda mais. Não tive resposta. O relógio de parede ao fundo marcava 12:20h. Perguntei novamente. E ela começou por dizer, a custo, que as coisas não tinham corrido bem.

Ainda hoje não me recordo do resto dessa conversa. A psicologia explica que devido ao choque da notícia o meu cérebro simplesmente apagou esse momento. Então foi durante os dias seguintes que passei internada na maternidade, entre transfusões de sangue, desmaios e novas conversas sobre o efeito de cada vez menos medicação, que fui tomando consciência clara e efetiva da minha dura realidade. A minha Laura, a minha bebé perfeita que crescia saudável no meu ventre, partiu momentos após nascer. E eu não tive sequer tempo de vê-la com vida, ouvir-lhe o choro, sentir-lhe o calor.

Perdi-a. E quando soube que a perdi, para além do tanto que morreu em mim, nasceu também um imenso grito de dor que eu não gritei. E durante semanas chorei sufocada por essa dor que me consumia, até que um dia os olhos doíam tanto que as lágrimas caiam e eu já não sentia. Hoje a dor ainda é dor, mas também é amor e inevitavelmente saudade. Saudade do que vivemos juntas enquanto o meu corpo lhe foi casa. Mas também saudade do que não vivemos e tantas vezes eu imaginei.

Largos meses depois tivemos as respostas médicas que necessitávamos. Há quem diga que quando nasce uma mãe nasce uma culpa. Mas quando nos morre um filho somos nós que perseguimos incessantemente A CULPA. Mesmo que os papéis digam que não tivemos culpa alguma, que ninguém teve culpa na verdade. Eu persegui A CULPA. Na falta de culpados com nome próprio, confesso que muitas vezes culpei em silêncio o meu corpo.

Precisamente um ano depois do nascimento da Laura, a 2 de novembro de 2023, eu estava na maternidade a fazer a primeira ecografia do meu segundo filho. Um verdadeiro presente dos céus. Tal como na primeira gravidez, descobri muito precocemente graças aos sinais que o meu corpo me dava, mas desta vez, curiosamente, preferia não ter sabido tão cedo. Embora feliz, preferia que o meu corpo fosse casa para este bebé, sem que a minha mente, sabendo disso, ficasse tolhida de medo e ansiedade. E foi precisamente assim que aconteceu.

Vivi os dias seguintes num estado de alerta permanente como quem, depois de experimentar a tragédia, espera uma nova a qualquer momento. Por isso, no decorrer da segunda ecografia, sem que o obstetra tivesse tempo de expressar uma única palavra, rapidamente captei a sua expressão desolada. Perguntei se estava tudo bem, com o tom de quem tem a certeza que não, mas quer desesperadamente estar enganada. Não estava enganada. Não havia batimentos. Desde as 8 semanas e 5 dias.

Depois do choque emocional, e da incredulidade de quem começava a erguer-se do chão e para lá foi novamente atirada com toda a força, o processo de abortamento provocado foi a coisa mais fisicamente devastadora que vivi em toda a minha vida. Depois de aguardar vários dias com este bebé sem vida no meu ventre, graças a um fim de semana prolongado de Dezembro em que a “Unidade de 1°Trimestre” não laborava, voltei à maternidade. Lembro-me da obstetra me perguntar se tinha percebido os procedimentos que me foram explicados, uma vez que parecia “tão perdida”. Perdida era a palavra certa. Completamente desconectada do tempo e do espaço porque efetivamente eu não estava ali. A única pergunta que fiz – “Vou sentir muita dor?”. “Qualquer aborto provoca dor” – foi a resposta. Iniciei a medicação abortiva e mandaram-me para casa.

Dor é uma crise renal ou uma cárie dentária. Dor é partir um braço ou torcer um pé. Aquilo que eu senti está para além do limiar da dor. Eu senti cada contração. Berrei. Contorci-me. Recolhi o feto para um frasco conforme me foi pedido. E senti mais contrações. E mais dor. Por muito pouco não perdi os sentidos enquanto deambulava pelo corredor de casa.
Aquilo que vivi nesse fim de dia e pela madrugada fora, e também nos dias seguintes, causou em mim uma tremenda revolta. Num misto de confusão e fragilidade culpei mais uma vez o meu corpo por falhar novamente na sua tarefa de gerar vida, mas sobretudo senti que tinha sido punida por essa falha com um castigo da idade média.

Semanas depois, a análise do feto permitiu-nos saber que não existia qualquer relação médica entre as duas perdas. E que era uma menina. Mais uma menina. Mais um sonho cor de rosa que não me deixaram pintar.

Durante meses ponderei se teria capacidade emocional de avançar para uma nova gravidez. Os relatórios médicos davam-nos algumas respostas mas nenhuma garantia. E em todas as consultas ouvíamos o mesmo: Qualquer gravidez implica risco e/ou possibilidade de perda. Mas quando já perdemos tanto, a possibilidade de perder de novo torna-se avassaladora. E quando já estava mais perto de desistir do que de tentar novamente, dei por mim a imaginar como seria a minha vida tendo desistido. E conclui que nada, mas absolutamente nada que pudesse fazer com a minha vida iria minimizar o vazio enorme que eu sentia. E aí entendi, que desistir não era opção.

E assim chegou o Rodrigo. Saudável. Perfeito. A berrar a plenos pulmões. Observo-o enquanto dorme e parece que ainda não acredito que está aqui.

Quando perdi a Laura, apanhada nesse duro golpe para o qual absolutamente nada nos prepara, eu percebi que não tinha outra alternativa senão sobreviver. Principalmente quando tomei consciência do sério risco que a minha própria vida correu na sequência das complicações decorrentes do parto. Eu ainda estava aqui. Embora me sentisse uma espécie de resto de qualquer coisa, em que a parte principal faltava, a verdade é que eu ainda estava aqui. E lembro-me de me focar nesse facto tão simples e ao mesmo tempo tão significativo: “Se eu ainda estou aqui, haverá uma razão. E se eu demorar muito tempo a descobrir qual é, talvez seja esse o segredo para me manter viva.” Hoje o meu segredo tem nome. Chama-se Rodrigo.

Existe um tempo e uma forma para contar cada história. Esta é a minha história. E tem um final feliz.

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Perda gestacional Testemunhos

As palavras que se seguem são do pai do Miguelito, a quem muito agradecemos a partilha do seu testemunho e a quem enviamos um enorme abraço. O Miguelito nasceu cedo demais no dia 13 de novembro de 2021 e deixou uma enorme saudade no coração dos seus pais.

De pai para pai…o que é possível fazer após a perda gestacional:

Não há forma certa de sentir ou viver o luto, mas é importante não julgar e estar ao lado da nossa esposa/mãe.

O sofrimento da perda é grande e, com o tempo, encontramos formas de seguir em frente sem esquecer o nosso filho.

Falar sobre o bebé, recordar todos os momentos que passamos “juntos” para manter a memória viva.

Procurar grupos de apoio (como o Amor para Além da Lua) para partilhar os seus sentimentos e não passar apenas esse papel para a mãe.

Honrar a memória do nosso bebé com pequenos gestos.

Que mesmo sem os nossos filhos nos braços, continuamos a ser pais, uma vez que o amor que sentimos por eles nunca desaparecerá.

Apoio recebido e que gostaria de ter recebido por parte da sociedade/família/hospital

 O que recebi:

  • Sociedade: Apoio dos grupos de apoio de pais que passaram pela mesma situação e os seus testemunhos.
  • Família: Apoio emocional sem pressões dos familiares mais chegados, que mesmo estando a sofrer com a perda, estiveram presentes para nos ajudar a ultrapassar o momento.
  • Hospital: Empatia e humildade da equipa médica que nos acompanhou no Hospital de São João, que nos colocaram num quarto da maternidade isolados, os gestos e sensibilidade que tiveram ao tratar do nosso filho e permitirem acompanhar todo o momento do parto.

O que gostaria:

Reconhecimento do luto paterno, com uma licença de luto para ter tempo para viver o luto no momento.

Muitas vezes, no meio do choque e da dor, não conseguimos pensar em criar memórias naquele momento, e depois, mais tarde, sentimos falta de algo para recordar. A criação das “caixas de memórias” com fotografias, pegadas, entre outros, podem fazer a diferença, e que os hospitais podiam ter algo mais preparado para esse efeito. 

O mais difícil de gerir enquanto pai/parceiro após a perda…

Sentir que a sociedade não valoriza/entende a dor da perda de um pai, que mesmo não estando com o bebé no nosso ventre, já o amamos incondicionalmente.

Ver o sofrimento da mãe/esposa e não conseguir aliviar essa dor.

O medo do futuro.

O que mais ajudou após a perda…

Ver os testemunhos de outros pais que também passaram pelo mesmo, perceber que não aconteceu só a nós.

O apoio dos grupos socais/reuniões como do Amor Para a Além da Lua, onde partilhamos as nossas histórias e o apoio entre nós.

O apoio da psicóloga do hospital de São João.

Ultrapassar este momento com a pessoa que eu amo.

Pai do Miguelito

Apoio aos pais

A todos os pais, saibam que não estão sozinhos!

Procurem ajuda, se precisarem.

Outros apoios para pais (instagram Pais maiores: homens em luto gestacional)

Se quiser, poderá também partilhar algumas palavras/testemunhos/conselhos, bastando para isso que nos envie e-mail: amorparaalemdalua@gmail.com

Estamos aqui!

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

A Lara foi uma bebé planeada, descoberta com 6 semanas, no meio de lágrimas de felicidade que espelhavam a concretização de um sonho dos pais. De médico em médico estava sempre tudo bem. Até ao dia em que deixou de estar.

Na ecografia morfológica das 22 semanas foi descoberto um problema cardíaco grave no coração da Lara. As chances eram praticamente nulas a seguir ao nascimento, era seguir com a gravidez até ao fim e esperar um milagre ou tomar uma decisão. 

A decisão foi tomada. Foi o maior ato de amor que podíamos ter tido para com ela. Foi também a decisão mais difícil das nossas vidas. Abdicar de um amor maior, abdicar de a ter nos braços para que ela pudesse ser livre. Houve mistura de culpa, de raiva, de porquês, de certezas e incertezas…

Foram 24 semanas de amor, de interação, uma bebé que se mexia muito e que reagia muito à voz do papá. 

Dia 10 de setembro de 2024, às 04:55h a Lara nasceu para ser livre, para não sofrer. Sofremos nós por ela enquanto pais que nasceram também naquele dia. Saímos da maternidade de colo vazio.

Continuamos a sofrer com a ausência dela, por tudo o que poderia ter sido e não foi, agarramo-nos a pequenos sinais que acreditamos que ela nos envia, lá do alto, onde acreditamos que ela brilha muito.