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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

Faz-me todo o sentido enviar esta mensagem hoje, 18 de Setembro, dia que faz precisamente 2 meses que fiz a intervenção cirúrgica mais difícil da minha vida: a da interrupção seletiva de um dos meus gémeos.


No nosso caso, após a transferência de um embrião, ele dividiu, fomos surpreendidos com o facto do Universo nos dar em dobro o nosso maior desejo, mas, rapidamente, percebemos que esse segundo feto não estava bem: tinha vários problemas. O mundo caiu, foram semanas de ansiedade, porque não era totalmente garantido que o gémeo saudável conseguisse ultrapassar essa intervenção.

Não duvidamos por um momento que era o que tinha que ser feito: foi um ato de amor por ele que não tinha condições fora do útero, mas ainda não compreendemos o porquê de nos ter acontecido.

O nosso bebé surpresa tinha um nome, é o Gonçalo. Não há um dia que não me lembre dele e irei vê-lo para sempre no irmão.

Espero que ele saiba que o que fizemos foi por bem, foi por amor e que nunca o iremos esquecer.

Quero acreditar que um dia ele voltará para nós.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

No dia 7 de Dezembro fui ao hospital fazer um exame regular do papanicolau e a enfermeira perguntou-me, antes de fazer o exame, se eu poderia estar grávida. Nós tínhamos tentado umas vezes e o meu período não tinha vindo no mês passado, mas eu tinha feito um teste em casa e era negativo. Ela pediu-me para fazer outro teste antes do exame “just in case”. Eu aceitei sabendo que o resultado seria negativo. 15 minutos depois o resultado mostrou ser positivo e eu fiquei em choque.

Era um bebé planeado e desejado mas, sendo a primeira gravidez, há sempre aquele misto de felicidade, medo, expectativa, euforia.

Eu estava grávida de 6 semanas e, até às 21 semanas, nunca houve nada de errado com exames. Apenas queríamos que o bebé fosse saudável e não queríamos saber o sexo do bebé até ao parto. O meu exame dos cromossomas das 12 semanas revelou que eu tinha apenas 1 chance em 9000 em o bebé ter trissomia 21 ou Síndrome de Edwards. No exame de morfologia, em Março, confirmou-se que o nosso bebé era esse caso em 9000.

A 9 de Março de 2021, tive a consulta de morfologia com um scan que revelou que o bebé tinha um  “buraco” no coração e lábio leporino. Levaram-nos para um quarto pequeno, onde só havia um sofá, uma mesinha com lenços de papel, ao que o meu parceiro disse logo “este é o quarto das más notícias” e até ouvir da boca da enfermeira eu não queria acreditar. Pediram-nos para voltar outra vez na sexta 12 de Março para um teste com uma especialista de problemas cardiovasculares de bebés dentro da barriga. Nesse exame, ligaram o som do coração pela primeira vez e, porque o foco da consulta era perceber o que se passava com o coração, não me avisaram que iam ligar o som que eu nunca tinha ouvido. Foi a primeira e última vez que o ouvi. Depois da consulta e outra vez numa sala de más notícias, a médica explicou-nos que o problema com o coração por si só não era raro, mas associado ao lábio leporino, céu da boca rasgado e algo anormal no cérebro, o diagnóstico não era animador.  

Foram-me dadas 3 escolhas:

  • 1) espero mais umas semanas e faço o exame da amniocentese para saber mais sobre este diagnóstico;
  • 2) Levo a gravidez até ao fim e o bebé pode ou não sobreviver ao parto mas se sobreviver, certamente vai ter uma qualidade e esperança de vida muito limitada;
  • 3) termino a gravidez imediatamente com ajuda médica.

Foi a decisão mais rápida e mais difícil que tomei na minha vida. Os dias que se seguiram foram uma espécie de pesadelo. Naquela sexta feira tomei o primeiro comprimido para parar as hormonas da gravidez e no domingo dei entrada no hospital às 4 da tarde. Às 7 da tarde tomei o primeiro comprimido de 5 para provocar o parto e, durante horas, estive numa luta com o meu corpo porque este teimava em dizer à ciência que não era a hora.

A Rita Leonor nasceu as 12h30pm no dia 15 de Março e não sobreviveu ao parto, como era de esperar. Ficamos a saber que tínhamos uma filha e como não tínhamos preparado nada, nem nome, decidimos na hora dar-lhe o nome das nossas avós que já tinham falecido. Felizmente, há gente maravilhosa neste mundo, e as parteiras foram anjos e trouxeram cobertores e roupas que outros anjos tinham tricotado para famílias nesta situação impensável. Eu não queria ver a bebé inicialmente mas ainda bem que tive um momento de clareza e tivemos o nosso tempo para segurar a bebé e estarmos com ela sozinhos. Mostramos-lhe a nossa música favorita, tiramos fotos e dissemos adeus.

De volta a casa de braços vazios, foi tempo de recuperar e esperar pela notícia que o corpo estava preparado para o funeral depois de todos os exames feitos. O funeral foi dia 1 de Abril com apenas o meu parceiro e os pais dele. Seguiram-se meses de espera para o resultado dos exames e a confirmação de que a Rita Leonor tinha a síndrome de Edwards e que não sobreviveria ao parto. Seguiram-se meses de incerteza na relação, um luto tão diferente para mim e o meu parceiro, um abismo que se abriu entre os dois e que só o diálogo e a paciência cimentou a ponte entre os dois e reduziu a distância.

Hoje, ano e meio depois, estou grávida de novo, mas sem a expectativa da primeira vez. Há uma cautela enorme, um quase não querer sequer falar sobre para não “agoirar” ou não me apegar a este sonho de novo.

Esperamos ansiosamente pela ecografia das 20 semanas para podermos respirar sabendo que nada, nunca nada é garantido. 

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

O meu nome é Flávia e realizei uma interrupção médica da gravidez a 17 de Novembro de 2017 por uma má formação. 

Foi diagnosticada uma deficiência congénita em ambos os membros superiores, designada por mão torta radial nível 4, ou seja, o grau pior pois os ossos não formaram: os ossos que iriam sustentar os polegares de ambas as mãos simplesmente não existiam.

Às 18 semanas de gravidez, na ecografia que descobri que era um rapaz, também descobri que teria uma deficiência para o resto da vida. Ir ao céu e ao inferno em poucos segundos é bem possível e foi o que vivenciei naquela sala.

Consultamos um dos melhores ortopedista pediátricos que foi muito claro: se nascer, irá passar a vida em cirurgias e nunca poderá ser autónomo.

Naquela altura eu só não queria ser responsável por colocar um filho num mundo tão mal preparado para aceitar pessoas com deficiências e, muito menos, ver sofrimento nos olhos de um filho um dia mais tarde.

Ao pesquisar sobre interrupção médica da gravidez, a única coisa que aparece é procedimentos legais e muito poucas mulheres a falarem realmente o que acontece ou o que sentiram. 

Na altura foi muito doloroso e o hábito de olhar para a barriga parou. O hábito de estar sempre a tocar e tentar perceber onde estava dentro da barriga passou a não se fazer. Os espelhos, de um momento para o outro, tornaram-se objectos dolorosos, tomar banho virou um sofrimento e o trocar de roupa fazia-se sem olhar para baixo. Doeu perceber que os gestos que me traziam felicidade passaram a ser sofrimento. E quando tinha que sair à rua e, aleatóriamente, deparava-me com grávidas e bebés, fazia com que as lágrimas começassem a escorrer do nada, de forma automática. O isolamento era cada vez maior, dentro da minha própria casa. 

Tomar a decisão e assinar aquele papel a dizer que queria interromper a gravidez naquela altura era como se tivesse a assinar um papel para matar o meu filho. E o período de reflexão que é obrigatório foi terrível. Até hoje a pergunta mantém-se: será que foi o certo?! 

Os olhares de pena dos médicos e dos auxiliares, em conjunto com as palavras “muita força” ou “vocês ainda são novos”, eram ouvidos com um misto de compreensão e raiva ao mesmo tempo, se é que isso é possível, mas com um sentimento de gratidão por cada uma das pessoas envolvidas no processo, claro. Os três comprimidos para parar o processo hormonal da gravidez foram tomados e cada um que tomava, naquele consultório, sentia um pontada no coração e uma parte de mim morria ali. Era o início do luto de alguém que estava dentro de mim. 

Até hoje a pergunta mantém-se: será que foi o certo?

O procedimento era ter um parto normal, de forma a possibilitar ter filhos futuramente e, fazendo juz a um parto normal, o meu durou 25 horas com a diferença que o meu filho já nasceu sem vida. Não há nada que doa mais do que ver um filho nascer sem vida e ainda em fase de desenvolvimento. Doeu ver, doeu sentir.

Passar pela dor física e psicológica de provocar um parto a uma mulher que não vai ter o seu filho vivo é das sensações mais dolorosas que se pode passar. Deveria haver um método mais rápido e que não doesse tanto. Chorei, chorei muito, apenas não queria que fosse assim ou não era suposto ser assim.

Na manhã seguinte a ser internada, tive a visita de um médico que deu ordem para me darem um antibiótico para acelerar o processo pois já chegava de sofrer….e acelerou! 

E, sem epidurais nem qualquer outra anestesia, pois só tivemos tempo de chamar a enfermeira, o meu filho nasceu, morto, às 12h45 do dia 17 de Novembro de 2017, no quarto 412 do hospital do SAMS e o pior de tudo foi vê-lo.

Doeu todo o processo, desde a descoberta até sair do hospital sem o meu filho nos braços e dói, até hoje, e acho que irá doer sempre! É um buraco no coração e na alma que nunca mais ficará sarado. Uma mãe nunca deveria perder um filho pois esse acontecimento modifica-te para sempre.

Hoje, passados 5 anos, quando fecho os olhos, é como se tivesse sido ontem e acho que irá perdurar até ao resto da minha vida. Felizmente já tive o meu bebé arco-íris saudável, mas foi uma gravidez vivida com muito medo de ouvir uma notícia terrível. Graças a Deus nasceu um bebé forte e saudável, que já conta com 19 meses e, neste momento, estou à espera de outro menino que ainda está a fermentar na barriga, que já conta com 33 semanas. O incrível, ou talvez não, é que irá nascer exactamente no mês que eu perdi o meu primeiro filho; Novembro. 

E sim, digo a todas as pessoas que sou mãe de três filhos, um deles é um anjo que está no céu a olhar pelos irmãos 

Partilho o meu testemunho porque acho muito importante falar, e aconselho a todas as mulheres que perdem os seus bebés que falem e procurem ajuda – eu não o fiz na altura,por achar que iria conseguir lidar com a situação, e existem feridas que se mantêm abertas até hoje por causa disso. 

Obrigada pela oportunidade de dar o meu testemunho.

Um grande beijo,

Flávia

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Testemunhos Testemunhos Perda Precoce

O meu Agosto, veio sem gosto.

No dia 2 ia fazer a tão desejada ecografia das 12 semanas. O nervoso miudinho acompanhou-me o dia todo, só queria saber como estava o meu bebé. Por fim, chegaram as 19h e lá entramos nós para a tão aguardada consulta. Começou a ecografia; com as máscaras só vemos a expressão dos olhos e a expressão que o médico fazia era cada vez menos acolhedora.

Comecei, sozinha, a entrar no meu próprio buraco, sem perceber o que se estava a passar. Até que o médico disse, em tom frio, “o vosso bebé tem uma malformação e pode vir a ter algum tipo de trissomia”.

As lágrimas começaram a cair pelo rosto inevitavelmente. O médico, que era pouco conversador, apenas disse que na quinta-feira a seguir, dia 4 de Agosto, queria repetir a ecografia.

Saímos o consultório, estive 1h sem conseguir falar, só chorei, chorei. Não sei como consegui trazer o carro sozinha até casa…foi uma viagem longa. Na quarta-feira ia em trabalho para o Alentejo. Não sei como me aguentei durante esse dia. A cabeça não parava de pensar no pior e com a réstia de esperança de que no dia seguinte o médico fosse dizer “foi um erro, está tudo bem”.

Finalmente chegou a quinta-feira, a repetição da ecografia, e a minha esperança foi por água abaixo: o diagnóstico confirmou-se.

O bebé tinha problemas, a translucência nucal era maior que o normal, ausência da cavidade nasal, o coração não batia normalmente.

Desde a consulta, as conversas giravam em torno do mesmo, e “se o bebé tem realmente um problema?”; ” o que fazemos?”; ” aguentamos ter um bebé especial na nossa vida?”

O pesadelo mantinha-se, fomos encaminhados para uma consulta em Santarém onde nos iriam explicar e fazer a amniocentese.

Foram dias tão, mas tão longos. Dias a pensar em tudo e em nada, dias a chorar, dias a pensar ” porquê a mim?” e ” porquê a nós?”. Chegou o dia da consulta em Santarém, ainda há médicas simpáticas capaz de explicar, acalmar e responder às nossas perguntas de forma tranquila. A amniocentense ficou marcada para dia 25 de Agosto (dia dos meus anos, havia lá pontaria melhor).

Desde a consulta, as conversas giravam em torno do mesmo: e “se o bebé tem realmente um problema?”; ” o que fazemos?”; ” aguentamos ter um bebé especial na nossa vida?”. Todos os cenários estiveram em cima da mesa.

Contamos à nossa família e amigos mais próximos, pois todo o apoio era bem-vindo e nós precisávamos disso mais que nunca. Todos
os dias começaram a ser demasiado angustiantes: o medo de ir à casa de banho, o medo de tudo e um amor a crescer dentro de mim e a ficar cada vez mais forte.

No dia 21 de Agosto, às 8h da manhã quando fui à casa de banho, o medo intensificou-se quando, no papel, encontrei sangue. Voamos para o hospital.

Com 14 semanas e 7 dias fomos de imediato encaminhados para o piso da obstetrícia. A partir daí, fui sozinha, porque o pai não pode acompanhar a mãe nestas situações (ridículo, porque é quando precisamos de mais apoio). Na triagem a enfermeira fez perguntas, mediu a tensão e pediu para esperar pela médica. A médica chamou-me e lá vou eu de novo, sozinha, fazer uma ecografia.

Quando a médica disse, a agarrar-me a mão, “o seu bebé parou”, senti-me a cair ainda mais fundo e a bater no chão. A partir deste momento era seguir as normas, para estes casos, mais uma vez sozinha, sem o
apoio incondicional do pai e do homem mais incrível que podia ter a meu lado.

Saí do consultório, lavada em lágrimas, e na sala de espera tive de dar a pior notícia, ao homem que também ia ser pai. A enfermeira veio ao pé de nós e explicou o que ia acontecer, mas que ele, que também perdera um filho , naquele momento não podia acompanhar. Segui para dentro depois de um abraço bem forte e apertado.

Deitada naquela maca da sala de parto número 5, com enfermeiras e auxiliares incríveis, que explicaram tudo as vezes necessárias,
começamos então o processo: 3 comprimidos vaginais para induzir o parto, soro e sem me levantar durante 1h30. Essa hora foi tão dura, ali deitada, sozinha, com uma fralda quase maior que eu, caramba.

Começou o desconforto dentro de mim, chamei a enfermeira para me
dar a medicação para acalmar aquele desconforto.


Nesse momento e depois de comer uma gelatina, perguntei se já podia ir à casa de banho. Com isto tudo já era 13h30 e parecia que a cada minuto estava com cada vez mais cólicas. Eu, novata nesta situação, não percebi que poderiam ser contrações. Fui à casa de banho, na sanita tinha de meter uma arrastadeira, foi neste momento que tudo aconteceu…demasiado sangue no xixi e um feto a querer sair. Foi duro ver aquilo, chamei de imediato a enfermeira que me levou de volta ao quarto e, juntamente com mais duas enfermeiras, enquanto uma me dava a mão as outras retiravam, aquele que iria ser o meu amor maior.

Desde as 10h30 até às 14h todo um processo doloroso, fisicamente, psicologicamente e emocionalmente. Depois de tudo, fui repetir a ecografia, foi rápido, segundo a médica e estava tudo limpinho. Quando regressei ao quarto, estava o meu maridão à minha espera (antes de tudo começar a enfermeira disse que o podia chamar), e ali esteve ele comigo, toda a tarde até me darem alta, mesmo sem ser permitido, mas eu precisava dele e ele de mim. Tive alta nessa mesma tarde, as 19h, só queria vir para casa.

Neste momento já passaram quase 15 dias, estou de baixa, durante 30 dias. Posso dizer que estes dias têm sido um misto de emoções, dias em que apetece rir e sair, dias em que apetece estar sossegada e a chorar. Já pensei em voltar ao trabalho para ocupar a cabeça, mas não sei se tenho força para tal. Vou ficar, por enquanto, aqui a fazer o meu luto, deste que ia ser o meu amor para a vida toda.

Nestas alturas, vemos quem são os verdadeiros amigos, os amigos que são família e que mesmo quando estamos no chão, eles sentam-se connosco e fazem a festa.

Um Agosto triste, que nunca vou esquecer. Quis o meu anjinho que no dia dos meus anos não passasse pela amniocentese, por isso acelerou o processo e não obrigou os pais a tomar aquela que iria ser a pior decisão.

Vais ser sempre o nosso anjinho bom.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez Testemunhos Perda Tardia

Hoje foi o dia em que decidi escrever para ti, sobre ti, sobre este amor imenso que deixaste na minha vida e no meu coração.

Fizeste-me feliz, fizeste-me sentir linda, como já não me sentia há muito tempo. Obrigado, meu Amor. Obrigado por estes meses tão intensos, carregados de esperança, de magia e de união!

Faz hoje 5 dias que nos separaram. Pensam eles que foi para sempre mas, para sempre, vai ser a tua presença na minha vida e no meu coração.

A dor de te deixar ir, de ter que escolher deixar-te ir, está a ser o golpe mais duro e a batalha mais cruel que alguma vez enfrentei…

No dia em que soubemos que os resultados eram os que mais temíamos, ficámos sem chão…Contínuo sem chão e com um colo à tua espera, meu Amor!!!

Nunca pensei que a minha alma doesse tanto como no dia em que tive que assinar aquele maldito papel, em que abria mão de ti, de te sentir a crescer dentro do meu ventre cada vez mais…

Sair de uma sala de partos sem alguém nos braços e de coração ainda mais vazio, é a maior dor que alguma vez senti. 

Perdoa-me, se te amo demais e por isso escolhi deixar-te partir, perdoa-me por agora sentir a dor de apenas ouvir e saber que só bate um coração em mim: o meu e não o NOSSO!

Que vazio, que revolta, que raiva, que injustiça, que crueldade imensa, que dor, Meu Filho!

Perdoa-me, porque ainda não consigo fazer as pazes com a vida.

Neste momento, só peço ao universo que me dê forças para seguir em frente e que me ajude a abrir novos caminhos, para que possa seguir um rumo e uma razão de ser.

Agradeço, a cada minuto, a oportunidade que me deram de te poder conhecer, sentir, tocar, pegar na tua mão e ver com os olhos, aquilo que vi com o coração desde o dia em que soube que te carregava dentro do meu ser.

Agradeço-te a Ti, por me teres escolhido como casa, por me teres feito sentir tão feliz e por me teres escolhido, Tua Mãe!

Obrigado meu anjo, obrigado por seres o primeiro a perceber, mesmo antes de mim, que a nossa escolha foi por um amor imenso a Ti.

As poucas pessoas que souberam da tua existência (não porque não queria que soubessem, mas apenas para te proteger) e que agora sabem o que aconteceu, dizem que agora tenho um anjinho no céu… acho que esta afirmação nunca fez tanto sentido. Tenho um anjinho sim, mas não no céu e sim no meu coração, para sempre!

Obrigado meu amor. Obrigado por estes meses tão intensos, carregados de esperança, de magia e de união!

Só eu sei o quanto ansiei por poder gritar e mostrar ao mundo que existias dentro de mim, que na minha barriga crescia mais um amor da minha vida… só eu sei o que senti por não o conseguir fazer, porque a vida, mais uma vez, nos trocou as voltas e pediu que fizéssemos a escolha mais cruel de todas.

Vivi e partilhei neste tempo, cada momento contigo…

Tomara que sintas o orgulho que tenho em ser tua mãe para sempre. O orgulho por ser tua casa e o teu aconchego, tomara que sintas a mesma vaidade que senti cada vez que alguém reparava que a minha barriga estava maior e a importância que sentia por me darem um simples lugar no autocarro. Sabia que nesse momento, todos sabiam que estavas ali, dentro de mim e isso enchia-me o coração de orgulho.

Que feliz que fui em ter sido a tua casa, meu amor, obrigada!

Agora que posso, que nada me impede, agora que te posso proteger para sempre, apetece-me partilhar este nosso momento; breve mas interminável. Este amor só nosso ao mundo para que todos saibam que fui e serei para sempre a tua mãe!

A ti, nosso amor, brilha e não me esqueças nunca!!!

O que resta, fica só para nós…

Amo-te,

Mãe

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Partimos para uma segunda gravidez, na esperança inocente de tudo correr bem outra vez.

Grande felicidade: estava grávida de gémeos!

Tudo a correr lindamente até à ecografia morfológica. Naquele dia, tinha ecografia no público de manhã e ecografia no privado de tarde, calhou assim. Por essa razão, fui sozinha à ecografia da manhã porque o meu marido viria comigo de tarde.

Alguns minutos depois de começar o exame, soube logo, não sei como, mas soube logo que algo não estava bem.

Passaram uns 20 minutos e ganhei coragem de perguntar à médica, que me disse para aguardar até ao final do exame, mas que as notícias não eram boas.

Comecei a tremer, sozinha. Só queria ter o meu marido comigo ali, como é que fui para ali sozinha?

Terminou o exame, e mesmo antes de chamar uma colega para confirmar o diagnóstico, a médica disse-me que se fosse uma gravidez única seria para terminar já.

Amniocentese a cada um dos bebés, opinião de mais dois médicos e dois ecocardiogramas fetais. Um menino com Síndrome de hipoplasia do coração esquerdo e uma menina aparentemente saudável.

Desde as 21 até às 32 o meu bebé cresceu, sentenciado, para dar oportunidade à irmã. E a culpa…

O procedimento de fecticídio selectivo foi mau, muito mau. 3 dias de tentativas, 5 buracos na minha barriga, cada picada horrivelmente dolorosa, uma preocupação gigante da agulha atingir a menina.

Pude pegar ao colo o meu filho, dar-lhe um beijo, despedir-me dele e tirar-lhe uma fotografia.

Quando finalmente a médica encontrou a posição certa para soltar o líquido, o visor da máquina de ecografia ficou bem em frente à minha cara. Vi o coração do meu bebé parar, propositadamente, diante dos meu olhos.

Mais duas semanas passaram até ao trabalho de parto acontecer naturalmente. Primeiro o meu filho e passadas umas horas a minha filha. Graças à enfermeira anjo que me acompanhou, posso dizer que tive um parto tranquilo, humanizado e sem dor. Pude pegar ao colo o meu filho, dar-lhe um beijo, despedir-me dele e tirar-lhe uma fotografia. Tenho as suas cinzas em casa, junto da sua família.

Depois da morte do meu bebé precisava de parar, ficar no escuro, deitada, chorar, mas não pude fazer nada disso. Seguiram-se os dias na neo, acordar de 3 em 3 horas para a alimentar, meses sem dormir, mais um internamento, bronquiolite, covid…

Agora, a fazer um ano desde o nascimento dos meus bebés, sinto que preciso de ajuda. Comecei a ter ataques de pânico e tenho completa consciência que estou traumatizada. Será o meu próximo passo, cuidar de mim.

Amo tanto os meus filhos.

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Quando eu e o meu marido nos juntámos sempre desejamos uma casa com família grande e acolhedora, onde houvesse muito amor e união.

Então, aos 18 anos, começámos a jornada de criar família e saiu o primeiro positivo de amor, mas, o pior aconteceu e, com 8 semanas, vimos tudo a desmoronar. Uma primeira dor incontrolável, mas desistir estava longe de ser possível. Ao que aos 21 finalmente tivemos novamente o positivo, claro com muito medo, mas a esperança era grande.

Apesar de ter sido uma gravidez atribulada, fomos abençoados com uma menina linda em que sempre fomos falando em casa de que um dia mais irmãos viriam quando ela tivesse a sua independência. Passaram 5 anos e o desejo sempre a aumentar e começamos novamente na nossa tentativa de aumentar a família. Em 2020, tivemos o nosso positivo e a alegria transbordava. Já se tinham passado 12 semanas e, de repente, tudo foge do controle novamente, surgiu um corrimento, fui logo de imediato as urgências e foi detetado um aborto retido às 8 semanas em que o corpo iniciava a expulsão.

Novamente vieram as lembranças e aquela dor e agora tendo que explicar a uma criança tudo o que se tinha passado. Dói demais, mas ela ensinou-me a ser positiva e a olhar de outra maneira para toda a situação. Afinal tinha tido um parto maravilhoso e uma estrelinha para nos guardar.

Mas a luta para aumentar família permaneceu, e, em 2021, voltamos ao nosso positivo e todo um medo em volta de todo o processo, mas, com coragem, olhámos em frente. Mas, em pouco tempo, a nossa felicidade terminou, pois, apesar de vir com imensa força para este mundo, tinha ficado na trompa.

Todo o processo de uma gravidez ectópica acrescido, mas, apesar de todos os medos, bastou a dita injeção MTX e novamente terminava aquele positivo tão desejado e agora com o medo da reincidência.

A vida tem sido difícil, mas a luz brilhou e, em 2022, tivemos a alegria de duas riscas no tão esperado teste, com todos os medos das anteriores perdas. Fui logo de imediato fazer a ecografia vaginal para confirmar de que desta vez estaria no útero, e, realmente estava no sítio certo. Menos um medo. Veio então o medo da perda, comprei logo um doppler para ouvir o pequeno coração, o que me acalmou bastante. Fizemos a primeira ecografia e o nosso pequenino mexia bastante e adorava dormir encostadinho à minha placenta bem juntinho a mim.

Estava a crescer bem e a evoluir, uff, apesar de enjoos e de vir logo de repouso para casa. Tudo estava a correr na perfeição e um amor infindável de toda a família para receber o meu pequeno Henrique.

Foi então que fomos fazer a morfológica, às 22 semanas e tudo mudou…foi detetada a meningocele (o tipo mais grave da espinha bífida). Fui logo encaminhada para o Hospital Santa Maria em que tivemos todo o apoio de uma equipa maravilhosa que nos explicou o que passava e que chorou connosco. 

Tivemos de parar o coração do nosso menino e com ele foi uma parte de nós papás. 

Tem sido difícil, mas a esperança mantém-se e temos uma equipa médica que já nos garantiu que não nos vai abandonar. E depois temos uma sociedade toda ela retrógrada que não sabem o que este sofrimento e passa o tempo a questionar se somos bem acompanhados, se tomamos todas as medicações, se não temos a consciência que devemos parar… ninguém sabe o que vai no coração de uns pais que desejam ter filhos independentemente de já termos ou não filhos.

Não esquecemos nenhum filho e nenhum é substituível! Quando olho para o céu, sei que tenho 4 estrelinhas minhas e que têm um pai, mãe, e uma mana que os ama e fala constantemente neles.

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O nosso caminho juntos começou quando, em fevereiro, tive o nosso positivo! Chorei tanto de felicidade! No início deu medo, fiquei extremamente aflita pois queria dar o meu melhor e tudo era novidade. O nosso primeiro bebé, e desde logo o amor da nossa vida! 

Foi um início duro, com muitas náuseas, enjoos, e onde a minha energia vital estava toda dirigida a ti, filho. Não tinha energia para mais nada. 

Com o tempo, as coisas foram melhorando e voltei a ser eu mesma, e tudo corria bem contigo. As semanas foram passando e perto das 18 semanas tive aquela que tantas vezes disse ser “a melhor sensação da vida”: sentir-te pela primeira vez, Manel. O pai tanto tempo passava com a mão na minha barriga para ter um bocadinho daquele elixir da felicidade que tu me davas.

Os momentos contigo foram os melhores de sempre, foste a minha melhor companhia, já tínhamos uma rotina tão boa, tão nossa. As conversas, a música que ouvia contigo antes de dormir, tudo me faz falta. E não entendo…Quero entender o propósito de tudo o que nos aconteceu depois, mas quando penso em ti e em todos os momentos bons fico tão triste e revoltada. E não é suposto, tu foste e és felicidade! Com a notícia da tua chegada fizeste de todos nós à tua volta pessoas felizes, cheios de amor por ti. 

Com  21 semanas e 6 dias fomos fazer a Morfológica. Ainda tremo quando recordo o corredor, a sala e a médica insistentemente a procurar “algo”. No fim, quando me olhou nos olhos e disse “Algumas coisas não estão bem!” , o nosso mundo gelou! Após orientações seguiu-se amniocentese e posteriormente uma ressonância magnética fetal.

Todos os dias neste intervalo de exames foram pesados, muito pesados. Eu e o pai tínhamos o peso do mundo no coração, as noites de pouco ou nenhum descanso e muita ansiedade. Chegou o dia da RM, às 23 semanas, e após o exame a médica falou conosco e o pesadelo confirmou-se.

O nosso menino tinha um problema grave no Sistema Nervoso Central, que lhe iria infligir uma vida de sofrimento, preso no seu próprio corpo e onde estaria limitado em muitas coisas. Chorámos tanto nessa noite…por ti, por nós, pelos nossos sonhos e expectativas completamente destruídos. Tínhamos de tomar a pior decisão da nossa vida, até porque estávamos em contra relógio até às 24 semanas. 

Após falar com a médica que nos acompanhou e após nos ser dirigida mais informação, a nossa decisão foi tomada cheia de dor, mas também cheia de amor… O nosso amor por ti, Manel. Tinhas direito a uma vida plena, onde poderias fazer o que os outros meninos fazem, ter todas as oportunidades e mais algumas, não era justo para nós e não era justo para ti que assim não fosse.

Após assinar aquele maldito papel e ter recebido informação sobre o que iria acontecer depois, eu e o pai descemos daquela maternidade em lágrimas e muita, muita revolta. Chegámos ao carro e continuámos a chorar abraçados por largos minutos e a tentar digerir que teríamos de te dizer adeus, o adeus mais doloroso! Que crueldade!

Chegámos a casa, envolvidos num sentimento de impotência e de uma dor sem fim na alma, mas queríamos despedir-nos de ti enquanto ainda te tínhamos conosco. Enquanto o teu coração ainda batia dentro de mim!  O pai foi tão bom para nós em tudo, acho que sabes isso, ele foi a âncora do maior navio do mundo e esteve sempre lá. Fomos tirar fotos, comprámos as comidinhas que ainda não tinhas “provado” e tentámos dar-te o mimo que merecias. A demora acabou por ser maior que o suposto, e aguardámos uma semana até ser chamada para estar no hospital e dar início ao processo.

O dia 30 de junho chegou, dei entrada na maternidade e esse foi o pior dia desde que me lembro. Nem dores de parto, nem outras dores da vida me doeram como este dia doeu. O meu coração ficou por metade nesse dia, e a metade mais bonita foi a que foi embora!

Apesar de toda a dor, a minha única alegria naquele momento… Ia ver -te. E vi… Estavas tão quentinho no meu peito. O meu menino lindo!

Após internamento a parte mais dolorosa de todas, silêncio… Despedida! Estava na maca, a sala estava numa escuridão refrescante, estava perto da médica o suficiente para ter a minha mão sobre a perna dela, do outro lado a enfermeira. Fechei os olhos e enquanto elas faziam o seu trabalho, do início ao fim estive sempre a murmurar “a mãe ama-te muito, a mãe ama-te muito, a mãe ama-te muito…” Queria que levasses contigo esta certeza Manelinho! 

Neste momento o pai não podia estar conosco, nos momentos seguintes sim. No meio de tudo tivemos sempre conosco pessoas cuidadosas que nunca me deixaram sentir sozinha, médicos, enfermeiras e auxiliares que fizeram o que sabiam e podiam para minimizar o nosso sofrimento. 

Só lhes posso agradecer, sempre! 

O pai esteve connosco até às 22h. E no dia seguinte de manhã já estava lá novamente. E foi no dia seguinte que se iniciou a indução do parto. Dores, tremores, mais dores, frio e mais dores. Foi assim a tarde até que levei epidural, (algo que não seria suposto) por as dores estarem a ser muito fortes. Aliviou muito até ser hora do pai ir embora, já eram quase 23h, ele foi e as dores voltaram. 

Ainda estive algum tempo com dores e contrações cada vez mais insuportáveis, tudo era uma grande novidade para mim, tudo! Voltaram a dar-me medicação e voltei a descansar…Pouco. Eram 03:15 acordei e senti que eras tu…Algo estava diferente… chamei e as enfermeiras confirmaram, ia ver-te filho!

Apesar de toda a dor, a minha única alegria naquele momento…Ia ver -te. E vi… Estavas tão quentinho no meu peito. O meu menino lindo!

O resto, foi o resto… Perceber se estava tudo bem comigo, informações sobre o que se iria passar com o meu corpo, recomendações, alta médica, um colo vazio e um coração cheio de amor por ti. 

Os dias seguintes foram difíceis, ainda são, passou pouco mais de quinze dias. 

As perguntas são muitas, a culpa foi inevitável e ainda o é… Apesar de estarmos a trabalhar nisso! Quero encontrar paz, estar em paz comigo e com os outros. Vamos caminhando e tento todos os dias voltar a sorrir à vida! A nossa família toda tem sido um suporte incrível. Mas este é um processo tão solitário. 

 A ti meu Manelinho só tenho a agradecer. Vieste dar-me e ensinar-me muita coisa boa e a mais linda de todas elas, a ser Mãe!  Obrigada por me teres escolhido, por não teres desistido de mim. Quero muito acreditar que um dia, num lugar onde já não existir tempo, vamos voltar a encontrar-nos e aí, nunca mais vais sair do meu colo. 

Amo-te

A tua mãe.

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A interrupção da gravidez por razões médicas é mais comum do que possamos pensar. Para além da enorme tristeza pela perda de um bebé, de um filho, tem por detrás uma terrível decisão por parte dos pais. É o choque do diagnóstico, o peso e a culpa de ter de assinar um papel, a espera por uma autorização médica – às vezes vários dias, a espera por notícias sobre o internamento, são os últimos momentos com o nosso bebé, de uma enorme angústia, frustração, desilusão. Assim é o tumulto da interrupção médica da gravidez. Se estão a passar por esta interrupção e nos dias de espera, esperamos, de coração, que este artigo vos possa, de alguma forma, ajudar e trazer algum conforto. 

Podemos sentir que, de alguma forma, o nosso corpo falhou. Perguntamo-nos porquê? Porquê a mim? Onde falhei? Em primeiro lugar, queremos dizer que esta não é uma decisão sua — embora às vezes seja apelidada como “voluntária” — porque necessita de autorização dos pais — é, na grande maioria das vezes, uma decisão médica. 

interrupção médica da gravidez

Interrupção médica/voluntária da gravidez: quando pode ser feita

É permitida a interrupção até às 12 semanas de gravidez, se for indicada para evitar a morte ou danos físicos ou psicológicos graves e duradouros da grávida e até às 24 semanas de gravidez, caso se preveja que o bebé venha a sofrer de doença grave ou malformação congénita incuráveis. A interrupção médica da gravidez pode estar relacionada com problemas ao nível dos cromossomas, detetados, por exemplo, no 1º trimestre ou por exemplo por malformações fetais, mais comum, descobertas no 2º trimestre e por vezes no 3º — perda gestacional tardia. Cedo ou tarde é sempre uma perda e tem um impacto emocional muito grande no casal. Se está a passar ou passou por esta situação, lamentamos imenso. Saiba que não está sozinha e procure ajuda, se precisar.

Para além destes limites temporais, a interrupção voluntária da gravidez é ainda permitida, a qualquer momento, caso seja essencial para prevenir a morte ou danos físicos ou psicológicos graves e irreversíveis para a grávida ou caso se conclua que o feto não irá sobreviver.

Impacto emocional da interrupção médica da gravidez: e se?

Ainda assim e por mais que nos digam que não há outra opção, que nos aconselhem a avançar com a interrupção porque há uma grande probabilidade de não ser viável, são muitos os “e se” que nos passam pela cabeça. É normal. Mas saiba também que esta decisão, que, em última instância é “nossa” porque nada pode ser feito sem o nosso consentimento escrito — é um ato de amor. É porque os amamos que não os queremos ver sofrer. Mesmo assim é a decisão mais difícil das nossas vidas e nestes casos não existem certos nem errados. 

Sabemos que são momentos extremamente difíceis e, se necessitar, procure ajuda profissional

É também muito importante que tire todas as suas dúvidas com a equipa médica e que a informação que lhe seja transmitida sobre o seu bebé seja clara. 

O que acontece numa interrupção médica da gravidez?

Depois de ouvir o diagnóstico do médico, às vezes após ouvir até mais do que uma opinião, vão perguntar qual a sua decisão e terá depois uma consulta com alguns papéis para assinar. Se estiver a ser seguida num hospital privado será muito provavelmente encaminhada para um hospital/maternidade pública. Antes da interrupção o caso ainda é analisado por uma comissão de médicos chamada Comissão Técnica de Certificação que existe em cada estabelecimento de saúde oficial que realize interrupções da gravidez. Cada comissão técnica é composta por 3 a 5 médicos. Dela devem fazer parte obrigatoriamente um obstetra/ecografista, um neonatologista e, sempre que possível, um geneticista. 

Depois da autorização, segue-se o internamento, medicação e um procedimento semelhante à amniocentese para fazer parar o coração do bebé. Em seguida será induzido o parto

É importante que, antes de todos estes momentos, tenha conhecimento dos seus direitos e do que pode fazer se se quiser despedir do seu bebé. A equipa médica e de enfermeiros deverão informá-la do que pode ou não pode fazer e perguntar-lhe qual é a sua decisão e é importante que antes consiga saber, pensar e decidir. Uma vez mais, não há certos nem errados e, muitas vezes, nestes casos, a decisão dos pais, mas sobretudo da mãe, é com base em questões de sobrevivência naquele período difícil que estão a passar. 

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A minha aventura no mundo da maternidade começou há 11 anos, quando nasceu o meu príncipe Martim, um filho muito desejado por mim e pelo meu marido. Uma alegria e aprendizagem diária. Ao fim de quase 7 anos, decidimos voltar a ter outro filho, ou seja, em 2017 comecei na preparação para engravidar.

Os anos foram passando e nós sempre na luta, sempre a tentar realizar este sonho de família. Sim, porque o nosso filho Martim sempre desejou ter um mano, ou mana; para o Martim e para nós, pais, era exatamente igual.

Após quase 4 anos a tentar engravidar e já quase a perder a esperança- nunca quis nada pelos meios artificiais, tudo de forma natural – eis que em meados de fevereiro de 2021 comecei a andar muito mal disposta, enjoada, cansada, sem vontade para fazer nada, mas não suspeitei no imediato. Até que houve um dia que fui tomar um meu duche e senti dor ao tocar no meu peito e aí deu-me um clique e pensei: “Ui, eu já senti esta dor! Aí que eu estou grávida!”

Não comentei com ninguém, para não criar falsas esperanças. No dia a seguir, no dia 23 de fevereiro dirigi-me a um laboratório e fiz uma análise à urina, e aguardei ansiosamente pelo resultado, que chegou no final do dia por email. Claro, quando abri, fiquei a olhar uns minutos sem perceber muito bem o que estava escrito, mas estava clara a informação: Estava grávida!

Fiquei tão feliz, que partilhei logo com o marido e filho em conjunto na sala, foi uma alegria, gargalhadas. Estávamos em plena felicidade.

Comecei com as consultas de rotina, análises, ecografias e tudo corria bem.

Estávamos ansiosos para saber o sexo do bebé, mas nunca foi o mais importante para nós. O que desejávamos era que viesse com saúde e perfeitinho. No dia 10 de maio fiz uma eco simples com a minha obstetra e soubemos que era uma menina!! Seria a nossa Gabriela. 

Gabi, como já era carinhosamente tratada por nós cá de casa.

A barriga crescia a bom ritmo, e estava bem grandinha já. A Gabriela acompanhava o crescimento pois ela mexia-se bastante, não parava quieta.

Tudo corria bem, ou pelo menos eu achava que sim…

De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo.

No dia 14 de junho de 2021, fui realizar a 2ª Ecografia (Morfológica), estava eu com 22/23 semanas (6 meses) e fui acompanhada pelo meu filho Martim que disse que queria muito ver a mana.

Estivemos mais ou menos 1h30m lá dentro até que a minha obstetra pediu ao meu filho para sair e aguardar na sala de espera. Só por aí eu achei estranho, mas não percebi o que se estava a passar. Até que a médica me ajudou a levantar e agarrou nas minhas mãos e me disse que não tinha boas notícias para mim, só aí comecei logo a tremer e perguntei o que estava a passar, ao que a Drª me respondeu que a minha bebé tinha uma doença letal e rara e que tínhamos que decidir avançar ou interromper a gravidez.

Como assim interromper? Eu nem estava a acreditar naquilo que estava a ouvir!

De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo. Mas depois questionei a Drª, sobre o que estava a passar e o que é que eu podia fazer? Ao que ela me voltou a dizer o que já havia dito, que a minha bebé tinha uma Displasia Tanatofórica, ou seja, é uma doença letal, rara e que afeta a parte muscular toda. Mesmo que seguisse com a gravidez até ao final, após o nascimento, a minha bebé não ia sobreviver muito tempo e sem qualidade de vida. Ia sofrer e fazer sofrer!

Claro está, que naquele momento eu fiquei sem reação e chorei, chorei e chorei. Perante este cenário que eu estava a viver naquele consultório, a minha Gabi continuava a mexer-se dentro de mim como se estivesse tudo bem, mas não estava, mas ela não sabia, minha rica filha! Minha menina… 

A médica disse que eu e o meu marido tínhamos que tomar uma decisão e informá-la no dia seguinte. Pois, se fosse para interromper eu tinha que ir primeiro ao Centro de Diagnóstico Pré-Natal e a uma consulta de Genética para preparar o processo de interrupção.

Perante estas indicações da médica, eu já só queria sair daquele consultório. E saí! Cheguei à sala de espera onde o meu filho Martim esperava por mim ansiosamente e sem perceber nada do que estava a passar. Mas, como o meu filho me conhece muito bem e se preocupa comigo, assim que eu saio para fora e o chamei para irmos embora, o Martim percebeu logo que algo não estava bem, até viu no meu olhar que tinha estado a chorar. Claro, tanto insistiu que tive que lhe contar por alto, mas não entrei em pormenores.

Esta decisão (…) foi um ato de Amor. 

Quando chegamos a casa, já o meu marido tinha regressado do trabalho e olhou para mim e sentiu que eu não estava bem e perguntou-me logo como tinha corrido a ecografia, e eu comecei logo a chorar. Expliquei tudo direitinho e depois de ponderarmos bem, tomamos a decisão mais difícil das nossas vidas: Interromper a gravidez. 

Uma bebé tão desejada, após anos a tentar e quando finalmente conseguimos, o sonho vai assim… chorei muito, senti-me a pior pessoa do Mundo. Ainda demorei a aceitar esta decisão! Mas tinha que ser: esta decisão foi um ato de Amor. 

No dia 16 de junho de 2021, dirigi-me então à Maternidade Bissaya Barreto, acompanhada pelos meus pais, o meu marido não foi, por opção nossa, eu precisava que ele estivesse minimamente bem para à noite quando chegasse, ele me desse o apoio que ia precisar.

Claro está, quando chegamos à entrada da MBB pelas 9:00H eu entrei e os meus pais ficaram cá fora a aguardar. Foi uma espera infinita… Mal eu imaginava o que me esperava, ou seja, como se ia desenrolar todo aquele processo. Aguardei umas 2H até ir repetir a mesma Ecografia. Aquela que fiz na clínica e que deu o diagnóstico que não queria ter ouvido nunca.

Aconselhada pela minha obstetra, tinha que a repetir e ouvir uma 2ª opinião de outro médico, ou seja, médicos! Eram sempre bastantes à minha volta, assim como enfermeiras!

Pois bem, fui repetir a ecografia, estava deitada e à minha frente estava um grande ecrã, onde era possível eu ver a minha bebé: a minha Gabriela a mexer. Até que o médico, que estava a realizar o exame, se apercebeu que eu não estava bem, estava a tremer, e perguntou-me se queria que o ecrã fosse desligado. Eu disse que sim, sem hesitar! Sim, eu estava a ser “massacrada” por aquelas imagens da minha filha a mexer-se e eu a saber que “aquilo” ia ter um fim! Um fim que eu ainda não estava preparada! Mas há preparação possível?? Não há! Nunca!

No final da ecografia, fui a uma consulta de Genética, onde tinham já o relatório da ecografia a confirmar tudo o que havia sido dito na clínica. Estava confirmada uma Displasia Letal 1º grau e a característica principal era a cabeça em forma de trevo e toda a parte esquelética afetada, bem como alguns órgãos que iriam comprometer a boa saúde da minha filha, mesmo que seguisse com a gravidez até ao fim.

Nesta consulta, ainda questionaram se eu queria fazer o funeral, eu disse imediatamente que não. Não ia sujeitar a mim e à minha família a mais sofrimento, já bem bastava o sofrimento que estávamos a passar. Após a minha resposta, os médicos perguntaram se eu autorizava que eles fizessem a autópsia, ao que eu respondi que sim. Até porque eu queria respostas do porquê daquela doença, visto que o meu filho é perfeito, Graças a Deus.

Pedi esclarecimento sobre o processo de sepultar os bebés e explicaram que têm mecanismos próprios com toda a dignidade possível.

Em seguida, fui para outra sala, para retirarem líquido amniótico para ser analisado. No instante a seguir, voltaram a inserir a agulha e neste momento eu chorei bastante, mesmo. Porque esta agulha ia injetar um sedativo para parar o coração da minha menina, foi horrível o que senti naqueles minutos. Eu senti que era eu estava a dar permissão para que fizessem aquilo através da minha barriga, foi muito duro. Aos poucos fui deixando de sentir a minha filha a mexer. É muito triste, de verdade… Apesar de todo o meu sofrimento, eu estive sempre rodeada de médicos e enfermeiros a dar-me a mão e apoio, pois eu não podia ter ninguém da minha família comigo.

Com estes procedimentos todos, a manhã passou-se e a hora de almoço também e eram 15:30H quando saí para fora para ir almoçar. Quando saio, a minha mãe está lá fora à minha espera e eu agarrei-me logo a ela e desabei a chorar. Vinha com uma pressão enorme no meu peito por tudo o que me tinham feito lá dentro. Chorei bastante, estava a ser um dia difícil, mas era a preparação para o dia a seguinte, o internamento para o parto.

A seguir ao almoço, voltei à MBB para me serem feitas análises ao sangue e ainda teste ao Covid.

Vim para casa com os meus pais, vim a viagem toda em silêncio, com a minha barriga bem grandinha, mas sem vida. O facto de vir para casa com a minha bebé sem vida dentro de mim mexeu bastante com o meu psicológico!! 

No dia a seguir, 17 de junho 2021, lá fui eu novamente com os meus pais e o meu filho, desta vez quis ir acompanhar a mãe. Foi a viagem toda agarrado a mim. Quando chegamos à MBB, saí com a minha mala das roupas, o meu filho saiu, assim como os meus pais e agarraram-se a mim a chorar. O meu Martim só dizia que não queria que acontecesse nada de mal à mãe. Pela mana já não podíamos fazer nada, mas pela mãe sim. E eu entrei para a maternidade com a cara lavada em lágrimas.

Instalaram-me no quarto e começaram logo a introduzir comprimidos para induzir o parto. Fui para um quarto sozinha e lá estive até à hora do parto. O que mais me custou foi ouvir e ver mães na sala de partos a terem os seus bebés e a saírem com eles. Tive que pedir para fecharem a porta do quarto, pois já não aguentava ver, pois eu ia sair sem nada….

Após a segunda dose de comprimidos no útero, passado pouco tempo comecei a ter contrações no quarto e nem tive epidural nem nada para me aliviar as dores, foi aguentar e ponto.

Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.

Houve um momento que pedi a arrastadeira pois estava muito aflita para fazer chichi e a Enfermeira trouxe e depois saiu do quarto, assim que, eu relaxei para começar a urinar, a minha bebé começou a sair e eu dei um grito, pois estava sozinha no quarto, e vieram logo médicos e enfermeiros e tive que fazer mais força, para a minha filha sair por completo. Deram-me qualquer coisa para eu dormir, pois eu de manhã tinha dito que não queria ver a bebé, eu queria guardar na minha cabeça a imagem de como eu imaginava a minha filha e não a imagem que as ecografias revelaram. Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.

Neste dia, ao final da noite ainda tive alta, e o meu marido foi me buscar à MBB e, quando eu desci no elevador, com a mala que tinha levado com roupas, sem barriga e sem bebé, foi uma sensação avassaladora, terrível, um vazio…

As semanas seguintes foram complicadas, pois não conseguia sair à vontade de casa, com o medo das perguntas que as pessoas que iam fazer, mas lá tive que começar a sair e enfrentar os meus medos.

Os meus grandes apoios nesta fase foram os meus pais, marido e o meu filho Martim. Agarrei-me com todas as minhas forças à vida e pelo meu filho que precisa que a mãe esteja bem. Se eu estiver bem comigo, vou estar bem para qualquer pessoa.

Ninguém nos ensina a ser Mãe, assim como ninguém nos prepara para estas situações!

Já passaram 5 meses e às vezes paro e parece que tudo foi um pesadelo…

Acredito que a minha filha viveu 6 meses dentro de mim feliz e veio cá com um propósito que eu um dia irei perceber.

Por agora, resta-me olhar para o Céu comtemplar o meu Anjo da Guarda, Gabriela!