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Catarina M.

Naquele dia o meu mundo parou e a minha luz deixou de brilhar… 

6 de dezembro de 2021. Não existem palavras que descrevam o tamanho da minha felicidade. Tantos meses de luta e finalmente a minha vida ganhou cor, tudo era belo, o dia, a noite, o sol, a chuva, a trovoada, nada me entristecia mais, havia uma vida dentro de mim, uma vida tão desejada e já tão amada. Finalmente iria dar à Alícia o irmão que ela tanto queria e pedia.

Aproximava-se o dia de Natal e juntamente com o Marco decidimos dar a melhor prenda à família, e existe prenda melhor? A família ia aumentar. Decidi aguardar então uns dias para que esse dia fosse memorável. Só me apetecia gritar ao mundo o quão feliz estávamos, íamos ser pais novamente! A felicidade transbordava no meu olhar. Tudo corria bem nesta gravidez, ao contrário da minha primeira onde as dores constantes tinham sido incomodativas e até medonhas. Desta vez estava tudo a correr lindamente, não haviam dores, sentia-me nas nuvens… a barriga começou logo a notar-se às 6 semanas o que também tinha acontecido na gravidez da Alícia, que muito cedo foi descoberta. Agora não estava a ser diferente. E tão bom, mas tão bom olhar o espelho e ver a transformação do nosso corpo.

Os dias passaram e o dia de Natal chegou. A minha irmã era a única na família, à exceção do Marco que sabiam. Ao anunciar o tão desejado bebé que carregava no ventre, fui presenteada com a primeira roupinha. Um fato cinza e uns sapatinhos amarelinhos. Foi um momento mágico, a minha Alicia descobriu naquele momento que tinha sido promovida a mana mais velha. A minha filha com 6 anos chorou de felicidade e eu e o pai chorámos por ver uma criança tão pequena a ser tão sincera no amor que já tinha por aquele ser tão pequenino: “o meu filho” era o irmão dela. A minha filha desde então passou a beijar todos os dias a minha barriga, dizer “olá mano” e “gosto tanto de ti”. Segundo momento, contar aos meus sogros, e qual não é a minha felicidade que, ao anunciar a minha gravidez, descubro que a minha cunhada, esposa do irmão do Marco, estava igualmente de bebé e com diferença de 2 semanas apenas. Mas que alegria, que raio de sol entrou naquela casa. Foram dias absolutamente deliciosos. Não havia amor que coubesse no meu peito… até aquele dia. 

Dia 13 de janeiro de 2022, desloquei-me à maternidade Bissaya Barreto para uma consulta de rotina que nada estava relacionada com a gravidez. Era um lindo dia de sol. Estava de 9 semanas. Chegou o momento em que a médica me questionou “Já viu o seu bebé? Quer vê-lo?Ouvi-lo?”. Era tudo aquilo que queria ouvir e saiu um SIM a transbordar de amor. E o meu mundo parou ali, a minha alma escureceu, a minha vida desmoronou e toda a luz que até então me iluminava se tornou na pior das escuridões: “não tenho boas notícias, o desenvolvimento do seu bebé parou há uma semana, não há sinais vitais, Lamento!”  

Não sei como tive forças para conduzir até casa SOZINHA, não me recordo sequer do caminho que fiz. O meu corpo ficou sem vida, entrei completamente em piloto automático e tudo deixou de fazer sentido. O meu bebé estava morto no meu ventre e eu iria de ter de o expulsar SOZINHA! Eu não estava a acreditar, eu não queria ouvir mais nada, aquela máquina estava errada e eu ia para a maternidade Daniel de Matos onde ia ser realmente seguida, e tudo não ia passar de um erro! Em casa, chorei, chorei perdidamente até à chegada da Alicia. Quando lhe olhei nos olhos é que tive a noção do que me esperava, ela tinha que saber. Se foi duro perder o meu filho, imaginem o quão duro foi desfazer o sonho dela. Olhar-lhe nos olhos e dizer que não teria mais um irmão e tudo tinha terminado ali naquele momento! Cada lágrima dela foram facas espetadas no meu corpo que jamais cicatrizarão. Chorámos ali, as duas agarradas uma à outra, mas eu, eu sempre com a esperança… 

Evitei sofrer, chorar e até me privei de pensar que não estava bem. Não queria preocupar o Marco e por momentos fiz o mesmo, não falei com o objetivo de passar a mensagem de superação!

No dia seguinte, desfeita em cacos, fui à maternidade Daniel de Matos, desta vez com o Marco. A noite tinha sido longa e dolorosa… Aquela senhora jamais sairá da minha cabeça, amável, dócil como nunca mais me cruzei com ninguém, que ao ver-me naquele estado não me voltou a deixar sair, não quis que visse mais a realidade que me rodeava e fez questão que me atendessem LOGO, SEM ESPERAR. O meu corpo tremia, a minha voz não saía…Não haviam realmente mais batimentos cardíacos. Eu já estava realmente SOZINHA naquele momento. Já não existia mais vida dentro de mim. E que dor, que dor dilacerante. Na ignorância, fui para casa seguir todas as indicações e esperar que o corpo fizesse o resto. E pronto! Mais nada! Jamais imaginei o que vinha a seguir. Dia 15 de janeiro… DURO, muito duro, jamais se está preparado para um processo tão doloroso e desumano. Senti cada dor do meu corpo, senti e vi a morte e vi o meu filho nas minhas mãos. Sim, eu peguei e vi! Tinha de o fazer.

Os dias que seguiram foram péssimos, passei dias sozinha a chorar mas hoje, sinto que não foram suficientes, que devia ter-me permitido chorar ainda mais, gritar, deitar tudo cá para fora. O regresso ao trabalho ditou isso mesmo, as perguntas, os comentários fizeram-me engolir em seco “deixa tu és nova”, “tu até já tens uma filha”, “era uma coisita tão pequenina mais vale agora”, “isso vai passar, voltas a tentar”… A TORTURA. Eu não queria ouvir aquilo, eu não devia sequer ouvir aquilo, tinha acabado de perder um filho: o meu filho! Engoli muito em seco e privei-me de chorar para não ouvir “mas ainda estás assim por causa do aborto?”. Devia ter feito o meu luto, deixar-me chorar, receber um ombro, um abraço, mas não…só existiram comentários como “vai procurar um psicólogo”. Eu só precisava de colo. Evitei sofrer, chorar e até me privei de pensar que não estava bem. Não queria preocupar o Marco e por momentos fiz o mesmo, não falei com o objetivo de passar a mensagem de superação!

Duas semanas depois a tortura voltou ao saber que uma colega de trabalho estava grávida! Mas afinal onde estava o deus que eu agradeci quando descobri a 6 de dezembro que a minha maior felicidade estava a chegar? Onde estás? E agora? Como me vou reerguer? A escuridão invadiu-me e nada me conseguiu impedir de chorar, e eu só queria largar tudo e desistir, mas ele estava lá… o meu suporte, o meu ombro amigo, o meu companheiro e confidente, o meu marido esteve lá e só ele me conseguiu acalmar. Pensei muito na minha filha. Eles foram a minha força.

Os dias passaram com muitos altos e baixos, mas eu achei que tinha de voltar a erguer-me e tentar novamente, não desistir do sonho e assim aconteceu, por milagre a 21 de março o teste deu novamente positivo e eu chorei muito, chorei de alegria, agradecimento e medo. Sim, muito medo! Uma nova vida dentro de mim, um novo sonho, uma nova luz para me levar no caminho certo. Contei ao marido. SÓ. Só me pediu para me acalmar e viver os dias com serenidade. E assim tentei fazer, mas as dores nesta terceira gravidez estavam a ser imensas o que me fez recorrer a uma profissional para me acompanhar, SIM eu precisava ter a certeza que estava tudo a correr bem. Afinal, EU ESTAVA NOVAMENTE GRÁVIDA, mas não sentia entusiasmo, não consigo explicar, estava muito apreensiva, receosa, não me sentia sequer grávida, não tinha qualquer sintoma de tal. Sentia dores horríveis e tinha uma sensação inexplicável no meu corpo.

Realizei a primeira ecografia precocemente o que me deixou desanimada. Não se via nada com 4 semanas apesar de me ser transmitido que era normal, mas para uma mãe a sofrer de ansiedade como eu estava, era tudo menos normal. Passados três dias recorri à maternidade, apesar de me sentir muito bem com a profissional que escolhi para me acompanhar, as consultas eram muito caras e não tinha qualquer seguro ativo. Até hoje arrependo-me profundamente de o ter feito. A falta de sensibilidade daquela médica que me atendeu ainda hoje me provoca irritabilidade e tristeza. Eu só queria saber se estava tudo normal e a resposta, arrogantemente, “o que é que você entende por anormal? Isso ainda nem sequer é gravidez o que é que a senhora quer ver? Vá para casa e volte daqui a dias!”. Eu não queria acreditar no que eu estava a ouvir. Como é possível existir no mundo profissionais tão mal formados a este ponto? Como é possível não haver compaixão nem sensibilidade com mulheres que carregam vidas nos seus ventres? Chorei muito, era fim-de-semana e teria de aguardar. Segunda-feira chegou e eu só precisava ouvir palavras de consolo, de esperança. Pessoas com luz é o que precisamos neste momento, e a médica que escolhi toda ela transbordava calma, tranquilidade e generosidade. E pela primeira vez vi o meu saquinho, lá estava ele com 5 semanas e lá estava o meu feijãozinho, o meu potinho de amor.

Naquele dia foram lágrimas de alívio e tudo desapareceu, deixaram de existir dores, o meu corpo sossegou finalmente e sentia-me mais tranquila do que em qualquer dos dias anteriores. Só conseguia pensar que estava a conseguir acalmar-me e que finalmente estava a ter a paz que precisava e merecia. Assim se passaram duas semanas! 7 semanas de gestação, tudo tranquilo até que comecei a perder sangue. O meu rosto vestiu-se de preto e a caminho da consulta de urgência, tive a sensação que estava tudo a acontecer DE NOVO! A ecografia não revelou nada, estava tudo bem, ou melhor, não podia estar melhor, pela primeira vez ouvi o coração do meu feijãozinho. Lá estava ele tão pequenino a bater com tanta intensidade. Assim, mais uma vez o meu coração descansou. Mas as perdas não pararam e tive de voltar à maternidade (era sábado). O discurso foi o mesmo, “o bebé está ótimo, o coração está a bater”. As respostas às minhas questões ficaram em branco “de onde vêm esse sangue?” Tudo era normal, só para mim é que não. E eu sabia-o, sentia-o! Domingo… as dores apoderaram-se do meu corpo, só queria estar deitada e que ninguém falasse comigo. AGUENTEI. Segunda-feira, dia 18 de abril, comecei a perder muito sangue e os coágulos apareceram. Estava num almoço de família e com sorriso no rosto saí, e mais uma vez fui urgência. Eu já sabia, cada lágrima que caia me fazia ter perfeita noção que tinha perdido o meu filho, mas, na minha cabeça o coraçãozinho dele não parava de bater. Mas não, naquele dia perdi o meu terceiro filho. Segunda vez, num espaço de 3 meses. Eu só queria respostas, eu só queria saber que mal eu tinha feito para merecer isto. Eu só queria desparecer. Não queria sequer viver.  

Foi tudo natural, não foi necessária medicação… afinal o meu corpo já estava há 5 dias a fazer o trabalho dele. Não queria ver ninguém, estar com ninguém… gritei em silêncio, sufoquei e até hoje ninguém sabe desta perda, muito menos a minha filha que ainda hoje chora ao lembrar-se do seu feijãozinho.  

Um dia alguém disse “a dor não se mede pelo tempo de gestação” e não podia ser tão verdade. Perdi o meu filho com 9 e 7 semanas mas para mim não existia amor maior que aquele que carregava no meu ventre.  

Hoje ver a minha colega de trabalho grávida é um misto de sentimentos. Muito feliz por ela que me ouviu nas horas difíceis, mas muito infeliz por mim. O meu olhar não consegue desviar e ver a barriga crescer a cada dia que passa. Imagino-me com 28 semanas ou 13 semanas. É muito doloroso. Os dias não têm sido fáceis, tentei resistir e nunca procurei ajuda mas hoje, passados 131 dias do primeiro aborto e 36 do segundo, sinto-me um caco, um farrapo e não consigo superar a perda dos meus dois bebés. Não há dia nenhum que não acorde a pensar neles e no quão desejados eles foram. Hoje sinto-me com vontade de tentar novamente, mas cheia de medos e incertezas.

É muito triste saber que no nosso país a mulher precisa passar por três momentos de perda consecutivos para ter o acompanhamento devido e merecido. A mulher que perde um filho não é valorizada, após a minha segunda perda obrigaram-me a estar uma manhã inteira a ver e ouvir mulheres grávidas a entrar e sair da maternidade e eu, com uma pulseira branca, pulseira essa que fez com que todas me passassem à frente. Hoje sinto-me uma mulher infeliz por tudo o que passei e me proporcionaram. A minha força vou busca-la a grupos de apoio que sigo diariamente. Transcrevo algo que li numa dessas páginas que apoiam mulheres que SOFREM por perdas gestacionais e que não pode ser descrito de forma alguma de outra forma. É isto que eu sinto palavra por palavra: 

“Hoje falamos sobre o que não dizer. Pedimos, por favor, que esqueçam estas frases feitas. Sabemos que a intenção é boa. Querem acalmar a dor do vosso(a) amigo(a). A verdade é que estas frases são muito dolorosas de ouvir e desvalorizam o que estamos a sentir. Numa fase inicial, quem perdeu um bebé está tão, mas tão confuso, desorientado e angustiado que pode mesmo sentir-se tentado a minimizar a sua própria dor e luto e isso não deveria acontecer. Varrer para debaixo do tapete, pensar que podia ter sido muito pior, não se deixar sentir, é o pior que podemos fazer. Por isso, por favor, caso pensem em usar o “pelo menos…”, pensem duas vezes. Não sabem o que dizer? Não faz mal. UM ABRAÇO VALE MAIS QUE MUITAS, MAS MUITAS, PALAVRAS! “Pelo menos foi cedo… Pelo menos não veio com problemas… Pelo menos já tens filhos… Pelo menos és nova, podes tentar de novo… Pelo menos está num sítio melhor… O FACTO É QUE NÓS QUERÍAMOS E AMAMOS AQUELE ESPECÍFICO BEBÉ!” 

Um dia alguém disse “a dor não se mede pelo tempo de gestação” e não podia ser tão verdade. Perdi o meu filho com 9 e 7 semanas, mas para mim não existia amor maior que aquele que carregava no meu ventre.  

A dor ficou e ficará para sempre, faça o que fizer, o amor de um filho não substitui o outro. Obrigada por me terem deixado ser vossa mãe mesmo por pouco tempo. Meus raios de luz, meus potinhos de amor <3 <3 

Um dia vou ter coragem para partilhar a minha dor e talvez nesse dia “os outros” conseguirão perceber alguma coisa. 

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Rita M.

30 de novembro de 2021, o dia em que o meu teste de gravidez deu positivo. Que alegria tão grande! Fiz sem o meu marido para o poder surpreender, imaginei a sua reação, ia ficar radiante de certeza! Porém, no dia anterior, tinha tido umas cólicas fortes, principalmente do lado direito e achei por bem ir a uma urgência obstétrica e assim até teria uma ecografia para juntar à surpresa! No caminho para lá passei por uma loja e comprei um body de recém nascido e um embrulho para o surpreender. Enquanto esperava na urgência, baixei uma app de gravidez, estaria de 6 semanas e a data prevista do parto 23 de julho. Estava tão feliz!

Quando fui examinada pela médica, ao fazer a ecografia, não detectou nenhum saco gestacional, algo que já se deveria ver tendo em conta a data da minha última menstruação. Fiz o HCG e mais tarde confirma-se a gravidez ectopica, na minha trompa direita. Como assim? Que mal tinha feito eu?

Fui para casa meia perdida, quando cheguei a casa deitei fora os testes de gravidez que tinha feito de manhã, como num acto de revolta. Algo que me arrependo.

Falei com o meu marido, sempre muito preocupado comigo e tentando que eu visse o lado positivo, que se tinha descoberto cedo e que ia correr tudo bem. Mas, até hoje, é impossível alguém me consolar.

Estive 2 dias internada, segundo os médicos o meu próprio corpo percebeu que a gravidez estava no sítio errado e não deixou avançar. Não precisei de medicamentos nem de cirurgia. Vim para casa e nesse próprio dia comecei com perdas de sangue e algumas dores, até que um dia tive a perda de sangue maior com coágulos. As dores foram passando, mas o meu coração está cada vez mais partido.

Cada grávida que vejo penso ‘podia ser eu’.

Podia estar a pensar em nomes pro meu bebé e a comprar as suas primeiras roupinhas, em vez disso ando em consultas pra ver o que poderá ter causado esta minha gravidez ectopica.

Poderei ter ficado com algum problema na trompa ou até ter problemas nas duas, ainda falta alguns exames para poder ter conclusões mais definitivas. O que também me deixa muito ansiosa. Será que vou realizar o meu maior sonho, ser mãe ?

O meu bebé não teve nome, nunca ouvi o seu coração, mas para mim é e sempre será real. Sempre será o meu primeiro bebé. Passados mais de 2 meses o body que comprei para surpreender o meu marido continua na mala do meu carro e eu sem coragem pra lhe mexer.

Sinto-me uma pessoa diferente, perdi a inocência e grande parte da leveza com que levava a vida.

Muita força para todas que passaram ou que estão a passar por isto. Que consigamos viver com este vazio que ninguém nos tira.

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Patrícia

Claudia @amorparalemdalua

16 de setembro de 2021.

O dia que viria a mudar a minha vida para sempre. Fiz aquele teste de gravidez com zero expectativas, já tinha tido alguns descontrolos hormonais que se repuseram no mês seguinte, achei que seria mais do mesmo. Quando vi aquele positivo… quem já passou por isso sabe que é impossível descrever. Um misto de medo, ansiedade, felicidade, nervosismo… Não era suposto acontecer, mas como li uma vez “por vezes o melhor da vida é-nos entregue de mão beijada”. Entrei em pânico, afinal o que fazer quando se vê duas linhas no teste? Fui ao hospital.

Fizeram-me eco vaginal, não conseguiram ver nada. Mas a médica falou-me logo de gravidez não evolutiva, gravidez ectópica, gravidez química… Fiquei logo com o coração nas mãos. Fizemos HCG para confirmar o positivo, e restava aguardar, pois poderia ser apenas muito cedo para se ver alguma coisa. Os dias que se seguiram foram dolorosos. Queria estar bem, queria estar feliz. Passava a mão na barriga e queria sentir que estava a acontecer o melhor da vida por ali. Mas havia algo que me retraía. Às poucas pessoas a quem contei disse sempre “é muito cedo, não sei o que isto vai dar, não me quero sentir feliz”. Cada ida à casa de banho implicava inserir o papel higiénico bem fundo para ver se saía sangue. E eis que, no dia 23 de setembro, precisamente uma semana depois, tal aconteceu.

Quando vi o papel sujo pensei “acabou aqui o sonho”. Fui novamente ao hospital. Foram dois minutos até me perguntarem se tinha sido planeado ou não, para depois apenas me dizerem “tem uma gravidez ectópica na trompa direita, vista-se para conversarmos”. Tudo o que se seguiu foi do mais avassalador que já vivi até hoje. Tive que optar entre cirurgia ou metrotexato, com um médico nada afável a explicar-me em que consistia cada uma das opções.

Em desespero saí daquela sala, cheguei cá fora e abracei a amiga que estava comigo quase como que a pedir-lhe colo, chorei como nunca, sem saber o que fazer. Como assim eu é que tinha que decidir? Como é que eu sabia o que era melhor para mim? O melhor era tudo ter corrido bem e o meu maior sonho ter-se tornado realidade e não num pesadelo. Um médico estagiário veio cá fora, acalmou o meu desespero, pediu-me que entrasse acompanhada do meu namorado para falarmos com uma médica que, segundo o próprio, seria mais sensível e mais humana. E foi. Optamos assim pelo metrotexato e preservamos a trompa.

Seguiu-se o internamento, iria fazer a medicação nesse mesmo dia. Mas ao final da tarde a médica veio conversar comigo e explicou-me que o meu corpo já estaria em processo de aborto, estava a rejeitar a gravidez. Aconselhou-me a esperar até ao dia seguinte de manhã para repetirmos a eco e percebermos se haveria necessidade de fazer medicação, ou se o corpo resolveria sozinho. Assim foi. Sexta feira de manhã repetimos a eco, o HCG estava a diminuir a olhos vistos, mas consideraram ser melhor administrar a medicação na mesma, pois o saco estava a ser vascularizado (sabe lá Deus o que isso quer dizer, eu só queria vir embora daquele hospital). Sexta fizemos a medicação, sufoquei no meu próprio choro ao sentir aquele líquido entrar no meu corpo. Imaginei tudo o que aquilo iria fazer comigo e foi destruidor. Sábado voltei a casa, seguiu-se todo o processo de acompanhamento, análises, exames, por aí.


Toda a gente me diz que sou muito nova, que isto não quer dizer que nunca vá ter filhos, que tenho de acreditar e ter coragem para tentar no futuro. Acredito muito que isso vá acontecer, pois continua a ser o meu maior desejo e sonho. Mas deixei de ver a gravidez tão cor de rosa como crescemos a imaginar. Percebi que, por vezes, é muito doloroso e ingrato. Que podemos viver o melhor e o pior do mundo naquele que é considerado um estado de graça. Tenho imagens em looping na minha cabeça, como o momento em que fui à casa de banho e me saíram literalmente postas de sangue. São momentos muito marcantes e que acredito jamais esquecer.

O meu maior sonho tornou-se no meu maior pesadelo. Mas depois descobri que somos tantas, que não é uma luta tão solitária quanto aquilo que parece quando nos bate à porta. Ler testemunhos, saber de finais felizes depois de finais tão infelizes, dá-me alento e coragem. A minha vida agora está focada noutro tipo de objetivos, tenho 26 anos e tão cedo não me imagino a querer tentar a sorte grande. Mas quero que saibam que, no dia em que sentir que chegou a altura, muita da coragem que irei ter veio deste cantinho de partilha, de emoções, de amor. Encontrei aqui a paz que precisava.

Tive apoio incondicional do meu namorado, da minha família, dos meus amigos. Senti-me uma criança pequenina a andar de colo em colo, senti mesmo muito amor e carinho. Mas, por vezes, quando sentia que estava perdida, vinha a este lugar, para mim calmo e pacífico, procurar companhia e esperança junto daquelas que viveram a história na primeira pessoa como eu. E se um dia tiver o meu bebé arco-íris nos braços, garanto que venho aqui relatar o final feliz da minha história.

Não estamos e nunca estaremos sós. A perda gestacional existe: é real. Não deixem nunca que tentem diminuir a vossa dor. Depois disto me acontecer ouvi muitas histórias de pessoas próximas que passaram por situações semelhantes. Por isso acreditem quando dizem que somos muitas. O meu “quando tiver filhos” transformou-se num “se eu tiver filhos”. Percebi a necessidade de se alertar as mulheres para a existência deste estado que por vezes não tem graça absolutamente nenhuma. A maioria escolhe sofrer no seu canto em silêncio, não somos todas iguais. Não importa a forma como escolhemos sofrer, lidar com o sofrimento. Importa que se entenda que é algo que bate a muitas portas, que é bem real e que temos de viver isto conforme acharmos melhor para nós mesmas.

Se estás a ler isto porque passaste por algo idêntico e procuras conforto, recebe o meu abraço apertado e a certeza de que não estás sozinha. O tempo não cura, as memórias não desvanecem. Mas estamos juntas nesta luta. Muita força e coragem. O amanhã será certamente melhor! 🌈💛

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Joana

É a primeira vez que te escrevo desde o dia em que soubemos.

Desculpa a ausência. Podia-te mentir e dizer que estive muito ocupada, mas a verdade é que nem estive assim tão ocupada.

Mas estive a reaprender a viver e a saborear as pequenas coisas, como ver um filme (que nem precisa de ser bom) no sofá, enrolada numa manta com o teu pai, ouvir música, cantar (desafinada) e passear, e a reaprender (ou talvez aprender, pela primeira vez) a trabalhar com calma, serenidade e consciência. Não foi algo forçado, mas se a tua chegada já foi transformadora, a tua partida foi ainda mais.

Eu estava bem, a sério que estava. Mas estes últimos dias têm sido difíceis. Tenho saudades tuas e uma tristeza profunda por saber que nunca te vou conhecer. Sinto-me quase vazia, como o pequeno saco que se formou no meu útero. Uma pequena casa que nunca foi habitada.

Quero enrolar-me no meu corpo e ficar. Só hoje. Amanhã já sou forte outra vez

Eu estava bem, a sério que estava. Mas agora preciso de respostas. Preciso de voltar a confiar no meu corpo. De voltar a acreditar que sou capaz de gerar uma vida e dar colo. Eu, que sempre me considerei cética, preciso de acreditar em algo mais forte do que números e ciência.

“Estas coisas acontecem, 1 em 4 gravidezes conhecidas.” Ok, mas e então? Porque é eu o teu pai fomos o 1 em 4? Porque é que não fomos o 3 em 4? Bem sei, nos escombros do meu ceticismo, que foi completamente aleatório, que nós não fomos escolhidos por uma entidade divina para alcançarmos um bem maior, acabar com a fome ou alcançar a paz no Mundo. Mas isso não torna menos duro.

Eu estava bem, a sério que estava. Mas já passaram dois meses e sinto-te cada vez menos. Dois meses de tristeza, medo e dor, mas também de alegria, tranquilidade e amor. Afinal, tudo vai correr bem. Será que vai?

Estou cansada de ser forte. Quero enrolar-me no meu corpo e ficar. Só hoje. Amanhã já sou forte outra vez – ou pelo menos funcional. Pode ser? Amanhã já volto a pensar nos problemas do dia-a-dia, nas contas para pagar, na cadela que precisa de ser escovada, nos planos para a Passagem de Ano e no que vou fazer para jantar. Mas hoje quero desligar, enrolar-me no meu corpo e ficar.

Eu estava bem, a sério que estava. Mas é Natal e tudo doi mais porque tu não estás aqui.

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Amélia

Em maio de 2019 soube que estava grávida após 1 ano de tentativas.

Fizemos a eco às 6 semanas e ouvi o som mais maravilhoso do mundo: o batimento cardíaco, som que ainda hoje ouço na minha mente.

Infelizmente às 8 semanas, quando me preparava para repetir a experiência, ouvi aquilo que ninguém quer ouvir: não há batimento, infelizmente a gravidez não evoluiu.

Passei por um processo doloroso física e psicologicamente. Nos dias seguintes tratei de me erguer e seguir em frente conforme deu, com o apoio brutal do meu marido (que também sofria imenso e nunca me e deixou cair).

Infelizmente, depois de muitos exames e consultas depois, a história repetiu-se mais 2 vezes. Sempre às 8 semanas.

Destas vezes não contamos a ninguém. Sofremos os dois em silêncio. Desisti. Desistimos. Resignamo-nos à infelicidade de não conseguir gerar vida.

Cada vez que alguém me dizia estar grávida, o sangue gelava. Ficava inconsolável semanas.

Quando chegou a quarta gravidez, a primeira espontânea (sem indutores de ovulação e afins), o medo reinstalou-se. O passar das semanas, cada vez era mais doloroso.

Cada consulta era de pânico. Fazia ecos todas as semanas.

Até que passei as 8, as 9, as 10 até às 41 semanas de gravidez. O medo era tanto que nos custou anunciar a gravidez mesmo às pessoas próximas (depois das 15 semanas). Nem me permitia ficar feliz, com medo da desilusão e da dor.

Passei a gravidez a mentalizar-me que era real. Que ia correr bem. Que desta vez era a sério.

Hoje tenho o meu bebé nos braços, e todos os dias dou graças. No meu caso agarrei-me à Fé. E esta é a mensagem que quero passar: Fé e resiliência. Independentemente da religião ou dos credos, para mim a Fé foi a minha âncora.

Todos os dias penso naqueles que também são meus filhos, mas que não chegaram. É devastador. Mas acreditem que um dia vai correr bem! 

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Mel

Como é possível sentir tanta dor por um “ser” que conhecemos há semanas ou dias? Como é possível sentir que nos tiraram o chão com um simples silêncio numa ecografia ou com um papel a mostrar resultados não satisfatórios.

Como é possível, que depois desta dor, da constatação que já não vai crescer, ainda temos de lidar com a dor física? As alterações hormonais, que acumularam durante semanas ou mesmo dias…

Em 2019 descobri as 9s que o meu “bebé” já não tinha batimentos, agora, há dias, descobri por análises, que a minha gravidez não vai à frente e estou aqui a espera que o processo se desenrole sozinho, a “rezar” para não ter de tomar medicação, cheia de medo por não saber que tipo de gravidez é… Se ectópica, se não viável…tantas perguntas, tantas dúvidas..

É uma dor psicológica /física que ninguém quer, claro que há coisas piores, perdas piores, pais a passarem por isso sem nem sequer terem um filho, já tenho duas, posso agarrar-me a elas com todas as minhas forças, mas mesmo assim, ninguém nos tira essa dor.

Não há nada que se possa dizer, fazer, apenas aguardar que o tempo “cure”… Sinto, sinceramente, que da outra vez foi pior. Desta vez nem sequer ouvi o coração antes de levar com este desfecho, mas mesmo assim, quando se vê um positivo, por mais que saibamos que pode haver algo menos bom, temos esperança, ficamos felizes por mais uma pessoinha nossa, pela esperança de ser o tão desejado rapaz… Enfim, que dor!

Agora tenho medo da dor física, medo que não corra “bem” como da outra vez, medo de sofrer mais, medo de não me conseguir erguer, medo de desistir de mais uma gravidez…

Gostaria tanto que estas coisas deixassem de existir nas nossas vidas, que não houvesse abortos indesejados.

Que todos os pais que o querem ser, que possam ter o seu bebé, sem stress e sofrimentos, que nenhuma mãe e pai perca o seu filho (seja em que “idade” for)…

O meu desejo, é que todos esses pais encontrem paz, de alguma forma.

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J. & A.

Estávamos de férias quando notei que tinha um atraso de 5 dias e pensei que já devia ter vindo o período, tendo em conta que sou regular. Numa dessas noites, passo na farmácia e faço o teste pela manhã; o qual dá positivo, duas linhas já bem demarcadas.

No dia seguinte pensei, “ok, se calhar é melhor avisar o nosso obstetra”. Enviei uma mensagem de whatsap com a imagem do teste, ao qual o nosso obstetra responde a felicitar-me e a dizer-me que deveria iniciar iodo e ácido fólico, coisa que não estava a fazer, pois não tinha sido planeado ao contrário da B. e da M., em que foi tudo planeado ao milímetro e correu tudo ok.

Depois combinamos que, 3 semanas mais tarde, faria a consulta de vigilância e confirmação da idade gestacional.

Sentia-me com energia, sem grande fome e sono, apenas tinha o peito dorido. Numa dessas noites nas férias, senti moinhas fortes e arrepios de frio mas não liguei. Pensei “isto faz parte”.

Chegado o dia da consulta estava ansiosa, pois pressentia que algo não estava bem (sentia que estava a ser diferente das outras vezes, sentia me menos grávida, com menos sono, sendo um dos meus sintomas), o obstetra mediu a tensão estava bem , o peso estava ok e depois dirigi me para a máquina de ecografias.

Quando o obstetra me coloca a sonda vaginal olho para o ecrã e tenho dificuldade em ver o saco gestacional. O obstetra, muito sério, chega o aparelho para mais perto de si e diz-me que lhe parece uma gravidez inicial. Eu não fiquei nada convencida, pois pelas minhas contas estaria de 8 semanas e já daria para ver um embrião e ouvir um coração a bater, mas vi apenas um saco pequenino e uma vesícula vitelina.

Eu sabia que algo estava errado, pelas contas estaria de mais tempo e a intuição não me falhou.


No entanto, o obstetra mandou-me ir ter com ele na semana seguinte ao hospital para confirmarmos a evolução desta gravidez.

No dia combinado, fui ao hospital e as minhas desconfianças confirmavam-se: tinha uma gravidez anembrionária.

Eu sabia que algo estava errado, pelas contas estaria de mais tempo e a intuição não me falhou aqueles arrepios já podiam ser o início de um aborto.

Nesse momento tive de decidir, ou esperar que tudo se desse espontaneamente ou induzir com misoprostol.
Eu decidi pelo misoprostol e compareci em jejum no dia previsto.

Depois da medicação, e muitas horas de espera fui com obstertra até ao ecógrafo para vermos como estavam as coisas. Disseram me que estava limpa e podia ir para casa e que teria de fazer eco 3 semanas depois para avaliação. Chega o dia da ecografia, o ecografista diz me que o útero está muito heterogéneo que ainda tinha restos ovulares

Em conversa com o meu obstetra decidimos que eu iria para um privado fazer a histeroscopia, onde ele em tempos me fez os partos.

Ando há 3 meses em processo de aborto, que só terminará com uma nova eco de avaliação onde terei a luz verde do obstretra.

Não basta o sofrimento que um aborto provoca, senão todo o processo. Esperamos o nosso bebé arco-íris.

Fé.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez Testemunhos Perda Precoce

Vanessa

Decido escrever a minha história com algum medo, mas com coragem. Existem vários tipos de perda, a que não controlamos e aquela em que temos a difícil tarefa de decidir. Desta última pouco se fala, pois é tão susceptível de julgamentos. Mas acreditem, o maior julgamento é aquele que fazemos a nós próprias. Mas tem de ser falado, e acima de tudo tem de ser compreendido. 

A minha história é composta por um aborto espontâneo, o nascimento do meu bebé arco-íris, e mais recentemente uma interrupção médica da gravidez.

Em finais de 2018, pela primeira vez, um teste positivo de gravidez! Um bebé planeado e muito desejado. Por motivos profissionais tinha de avisar logo no trabalho pelo que pensei: “se os meus colegas iriam saber da minha gravidez, claro que também vou contar à minha família!”. Longe de saber que algo poderia correr mal, o que poderia correr mal? nada! bem, não foi bem assim. Fui uma em quatro. Às seis semanas de gestação comecei com hemorragias, uma ida às urgências em que pude ouvir (pela última vez) o bater do coração do meu filho, mas que nada se podia fazer além de ir para casa em repouso. Mais dois dias com hemorragias até que fui com o meu Obstetra e em que já não havia nada… Um vazio. Foi um choque muito grande. Por ingenuidade, ignorância, e até por tabu da sociedade a questão do aborto espontâneo não é/era uma coisa que se falasse abertamente, até que depois do que me aconteceu comecei a ouvir de pessoas próximas “a mim também já me aconteceu”, “acontece muitas vezes”. Mas diz-se baixinho, porque lá está, não são assuntos para se estar a falar. Tantas de nós sofremos em silêncio, que não conseguimos homenagear e falar sobre um ser que tanto amamos mas que só conheceu o bater do nosso coração. 

Consegui engravidar alguns meses depois e 2019 foi um ano mágico, o ano do nascimento do meu bebé lindo, do meu Henrique, que me enche de orgulho de ser Mãe. Tive uma gravidez calma, sem mal-estar, com muita confiança mas com receio, claro. Mas infelizmente certas palavras que ouvimos marcam-nos, e nunca me vou esquecer de no meio de tanta felicidade pelo meu bebé arco-íris alguém me dizer: “vê lá se agora tens cuidado!”… 

Entramos aqui num caminho que é tão difícil de lidar, se por um lado precisamos de falar sobre o vazio que sentimos quando perdemos um filho repentinamente, até que ponto não é falado para nos protegermos a nós próprias? O caminho só nós próprias o podemos fazer, o luto é nosso e do companheiro, mas a solidão torna-o numa luta que no meio de tanta dor pode tornar-se difícil de ultrapassar. Mas ultrapassamos.

Assim, depois do meu bebé arco-íris existe outra história nesta minha história que por ser tão recente ainda me dói, e que sei que me vai acompanhar por toda a minha vida. Um poder que nunca quis ter nem pensei em ter, que é o poder da decisão. A vida é feita de decisões, isso todas sabemos, mas a decisão que é feita para a Vida, ou não, é algo que é tão intenso quando destruidor. Mas não podemos deixar que nos destrua, porque sabemos que foi uma decisão de Amor.

Neste ano de 2021, em junho, teste positivo de gravidez! Bebé pensado mas não propriamente planeado, mas que no meio do receio o amor e entusiasmo ia crescendo a cada dia que passava. Na ecografia do primeiro trimestre o Obstetra revelou algo que não contávamos, um valor que não estava em conformidade, que ultrapassava ligeiramente o valor expectável. A amniocentese tinha de ser realizada. O tempo de espera até poder ser realizada a amniocentese e o tempo que leva a saber resultados cria um turbilhão de sentimentos tão ambíguos quanto contraditórios: é a esperança versus o desespero, a certeza de que está tudo bem mas… e se? e se? não pode ser! A ansiedade cresce de uma forma que esgota, cansa, desgasta. Quer seja uma semana, quer seja um mês, nada nos prepara para quando ouvimos “não temos boas notícias”.  Alteração do cariótipo, Trissomia. Por termos esperado algum tempo pelos resultados já tínhamos uma decisão, mas que não deixa de ser a decisão mais difícil da nossa vida. Decidimos a interrupção médica da gravidez. Não interrupção voluntária, médica. Apesar das alterações cromossómicas serem compatíveis com a vida, existirá qualidade de vida? Todos queremos qualidade de vida para os nossos filhos, queremos felicidade, autonomia para quando não existirmos no mundo, e saúde acima de tudo, mas… e quando isso não é possível? somos egoístas por não arcarmos com as consequências de dar continuidade à vida ou hipócritas por acharmos que poupamos a uma vida de sofrimento? Ou seremos altruístas por decidirmos sermos nós a sofrer sem um filho para ele não sofrer?

Às 21 semanas e 4 dias conheci e despedi-me do meu filho, tive um parto em que só ouvi o meu choro e um vazio tão grande. Tive o meu bebé nos meus braços, toquei na sua linda cara e mãos perfeitas e pedi-lhe desculpa… desculpa-nos João Eduardo, perdoa-me meu filho…

Este meu testemunho está cheio de reflexões, de dor e dúvidas mas que sei que vou superar. Desengane-se quem desvaloriza o poder de uma decisão, desengane-se quem acha que é de ânimo leve. A perda gestacional também pode ser feita através de uma decisão, também é válida e traz muita dor. A mim dá-me alento a seguinte frase: “Amar um filho é querer o melhor para ele, mesmo que o melhor seja não o ter”. Que ajude a apaziguar alguém, e que ajude na compreensão do que é incompreensível para muitos.

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Jéssica

Em fevereiro de 2021, engravidei do meu primeiro bebé, estava feliz mas triste ao mesmo tempo. Era um misto de emoções, de insegurança, medo de não ser capaz de cuidar de um bebé mas a felicidade era tanta que só pensava nele com tanto mas tanto amor. Em março, tive um pequeno sangramento que me levou ao hospital, em que viram que efetivamente o bebé estava bem, mas a médica disse-me que, caso eu perdesse o bebé, que a culpa nunca seria minha.

Eu fiquei em alerta porque, se estivesse mesmo tudo bem, porque a médica diria aquilo?! Fui para casa e adormeci mas com medo de acordar. No dia seguinte, fui à casa de banho e estava cheia de sangue, em que olhei para o papel e vi o que nenhuma gravida queria ver. Foi assustador. Foi o pior pesadelo da minha vida. O meu namorado desmaiou ao ver, em que eu ainda o socorri para ir ao hospital para ter a certeza da minha suspeita. Mas o azar da minha vida não terminou naquele dia…

Em agosto de 2021, engravidei de novo. O medo apoderou-se de mim, tive medo de passar tudo de novo. Mas o bebé era tão desejado que tentei relaxar, rezei pela primeira vez na vida para que o bebé viesse bem de saúde. Até que comecei a sangrar novamente, mas desta vez foi um castanho, muito estranho, não entendi e tive assim quase 2 semanas. Fiz de imediato o repouso absoluto, mas nem assim parava de sangrar.

Falei com a minha obstetra e ela recomendou dirigir-me ao hospital em que ela estava e assim foi, cheguei lá fiz a análise Beta HCG e deu positivo, bastante até mas no útero não estava lá nada. A análise dava positivo, mas na ecografia não confirmava nenhuma gravidez em curso. A minha médica disse que eu podia estar de muito poucas semanas, mas eu sei que já estaria de 7 semanas e era impossível não se ver nada. Mas agarrei-me à fé e à esperança. Voltei lá passado 4 dias, repeti todo o processo e deu positivo, ainda mais do que devia. Depois de muitas tentativas, de muitas médicas a observarem-me, lá viram o meu bebé. Foi diagnosticada uma gravidez com localização indeterminada, ou seja, gravidez ectópica.

Lembro-me de chorar e dizer “não pode ser, outra vez não. Por favor, não”. Naquele momento tudo parou. Não ouvi mais nada sem ser a médica a comentar com a outra de que o feto já tinha batimentos cardíacos. Pior comentário que podiam fazer, porque aí sim o meu coração parou por segundos. A minha médica falou comigo, calmamente, e explicou qual seria o processo para retirar o bebé, pois eu estava em risco de vida e ela não podia permitir que algo me acontecesse. Não ouvi nada do que ela falava, eu só chorava e só queria estar com a minha mãe. Sim, estive sozinha o tempo todo. A dor. O medo. Tudo vivido sozinha. Tenho 25 anos e sinto-me mais velha, sinto-me cansada, sinto-me mal comigo, sinto que já não sou a mesma.

Neste momento, só respiro. Sou mãe de 2 anjinhos e um dia vou contar aos meus filhos o quão agradecida estou por ter tido aqueles bebés na minha barriga.

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Sílvia M.

Comecei a tentar engravidar precisamente há 3 anos. Depois de muitos negativos, frustrações e angústias que todas as “tentantes” passam, consegui finalmente o meu positivo em julho deste ano, 2021.

Já estava grávida de 7 semanas quando descobri a minha gravidez. Foi o melhor dia da minha vida, chorei durante 2 horas agarrada ao teste de gravidez sem acreditar que era finalmente o meu positivo e eu estava grávida, grávida!

O meu sonho tinha-se tornando finalmente realidade e eu já só pensava na alegria que isso nos ia trazer.

Sempre fui uma pessoa muito ansiosa e não suportava a ideia de esperar até às 12 semanas para ter a certeza que estava tudo bem com o meu bebé, então fiz 2 ecografias no privado que sempre se confirmou que estava tudo bem e o meu bebé era saudável. Um dia antes de fazer a primeira ecografia, uma amiga minha que é enfermeira fez-me uma ecografia em 4D. Dava para ver que o meu bebé era bem mexido, e o coração dele batia como o som mais bonito que ouvi em toda a minha vida. O narizinho era igual ao meu e eu fiquei super orgulhosa de saber que pelo menos nisso, que se ia parecer a mim.

Estava tão feliz; dizia-lhe bom dia todas as manhãs, pedia-lhe desculpa se fazia algum movimento brusco sem querer, estávamos a preparar o quarto dele e o armário já se preenchia de roupinhas tão lindas e todas organizadas prontas para o dia da sua chegada…

Mas no dia 6 de setembro tudo mudou, assim, literalmente da noite para o dia, fiquei sem chão.

Foi o dia da primeira ecografia, e eu percebi logo pela cara do médico que alguma coisa se passava, mas estava com tanto medo de ouvir a resposta que simplesmente me submeti ao silêncio. Tudo isto começou muito mal a nível psicológico. O médico era muito bruto a fazer-me a ecografia, fazia-me imensa força na barriga e depois de eu me queixar, ele responde “é que nas magras é mais fácil. Temos que fazer vaginal, tire lá a roupa”, mandou sair o meu marido do consultório e ficamos só eu, o médico e a enfermeira. Ele disse “estou a ver aqui um valor muito alto que não me está a agradar nada. Nível de transluscência nucal de 7,12 valores” ao qual a enfermeira respondeu com voz de espanto “7???” E eu aí percebi que realmente alguma coisa se estava a passar e perguntei o que isso queria dizer, as últimas palavras que eu ouvi foi “quer dizer que o feto tem seguramente problemas cardíacos graves ou problemas de cromossomas, como trissomias…” Eu parei, olhei para o chão e só pensava “o meu bebé. O meu filho. O meu sonho. Ainda ontem estava tudo bem. Como é possível?” Ele abriu a porta do consultório como se me estivesse a despachar e o meu marido que estava à minha espera do lado de fora, ao ver-me naquele estado, perguntou o que se tinha passado e o médico só respondeu “antes de vir fazer a amniocentese passe nas urgências e certifique-se que o coração ainda bate, porque se não bater escusa de fazer a viagem”. Eu não respondi, o meu marido só perguntava o que se estava a passar e eu só lhe pedi para me tirar dali rapidamente e me levar para casa.

Chorei compulsivamente desde que saí daquele consultório até chegar a casa, foram 2h de viagem.

Só pensava no que ia dizer à minha família, aos nossos amigos, como era possível que aquilo estivesse acontecer, como é que Deus me tinha traído desta maneira, porquê nós? Era tão desejado, era o nosso sonho e estavam a rouba-lo de nós…

Liguei à minha médica a contar o que se passou e tinha consulta na quarta-feira (isto passou-se segunda feira). Essas horas, até à consulta, foram angustiantes; eu não dormia, não comia, chorava, as pessoas mais próximas já sabiam e tive que chegar ao ponto de desligar o telemóvel para conseguir pensar, pôr os pés na terra e tomar a decisão mais difícil da minha vida.

Eu sabia o que tinha de fazer, mas nunca nada na minha vida me doeu tanto.

Eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba

No dia da consulta com a minha médica ela confirmou que realmente o valor era demasiado alto e era impossível que o bebé estivesse bem formado e sim, corria o risco de a gravidez não avançar…Ali, naquele momento, depois de ouvir aquelas palavras, depois de ter pensado durante horas completamente em branco, tomei a decisão de interromper a gravidez e não esperar pela amniocentese.

Estava cheia de medo do que me iam fazer, medo do desconhecido, e esperar pela amniocentese eram mais 2 semanas de angústia, depois outras 2 para saber o resultado e aí eu já estaria de 16 semanas e seria muito mais difícil a nível emocional e físico passar por tudo isso. Não quis adiar mais e avancei.

Nesse mesmo dia fiquei internada e começaram a induzir-me o aborto. Meteram-me num quarto onde eu ouvia choros de bebés acabados de nascer, mães a entrar em trabalho de parto e no corredor deparava-me com mães de braços cheios de amor e sonhos realizados, enfermeiras carinhosas a falar com aqueles bebés como eu já sonhava falar com o meu, pais sentados ao lado das camas das mães a compartilhar os primeiros momentos, as primeiras horas de vida dos seus filhos.

Literalmente, eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba.

A primeira tentativa de aborto falhou.  E a médica disse “o coração ainda bate e o bebé está-se a mexer, ouça” e eu só pensava “eu não acredito nisto…” Eu estava em desespero total. A médica queria recusar-se a fazer nova tentativa de aborto, levantou a voz a falar comigo quando lhe disse pela milésima vez e quase a implorar que a minha decisão tinha sido interromper a gravidez e que por favor acabasse com aquele sofrimento para eu ir para casa! Depois de conversar comigo e com o meu marido sobre a nossa decisão, contra a vontade dela, lá disse ao enfermeiro “pronto, se é isso que querem… podes fazer “, nunca mais a vi, não voltou ao meu quarto, passou por mim no corredor como se não me conhecesse.

Durante 24h fiquei sozinha naquele quarto, como que abandonada à minha sorte e com visitas de 3 em 3h de enfermeiras diferentes que me iam metendo comprimidos pela vagina para provocar o aborto. Lembro-me que já tinham passado horas e nada de sinais de aborto e eu meti a mão na minha barriga e disse “perdoa-me e vai em paz. Estou a fazer isto porque te amo e vou amar-te sempre e jamais me perdoaria de te trazer ao mundo para sofreres. És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito” e assim me despedi do meu bebé pela última vez, horas depois comecei a sangrar bastante, sem dores, mas muito sangue.

Apesar de estar num sofrimento inexplicável, sentia-me aliviada, até que faço uma nova ecografia e ainda não tinha resultado, o meu bebé ainda estava lá… Estive 3 dias no hospital completamente abandonada, desamparada, e os médicos pareciam que estavam a jogar ao jogo da batata quente para ninguém tomar finalmente uma atitude!

No meu maior momento de desespero, embora chateada com Deus, confesso, comecei a rezar e pedi-lhe por tudo para me tirar daquele sofrimento porque eu só queria ir pra casa, rezei e chorei como nunca, até que sem contar, ao fim da noite apareceu o meu anjo da guarda. Abriu a porta e disse “já está cansada de estar aqui não já? Venha, eu vou cuidar de si” e eu já estava tão traumatizada que fui a medo sem saber o que ia acontecer desta vez, já que não estava a ser nada fácil.

O médico fez-me a ecografia e disse que já tinha começado a entrar em trabalho de parto, estava no começo do aborto. E eu perguntei se ainda havia batimentos e ele olhou para mim e embora lhe pudesse só ver os olhos, e ele não tenha dito uma única palavra, eu percebi que a resposta era sim, mas ele não me queria magoar ainda mais e foi aí que eu percebi que finalmente estava bem entregue e ele ia cuidar de mim, tal como prometera e ele foi o meu anjo da guarda.

Meteu-me a soro durante 1h, um comprimido vaginal, voltámos a ecografia e definitivamente o meu corpo já estava a libertar o meu bebé. O médico tirou-me o saco gestacional e restos que ficaram sem anestesia, eu não sei onde fui buscar tanta coragem e tanta força para passar por isso a sangue frio, mas a verdade é que a única dor que eu sentia era no coração.

Ele foi tão paciente, tão compreensivo, tão meigo, tão humano, que eu não senti nada para além de uma contração ou outra… E no fim, demos um abraço e eu só lhe conseguia dizer “obrigada” vezes sem conta e disse-lhe “você foi o meu anjo da guarda”. No dia seguinte fui para casa.

És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito!

Já passou 1 mês desde que eu perdi o meu bebé. Não me arrependo da decisão que tomei. Foi um ato de amor. Por amar tanto esse ser pequenino que eu nem cheguei a conhecer, é que o deixei partir.

Na minha vida tive dois grandes atos de coragem, a primeira foi amar um ser que não conheci e a segunda foi deixá-lo partir para não vê-lo sofrer.

Não tem sido fácil, ainda não tenho o útero 100% limpo e estamos à espera que a menstruação desça para limpar os restos que faltam, em último caso tenho de fazer raspagem, o que me sossega é que estou a ser acompanhada pelo meu anjo da guarda, esse médico que já me disse mais do que uma vez que não me ia abandonar.

Mas a dor que sinto, o aperto constante no peito, a angústia, o medo traumatizante de tudo que vivi naquele hospital não sei quando vai passar, não sei quando vou ter coragem de voltar a lutar pelo meu sonho de ser mãe, estou cansada psicologicamente, muito cansada.

Estou muito triste. Ainda me perguntam se é menino ou menina, ainda há quem me dê os parabéns pela gravidez, ainda há quem me olhe para a barriga…

Está a ser uma luta constante diária e já pedi ajuda psicológica porque assumi que não sou capaz de passar por isto sozinha.

Se o meu testemunho ajudar alguém a não sentir-se sozinha, como eu me sentia até horas atrás antes de descobrir está página, já fico contente, porque eu fartei-me de procurar testemunhos naquela cama de hospital e não encontrei nada onde me pudesse agarrar.

Neste último domingo, dia 10 de outubro, no dia em que fez 1 mês, o médico confirmou-me, pela autópsia que fizeram ao meu filho (sempre achei que era um menino, embora nunca venha a saber…), que ele tinha problemas renais, trissomia 21 e uma nuca muito alta mais uma série de patologias não confirmadas por ainda ser muito pequenino.

O meu coração ficou do tamanho de uma ervilha ao ouvir essas palavras, tomei a decisão certa, mas não suporto a ideia de o meu bebé ter tido tantos problemas e ainda ser tão pequenino…

Dia 15 de outubro vou acender uma vela pelo meu bebé e será só mais uma noite em que vou chorar de saudades de já não o ter comigo. É um vazio que se sente e uma dor que nunca mais acaba. O que eu desejava agora era que só me acordassem quando tudo isto passasse…

Um beijinho de força para todas 

🤍