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Trauma encapsulado: A importância de pedir ajuda

Estivemos à conversa com a psicóloga Ana Rita Silva, que, também, tal como nós, passou por uma perda gestacional. 

Numa conversa via zoom, abordámos vários temas, sobre os quais escreveremos um conjunto de artigos.

Perguntamos-lhe se lhe chegavam muitos casos de perda gestacional. Disse-nos que, em Portugal, ainda “há um enorme preconceito em relação à ajuda psicológica”. 

“Já acompanhei pessoas que tinham perdido um bebé há 30 anos e o trauma continuava tão vivo e tão presente como se tivesse sido no dia anterior. 

É quase como se aquela experiência ficasse encapsulada no tempo e, não interessa quanto tempo passa, mas é como se tivesse sido no dia anterior. Os gatilhos que fazem disparar as emoções são os mesmos e iguais, agora, ou daqui a 50 anos. É como se o trauma estivesse dentro de uma cápsula. 

É mesmo preciso abrir esta cápsula e trabalhar o que está lá dentro. Conseguimos manter experiências avassaladoras exatamente como elas são a vida inteira se for preciso.”

Apesar de se falar mais sobre a perda gestacional, a verdade é que ainda é um tema tabu, pouco compreendido e desvalorizado pela sociedade. 

“Uma das coisas mais difíceis na perda gestacional e neonatal é a solidão. É transversal e muito dolorosa”, explica. Enquanto noutro tipo de traumas e perdas, temos tendencialmente uma rede a apoiar-nos, porque são consideradas mais naturais e passíveis de acontecer, neste caso não temos porque é quase como se fosse algo contranatura, como se fosse alienígena. É uma solidão excruciante. Chegamos a um ponto de nos dizerem: “então, ainda estás a falar disto?” 

Estas atitudes são isoladoras e não ajudam quem está a passar por uma perda gestacional. Aliás, acabam por contribuir para este trauma. Como nos disse a psicóloga Ana Rita Silva, “a sociedade não ajuda nesse campo”. Não poderíamos estar mais de acordo. 

Nunca é tarde para pedir ajuda. É importante encontrar formas de falar e desabafar. Principalmente se o nosso objetivo é voltar a engravidar: “Se a pessoa tenciona ter mais filhos, há toda uma vivência que tem de ser resolvida para não arrastar o trauma para o presente. 

Hoje em dia, existem vários profissionais especializados no luto e ligados à perda gestacional que podem ajudar nesta caminhada de recuperação. Afinal, o trauma não pode estar sempre numa cápsula. 

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