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Ana S

A minha aventura no mundo da maternidade começou há 11 anos, quando nasceu o meu príncipe Martim, um filho muito desejado por mim e pelo meu marido. Uma alegria e aprendizagem diária. Ao fim de quase 7 anos, decidimos voltar a ter outro filho, ou seja, em 2017 comecei na preparação para engravidar.

Os anos foram passando e nós sempre na luta, sempre a tentar realizar este sonho de família. Sim, porque o nosso filho Martim sempre desejou ter um mano, ou mana; para o Martim e para nós, pais, era exatamente igual.

Após quase 4 anos a tentar engravidar e já quase a perder a esperança- nunca quis nada pelos meios artificiais, tudo de forma natural – eis que em meados de fevereiro de 2021 comecei a andar muito mal disposta, enjoada, cansada, sem vontade para fazer nada, mas não suspeitei no imediato. Até que houve um dia que fui tomar um meu duche e senti dor ao tocar no meu peito e aí deu-me um clique e pensei: “Ui, eu já senti esta dor! Aí que eu estou grávida!”

Não comentei com ninguém, para não criar falsas esperanças. No dia a seguir, no dia 23 de fevereiro dirigi-me a um laboratório e fiz uma análise à urina, e aguardei ansiosamente pelo resultado, que chegou no final do dia por email. Claro, quando abri, fiquei a olhar uns minutos sem perceber muito bem o que estava escrito, mas estava clara a informação: Estava grávida!

Fiquei tão feliz, que partilhei logo com o marido e filho em conjunto na sala, foi uma alegria, gargalhadas. Estávamos em plena felicidade.

Comecei com as consultas de rotina, análises, ecografias e tudo corria bem.

Estávamos ansiosos para saber o sexo do bebé, mas nunca foi o mais importante para nós. O que desejávamos era que viesse com saúde e perfeitinho. No dia 10 de maio fiz uma eco simples com a minha obstetra e soubemos que era uma menina!! Seria a nossa Gabriela. 

Gabi, como já era carinhosamente tratada por nós cá de casa.

A barriga crescia a bom ritmo, e estava bem grandinha já. A Gabriela acompanhava o crescimento pois ela mexia-se bastante, não parava quieta.

Tudo corria bem, ou pelo menos eu achava que sim…

De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo.

No dia 14 de junho de 2021, fui realizar a 2ª Ecografia (Morfológica), estava eu com 22/23 semanas (6 meses) e fui acompanhada pelo meu filho Martim que disse que queria muito ver a mana.

Estivemos mais ou menos 1h30m lá dentro até que a minha obstetra pediu ao meu filho para sair e aguardar na sala de espera. Só por aí eu achei estranho, mas não percebi o que se estava a passar. Até que a médica me ajudou a levantar e agarrou nas minhas mãos e me disse que não tinha boas notícias para mim, só aí comecei logo a tremer e perguntei o que estava a passar, ao que a Drª me respondeu que a minha bebé tinha uma doença letal e rara e que tínhamos que decidir avançar ou interromper a gravidez.

Como assim interromper? Eu nem estava a acreditar naquilo que estava a ouvir!

De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo. Mas depois questionei a Drª, sobre o que estava a passar e o que é que eu podia fazer? Ao que ela me voltou a dizer o que já havia dito, que a minha bebé tinha uma Displasia Tanatofórica, ou seja, é uma doença letal, rara e que afeta a parte muscular toda. Mesmo que seguisse com a gravidez até ao final, após o nascimento, a minha bebé não ia sobreviver muito tempo e sem qualidade de vida. Ia sofrer e fazer sofrer!

Claro está, que naquele momento eu fiquei sem reação e chorei, chorei e chorei. Perante este cenário que eu estava a viver naquele consultório, a minha Gabi continuava a mexer-se dentro de mim como se estivesse tudo bem, mas não estava, mas ela não sabia, minha rica filha! Minha menina… 

A médica disse que eu e o meu marido tínhamos que tomar uma decisão e informá-la no dia seguinte. Pois, se fosse para interromper eu tinha que ir primeiro ao Centro de Diagnóstico Pré-Natal e a uma consulta de Genética para preparar o processo de interrupção.

Perante estas indicações da médica, eu já só queria sair daquele consultório. E saí! Cheguei à sala de espera onde o meu filho Martim esperava por mim ansiosamente e sem perceber nada do que estava a passar. Mas, como o meu filho me conhece muito bem e se preocupa comigo, assim que eu saio para fora e o chamei para irmos embora, o Martim percebeu logo que algo não estava bem, até viu no meu olhar que tinha estado a chorar. Claro, tanto insistiu que tive que lhe contar por alto, mas não entrei em pormenores.

Esta decisão (…) foi um ato de Amor. 

Quando chegamos a casa, já o meu marido tinha regressado do trabalho e olhou para mim e sentiu que eu não estava bem e perguntou-me logo como tinha corrido a ecografia, e eu comecei logo a chorar. Expliquei tudo direitinho e depois de ponderarmos bem, tomamos a decisão mais difícil das nossas vidas: Interromper a gravidez. 

Uma bebé tão desejada, após anos a tentar e quando finalmente conseguimos, o sonho vai assim… chorei muito, senti-me a pior pessoa do Mundo. Ainda demorei a aceitar esta decisão! Mas tinha que ser: esta decisão foi um ato de Amor. 

No dia 16 de junho de 2021, dirigi-me então à Maternidade Bissaya Barreto, acompanhada pelos meus pais, o meu marido não foi, por opção nossa, eu precisava que ele estivesse minimamente bem para à noite quando chegasse, ele me desse o apoio que ia precisar.

Claro está, quando chegamos à entrada da MBB pelas 9:00H eu entrei e os meus pais ficaram cá fora a aguardar. Foi uma espera infinita… Mal eu imaginava o que me esperava, ou seja, como se ia desenrolar todo aquele processo. Aguardei umas 2H até ir repetir a mesma Ecografia. Aquela que fiz na clínica e que deu o diagnóstico que não queria ter ouvido nunca.

Aconselhada pela minha obstetra, tinha que a repetir e ouvir uma 2ª opinião de outro médico, ou seja, médicos! Eram sempre bastantes à minha volta, assim como enfermeiras!

Pois bem, fui repetir a ecografia, estava deitada e à minha frente estava um grande ecrã, onde era possível eu ver a minha bebé: a minha Gabriela a mexer. Até que o médico, que estava a realizar o exame, se apercebeu que eu não estava bem, estava a tremer, e perguntou-me se queria que o ecrã fosse desligado. Eu disse que sim, sem hesitar! Sim, eu estava a ser “massacrada” por aquelas imagens da minha filha a mexer-se e eu a saber que “aquilo” ia ter um fim! Um fim que eu ainda não estava preparada! Mas há preparação possível?? Não há! Nunca!

No final da ecografia, fui a uma consulta de Genética, onde tinham já o relatório da ecografia a confirmar tudo o que havia sido dito na clínica. Estava confirmada uma Displasia Letal 1º grau e a característica principal era a cabeça em forma de trevo e toda a parte esquelética afetada, bem como alguns órgãos que iriam comprometer a boa saúde da minha filha, mesmo que seguisse com a gravidez até ao fim.

Nesta consulta, ainda questionaram se eu queria fazer o funeral, eu disse imediatamente que não. Não ia sujeitar a mim e à minha família a mais sofrimento, já bem bastava o sofrimento que estávamos a passar. Após a minha resposta, os médicos perguntaram se eu autorizava que eles fizessem a autópsia, ao que eu respondi que sim. Até porque eu queria respostas do porquê daquela doença, visto que o meu filho é perfeito, Graças a Deus.

Pedi esclarecimento sobre o processo de sepultar os bebés e explicaram que têm mecanismos próprios com toda a dignidade possível.

Em seguida, fui para outra sala, para retirarem líquido amniótico para ser analisado. No instante a seguir, voltaram a inserir a agulha e neste momento eu chorei bastante, mesmo. Porque esta agulha ia injetar um sedativo para parar o coração da minha menina, foi horrível o que senti naqueles minutos. Eu senti que era eu estava a dar permissão para que fizessem aquilo através da minha barriga, foi muito duro. Aos poucos fui deixando de sentir a minha filha a mexer. É muito triste, de verdade… Apesar de todo o meu sofrimento, eu estive sempre rodeada de médicos e enfermeiros a dar-me a mão e apoio, pois eu não podia ter ninguém da minha família comigo.

Com estes procedimentos todos, a manhã passou-se e a hora de almoço também e eram 15:30H quando saí para fora para ir almoçar. Quando saio, a minha mãe está lá fora à minha espera e eu agarrei-me logo a ela e desabei a chorar. Vinha com uma pressão enorme no meu peito por tudo o que me tinham feito lá dentro. Chorei bastante, estava a ser um dia difícil, mas era a preparação para o dia a seguinte, o internamento para o parto.

A seguir ao almoço, voltei à MBB para me serem feitas análises ao sangue e ainda teste ao Covid.

Vim para casa com os meus pais, vim a viagem toda em silêncio, com a minha barriga bem grandinha, mas sem vida. O facto de vir para casa com a minha bebé sem vida dentro de mim mexeu bastante com o meu psicológico!! 

No dia a seguir, 17 de junho 2021, lá fui eu novamente com os meus pais e o meu filho, desta vez quis ir acompanhar a mãe. Foi a viagem toda agarrado a mim. Quando chegamos à MBB, saí com a minha mala das roupas, o meu filho saiu, assim como os meus pais e agarraram-se a mim a chorar. O meu Martim só dizia que não queria que acontecesse nada de mal à mãe. Pela mana já não podíamos fazer nada, mas pela mãe sim. E eu entrei para a maternidade com a cara lavada em lágrimas.

Instalaram-me no quarto e começaram logo a introduzir comprimidos para induzir o parto. Fui para um quarto sozinha e lá estive até à hora do parto. O que mais me custou foi ouvir e ver mães na sala de partos a terem os seus bebés e a saírem com eles. Tive que pedir para fecharem a porta do quarto, pois já não aguentava ver, pois eu ia sair sem nada….

Após a segunda dose de comprimidos no útero, passado pouco tempo comecei a ter contrações no quarto e nem tive epidural nem nada para me aliviar as dores, foi aguentar e ponto.

Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.

Houve um momento que pedi a arrastadeira pois estava muito aflita para fazer chichi e a Enfermeira trouxe e depois saiu do quarto, assim que, eu relaxei para começar a urinar, a minha bebé começou a sair e eu dei um grito, pois estava sozinha no quarto, e vieram logo médicos e enfermeiros e tive que fazer mais força, para a minha filha sair por completo. Deram-me qualquer coisa para eu dormir, pois eu de manhã tinha dito que não queria ver a bebé, eu queria guardar na minha cabeça a imagem de como eu imaginava a minha filha e não a imagem que as ecografias revelaram. Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.

Neste dia, ao final da noite ainda tive alta, e o meu marido foi me buscar à MBB e, quando eu desci no elevador, com a mala que tinha levado com roupas, sem barriga e sem bebé, foi uma sensação avassaladora, terrível, um vazio…

As semanas seguintes foram complicadas, pois não conseguia sair à vontade de casa, com o medo das perguntas que as pessoas que iam fazer, mas lá tive que começar a sair e enfrentar os meus medos.

Os meus grandes apoios nesta fase foram os meus pais, marido e o meu filho Martim. Agarrei-me com todas as minhas forças à vida e pelo meu filho que precisa que a mãe esteja bem. Se eu estiver bem comigo, vou estar bem para qualquer pessoa.

Ninguém nos ensina a ser Mãe, assim como ninguém nos prepara para estas situações!

Já passaram 5 meses e às vezes paro e parece que tudo foi um pesadelo…

Acredito que a minha filha viveu 6 meses dentro de mim feliz e veio cá com um propósito que eu um dia irei perceber.

Por agora, resta-me olhar para o Céu comtemplar o meu Anjo da Guarda, Gabriela!

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Liliana

O nosso Lourenço.

Foi no dia 12.08.2021 que, numa consulta, soube que muito silenciosamente vivias dentro de mim. O teu coração batia e, agora consigo dizê-lo, foi naquele momento que te comecei a amar incondicionalmente.

Todas as ecografias, análises, consultas corriam bem, as semanas iam passando e tu cada vez davas mais sinais de ti, reagias aos estímulos dos doces sabores e acordavas-me por vezes bem cedinho com as tuas brincadeiras.

Cada dia que terminava era mais um, até que chegava à sexta-feira e era mais uma semana de vida cá dentro que o papá colocava no calendário.

A barriga cada vez maior e linda. Até que chegou o dia em que tudo parecia desabar…31.10.2021, 23 semanas e 2 dias, rompimento prematuro da membrana com perda do líquido amniótico. “O caso é muito sério”, dizia a médica na urgência gelada daquela Maternidade.

O meu mundo, o meu sonho, a minha vida parecia desabar. Internamento, doses e mais doses de medicação, análises e mais análises e tudo ruía a cada minuto, os valores da infeção aumentavam, o bebé não tinha líquido amniótico suficiente para continuar a desenvolver-se e eu estava em risco.

Era inevitável, tínhamos que interromper o que de melhor tínhamos conseguido, o meu mundo desabou, que dor, por mais que queira expressar por palavras, todas são insuficientes.

Como é que te ia arrancar desta tua casa, deste teu porto seguro, quando te sentia tão vivo, tão bem, o meu maior amor, o meu Lourenço.

04.11.2021, 16:30h, 590 gramas.

Senti tudo, a dor física de um parto normal, sem tempo para epidural, a dor no coração de uma mãe que, depois de tudo, saía daquela sala de parto sem nada. Onde te arrancaram de mim tão cedo e me deixaram um buraco vazio, uma dor insuportável e interminável, tal como as lágrimas que me escorrem desde então.

No dia da alta, descemos aquelas escadas sem nada, nós e a maior dor da nossa vida… Completamente sem norte, sem rumo…

A esperança no futuro é a única coisa que nos pode salvar, mas o medo de não conseguirmos uma nova luz por vezes passa e quebra-me.

Eu sentia-te tanto, conversávamos tanto, ouvíamos música, contava-te histórias, dava-te mimos. Juntos já tínhamos preparado algumas das tuas roupinhas, tínhamos tudo tão arrumadinho…

Um sonho interrompido e roubado e uma ligação para sempre…

Somos pais do Lourenço e ele viveu feliz e brincou dentro de mim e só conheceu Amor durante 23 semanas e 5 dias ❤️

Lourenço, o nosso anjinho da guarda 💫🤍

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Jeni

Em junho de 2021 descobri que estava grávida. Não quis acreditar. Parecia que estava num sonho.

Preparei toda uma surpresa para anunciar ao meu namorado. Saber que estava a gerar uma vida dentro de mim foi das melhores sensações que já tive. Senti-me tão viva.

Uma vez que isto era tudo novo para mim, pedi ajuda em como prosseguir daí para a frente. Marquei uma consulta de ginecologia para perceber se o embrião estava no sítio certo, de quanto tempo estava e se o coração batia.

Quando finalmente chegou a hora da consulta, lá fui. Estava tudo certo, o embrião estava no sítio certo, estava de 7 semanas (mais uns dias, menos uns dias) e consegui ouvir o coração a bater. Que som lindo. Que alívio.

Passaram-se mais umas semanas e marquei então a minha primeira ecografia obstétrica. Estávamos a 24 de julho quando fui então realizar a ecografia. Estava uma pilha de nervos, pois morria de medo que alguma coisa não estivesse bem. Chegou a hora, entro no consultório, a doutora explica-me o que se iria proceder e até aí tudo muito bem. Começou a fazer a ecografia e senti um silêncio que para mim não fazia sentido. Comecei a perceber que alguma coisa não estava bem. A doutora lança um suspiro e começa por dizer que o meu bebé apresenta um valor de Translucência Nucal elevado e que não estava a conseguir ver uma parte do coração mas que isso podia ser da posição do bebé ou pelo facto do coração ainda ser muito pequenino.

Neste momento, senti o chão a cair. Foi um balde de água fria.

Estamos habituados a ouvir que enquanto somos novas o risco de um bebé vir com algum problema é muito baixo. O que é certo é que com 24 anos e numa primeira gravidez, não esperava isto de todo. Chorei. Chorei muito. A doutora acalmou-me e explicou-me aquilo que a partir daquele momento seria o que eu deveria fazer: Biópsia das Vilosidades ou amniocentese.

Acho que nunca me tinha sentido tão perdida, tão confusa, tão sem saber o que fazer. Fui embora do consultório completamente destroçada e o pior foi tentar explicar ao meu namorado, que não pôde entrar comigo, tudo o que eu tinha ouvido. Contactei de imediato o meu médico de família para explicar a situação e ele fez-me uma carta para ir de urgência para o Hospital Público. Assim foi. Entro nas urgências de ginecologia e obstetrícia, na qual fui rapidamente chamada e aí conheci aquela que eu senti que iria ser a minha médica, a que eu queria que me acompanhasse até ao fim. Uma pessoa de uma empatia extrema.

Ela examinou-me e aconselhou-me a realizar uma biópsia das vilosidades, uma vez que estava entre as 11 e as 12 semanas, e que era o exame que mais rapidamente me iria dizer o que estava errado com o meu bebé. Passaram uns dias e chegou a data marcada para fazer a biópsia. Estava tão nervosa, tinha medo que alguma coisa pudesse correr mal, mas ao mesmo tempo descansada porque tinha sentido de imediato uma grande confiança naquela médica. Correu tudo bem. O exame realizou-se rapidamente e sem complicações e a recuperação também foi boa. Ao fim de uma semana iria receber o resultado rápido do exame onde me seria dito se o bebé tinha algum tipo de trissomia ou síndrome e ao fim de aproximadamente um mês vinha o resultado mais detalhado.

Passou-se uma semana e recebo uma chamada do Hospital a dizer que não tinha sido detectado nenhuma trissomia, mas que sim, havia uma alteração com o bebé. Fomos chamados para ir pessoalmente ao hospital para que a médica nos dissesse qual seria então a alteração. Lá fomos.

Ficámos a saber que era uma menina e tinha síndrome de Turner. Uma alteração no cromossoma sexual feminino e que é sobretudo um problema hormonal.

Em Portugal, não é possível interromper a gravidez numa situação destas, pois é uma síndrome que tem tratamento. Se bem que também não era algo que fossemos fazer num caso desses. Recebemos a notícia, interiorizamos e aceitamos. A nossa filha vinha e nós íamos aceitá-la independentemente se tinha Síndrome de Turner ou não.

Ao fim de um mês recebemos então o resultado detalhado no qual não tinha sido diagnosticado mais nenhuma malformação genética na minha filha. Às 18 semanas ia ter então uma nova ecografia obstétrica com a minha médica. Desta vez eu estava mais calma, já sabia qual era o problema e sentia-me confiante que o resto estaria bem, que já tínhamos tido a nossa dose de stress.

Estava enganada. Estava tudo mal. Quando a minha médica começou a fazer a ecografia houve novamente um grande silêncio. Silêncio demais. Percebi que, afinal, algo mais não estaria bem. Diz-me que o coração não estava normal. Senti-me novamente sem chão. Um balde de água gelada, um choque.

Ouvir que aquele bebé, tão desejado, tão querido por nós, não vai aguentar, foi das piores coisas que já ouvi. Ninguém está preparado para ouvir que o nosso filho não vai sobreviver. Faz-nos duvidar de tudo, de nós, do nosso corpo, da nossa fé. 

Tive de interromper a minha gravidez às 19 semanas e 4 dias. Fui internada no dia do aniversário do meu namorado, senti as piores dores da minha vida. Fisicamente e psicologicamente.

Não sei como uma mulher consegue suportar tal dor. Até hoje, não sei como consegui sobreviver àquele que foi para mim o pior dia da minha vida. Foi dar à luz um bebé que não vinha para o meu colo, que fazia parte de mim, mas que não era mais nosso.

Apesar de ter tido o privilégio de poder ter o meu namorado comigo naquele dia, num quarto em que estávamos só os dois, nunca me senti tão sozinha, tão esquecida por Deus. 

No dia seguinte após a interrupção uma equipa diferente veio-me visitar e ver se estava tudo bem e se tinham ficado restos dentro de mim. Verificaram que tinham ficado alguns resíduos e perguntaram-me se eu queria continuar internada ou se queria ir para casa onde tinha de fazer medicação para que o corpo expulsasse os restos. Eu só queria sair dali, precisava de sair dali. Optei por fazer a medicação em casa e disseram-me para regressar ao fim de uma semana. Assim foi.

Regressei para a consulta e desta vez seria com a médica que me tinha acompanhado até então. Os resíduos não tinham saído, pelo que tiveram de me tirar na hora. Estava cansada. Não suportava mais todo aquele inferno. Só queria que aquilo acabasse.

A médica mandou-me regressar ao fim de dois dias para verificar novamente se já estava mesmo tudo bem. Ao fim de dois dias regressei, ela verificou e finalmente ouvi as palavras que tinha saído tudo e que estava limpo, tinha acabado.

Só aí senti que finalmente este pesadelo ia acabar. Acabava fisicamente, mas continuava psicologicamente. 

Senti que precisava de recomeçar, precisava de me encontrar. Foi-me oferecido apoio psicológico no hospital, mas eu optei por procurar apoio fora do hospital. Aquele sítio dá-me ansiedade. 

Neste momento, estou a ter acompanhamento psicológico e estou-me a encontrar. Estou aos poucos a recuperar força em todos os sentidos.

Algo que me ajudou muito também, foi procurar páginas onde eu pudesse ler outros testemunhos e sentir-me abraçada por outras mulheres que também já passaram por isto. 

Um abraço apertadinho a todas nós. Somos fortes!

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Vanessa

Decido escrever a minha história com algum medo, mas com coragem. Existem vários tipos de perda, a que não controlamos e aquela em que temos a difícil tarefa de decidir. Desta última pouco se fala, pois é tão susceptível de julgamentos. Mas acreditem, o maior julgamento é aquele que fazemos a nós próprias. Mas tem de ser falado, e acima de tudo tem de ser compreendido. 

A minha história é composta por um aborto espontâneo, o nascimento do meu bebé arco-íris, e mais recentemente uma interrupção médica da gravidez.

Em finais de 2018, pela primeira vez, um teste positivo de gravidez! Um bebé planeado e muito desejado. Por motivos profissionais tinha de avisar logo no trabalho pelo que pensei: “se os meus colegas iriam saber da minha gravidez, claro que também vou contar à minha família!”. Longe de saber que algo poderia correr mal, o que poderia correr mal? nada! bem, não foi bem assim. Fui uma em quatro. Às seis semanas de gestação comecei com hemorragias, uma ida às urgências em que pude ouvir (pela última vez) o bater do coração do meu filho, mas que nada se podia fazer além de ir para casa em repouso. Mais dois dias com hemorragias até que fui com o meu Obstetra e em que já não havia nada… Um vazio. Foi um choque muito grande. Por ingenuidade, ignorância, e até por tabu da sociedade a questão do aborto espontâneo não é/era uma coisa que se falasse abertamente, até que depois do que me aconteceu comecei a ouvir de pessoas próximas “a mim também já me aconteceu”, “acontece muitas vezes”. Mas diz-se baixinho, porque lá está, não são assuntos para se estar a falar. Tantas de nós sofremos em silêncio, que não conseguimos homenagear e falar sobre um ser que tanto amamos mas que só conheceu o bater do nosso coração. 

Consegui engravidar alguns meses depois e 2019 foi um ano mágico, o ano do nascimento do meu bebé lindo, do meu Henrique, que me enche de orgulho de ser Mãe. Tive uma gravidez calma, sem mal-estar, com muita confiança mas com receio, claro. Mas infelizmente certas palavras que ouvimos marcam-nos, e nunca me vou esquecer de no meio de tanta felicidade pelo meu bebé arco-íris alguém me dizer: “vê lá se agora tens cuidado!”… 

Entramos aqui num caminho que é tão difícil de lidar, se por um lado precisamos de falar sobre o vazio que sentimos quando perdemos um filho repentinamente, até que ponto não é falado para nos protegermos a nós próprias? O caminho só nós próprias o podemos fazer, o luto é nosso e do companheiro, mas a solidão torna-o numa luta que no meio de tanta dor pode tornar-se difícil de ultrapassar. Mas ultrapassamos.

Assim, depois do meu bebé arco-íris existe outra história nesta minha história que por ser tão recente ainda me dói, e que sei que me vai acompanhar por toda a minha vida. Um poder que nunca quis ter nem pensei em ter, que é o poder da decisão. A vida é feita de decisões, isso todas sabemos, mas a decisão que é feita para a Vida, ou não, é algo que é tão intenso quando destruidor. Mas não podemos deixar que nos destrua, porque sabemos que foi uma decisão de Amor.

Neste ano de 2021, em junho, teste positivo de gravidez! Bebé pensado mas não propriamente planeado, mas que no meio do receio o amor e entusiasmo ia crescendo a cada dia que passava. Na ecografia do primeiro trimestre o Obstetra revelou algo que não contávamos, um valor que não estava em conformidade, que ultrapassava ligeiramente o valor expectável. A amniocentese tinha de ser realizada. O tempo de espera até poder ser realizada a amniocentese e o tempo que leva a saber resultados cria um turbilhão de sentimentos tão ambíguos quanto contraditórios: é a esperança versus o desespero, a certeza de que está tudo bem mas… e se? e se? não pode ser! A ansiedade cresce de uma forma que esgota, cansa, desgasta. Quer seja uma semana, quer seja um mês, nada nos prepara para quando ouvimos “não temos boas notícias”.  Alteração do cariótipo, Trissomia. Por termos esperado algum tempo pelos resultados já tínhamos uma decisão, mas que não deixa de ser a decisão mais difícil da nossa vida. Decidimos a interrupção médica da gravidez. Não interrupção voluntária, médica. Apesar das alterações cromossómicas serem compatíveis com a vida, existirá qualidade de vida? Todos queremos qualidade de vida para os nossos filhos, queremos felicidade, autonomia para quando não existirmos no mundo, e saúde acima de tudo, mas… e quando isso não é possível? somos egoístas por não arcarmos com as consequências de dar continuidade à vida ou hipócritas por acharmos que poupamos a uma vida de sofrimento? Ou seremos altruístas por decidirmos sermos nós a sofrer sem um filho para ele não sofrer?

Às 21 semanas e 4 dias conheci e despedi-me do meu filho, tive um parto em que só ouvi o meu choro e um vazio tão grande. Tive o meu bebé nos meus braços, toquei na sua linda cara e mãos perfeitas e pedi-lhe desculpa… desculpa-nos João Eduardo, perdoa-me meu filho…

Este meu testemunho está cheio de reflexões, de dor e dúvidas mas que sei que vou superar. Desengane-se quem desvaloriza o poder de uma decisão, desengane-se quem acha que é de ânimo leve. A perda gestacional também pode ser feita através de uma decisão, também é válida e traz muita dor. A mim dá-me alento a seguinte frase: “Amar um filho é querer o melhor para ele, mesmo que o melhor seja não o ter”. Que ajude a apaziguar alguém, e que ajude na compreensão do que é incompreensível para muitos.

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Sílvia M.

Comecei a tentar engravidar precisamente há 3 anos. Depois de muitos negativos, frustrações e angústias que todas as “tentantes” passam, consegui finalmente o meu positivo em julho deste ano, 2021.

Já estava grávida de 7 semanas quando descobri a minha gravidez. Foi o melhor dia da minha vida, chorei durante 2 horas agarrada ao teste de gravidez sem acreditar que era finalmente o meu positivo e eu estava grávida, grávida!

O meu sonho tinha-se tornando finalmente realidade e eu já só pensava na alegria que isso nos ia trazer.

Sempre fui uma pessoa muito ansiosa e não suportava a ideia de esperar até às 12 semanas para ter a certeza que estava tudo bem com o meu bebé, então fiz 2 ecografias no privado que sempre se confirmou que estava tudo bem e o meu bebé era saudável. Um dia antes de fazer a primeira ecografia, uma amiga minha que é enfermeira fez-me uma ecografia em 4D. Dava para ver que o meu bebé era bem mexido, e o coração dele batia como o som mais bonito que ouvi em toda a minha vida. O narizinho era igual ao meu e eu fiquei super orgulhosa de saber que pelo menos nisso, que se ia parecer a mim.

Estava tão feliz; dizia-lhe bom dia todas as manhãs, pedia-lhe desculpa se fazia algum movimento brusco sem querer, estávamos a preparar o quarto dele e o armário já se preenchia de roupinhas tão lindas e todas organizadas prontas para o dia da sua chegada…

Mas no dia 6 de setembro tudo mudou, assim, literalmente da noite para o dia, fiquei sem chão.

Foi o dia da primeira ecografia, e eu percebi logo pela cara do médico que alguma coisa se passava, mas estava com tanto medo de ouvir a resposta que simplesmente me submeti ao silêncio. Tudo isto começou muito mal a nível psicológico. O médico era muito bruto a fazer-me a ecografia, fazia-me imensa força na barriga e depois de eu me queixar, ele responde “é que nas magras é mais fácil. Temos que fazer vaginal, tire lá a roupa”, mandou sair o meu marido do consultório e ficamos só eu, o médico e a enfermeira. Ele disse “estou a ver aqui um valor muito alto que não me está a agradar nada. Nível de transluscência nucal de 7,12 valores” ao qual a enfermeira respondeu com voz de espanto “7???” E eu aí percebi que realmente alguma coisa se estava a passar e perguntei o que isso queria dizer, as últimas palavras que eu ouvi foi “quer dizer que o feto tem seguramente problemas cardíacos graves ou problemas de cromossomas, como trissomias…” Eu parei, olhei para o chão e só pensava “o meu bebé. O meu filho. O meu sonho. Ainda ontem estava tudo bem. Como é possível?” Ele abriu a porta do consultório como se me estivesse a despachar e o meu marido que estava à minha espera do lado de fora, ao ver-me naquele estado, perguntou o que se tinha passado e o médico só respondeu “antes de vir fazer a amniocentese passe nas urgências e certifique-se que o coração ainda bate, porque se não bater escusa de fazer a viagem”. Eu não respondi, o meu marido só perguntava o que se estava a passar e eu só lhe pedi para me tirar dali rapidamente e me levar para casa.

Chorei compulsivamente desde que saí daquele consultório até chegar a casa, foram 2h de viagem.

Só pensava no que ia dizer à minha família, aos nossos amigos, como era possível que aquilo estivesse acontecer, como é que Deus me tinha traído desta maneira, porquê nós? Era tão desejado, era o nosso sonho e estavam a rouba-lo de nós…

Liguei à minha médica a contar o que se passou e tinha consulta na quarta-feira (isto passou-se segunda feira). Essas horas, até à consulta, foram angustiantes; eu não dormia, não comia, chorava, as pessoas mais próximas já sabiam e tive que chegar ao ponto de desligar o telemóvel para conseguir pensar, pôr os pés na terra e tomar a decisão mais difícil da minha vida.

Eu sabia o que tinha de fazer, mas nunca nada na minha vida me doeu tanto.

Eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba

No dia da consulta com a minha médica ela confirmou que realmente o valor era demasiado alto e era impossível que o bebé estivesse bem formado e sim, corria o risco de a gravidez não avançar…Ali, naquele momento, depois de ouvir aquelas palavras, depois de ter pensado durante horas completamente em branco, tomei a decisão de interromper a gravidez e não esperar pela amniocentese.

Estava cheia de medo do que me iam fazer, medo do desconhecido, e esperar pela amniocentese eram mais 2 semanas de angústia, depois outras 2 para saber o resultado e aí eu já estaria de 16 semanas e seria muito mais difícil a nível emocional e físico passar por tudo isso. Não quis adiar mais e avancei.

Nesse mesmo dia fiquei internada e começaram a induzir-me o aborto. Meteram-me num quarto onde eu ouvia choros de bebés acabados de nascer, mães a entrar em trabalho de parto e no corredor deparava-me com mães de braços cheios de amor e sonhos realizados, enfermeiras carinhosas a falar com aqueles bebés como eu já sonhava falar com o meu, pais sentados ao lado das camas das mães a compartilhar os primeiros momentos, as primeiras horas de vida dos seus filhos.

Literalmente, eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba.

A primeira tentativa de aborto falhou.  E a médica disse “o coração ainda bate e o bebé está-se a mexer, ouça” e eu só pensava “eu não acredito nisto…” Eu estava em desespero total. A médica queria recusar-se a fazer nova tentativa de aborto, levantou a voz a falar comigo quando lhe disse pela milésima vez e quase a implorar que a minha decisão tinha sido interromper a gravidez e que por favor acabasse com aquele sofrimento para eu ir para casa! Depois de conversar comigo e com o meu marido sobre a nossa decisão, contra a vontade dela, lá disse ao enfermeiro “pronto, se é isso que querem… podes fazer “, nunca mais a vi, não voltou ao meu quarto, passou por mim no corredor como se não me conhecesse.

Durante 24h fiquei sozinha naquele quarto, como que abandonada à minha sorte e com visitas de 3 em 3h de enfermeiras diferentes que me iam metendo comprimidos pela vagina para provocar o aborto. Lembro-me que já tinham passado horas e nada de sinais de aborto e eu meti a mão na minha barriga e disse “perdoa-me e vai em paz. Estou a fazer isto porque te amo e vou amar-te sempre e jamais me perdoaria de te trazer ao mundo para sofreres. És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito” e assim me despedi do meu bebé pela última vez, horas depois comecei a sangrar bastante, sem dores, mas muito sangue.

Apesar de estar num sofrimento inexplicável, sentia-me aliviada, até que faço uma nova ecografia e ainda não tinha resultado, o meu bebé ainda estava lá… Estive 3 dias no hospital completamente abandonada, desamparada, e os médicos pareciam que estavam a jogar ao jogo da batata quente para ninguém tomar finalmente uma atitude!

No meu maior momento de desespero, embora chateada com Deus, confesso, comecei a rezar e pedi-lhe por tudo para me tirar daquele sofrimento porque eu só queria ir pra casa, rezei e chorei como nunca, até que sem contar, ao fim da noite apareceu o meu anjo da guarda. Abriu a porta e disse “já está cansada de estar aqui não já? Venha, eu vou cuidar de si” e eu já estava tão traumatizada que fui a medo sem saber o que ia acontecer desta vez, já que não estava a ser nada fácil.

O médico fez-me a ecografia e disse que já tinha começado a entrar em trabalho de parto, estava no começo do aborto. E eu perguntei se ainda havia batimentos e ele olhou para mim e embora lhe pudesse só ver os olhos, e ele não tenha dito uma única palavra, eu percebi que a resposta era sim, mas ele não me queria magoar ainda mais e foi aí que eu percebi que finalmente estava bem entregue e ele ia cuidar de mim, tal como prometera e ele foi o meu anjo da guarda.

Meteu-me a soro durante 1h, um comprimido vaginal, voltámos a ecografia e definitivamente o meu corpo já estava a libertar o meu bebé. O médico tirou-me o saco gestacional e restos que ficaram sem anestesia, eu não sei onde fui buscar tanta coragem e tanta força para passar por isso a sangue frio, mas a verdade é que a única dor que eu sentia era no coração.

Ele foi tão paciente, tão compreensivo, tão meigo, tão humano, que eu não senti nada para além de uma contração ou outra… E no fim, demos um abraço e eu só lhe conseguia dizer “obrigada” vezes sem conta e disse-lhe “você foi o meu anjo da guarda”. No dia seguinte fui para casa.

És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito!

Já passou 1 mês desde que eu perdi o meu bebé. Não me arrependo da decisão que tomei. Foi um ato de amor. Por amar tanto esse ser pequenino que eu nem cheguei a conhecer, é que o deixei partir.

Na minha vida tive dois grandes atos de coragem, a primeira foi amar um ser que não conheci e a segunda foi deixá-lo partir para não vê-lo sofrer.

Não tem sido fácil, ainda não tenho o útero 100% limpo e estamos à espera que a menstruação desça para limpar os restos que faltam, em último caso tenho de fazer raspagem, o que me sossega é que estou a ser acompanhada pelo meu anjo da guarda, esse médico que já me disse mais do que uma vez que não me ia abandonar.

Mas a dor que sinto, o aperto constante no peito, a angústia, o medo traumatizante de tudo que vivi naquele hospital não sei quando vai passar, não sei quando vou ter coragem de voltar a lutar pelo meu sonho de ser mãe, estou cansada psicologicamente, muito cansada.

Estou muito triste. Ainda me perguntam se é menino ou menina, ainda há quem me dê os parabéns pela gravidez, ainda há quem me olhe para a barriga…

Está a ser uma luta constante diária e já pedi ajuda psicológica porque assumi que não sou capaz de passar por isto sozinha.

Se o meu testemunho ajudar alguém a não sentir-se sozinha, como eu me sentia até horas atrás antes de descobrir está página, já fico contente, porque eu fartei-me de procurar testemunhos naquela cama de hospital e não encontrei nada onde me pudesse agarrar.

Neste último domingo, dia 10 de outubro, no dia em que fez 1 mês, o médico confirmou-me, pela autópsia que fizeram ao meu filho (sempre achei que era um menino, embora nunca venha a saber…), que ele tinha problemas renais, trissomia 21 e uma nuca muito alta mais uma série de patologias não confirmadas por ainda ser muito pequenino.

O meu coração ficou do tamanho de uma ervilha ao ouvir essas palavras, tomei a decisão certa, mas não suporto a ideia de o meu bebé ter tido tantos problemas e ainda ser tão pequenino…

Dia 15 de outubro vou acender uma vela pelo meu bebé e será só mais uma noite em que vou chorar de saudades de já não o ter comigo. É um vazio que se sente e uma dor que nunca mais acaba. O que eu desejava agora era que só me acordassem quando tudo isto passasse…

Um beijinho de força para todas 

🤍
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Márcia S.

Em dezembro de 2020, eu e o Papá tomámos a decisão de, em janeiro de 2021, procurarmos ajuda para conseguirmos o nosso tão desejado bebé que, durante 10 anos não tínhamos conseguido.

E a vida, em janeiro de 2021, acabou por nos presentear com uma bebé, quando nós mesmos já tínhamos perdido a esperança…estava grávida de 4 semanas.

Foi uma emoção tão grande! No meio de tantos negativos, aquele positivo foi um misto de sensações que não soubemos controlar.

Para que tudo corresse bem, procurámos as melhores clínicas de Portugal para realizar todos os exames, no qual todos estavam bem e a correr dentro da normalidade.

Dois dias após perder a minha avó (que era mais que minha mãe), realizei a primeira ecografia mais profunda onde se iria saber o sexo da bebé e ver se estava tudo OK. Foi impedida a entrada de acompanhantes.

Foi detetada uma translucência nucal muito elevada e a menina estava muito inchada, ao qual a médica me disse, sem problemas “A bebé não vai sobreviver, pode morrer a qualquer momento “…

Seguiu-se uma série de exames e ecografias, tal como a biópsia das vilosidades, que não detetou nada…a menina era, aparentemente, saudável.

Chegando às 21 semanas, nas últimas ecografias que realizei, a médica informou-me que a menina tinha uma hérnia diafragmática congénita, problemas cardíacos graves e estômago colapsado. O mais certo era a menina morrer ainda na barriga… mas, caso não acontecesse, acabaria por morrer numa das operações que iria ter que realizar à nascença.

Informaram-me que o melhor seria interromper a gravidez…Não quis acreditar que a vida me iria tirar o chão!

Tinha acabado de perder a minha avó e iria ter que acabar por perder a bebé que me deu força naquela partida tão dura.

A Benedita era a bebé mais desejada deste mundo. Tanto eu, como o Papá dela, a desejávamos com todo o nosso coração.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida

A Benedita já tinha o quartinho pronto e mais roupa que os Papás, que reviraram o mundo e percorreram em 6 meses mais médicos diferentes que em 6 gravidezes normais juntas.

A Benedita esteve 21 semanas e 3 dias dentro de mim. Permitiu-me ser mãe, realizou-me um sonho, mesmo tendo-me tornado mãe de colo vazio. A Benedita deixou-me senti-la durante horas, logo após as 17 semanas; não deixava dormir a Mamã e acalmava sempre que sentia o Papá.

Tinha o narizinho e os pés do Papá e adorava dormir toda enroladinha como a Mamã.

A vida é de facto injusta, e comigo tem sido avassaladora desde sempre. Quem diria que eu, que desde pequenina que sonhava com esta menina, iria ter que passar um processo destes tão doloroso. Eu, que me agarrei à esperança de que ela estivesse em crescimento e fosse apenas teimosa como a Mamã.

Tive que ter o acto de coragem mais difícil de toda a minha vida, por ela, para que não sofresse.

Passei pelo meu primeiro parto, sozinha, 4 dias num hospital, devido à pandemia “mais devastadora” do momento. Senti-a encostada às minhas pernas, grandinha e quentinha.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida.

O mais fácil é sempre dizer : “ És nova, terás outro! ” … A questão não está em ter outro, a questão está em ter sido uma bebé tão desejada durante anos.

Ninguém sabe, para além de mim e do Papá dela, o quão difícil foi aquele primeiro positivo, que nem sabíamos como reagir de tão felizes que estávamos.

O medo permanecerá sempre. E a saudade também.

E se há coisa que me faz sentir perto da minha filha, é estar abraçada ao Papá dela.

A Benedita será sempre o meu anjinho mais bonito do céu. Tudo acontece por uma razão…O meu arco-íris há-de chegar… Mas a Benedita fará sempre parte das conversas do dia-a-dia cá de casa! E será das maiores luzes na nossa vida, como o tem sido até agora, desde a sua partida para longe de nós!

Benedita, 06-05-2021 / 12h55

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Inês S.

Senti necessidade de escrever sobre a minha grande perda. Está quase a fazer 6 anos, e este ano está a ser difícil. Estou a relembrar-me de tudo, e parece que estou a viver tudo novamente. 

Estava grávida, tinha acabado de completar 18 anos há pouquinhos meses, estava tão feliz. Levantei-me calmamente, mas eufórica. 

Era só mais uma ecografia, (na realidade não era mais uma eco, era o dia em que ia descobrir o sexo do bebé) mas naquele dia não estava com aquele brilho nos olhos.  Parece que estava com algum pressentimento. “São coisas da tua cabeça” pensava eu.Depois de mais uma hora de espera, entrei no gabinete. Deitei-me na maca, o médico foi falando durante a eco. Apontado medidas, até que me diz “é um menino.”

O sorriso apoderou-se da minha face, até que de repente oiço um “está tudo bem, mas temos de ir ao hospital ver aqui um problema”. Ao sair do gabinete, o obstetra disse à secretária para desmarcar as próximas ecos. Achei estranho, mas não desconfiei. O médico dirigiu-se comigo ao hospital (era à frente da clínica). Fez a minha ficha, e entrou para ir falar com um dos colegas de serviço.

Passados poucos minutos, que mais pareceram uma eternidade, chamaram-me. Deitei-me na maca.  O médico colocou gel na minha barriga, e começou a fazer a eco. O colega de serviço disse para o outro “É sem dúvida o que mais temias.” Eu sem perceber nada, sem respostas de nada! O “meu obstetra” sai e entra com vários estagiários. 

Eu estava imóvel, com a cabeça cheia de perguntas, até que oiço: “Veem como o diafragma não fechou? Os órgãos subiram”. Continuei a questionar, até que acabaram a eco. Vesti-me e sentei-me. Deram-me um copo de água. “O seu feto tem uma hérnia diafragmática. É grave, e tem de ir já para o Hospital da Estefânia, para ser vista por um cirurgião pediátrico e outro obstetra”. Aquelas palavras na minha cabeça não fizeram sentido. Não percebi o significado.

Desloquei-me ao Hospital D. Estefânia. Fui muito bem recebida, aconselharam a fazer uma amniocentese para se perceber o que se passava, se havia mais alguma anomalia e uma ressonância magnética. 
No fim da amniocentese, uma médica obstetra disse-me “Não vale a pena fazer repouso”. Foi nesse momento que percebi seriamente que algo não estava bem.

Esperei alguns minutos, e um cirurgião pediátrico veio falar comigo. Explicou-me a gravidade da situação, e que com base nos exames, só havia 10% de probabilidades do bebé sobreviver. Aquelas palavras doeram bastante. São palavras que nenhuma grávida quer ouvir. Pareciam que me estavam a tirar o meu filho. O bebé que eu sempre quis! Fui para casa, com a condição de voltar passados 2 dias com uma decisão tomada. 

No dia seguinte, comecei a perder líquido e, com medo ser líquido amniótico, desloquei-me ao Hospital. Expliquei ao médico que me atendeu o que se estava a passar, e ele confirmou com a eco a gravidade da situação, e disse que eu já não ia para casa. Fui internada por suspeita de rutura de bolsa. Foi uma noite tão difícil, lembro-me que estive a chorar até adormecer. Tomei a decisão de interromper a gravidez, tinha 23 semanas e uns dias. Foi-me explicado que seria preciso assinaturas de 3 médicos para ser legal interromper a gravidez. Esperei 4 dias, até terem as assinaturas. Comecei então o processo de interrupção. Deitei-me numa maca, enquanto um outro obstetra me fez uma eco, e disse-me ” esta injeção vai parar o coração do bebé.”

As lágrimas escorriam-me. Estava a perder o bebé que eu sonhei. O meu bebé! Não era o bebé de ninguém, era o meu bebé!

Passados uns terríveis minutos, o médico que me tinha dado a injeção voltou-se para duas estagiárias que estavam na sala e disse: “Sabem o que têm de pensar? É que este feto não tem viabilidade, mas naquela sala (apontado para o bloco de partos) estão ali vidas. Estão ali bebés para nascer.”

Fui para o quarto preparando-me para o início do processo. Foram-me colocados 3 comprimidos vaginais. Colocados à bruta. Passaram horas e horas, e sem sinais evidentes de parto. Mais 3 comprimidos vaginais. No dia seguinte, como não haviam sinais, foram colocados mais 3 comprimidos vaginais. E oxitocina na veia. Comecei a sentir dores, não sabia que seriam contrações. Toquei à campainha, expliquei a uma enfermeira que me disse que era mesmo assim, e que ainda ia demorar. Olhei ao relógio, eram 16:31h. Deixei de ver, não conseguia sentir. Estava péssima. Até que me deu uma dor tão forte, que só me deu tempo de agarrar à cama e apertar as barras de ferro. Fiz uma força enorme, força que eu nem sabia que tinha, e saiu. O meu bebé saiu dentro de mim. A enfermeira apareceu com os meus gritos, e disse-me muito nervosa “não te mexas que eu volto já”. Tentei não me mexer. Entrou no quarto a enfermeira, e outra colega. Tinham na mão um balde amarelo e instrumentos médicos que eu nem sei o que eram. Fechei os olhos, e escolhi não ver. Hoje arrependo-me, arrependo-me de não ter visto o meu bebé! Foi assim que nasceu a minha estrelinha, o meu príncipe. 

Poucos minutos depois, entra no quarto o médico com um papel para eu assinar e explica-me que é melhor fazermos uma autópsia, e deu-me um grande abraço. Aquele abraço soube-me tão bem! Eu estava tão frágil, acabada de fazer 18 anos, sem conhecer nada da vida, e a perder o meu filho. Tive alta no dia seguinte, com uma frase do médico: “um raio não caí duas vezes no mesmo sítio”. Essa frase entrou-me na cabeça e ainda hoje me lembro. Foram tempos muito difíceis, chorei tanto. Sentia que tinha perdido uma metade de mim.

O meu Kévin nasceu às 16:46h do dia 26 de Junho de 2015, com 497g e 24 semanas. Com uma hérnia diafragmática esquerda e outros problemas confirmados pela autópsia.

Passaram quase 6 anos. Nesses 6 anos, tive duas princesas lindas e saudáveis, mas não vieram substituir o meu menino. E sei que um dia vou voltar a reencontrá-lo. Porque nunca foi um Adeus, foi sempre um Até Já! ❤

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Marta N.

Depois de 2 anos a tentar engravidar, e já em consultas de PMA (infertilidade), engravidei naturalmente. Soubemos em novembro de 2020, estávamos mega felizes…

Tudo correu bem até à segunda ecografia, em que a médica me diz (devido à pandemia, estava sozinha) que o bebé tinha uma malformação muito grave…

Mandou entrar o meu marido, também lhe explicou o que passava, e marcou-nos consulta para uns dias mais tarde, onde iríamos decidir o que fazer. Disse-nos para até lá irmos pensando.

Ficamos completamente desnorteados, o mundo caiu-nos em cima.  Tínhamos em mãos a pior das decisões para tomar, tirar a vida ao nosso bebé, era um rapaz…depois da decisão, foram mais uns dias até fazer a interrupção, porque até nestas situações a burocracia impera, e esses só foram os piores dias da minha vida.

Era um bebé perfeito

Continuar a ter dentro de mim um bebé, que sabia ia ficar sem ele, um bebé com vida, que eu lhe ia tirar…

E no dia 14 de março de 2021, nasceu o nosso bebé sem vida, uma vida que fomos nós que decidimos terminar, mas que no fundo sabemos que foi o melhor.

Era um bebé perfeito (decidimos que o queríamos conhecer), não fosse ter “espinha bífida aberta”.

E no fim de tudo isto, fica uma dor enorme…. não há dia que não pense, não há dia que não me lembre, e tenho a certeza que será eternamente assim, porque não há maior dor, do que a de perder um filho…. 

Um beijinho do tamanho do mundo e um xi-coração apertado.

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Marta

Olá, tenho 41 anos e em 2015 fiquei grávida do meu segundo filho… um bebé muito desejado e planeado tal como o meu primeiro filhote, na altura com 5 anos, que queria tanto um irmão.

Tudo corria bem até à ecografia das 20 semanas em que se descobriu que o meu bebé tinha uma malformação nos rins.

Parou de crescer! A médica que me seguia entrou em contacto comigo para a notícia mais triste da minha vida…teria de interromper a gravidez porque a gravidez não era viável e muito provavelmente nem chegaria ao fim. Tive uma médica que, apesar do sofrimento do momento, fez tudo para que fosse um processo rápido: entre a consulta, autorização, o parto e a alta hospitalar, foram 5 dias.

Foi um momento muito difícil, muito sofrimento e um psicológico muito afetado…não vi o meu menino por opção e só soube que era um menino quando “nasceu”. Tive alta hospitalar no dia em que o meu filhote mais velho completava 5 anos! O mais difícil foi explicar a uma criança de 5 anos que já não havia mais um irmão: agora era a nossa estrelinha! Ao final de 2 dias voltei novamente ao hospital…os meus peitos inchados, cheios de leite para dar e não ter a quem…é uma tristeza e um vazio enorme. Nunca tive apoio psicológico.

Apesar de me faltar um pedaço de mim… o meu menino, eu consigo ser feliz.

Ao final de 1 mês recebi o relatório médico onde se confirmava a malformação nos rins… não foi nada genético, apenas obra da natureza. Mas não desisti e, passado 5 meses, voltei a engravidar, uma gravidez normal mas com alguma ansiedade…aí veio a minha bebé arco-íris.

Uma menina linda e saudável que tem agora 4 anos. Apesar de me faltar um pedaço de mim…o meu menino, eu consigo ser feliz.

Nunca vou esquecer, ainda hoje por vezes choro a minha perda…era parte de mim!

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Rita

Pilar – A nossa história

Rita, mãe do Dinis, da Laurinha e da Pilar

A nossa família começou em 14.02.2014, quando inesperadamente eu e o pai descobrimos que o Dinis vinha a caminho. Depois do choque inicial, instalou-se aquele sentimento bom de que se ia realizar um sonho, há muito esperado.

Sempre fui uma grávida muito consciente, soube sempre que coisas más acontecem e sobretudo na primeira gravidez, tive sempre algum receio. A 03.11.2014 nasceu o Dinis e eu tornei-me mãe. Soube desde o primeiro momento que o meu coração era dele e que tinha nascido para isto. Aliás disse logo ao pai que sabia que não ficaríamos por ali. Na realidade, o nosso desejo sempre foram os três filhos, mas ouvimos sempre relatos de quem acaba por desistir, porque isto não é fácil.

O primeiro ano de vida do nosso Dinis foi muito desgastante e difícil, e nada cor-de-rosa, como toda a gente fazia parecer. No entanto, perseveramos e em 2017 engravidei novamente. Foi uma gravidez tranquila q.b., com alguns sobressaltos já no fim, mas senti-me muito mais descontraída. E foi então que em 03.01.2018 nasceu a Laurinha. A menina que eu não sabia que queria ter, porque sempre me imaginei mãe de três rapazes.

Foram anos complicados com duas crianças pequeninas, mas justamente quando começava tudo a acalmar, decidimos avançar com o nosso sonho e completar a nossa família. Foi assim que planeamos ter o nosso terceiro bebé. E claro que se tudo correu bem até agora, porque seria diferente?

Soubemos que era uma menina e ficamos felicíssimos. A Pilar vinha a caminho.

Tivemos os mesmos cuidados que das outras gravidezes, fomos acompanhados pela mesma obstetra e fizemos inclusivamente um seguro para ter a bebé no privado. Como da última vez o parto foi um pouco atribulado, decidimos procurar uma alternativa. Certo é que o sítio de onde “fugi”, foi onde fui encontrar todas as respostas. Ironias da vida…

Tudo corria lindamente e tinha uma barriga muito grande que exibia com orgulho. Soubemos que era uma menina e ficamos felicíssimos. A Pilar vinha a caminho.

Por voltas das 28 semanas, a nossa obstetra reparou que existia uma coisa mínima no coração e quis descartar qualquer situação, só mesmo por prevenção. Assim sendo, encaminhou-nos para um ecocardiograma fetal. Lá confirmaram que efetivamente existia algum “bloqueio”, mas que poderia estar associado a algum alimento que estivesse a consumir em demasia. Eu sempre soube que não era de nenhum alimento e nesse mesmo dia “deixei de respirar”. Eu sabia que algo se passava. Ficou acordado repetir o exame passadas duas semanas. A minha Obstetra decidiu antecipar a ecografia do 3º trimestre para eu ficar mais descansada. Lembro-me que saí de casa feliz da vida, afinal ia ver a minha querida menina. Esse dia mudou a minha vida para sempre.

Quando iniciei a ecografia, comecei logo a achar que algo não estava bem. A minha obstetra estava muito calada e media e revia tudo, vezes sem conta. Às tantas diz me que algo não se estava a desenvolver como era esperado no cérebro da bebé! Eu fiquei em choque, como assim no cérebro? Não era no coração? A Obstetra foi rever os resultados da 2ª ecografia para ver se se tinha enganado em alguma coisa. Tentou ver a menina em 4D para ver se existia alguma anomalia visível, mas não, era linda a nossa Pilar. De repente eu desatei a chorar e a minha Obstetra de mão dada a mim, não conseguia esconder o seu desespero. Depois disso, já só me lembro de chamarem o Pai para me ir buscar e seguir para o Hospital. Só tive tempo de ir a casa, preparar as coisas e despedir-me dos meninos. Nunca até à data os tinha deixado e custou me mesmo muito. Ficaram com a minha mãe que cuidou deles com todo o amor, sem nunca demonstrar o sofrimento horrível que passava ao ver a sua “menina”, única filha, a sofrer desta maneira.

Seguimos para o hospital e em poucos minutos chegou o diagnóstico: aneurisma da veia de Galeno e insuficiência cardíaca severa. É uma condição extremamente rara e com um prognóstico extremamente reservado. Aprendi mais tarde, com horas e horas de estudo, que muitas vezes só é detetado no nascimento. Seguiram-se momentos em que nos traçaram os piores cenários possíveis, mas eu segui forte.

Jamais iria interromper a gravidez. Ficamos internadas e o nosso caso foi a referenciação nacional. Foram contactados hospitais no estrangeiro e eu, nós, estávamos dispostos a tudo para salvar a nossa filha. A partir do momento em que entrei naquele hospital, posso dizer que entrei em modo de sobrevivência. Eu não pensava em mais nada que não fosse fazer o possível e o impossível pela nossa filha. Dia após dia a ouvir os piores cenários e sempre firme e forte. Toda a nossa esperança se depositava em alguém se predispusesse a operar a nossa menina. Ela mantinha-se estável e ativa. A nossa menina lutou com uma guerreira, ela queria viver. Dias depois chegou o veredicto: “a única opção que nos deram foi tentar mantê-la viva até aos 6 meses e depois operar”.

Como assim tentar mantê-la viva? Este ser gerado do amor, o nosso bebé, ia deixar o quentinho da minha barriga para a tentar manter viva? Sem existir qualquer perspetiva de que se conseguisse recuperar? Sem saber se poderia brincar com os irmãos? Vir ao mundo para ficar no hospital ligada às máquinas por 6 meses, no melhor cenário possível, sem sabermos sequer se conseguiria suportar a cirurgia e se correria bem? Mas que raio de solução é essa? Eu sou licenciada em Direito e dos primeiros conceitos que aprendemos quando entramos na Universidade é o conceito da “dignidade da pessoa humana”. Quando ouvi estas palavras, os meus instintos começaram a gritar e luzes vermelhas acenderam-se, isto não é DIGNO para um ser tão amado e desejado.

A minha vontade era fazer tudo o que pudesse para a ter ao pé de mim, mesmo que o desfecho fosse o pior possível, como me diziam. Mas que tipo de mãe seria eu? Seria um ato extremamente egoísta da minha parte. E assim depois de dois dias completamente isolada no quarto do hospital, só com visitas esporádicas do pai, porque se plantava à porta do hospital e lá o deixavam entrar, devido ao caso que era, decidi que iríamos interromper a gravidez. No dia em que tomamos essa decisão senti-me destroçada por dentro e sabia que essa decisão me iria destruir para o resto da vida, mas a outra opção também não seria capaz de suportar. Tomei a minha decisão e comuniquei como queria que tudo se processasse, caso contrário pedia alta e ia procurar um local que me desse dignidade, a mim e a minha filha.

Que me sinto eternamente grata por me teres escolhido para tua mãe e que um dia voltaremos a estar juntas.

Felizmente cumpriram com tudo e assim no dia 02.06.2020 a Pilar partiu dentro do quentinho da minha barriga, a ouvir somente o bater do meu coração destroçado por a perder. No dia 03.06.2020, mais uma vez o dia 03 como os irmãos, a Pilar “nasceu”, e eu completamente “dopada” tive a secreta esperança de a ouvir chorar. Mas nada, só silêncio. Naquele dia a Pilar deixou a minha barriga e eu abandonei o lado da maternidade em mim. Fiz uma laqueação. Não podia conceber voltar a passar por uma experiência daquelas.

Momentos depois, aconteceu o nosso primeiro encontro, única altura durante toda este processo em que tive alguma paz, a Pilar conheceu o calor do nosso colo e o nosso amor por ela. Peguei na nossa menina e só pude pedir desculpa, por não a ter conseguido salvar. Nesse momento a “Rita” que existia, desapareceu e nunca mais vai voltar. Parte de mim partiu com ela. Mas o AMOR, esse continua aqui no meu peito e nunca, jamais irá desaparecer. Amo-a com todas as minhas forças e é nela e nos irmãos que vou buscar força para me levantar todos os dias e seguir.

Quero muito que eles se orgulhem de mim. Como podem ver lá por ser a terceira viagem ninguém está livre de um desfecho destes. Ouvi constantemente no hospital a pergunta: “É o primeiro?” e tive de responder sempre: “é a terceira!”. Como se isso diminuísse o meu sofrimento. Depois de sair do internamento, passei, e ainda passo, momentos muito duros. Há muitos dias em que o “escuro” volta e me quer engolir, mas tento valorizar os dias bons.

Muitas vezes me pergunto como vou viver com esta dor no meu peito, com este vazio que nunca nada vai preencher, com esta saudade que nunca cessa. Não sei, só sei que vou falar sempre em ti meu amor. Que me sinto eternamente grata por me teres escolhido para tua mãe e que um dia voltaremos a estar juntas. Vou falar sempre em ti, todos os dias da minha vida, e em mim viverás para sempre. Esta é a nossa história minha princesa e é sobre AMOR, RESILIÊNCIA, RESPEITO e DIGNIDADE.

Amo-te muito minha doce menina!