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Goreti

Estive grávida 5 vezes. Na primeira gravidez (2012,) o sonho durou apenas às 7 semanas. A segunda gravidez teve sucesso. Embora tenha tido ameaça de aborto com perdas de sangue às 6 semanas, com repouso e progesterona, chegamos às 41 semanas. Nasceu então a minha bebé arco- íris a 7 de janeiro de 2014.

A terceira gravidez (2019) tive um aborto espontâneo às 10 semanas. O choque foi ainda maior do que da primeira perda. Primeiro, porque sempre pensei que era só fazer a medicação e ia correr tudo bem, nunca pensei que ia correr mal. E depois também porque já tinha dito à minha filha que carregava um bebé na minha barriga.

Foi um turbilhão de emoções enorme. Saí do hospital sem qualquer apoio. O meu ginecologista, na revisão, passadas 5 semanas, só me soube dizer que podia tentar de novo, quando o que eu esperava ouvir era “vamos fazer exames” porque o meu coração me dizia que algo se passava. Perdia sempre sangue às 6 semanas e era sempre com o mesma intensidade. Mas, como não ouvi isso, saí porta fora sem tão pouco dizer que era isso que eu pretendia.

Na consulta da médica de família o discurso foi: “ainda bem que o seu corpo eliminou, é sinal que está a fazer bem o trabalho dele, porque quando há estas perdas é porque há um defeito do óvulo ou do embrião.” Eu aí ainda disse que na gravidez anterior tinha perdido sangue com as mesmas semanas, nasceu e é perfeita e saudável e que o melhor era vermos porque tinha de haver uma justificação”. Não mandou fazer nada porque, segundo o protocolo, só se investiga após a 3ª perda consecutiva.

Fiz uma pausa. Uma colega recomendou falar com uma pessoa que talvez me ajudasse a encontrar um médico que investigasse e assim foi. Arranjei uma consulta no Porto e o tal médico disse que apenas em 5% dos casos se descobrem as causas. Fizemos o cariótipo do casal, estava tudo ok, eu fiz mais análises que estavam todas dentro do normal. Então o médico recomendou que, numa futura gravidez, fizesse aspirina, assim como progesterona e foi descoberto que tenho o útero bicórneo.

Uma vez que as análises estavam todas ok e o Porto fica longe de Viseu, onde vivo, comecei de novo a sondar as pessoas; quem as acompanhou, etc., pois queria tentar um médico por cá, que concordasse com o que o do Porto me mandou fazer e aceitasse acompanhar-me numa futura gravidez. Uma senhora, minha conhecida, recomendou-me o seu médico e, pelo relato dela, a minha intuição disse “marca consulta”. Fui a essa consulta, o médico concordou com a recomendação do médico do Porto e teve interesse em ver os exames todos desde que quis ser mãe. Olhou para eles como nenhum outro tinha olhado. Os que não tinha comigo enviei depois.

Finalmente, em finais de 2020, senti-me preparada para tentar de novo mas desta vez com muito receio. No início de 2021 descubro a minha quarta gravidez. Mal descubro que estou grávida, uma colega fica contaminada com covid-19. Eu vim logo para casa por prevenção, mas passado 10 dias os sintomas aparecem e testo positivo. Passadas 2 semanas tenho aborto espontâneo…

Na consulta após o aborto, o médico disse que, apesar eu ter antecedentes, quer acreditar que este aborto esteja relacionado com a covid. A sugestão que me deu foi fazer mais um par de análises e, se tudo estiver bem, tentar novamente sabendo que corro o risco de ter novo aborto espontâneo ou, então, avançar para a correção do útero. Aí, teria de aguardar mais tempo, mas que a escolha seria minha. Ele faria o que eu optasse.

Ele disse que se eu não tivesse uma gravidez com sucesso, ou este aborto não tivesse coincidido com o facto de eu ter estado infetada com covid -9, nem me dava a escolher – a opção seria avançar para a correção. Mais uma vez sigo a minha intuição, que me dizia “faz as análises e acredita”, e assim foi. Fiz mais exames a nível particular; sempre, pois nunca tive apoio a nível do SNS. Mal envio o resultado por e-mail, o médico responde: finalmente encontramos o que tanto procuramos, a “causa”. Tenho uma trombofilia. A minha é défice de proteína S.

Marquei então consulta para entender um pouco melhor do que se tratava, e então o médico disse logo que mal engravidasse teria de fazer injeções lovenox, às quais dei o nome “piquinhas de amor”.

Em Outubro de 2021, descubro que estou grávida e iniciei logo as injeções. Tive uma gravidez maravilhosa, com as coisas normais de qualquer gravidez.

No final começou a reduzir o líquido e o meu médico decidiu, muito bem, provocar o parto. Digo muito bem porque depois me disseram que a placenta tinha um hematoma. Os outros médicos sempre disseram que estava tudo ok, enquanto o meu (anjo na terra) dizia “vou apertar a vigilância, vamos ver se aguentamos até as 37 semanas”.

Aguentamos e sinto que a minha filha esta cá graças a ele e à minha insistência.

3 comentários a “Goreti”

Adorei lêr a histórica..,verdadeira,mas não deixa de o ser.
Soube de alguns,falamos várias vezes e tiveste sempre força e Fé.
Que alegria,quando soube que estavas grávida,graças a tua resiliência e empenho do médico.
Parabéns

Olá Jéssica, o médico da Goreti (ela já partilhou noutro sítio, daí estarmos a dar a resposta) é o Dr Nogueira Martins. Ele está em Viseu e partilha o consultório com o pai, do mesmo nome, por isso, peça pelo filho. Boa sorte!

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