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Márcia S.

Em dezembro de 2020, eu e o Papá tomámos a decisão de, em janeiro de 2021, procurarmos ajuda para conseguirmos o nosso tão desejado bebé que, durante 10 anos não tínhamos conseguido.

E a vida, em janeiro de 2021, acabou por nos presentear com uma bebé, quando nós mesmos já tínhamos perdido a esperança…estava grávida de 4 semanas.

Foi uma emoção tão grande! No meio de tantos negativos, aquele positivo foi um misto de sensações que não soubemos controlar.

Para que tudo corresse bem, procurámos as melhores clínicas de Portugal para realizar todos os exames, no qual todos estavam bem e a correr dentro da normalidade.

Dois dias após perder a minha avó (que era mais que minha mãe), realizei a primeira ecografia mais profunda onde se iria saber o sexo da bebé e ver se estava tudo OK. Foi impedida a entrada de acompanhantes.

Foi detetada uma translucência nucal muito elevada e a menina estava muito inchada, ao qual a médica me disse, sem problemas “A bebé não vai sobreviver, pode morrer a qualquer momento “…

Seguiu-se uma série de exames e ecografias, tal como a biópsia das vilosidades, que não detectou nada…a menina era, aparentemente, saudável.

Chegando às 21 semanas, nas últimas ecografias que realizei, a médica informou-me que a menina tinha uma hérnia diafragmática congénita, problemas cardíacos graves e estômago colapsado. O mais certo era a menina morrer ainda na barriga… mas, caso não acontecesse, acabaria por morrer numa das operações que iria ter que realizar à nascença.

Informaram-me que o melhor seria interromper a gravidez…Não quis acreditar que a vida me iria tirar o chão!

Tinha acabado de perder a minha avó e iria ter que acabar por perder a bebé que me deu força naquela partida tão dura.

A Benedita era a bebé mais desejada deste mundo. Tanto eu, como o Papá dela, a desejávamos com todo o nosso coração.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida

A Benedita já tinha o quartinho pronto e mais roupa que os Papás, que reviraram o mundo e percorreram em 6 meses mais médicos diferentes que em 6 gravidezes normais juntas.

A Benedita esteve 21 semanas e 3 dias dentro de mim. Permitiu-me ser mãe, realizou-me um sonho, mesmo tendo-me tornado mãe de colo vazio. A Benedita deixou-me senti-la durante horas, logo após as 17 semanas; não deixava dormir a Mamã e acalmava sempre que sentia o Papá.

Tinha o narizinho e os pés do Papá e adorava dormir toda enroladinha como a Mamã.

A vida é de facto injusta, e comigo tem sido avassaladora desde sempre. Quem diria que eu, que desde pequenina que sonhava com esta menina, iria ter que passar um processo destes tão doloroso. Eu, que me agarrei à esperança de que ela estivesse em crescimento e fosse apenas teimosa como a Mamã.

Tive que ter o acto de coragem mais difícil de toda a minha vida, por ela, para que não sofresse.

Passei pelo meu primeiro parto, sozinha, 4 dias num hospital, devido à pandemia “mais devastadora” do momento. Senti-a encostada às minhas pernas, grandinha e quentinha.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida.

O mais fácil é sempre dizer : “ És nova, terás outro! ” … A questão não está em ter outro, a questão está em ter sido uma bebé tão desejada durante anos.

Ninguém sabe, para além de mim e do Papá dela, o quão difícil foi aquele primeiro positivo, que nem sabíamos como reagir de tão felizes que estávamos.

O medo permanecerá sempre. E a saudade também.

E se há coisa que me faz sentir perto da minha filha, é estar abraçada ao Papá dela.

A Benedita será sempre o meu anjinho mais bonito do céu. Tudo acontece por uma razão…O meu arco-íris há-de chegar… Mas a Benedita fará sempre parte das conversas do dia-a-dia cá de casa! E será das maiores luzes na nossa vida, como o tem sido até agora, desde a sua partida para longe de nós!

Benedita, 06-05-2021 / 12h55

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Ana G

Soube que estava grávida do Gabriel já com 12 semanas.

Sentia-me mais cansada do que o normal, então resolvi fazer o teste de gravidez. E lá estava ele positivo…era nosso 4º bebé: temos 2 meninas e 1 menino, ficámos com 2 casais, o que o pai sempre disse que haveria de ter.

No dia 22 de novembro fiz a primeira eco. Tudo bem um bebé praticamente formado e muito mexido. Correu tudo normal até às 16 semanas, quando tive uma perda de sangue enorme. Pensava mesmo que já não tinha o bebé, mas não, ele era forte e aguentou. No entanto, a placenta tinha começado a descolar.

Vim para casa de repouso. Fiz uma ecografia no dia 2 de janeiro, na qual a médica me diz “está tudo bem mãe, não se preocupe”. Mas o meu coração não descansava, havia algo que não me deixava descansar. Até que, no dia 27 de janeiro, comecei com contrações, fomos logo deixar os irmãos  e seguimos para hospital.

Quando fui observada, vi logo que havia algo de complicado. O médico chamou logo outra médica para vir ver. A bolsa estava a sair com o bebé lá dentro. Foi-me dito que estava a entrar em trabalho de parto com 22 semanas. Nem tinha noção do que viria depois, só queria perceber se estava vivo. E estava, tinha batimentos cardíacos.

O Gabriel nasceu com 25cm e 480 gramas (…) um bebé perfeito, só faltava crescer

Fui para a sala de partos, chamaram o pai para perto de mim e disseram-me: “o médico já vos vem esclarecer e contar ao pai o que está a acontecer.”

As horas passaram e não apareceu ninguém… Até que as águas rebentaram. Fiz outra ecografia para percebem se o bebé tinha batimentos e sim, mais uma vez tinha.

Na minha inocência perguntei se ia ficar ali ou teria de ir para outro hospital… A resposta que me foi dada foi que era um bebé muito pequeno, mesmo que nasça com vida não iam fazer nada…se já estava mal naquele momento caiu o resto.

É o meu filho, aquela médica estava a falar do meu filho!

Voltei para a sala de parto onde ele nasceu às 02:45 do dia 28 de Janeiro.

Não sei dizer quanto tempo, se segundos, se minutos…se foram minutos não foram muitos, estava completamente desnorteada mas só ouvi a parteira a dizer que já não tinha batimentos.

Levaram-no para medir e pesar e, no fim, trouxeram-no enrolado num lençol branco…O Gabriel nasceu com 25cm e 480 gramas. Lindo, perfeito e nada vermelho; um bebé perfeito, só faltava crescer.

Esteve deitado ao meu lado, até me dizerem que tinham que o levar. As horas a seguir não foram nada fáceis, ainda passei pelo bloco operatório, a placenta tinha sido retida então foi fazer a limpeza.

Só pensava em sair dali ir para casa, para junto dos meus filhos. A mais velha fazia 9 anos no dia a seguir. Só não queria que se soubesse nada naquele momento.

Saí no dia 29 de janeiro com um termo de responsabilidade. Ela não podia saber que tinha perdido um irmão na véspera dos anos dela. Vim para casa e só lhe contamos uma semana depois…

Hoje todos nós temos um anjinho bo céu a olhar por nós.


O nosso Gabriel que nunca vai ser esquecido.

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Inês S.

Senti necessidade de escrever sobre a minha grande perda. Está quase a fazer 6 anos, e este ano está a ser difícil. Estou a relembrar-me de tudo, e parece que estou a viver tudo novamente. 

Estava grávida, tinha acabado de completar 18 anos há pouquinhos meses, estava tão feliz. Levantei-me calmamente, mas eufórica. 

Era só mais uma ecografia, (na realidade não era mais uma eco, era o dia em que ia descobrir o sexo do bebé) mas naquele dia não estava com aquele brilho nos olhos.  Parece que estava com algum pressentimento. “São coisas da tua cabeça” pensava eu.Depois de mais uma hora de espera, entrei no gabinete. Deitei-me na maca, o médico foi falando durante a eco. Apontado medidas, até que me diz “é um menino.”

O sorriso apoderou-se da minha face, até que de repente oiço um ” está tudo bem, mas temos de ir ao hospital ver aqui um problema”. Ao sair do gabinete, o obstetra disse à secretária para desmarcar as próximas ecos. Achei estranho, mas não desconfiei. O médico dirigiu-se comigo ao hospital (era à frente da clinica). Fez a minha ficha, e entrou para ir falar com um dos colegas de serviço.


Passados poucos minutos, que mais pareceram uma eternidade, chamaram-me. Deitei-me na maca.  O médico colocou gel na minha barriga, e começou a fazer a eco. O colega de serviço disse para o outro “É sem dúvida o que mais temias.” Eu sem perceber nada, sem respostas de nada! O “meu obstetra” sai, e entra com vários estagiários. 

Eu estava imóvel, com a cabeça cheia de perguntas, até que oiço “Veem como o diafragma não fechou? Os órgãos subiram”. Continuei a questionar, até que acabaram a eco. Vesti-me e sentei-me. Deram-me um copo de água. “O seu feto tem uma hérnia diafragmática. É grave, e tem de ir já para o Hospital da Estefânia, para ser vista por um cirurgião pediátrico e outro obstetra”. Aquelas palavras na minha cabeça não fizeram sentido. Não percebi o significado.

Desloquei-me ao Hospital D. Estefânia. Fui muito bem recebida, aconselharam a fazer uma amniocentese para se perceber o que se passava, se havia mais alguma anomalia e uma ressonância magnética. 
No fim da amniocentese, uma médica obstetra disse-me “Não vale a pena fazer repouso”. Foi nesse momento que percebi seriamente que algo não estava bem.

Esperei alguns minutos, e um cirurgião pediátrico veio falar comigo. Explicou-me a gravidade da situação, e que com base nos exames, só havia 10% de probabilidades do bebé sobreviver. Aquelas palavras doeram bastante. São palavras que nenhuma grávida quer ouvir. Pareciam que me estavam a tirar o meu filho. O bebé que eu sempre quis! Fui para casa, com a condição de voltar passados 2 dias com uma decisão tomada. 

No dia seguinte, comecei a perder líquido e com medo ser líquido amniótico desloquei-me ao Hospital. Expliquei ao médico que me atendeu o que se estava a passar, e ele confirmou com a eco a gravidade da situação, e disse que eu já não ia para casa. Fui internada por suspeita de rutura de bolsa. Foi uma noite tão difícil, lembro-me que estive a chorar até adormecer. Tomei a decisão de interromper a gravidez, tinha 23 semanas e uns dias. Foi-me explicado que seria preciso assinaturas de 3 médicos para ser legal interromper a gravidez. Esperei 4 dias, até terem as assinaturas. Comecei então o processo de interrupção. Deitei-me numa maca, enquanto um outro obstetra me fez uma eco, e disse-me ” esta injeção vai parar o coração do bebé.”

As lágrimas escorriam-me. Estava a perder o bebé que eu sonhei. O meu bebé! Não era o bebé de ninguém, era o meu bebé!

Passados uns terríveis minutos, o médico que me tinha dado a injeção voltou-se para duas estagiárias que estavam na sala e disse ” Sabem o que têm de pensar? É que este feto não tem viabilidade, mas naquela sala (apontado para o bloco de partos) estão ali vidas. Estão ali bebés para nascer.”

Fui para o quarto preparando-me para o inicio do processo. Foram-me colocados 3 comprimidos vaginais. Colocados á bruta. Passaram horas e horas, e sem sinais evidentes de parto. Mais 3 comprimidos vaginais. No dia seguinte, como não haviam sinais, foram colocados mais 3 comprimidos vaginais. E oxitocina na veia. Comecei a sentir dores, não sabia que seriam contrações. Toquei à campainha, expliquei a uma enfermeira que me disse que era mesmo assim, e que ainda ia demorar. Olhei ao relógio, eram 16:31h. Deixei de ver, não conseguia sentir. Estava péssima. Até que me deu uma dor tão forte, que só me deu tempo de agarrar à cama e apertar as barras de ferro. Fiz uma força enorme, força que eu nem sabia que tinha, e saiu. O meu bebé saiu dentro de mim. A enfermeira apareceu com os meus gritos, e disse-me muito nervosa “não te mexas que eu volto já” Tentei não me mexer. Entrou no quarto a enfermeira, e outra colega. Tinham na mão um balde amarelo e instrumentos médicos que eu nem sei o que eram. Fechei os olhos, e escolhi não ver. Hoje arrependo-me, arrependo-me de não ter visto o meu bebé! Foi assim que nasceu a minha estrelinha, o meu príncipe. 

Poucos minutos depois, entra no quarto o médico com um papel para eu assinar e explica-me que é melhor fazermos uma autópsia, e deu-me um grande abraço. Aquele abraço soube-me tão bem! Eu estava tão frágil, acabada de fazer 18 anos, sem conhecer nada da vida! e a perder o meu filho. Tive alta no dia seguinte, com uma frase do médico ” um raio não caí duas vezes no mesmo sitio”. Essa frase entrou-me na cabeça e ainda hoje me lembro. Foram tempos muito difíceis, chorei tanto. Sentia que tinha perdido uma metade de mim.

O meu Kévin nasceu às 16:46h do dia 26 de Junho de 2015, com 497g e 24 semanas. Com uma hérnia diafragmática esquerda e outros problemas confirmados pela autópsia.

Passaram quase 6 anos. Nesses 6 anos, tive duas princesas lindas e saudáveis, mas não vieram substituir o meu menino. E sei que um dia vou voltar a reencontrá-lo. Porque nunca foi um Adeus, foi sempre um Até Já! ❤

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Inês C.

Para aumentar a dor de já ter perdido o meu filho Rodrigo, com 4 anos de idade em Maio de 2015, depois de lutar durante 2 anos contra um cancro cerebral em fase terminal (AT/RT), descobrimos que estava grávida – era o nosso bebé arco-íris -, que se tornou, novamente, no nosso maior pesadelo em outubro de 2020.

Estava grávida de 26 semanas de gémeos, quando me disseram que um tinha sido absorvido pelo meu próprio corpo, e pelo irmão. O Lucas, a 18 de abril de 2020, fez o nosso mundo cair, mas estávamos felizes porque o Benjamim estava a crescer bem. Estava bem nas ecografias e via-se, nas ecografias, o nosso tão desejado menino a rir.

O parto estava planeado para outubro de 2020, mas como eu tenho endometriose, era uma gravidez de risco e tinha que ser mais vigiada. A obstetra dizia estar sempre tudo bem e nunca valorizou as minhas queixas com dores e perdas de sangue. A partir de setembro, quando ia quase todas as semanas ao hospital, apenas ligava o CTG e fazia ecografia e estava sempre tudo bem; mesmo quando eu deixei de sentir o meu Ben em inícios de outubro, estava sempre tudo bem.

Pude conhecer o meu filho, dar mimo e dar-lhe um beijinho de mãe.

No dia 15 de outubro de 2020, às 3 da manhã, senti uma dor enorme e estava a perder sangue. Eu sabia que não estava tudo bem e fui de emergência para o hospital. Cheguei lá de 39 semanas e disseram-me que já não havia batimentos cardíacos e que tinha fluido na minha barriga. Tinha de dar à luz de imediato, pois corria risco de vida e já não havia nada a fazer, pois o Benjamim já tinha partido.

Altura de Covid-19, pico alto da pandemia e aí sonhos destruídos. No dia seguinte voltámos a casa de coração cheio e colo vazio.

Pude conhecer o meu filho, dar mimo e dar-lhe um beijinho de mãe. O meu filho estava sereno, no sono eterno.

Não há maior dor que dar à luz um filho e não o ouvir chorar…Já lá vão 7 meses e a dor é a mesma.

Os meus anjinhos no céu.

A autópsia, obviamente, deu inconclusiva, mas sim, se a obstetra tivesse provocado o parto no dia 5 de outubro de 2020, quando eu lhe disse que não me sentia bem, o meu filho teria 7 meses.

A mamã e o papá amam-te daqui até ao céu.

Coração cheio, colo vazio.

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Perda tardia Testemunhos

Marta N.

Depois de 2 anos a tentar engravidar, e já em consultas de PMA (infertilidade), engravidei naturalmente. Soubemos em Novembro de 2020, estávamos mega felizes…

Tudo correu bem até à segunda ecografia, em que a médica me diz (devido à pandemia, estava sozinha) que o bebé tinha uma malformação muito grave…

Mandou entrar o meu marido, também lhe explicou o que passava, e marcou-nos consulta para uns dias mais tarde, onde iríamos decidir o que fazer. Disse-nos para até lá irmos pensando.

Ficamos completamente desnorteados, o mundo caiu-nos em cima.  Tínhamos em mãos a pior das decisões para tomar, tirar a vida ao nosso bebé, era um rapaz…depois da decisão, foram mais uns dias até fazer a interrupção, porque até nestas situações a burocracia impera, e esses só foram os piores dias da minha vida.

Era um bebé perfeito

Continuar a ter dentro de mim um bebé, que sabia ia ficar sem ele, um bebé com vida, que eu lhe ia tirar…

E no dia 14 de março de 2021, nasceu o nosso bebé sem vida, uma vida que fomos nós que decidimos terminar, mas que no fundo sabemos que foi o melhor.

Era um bebé perfeito (decidimos que o queríamos conhecer), não fosse ter “espinha bífida aberta”.

E no fim de tudo isto, fica uma dor enorme…. não há dia que não pense, não há dia que não me lembre, e tenho a certeza que será eternamente assim, porque não há maior dor, do que a de perder um filho…. 

Um beijinho do tamanho do mundo e um xi-coração apertado.

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Perda tardia Testemunhos

Vanessa

O meu nome é Vanessa tenho 31 anos e em 2020, no dia 20 de maio soube que estava grávida de 6 semanas.

Uma gravidez desejada, tudo super tranquilo até ao dia 19 de outubro já com 29 semanas…comecei a sentir umas picadas na barriga, um ligeiro corrimento com sangue; pensei logo que seria uma infeção urinária porque já tinha tido durante a gravidez.

Dirigi-me às urgências onde me foi dito que com o bebé estava tudo bem. Iríamos então fazer análises à urina e à urina acética (esta análise demoraria 2 dias até sair o resultado, até lá iria tomar progesterona. Assim foi. Fiz um CTG tudo normal.

O Afonso nasceu no dia 21 de Outubro às 23h45, um parto normal com uma equipa médica fantástica.

Dia 21 de outubro, mesmas dores mas mais fortes. Vou à consulta médica, só por precaução, quando a médica me diz “não há batimento cardíaco”… Nesse momento o mundo para, fico sem chão, sozinha no consultório.

Então a medica decide “vamos mudar de máquina pode ser uma avaria”… mas não era! O meu Afonso partiu e eu não consegui perceber quando ele deixou de se mexer. Já estava a entrar em trabalho de parto!

Na altura só pensei “e agora?!”. Lá fui para o hospital, nas urgências sozinha, só tive o meu namorado comigo às 17h30, dei entrada ao 12h30. Fui sujeita a todo o tipo de estudo_ amniocentese, análises, tudo!

O Afonso nasceu no dia 21 de outubro às 23h45, um parto normal com uma equipa médica fantástica. Não vi o meu filho porquem quando dei entrada no hospital, a médica disse-me “sente-se preparada para ver o seu filho, sabe que ele pode não ter uma aparência normal “… fiquei assustada e não vi. A médica disse isso porque o Afonso tinha a translucência da nuca um pouco elevada, mas fiz todos os exames e o meu bebé era normal.

Tenho alta no dia seguinte – se havia dia para saírem mães com ovinhos foi no dia que eu saí de colo vazio ainda em choque com o que nos aconteceu. Tinha tudo planeado, roupinhas e de repente a vida pregou-me uma partida.

Fizemos muitos exames morte inexplicada foi o resultado, e é isto que me dizem, sujeitei-me a tudo a nível de exames mas “a medicina ainda não está assim tão evoluída”.

Felizmente descobri o vosso blogue que tem sido uma grande ajuda a nível psicológico, porque sempre que vejo uma grávida, um bebé no ovinho pergunto-me quando será a minha vez.

E como fazemos tantos exames e ninguém vê que algo está errado com o bebé.

Espero que a minha história ajude quem também passou por uma perda.
Sou mãe de primeira viagem de um anjo que tenho a certeza me vai proteger 💙

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Sofia M.

Em janeiro de 2017 descobri que estava grávida! Sonhos, projetos, contar à família e aos amigos. Como sou uma pessoa super emocional e que sempre viveu intensamente o bom e o mau, estava para lá de feliz!

Passado duas semanas tive a minha primeira perda com apenas 6 semanas – uma gravidez molar. Senti um vazio como nunca poderia imaginar. Ia duas vezes por semana ao hospital para tirar sangue e ia a um médico ginecologista oncológico só para me dizer que o meu BetaHCG estava a descer.

Processo muito doloroso psicologicamente e que demorei muito para reagir, pois rodear-me de grávidas duas vezes por semana não é propriamente o que esperamos depois de passar por uma perda.

Despedi-me do meu trabalho, parei para respirar e passar pelo meu próprio processo à minha maneira, pois acredito que cada um tem o seu tempo e devemos respeitar.

Após um ano, a segunda perda ocorreu às 8 semanas. Pensava que nunca conseguiria parar de chorar, de lamentar e de perder a energia negativa e revolta que tinha com a vida.

Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Decidi um dia recorrer ao life coach que me deu ferramentas e um novo olhar para a vida – cuidar e gostar mais de mim, pensar menos no que os outros dizem e olhar para o quão forte fui durante a vida toda e o que consegui. Neste processo, tive de lidar com a depressão do meu marido e não foi fácil, mas nada é impossível…Muita resiliência, muito acreditar e muita força.  

Em janeiro de 2021 finalmente teste positivo – decidimos não contar a ninguém e viver numa bolha de amor, meditação e tranquilidade durante uma semana. Novo sangramento, nova perda.

Quando passas três vezes por isto, já vês as coisas de forma diferente mas sentes sempre o vazio. 
Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Hoje já estamos em estudos genéticos a tentar encontrar respostas para as nossas perdas e continuamos a acreditar que um dia, quando tiver de ser, a vida nos vai trazer este amor fora do coração, como tantas mães descrevem.
Cair… respirar… recomeçar… amar… acreditar…


Com amor para todas, 
Sofia

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Tatiana

Soube que estava grávida em Março, uma gravidez desejada e planeada, análises pré-natal feitas, apoio na nutricionista.

Marquei de imediato consulta obstetrícia e estava tudo bem. Às 8 semanas, lá fui eu para consulta de rotina, mas… Infelizmente o bebé não tinha batimentos cardíacos. Vi logo que algo não estava bem, o silêncio, o semblante da médica.
A equipa médica foi muito querida, explicaram tudo, talvez porque a médica já tinha passado pelo mesmo, ou, espero, porque as coisas estão a mudar.
Tinha um Aborto retido.

O pai não pôde entrar, ficou no carro e também ele foi apanhado de surpresa. Também ele tinha dúvidas que eu, por ser profissional de saúde, a custo fui explicando. Mas e quem não sabe? Quem não é da área? Senti um vazio tão grande…

(…) ajudaram -me com palavras que pareciam abraços.

Mas voltando ao aborto retido, optámos por esperar uma semana para ver se a expulsão acontecia naturalmente. Foi angustiante. Psicologicamente muito difícil. Difícil expressar por palavras. O corpo não colaborou, tomei os comprimidos.

Disse à médica que sou caso raro pois não tive dores físicas, só hemorragias (físicas e psicológicas). Um processo doloroso psicologicamente. Algo que ninguém está preparado.

Agradeço o apoio do meu marido, pais e, acima de tudo, de amigas que tinham passado pelo mesmo e que me ajudaram com palavras que pareciam abraços.
Abraços que nesta fase de pandemia fizeram muita falta.

Sou aromaterapeuta certificada, trabalho maioritariamente com grávidas, recém-mamãs e bebés. E nunca tinha pensado neste lado da maternidade.

Os óleos essenciais ajudaram -me a descansar um pouco melhor a nível emocional foram um grande complemento, juntamente com apoio psicológico.
Não sei se foi o destino, mas a partir de agora estou também disposta a ajudar outras mulheres que passem pelo mesmo. Se puder ajudar de alguma forma estou disponível.

Um bem-haja e grata pela página que ajudará muitas famílias e mulheres ❤

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Márcia

Assim como tantas mulheres, o desejo de ser mais, é algo que se tenta alcançar. Mas nem sempre as coisas correm da melhor forma e as marcas ficam para sempre gravadas na memória.

Em 2011 engravidei e às 6 semanas o coração do bebé deixou de bater.

Foi então que comecei um processo difícil de abortamento, segue-se um internamento muito doloroso fisicamente e psicologicamente. Depois deste sofrimento nem queria ouvir falar em engravidar porque as dores físicas e psicológicas estavam, e estiveram, presentes durante muito tempo.

Até que, ano de 2016, decidi que seria altura de voltar a engravidar. Logo engravidei e claro muito feliz mas mais uma vez (com cerca de 5 semanas) voltou aconteceu o mesmo. Desta vez o processo foi menos doloroso, no entanto o psicológico ficava novamente afetado.

Mesmo sendo um “feijăozinho”, a dor da perda é igual independente do tempo de gestação.

Pois bem, no mês a seguir numa consulta pós-abortamento, recebi a notícia que estava novamente grávida (como era possível estar grávida logo depois de ter abortado) e fiquei muito apreensiva, mas logicamente fiquei muito feliz.

Deixei de trabalhar por recomendação médica. Estava tudo a correr na normalidade até que novamente às 9 semanas tudo acontece, ou seja, comecei um novo processo de abortamento.

Fui hospitalizada e, mais uma vez, sofri imenso. As dores físicas e psicológicas foram com uma dimensão que não se consegue explicar. Nunca tive nenhum tipo de acompanhamento médico do foro psicológico e os profissionais desta área reagem e falam para nós como se fosse mais uma a perder um feto. Sim, porque como estamos a falar de abortamentos no primeiro trimestre; é impensável dizer-se que se trata de um bebé.

Até hoje é uma mágoa que guardo e que nunca irei esquecer.

Mesmo sendo um “feijăozinho”, a dor da perda é igual independente do tempo de gestação.

Hoje tenho dois meninos lindos. O primeiro nasceu em 2018 e o segundo nasceu este ano de 2021. Agradeço muito ter dois meninos (lindos e saudáveis) mas nunca irei esquecer o que passei e das marcas psicológicas que estão bem vincadas num passado muito presente.

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Ivone

Cada filho uma missão

Chamo-me Ivone. Acabo de fazer 45 anos. Nasci no Porto e vivi perto de Famalicão até ao fim da minha adolescência. Fui para a faculdade no Porto. Dali, migrei para a Itália como assistente Língua e aqui conheci o meu marido. Pensávamos que eu não podia ter filhos.

Estávamos a tentar há três anos e meio, e nada. Depois; o atraso, a ameaça de aborto, o colo do útero mais curto do que o devido.

Às 32 semanas, nasceu o Samuel.

Vi o meu menino depois de quatro longos dias e trouxe-o para casa depois de vinte. Fiquei com um grande trauma pela prematuridade do meu filho.

Tentei ajudar outras mães como eu. Criei um grupo, e percebi que a prematuridade pode ser vista como uma forma de luto. Agora, o Samuel tem 13 anos. Está bem, é saudável, mas ainda tenho essa cicatriz.

Quando o Samuel tinha seis anos, tive uma gravidez completa. O Gabriele Pio nasceu às 41 semanas, depois de um trabalho de parto de sonho. Romperam-me as membranas e disseram-me para me deitar. Os batimentos cardíacos subiram para 200 e caíram imediatamente para 45. Fizeram-me imediatamente a cesariana e o meu menino ganhou um lugar no céu.

Sempre o incluí como membro da nossa família. Nunca evitei falar dele, de o contar entre os meus filhos, e muitas pessoas reagem mal a isso. Tenho cinco fotografias dele que, para mim, são preciosas. Estão na minha carteira, na minha secretária em casa, no meu telefone, num medalhão, e não escondo nenhuma dessas coisas. Para mim não seria natural escondê-las.

O Gabriele faz parte de mim e estará sempre comigo. 

Depois de três anos, nasceu-me a Íris. Nasceu há nove meses quase certinhos e felizmente consegui amamentar. Teve um bocadinho de icterícia mas essa a nós faz-nos cócegas depois de tudo o que passámos.

A Íris tem quatro anos e conhece muito bem o irmão Gabriele. Fala dele sem medo e isso para nós é muito importante. A gravidez dela foi muito difícil. Fiz cesariana programada, porque estava aterrorizada. Normalmente digo que ela é a minha fadinha, porque trouxe outra vez a magia para a minha vida.

Agora tenho 45 anos. Está para fazer 8 anos que o céu tem um pedaço imenso do meu coração. E ainda dói.

O Samuel mostrou-me o que é a prematuridade e quanto pode ser precioso SABER que há outras pessoas que passaram ou passam pelo mesmo. O Gabriele mostrou-me como se ama com um céu de distância. A Íris ajudou-me a sentir-me outra vez viva. A magia existe, e para mim chama-se Irís. 

❤️