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Perda gestacional Perda precoce

A dor e a surpresa de uma perda gestacional precoce são, por si só, uma experiência traumatizante. No entanto, há famílias que passam por este tipo de perda uma, outra e outra vez. Quando três abortos consecutivos ocorrem antes das 22 semanas, com os mesmos progenitores, considera-se uma situação de aborto de repetição.

O aborto de repetição afeta entre 1 a 5% das mulheres em idade reprodutiva.

Atualmente, em Portugal, podem ser realizados exames para apurar possíveis causas de perdas gestacionais precoces após a terceira perda. Ainda assim, mesmo depois de investigação, cerca de 50% dos casos continuam sem explicação clínica.

Aborto de repetição: possíveis causas

Apesar das causas genéticas serem, geralmente, responsáveis por cerca de 50% dos casos de aborto antes das 10 semanas de gestação, outras causas incluem:

  • causas anatómicas (como o útero septado e o útero bicórneo),
  • causas endócrinas (como alterações da tiroide)
  • causas imunológicas, infeciosas
  • Trombofilias (alterações da coagulação do sangue que podem resultar em trombose) e outras. 

De facto, há, ainda, muitas áreas cinzentas no que diz respeito às causas e tratamentos de abortos de repetição e outras perdas gestacionais. Contudo, segundo um estudo recente do The Lancet, podem estar relacionadas com o uso de progesterona em gravidezes após a perda para que a gestação seja levada a termo com taxas substanciais de sucesso. Num outro estudo, a Tommys publicou informação também muito útil em relação à progesterona e medicação ligada à diabetes para otimizar as probabilidades de uma gravidez com sucesso.

Contudo, há muitos fatores em jogo que podem afetar o risco de aborto como a idade materna ou dos progenitores, historial de perdas anteriores, entre outros.

Por isso, é importante oficializar, clinicamente, as perdas que se tem. Sabemos ser triste, mas desta forma, ser-lhe-ão oferecidos exames que poderão prevenir futuros abortos espontâneos.

Infelizmente, há ainda muitos casos em que as causas não são descobertas e isto afeta imenso os casais.

De qualquer forma, como já notamos, para a maioria das mulheres em idade reprodutiva, a gravidez é, por si só, um acontecimento transformativo e o aborto, representa mais do que simplesmente a perda do produto de conceção.

Representa, principalmente, a morte de um filho, a mudança súbita de planos e expectativas e pode, até, despertar dúvidas sobre a sua competência como mulher e como pais. E o processo de luto não é fácil. Tem direito a chorar pelo bebé que perdeu. Seja ele o primeiro, segundo, terceiro…São todos seus e todos importam.

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Perda tardia Testemunhos

Depois de 2 anos a tentar engravidar, e já em consultas de PMA (infertilidade), engravidei naturalmente. Soubemos em Novembro de 2020, estávamos mega felizes…

Tudo correu bem até à segunda ecografia, em que a médica me diz (devido à pandemia, estava sozinha) que o bebé tinha uma malformação muito grave…

Mandou entrar o meu marido, também lhe explicou o que passava, e marcou-nos consulta para uns dias mais tarde, onde iríamos decidir o que fazer. Disse-nos para até lá irmos pensando.

Ficamos completamente desnorteados, o mundo caiu-nos em cima.  Tínhamos em mãos a pior das decisões para tomar, tirar a vida ao nosso bebé, era um rapaz…depois da decisão, foram mais uns dias até fazer a interrupção, porque até nestas situações a burocracia impera, e esses só foram os piores dias da minha vida.

Era um bebé perfeito

Continuar a ter dentro de mim um bebé, que sabia ia ficar sem ele, um bebé com vida, que eu lhe ia tirar…

E no dia 14 de março de 2021, nasceu o nosso bebé sem vida, uma vida que fomos nós que decidimos terminar, mas que no fundo sabemos que foi o melhor.

Era um bebé perfeito (decidimos que o queríamos conhecer), não fosse ter “espinha bífida aberta”.

E no fim de tudo isto, fica uma dor enorme…. não há dia que não pense, não há dia que não me lembre, e tenho a certeza que será eternamente assim, porque não há maior dor, do que a de perder um filho…. 

Um beijinho do tamanho do mundo e um xi-coração apertado.

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Em janeiro de 2017 descobri que estava grávida! Sonhos, projetos, contar à família e aos amigos. Como sou uma pessoa super emocional e que sempre viveu intensamente o bom e o mau, estava para lá de feliz!

Passado duas semanas tive a minha primeira perda com apenas 6 semanas – uma gravidez molar. Senti um vazio como nunca poderia imaginar. Ia duas vezes por semana ao hospital para tirar sangue e ia a um médico ginecologista oncológico só para me dizer que o meu BetaHCG estava a descer.

Processo muito doloroso psicologicamente e que demorei muito para reagir, pois rodear-me de grávidas duas vezes por semana não é propriamente o que esperamos depois de passar por uma perda.

Despedi-me do meu trabalho, parei para respirar e passar pelo meu próprio processo à minha maneira, pois acredito que cada um tem o seu tempo e devemos respeitar.

Após um ano, a segunda perda ocorreu às 8 semanas. Pensava que nunca conseguiria parar de chorar, de lamentar e de perder a energia negativa e revolta que tinha com a vida.

Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Decidi um dia recorrer ao life coach que me deu ferramentas e um novo olhar para a vida – cuidar e gostar mais de mim, pensar menos no que os outros dizem e olhar para o quão forte fui durante a vida toda e o que consegui. Neste processo, tive de lidar com a depressão do meu marido e não foi fácil, mas nada é impossível…Muita resiliência, muito acreditar e muita força.  

Em janeiro de 2021 finalmente teste positivo – decidimos não contar a ninguém e viver numa bolha de amor, meditação e tranquilidade durante uma semana. Novo sangramento, nova perda.

Quando passas três vezes por isto, já vês as coisas de forma diferente mas sentes sempre o vazio. 
Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Hoje já estamos em estudos genéticos a tentar encontrar respostas para as nossas perdas e continuamos a acreditar que um dia, quando tiver de ser, a vida nos vai trazer este amor fora do coração, como tantas mães descrevem.
Cair… respirar… recomeçar… amar… acreditar…


Com amor para todas, 
Sofia

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Soube que estava grávida em Março, uma gravidez desejada e planeada, análises pré-natal feitas, apoio na nutricionista.

Marquei de imediato consulta obstetrícia e estava tudo bem. Às 8 semanas, lá fui eu para consulta de rotina, mas… Infelizmente o bebé não tinha batimentos cardíacos. Vi logo que algo não estava bem, o silêncio, o semblante da médica.
A equipa médica foi muito querida, explicaram tudo, talvez porque a médica já tinha passado pelo mesmo, ou, espero, porque as coisas estão a mudar.
Tinha um Aborto retido.

O pai não pôde entrar, ficou no carro e também ele foi apanhado de surpresa. Também ele tinha dúvidas que eu, por ser profissional de saúde, a custo fui explicando. Mas e quem não sabe? Quem não é da área? Senti um vazio tão grande…

(…) ajudaram -me com palavras que pareciam abraços.

Mas voltando ao aborto retido, optámos por esperar uma semana para ver se a expulsão acontecia naturalmente. Foi angustiante. Psicologicamente muito difícil. Difícil expressar por palavras. O corpo não colaborou, tomei os comprimidos.

Disse à médica que sou caso raro pois não tive dores físicas, só hemorragias (físicas e psicológicas). Um processo doloroso psicologicamente. Algo que ninguém está preparado.

Agradeço o apoio do meu marido, pais e, acima de tudo, de amigas que tinham passado pelo mesmo e que me ajudaram com palavras que pareciam abraços.
Abraços que nesta fase de pandemia fizeram muita falta.

Sou aromaterapeuta certificada, trabalho maioritariamente com grávidas, recém-mamãs e bebés. E nunca tinha pensado neste lado da maternidade.

Os óleos essenciais ajudaram -me a descansar um pouco melhor a nível emocional foram um grande complemento, juntamente com apoio psicológico.
Não sei se foi o destino, mas a partir de agora estou também disposta a ajudar outras mulheres que passem pelo mesmo. Se puder ajudar de alguma forma estou disponível.

Um bem-haja e grata pela página que ajudará muitas famílias e mulheres ❤

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Cada filho uma missão

Chamo-me Ivone. Acabo de fazer 45 anos. Nasci no Porto e vivi perto de Famalicão até ao fim da minha adolescência. Fui para a faculdade no Porto. Dali, migrei para a Itália como assistente Língua e aqui conheci o meu marido. Pensávamos que eu não podia ter filhos.

Estávamos a tentar há três anos e meio, e nada. Depois; o atraso, a ameaça de aborto, o colo do útero mais curto do que o devido.

Às 32 semanas, nasceu o Samuel.

Vi o meu menino depois de quatro longos dias e trouxe-o para casa depois de vinte. Fiquei com um grande trauma pela prematuridade do meu filho.

Tentei ajudar outras mães como eu. Criei um grupo, e percebi que a prematuridade pode ser vista como uma forma de luto. Agora, o Samuel tem 13 anos. Está bem, é saudável, mas ainda tenho essa cicatriz.

Quando o Samuel tinha seis anos, tive uma gravidez completa. O Gabriele Pio nasceu às 41 semanas, depois de um trabalho de parto de sonho. Romperam-me as membranas e disseram-me para me deitar. Os batimentos cardíacos subiram para 200 e caíram imediatamente para 45. Fizeram-me imediatamente a cesariana e o meu menino ganhou um lugar no céu.

Sempre o incluí como membro da nossa família. Nunca evitei falar dele, de o contar entre os meus filhos, e muitas pessoas reagem mal a isso. Tenho cinco fotografias dele que, para mim, são preciosas. Estão na minha carteira, na minha secretária em casa, no meu telefone, num medalhão, e não escondo nenhuma dessas coisas. Para mim não seria natural escondê-las.

O Gabriele faz parte de mim e estará sempre comigo. 

Depois de três anos, nasceu-me a Íris. Nasceu há nove meses quase certinhos e felizmente consegui amamentar. Teve um bocadinho de icterícia mas essa a nós faz-nos cócegas depois de tudo o que passámos.

A Íris tem quatro anos e conhece muito bem o irmão Gabriele. Fala dele sem medo e isso para nós é muito importante. A gravidez dela foi muito difícil. Fiz cesariana programada, porque estava aterrorizada. Normalmente digo que ela é a minha fadinha, porque trouxe outra vez a magia para a minha vida.

Agora tenho 45 anos. Está para fazer 8 anos que o céu tem um pedaço imenso do meu coração. E ainda dói.

O Samuel mostrou-me o que é a prematuridade e quanto pode ser precioso SABER que há outras pessoas que passaram ou passam pelo mesmo. O Gabriele mostrou-me como se ama com um céu de distância. A Íris ajudou-me a sentir-me outra vez viva. A magia existe, e para mim chama-se Irís. 

❤️
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Venho partilhar com vocês a nossa história, uma história de 6 e de muito Amor! Eu, o meu marido, o meu filho do anterior casamento, os gémeos e a minha filha.

Tudo começou em Novembro de 2018, quando eu e o meu marido percebemos que algo estaria de errado,  mais de 1 ano tinha passado e nada de conseguir-mos engravidar. Foi aí que decidimos conversar com a minha Ginecologista, sobre a possibilidade de algo estar errado. A médica pôs em cima da mesa a possibilidade, e decidiu então avançar para os procedimentos normais de avaliação.

Dia 27 de Dezembro tivemos a confirmação de que havia sim um problema de infertilidade e expôs todas as hipóteses para nos ajudar a ser pais. Avançámos então para todos os procedimentos seguintes, necessários, para o tratamento. Sempre estivemos muito positivos e a levar o tratamento com imensa calma e… após todos os procedimentos, dia 14 de Abril temos a confirmação: estava grávida de Gémeos, transbordámos de felicidade, pois tínhamos conseguido engravidar e à primeira.

Tive gravidez de alto risco a partir das 9 semanas, porque tive um descolamento e foi a total felicidade até às 18 semanas.

Às 18 semanas tivemos a melhor e a pior notícia que podiamos ter, a melhor notícia foi que era um menino e uma menina um tão desejado casal, a pior notícia foi que, felizmente, estava tudo bem com o menino mas, infelizmente, a menina tinha um problema grave e a gravidez não era viável.

“diga à sua filha o quanto a ama, o quanto foi importante o tempo que esteve dentro de si, diga-lhe tudo agora”

Tive a reação mais fria e pragmática da minha vida, congelei, aquelas palavras eram como se não tivessem chegado ao coração. Quando saí do gabinete fui marcar normalmente a próxima Ecografia e, quando saí, o meu Mundo caiu; foi como se apenas naquela altura o cérebro tivesse passado a mensagem ao meu coração. Chorei, chorei muito agarrada ao meu marido, questionei a Deus o porquê.

Apenas depois nos apercebemos que não sabíamos então o que fazer, nem o que ia acontecer. Passados uns dias fomos à consulta, e aí foi-nos explicado os prodecimentos possíveis, na minha cabeça eu ia perder os dois, mas porquê se o meu filho estava bem.

Foi então que conheci um mundo que desconhecia e que depois apercebi-me que imensas mulheres passavam por ele e aí ainda me senti pior. Foi-me dada a possibilidade de fazer um Feticídio seletivo, ou seja, parar o coração da minha filha para a gravidez dela não avançar e a do meu filho continuar. Isto era possível porque estavam em bolsas separadas e porque a minha filha tinha um problema realmente grave e se não perdesse a vida durante a gravidez, iria ter imenso sofrimento até acontecer após o nascimento. Enquanto me explicavam tudo isto e de como era feito o prodecimento, na minha cabeça eu só tinha, que para ter um filho eu ia ter que parar o coração do outro e a minha cabeça bloqueou ali.

A lei em Portugal nestas situações de gémeos em bolsas separadas cujo segundo bebé está bem, só permite o feticídio seletivo às 32 semanas, ou seja, até lá tudo podia acontecer: eu podia inclusive perder os dois se a minha filha não sobrevivesse até às 32 semanas, podia até entrar em trabalho de parto antes das 32 semanas e eles iriam nascer. A minha filha iria nascer viva, ou não, e iria sofrer até acontecer o inevitável. Eu ia ter a minha filha dentro de mim a mexer, a interagir com o meu toque e a interagir com o irmão até lá, e eu sabia o que iria acontecer.

Foi uma gravidez de muito stress, medo, culpa, e tantas coisas mais à volta na minha cabeça, desde o primeiro dia que o hospital disponibilizou uma psicóloga para os dois. Nós iamos às consultas com ela, ajudou muito, a preparar-me para o dia em que eu ia parar o coração da minha filha.

O que eu fiz foi amor, foi por amor

O pior dia da minha vida tinha chegado, o dia em que fazia as 32 semanas. O dia que eu não queria. O dia em que eu perdi para sempre um pedaço de mim, o pior vazio que senti, e, ao mesmo tempo, no meio de tudo, tinha que estar capaz, com forças pelo meu menino que podia por causa do procedimento querer nascer, naquela altura ou nos dias seguintes.

Mas foi nesse dia que me foi enviada uma enfermeira que me acompanhou no antes, durante e pôs procedimento, um anjo de bata branca, deu-me uma força extraordinária; deu-me a mão antes do procedimento e disse-me ao ouvido “diga à sua filha o quanto a ama, o quanto foi importante o tempo que esteve dentro de si, diga-lhe tudo agora” e eu disse!! Foi tão bom!! Fez toda a diferença, hoje eu sei isso.

O meu sentimento de culpa desapareceu ali, o que eu fiz foi amor, foi por amor, e todo o amor que lhe dei durante 32 semanas ela retribui-me com mais amor.

1 ano depois nasceu a irmã, De forma natural engravidei e não tive medo na gravidez. Eu sabia que tinha uma estrelinha a proteger-nos a todos, e protege.

O irmão nasceu às 36 semanas, quis nascer exatamente no dia em que fazia 1 mês do procedimento, e a minha filha também nasceu.

Foi um misto de emoções o dia em que nasceram, a felicidade de finalmente conhecer e ter nos braços o meu filho, e o dia em que conheci e tive nos braços para lhe dizer mais uma vez o quanto a amava a minha filha. Sim eu quis ver e despedir-me do rosto da minha filha, a mesma enfermeira aconselhou-me a fazê-lo que era importante para o luto e foi sim, mais uma vez aquele anjo de bata branca me ajudou.

Ultrapassei com o passar dos dias; todos os dias tenho um momento em que me lembro como se fosse hoje. Para mim o dia em que perdi a minha filha foi em Novembro e o dia em que nasceu foi em Dezembro.

Foi uma corajosa aguentou com todas as forças até às 32 semanas pelo irmão, é o meu anjinho que quando perco um pouco as forças me lembra o que é a força e a coragem e me faz erguer.

A minha filha que 1 ano depois nasceu em Dezembro de 2020 foi o amor que a minha estrelinha me enviou.

Espero de alguma forma ajudar com o meu testemunho outras mulheres que estão a passar ou passaram pelo mesmo que eu, desconhecia mas são muitas, no dia em que fiz o procedimento lá estavam mais 2 casais a prepararem-se para o mesmo que eu, e eu fui o caminho a pensar porquê a mim e eles provavelmente a pensar o mesmo.

❤

️ Com amor.

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Ajuda prática Perda gestacional Perda tardia - Depois Pós-Perda
lidar com a perda gestacional

Como lidar com a perda gestacional e neonatal?

É uma pergunta aberta e que não tem nem respostas certas ou erradas. Porquê? Porque cada pessoa faz o seu luto e lida com a perda de forma diferente. Há quem queira falar sobre a perda e que não se evite o assunto. Há pessoas mais reservadas que só querem estar no seu canto e que preferem o silêncio. Cada pessoa tem o ritmo naquela que é uma recuperação que tem muitos altos e baixos. Neste artigo, procuramos ajudar a dar algumas respostas sobre como superar esta perda, aliás, como aprender a viver com ela. 

E, lembre-se, o tempo não cura tudo. O nosso processo durante esse tempo e o que fazemos é que ajuda a sarar as feridas. 

Não havendo uma forma certa ou errada, deixamos alguns conselhos que a podem ajudar. 

Conselhos para lidar com a perda gestacional ou neonatal 

Peça ajuda, se precisar 

Se precisar de ajuda, por favor procure-a. Pode ser através de amigos ou familiares em quem confie, através de apoio psicológico ou contactando com pessoas que tenham passado por uma situação idêntica. O Amor para Além da Lua, por exemplo, tem um grupo privado de apoio à perda gestacional onde pode participar. Temos também uma secção de testemunhos com histórias de perda gestacional (precoce ou tardia) e neonatal. 

Relativamente ao apoio psicológico, hoje em dia existem, por exemplo, vários profissionais de saúde especializados no luto que a podem ajudar a lidar com a perda gestacional. 

Não se apresse “a ficar bem” e a reagir 

É muito comum as pessoas, não sabendo o que dizer, tentarem ajudar ao dizer “tens de superar e ter força”, “és nova vais ver que bem rápido vais ter outro filho”, “anima-te”. A intenção é a melhor e a nossa tendência é julgar-nos e acharmos que temos de reagir e ultrapassar. Às vezes, ao querer fazer o caminho mais curto, não nos permitir sentir tristeza e pensar no assunto, é apenas varrer “um assunto para debaixo do tapete” e adiar o inadiável. É importante deixarmo-nos sentir tristeza, levarmos o nosso tempo, fazermos o nosso luto. 

dias difíceis após a perda gestacional

Aceite os seus sentimentos e tente esclarecer as suas dúvidas

Os dias, semanas e meses após a perda de um bebé são extremamente dolorosos e a verdade é que sentimos, e é um facto, que não há palavras para nos confortar. Se sentir revolta, raiva e angústia, saiba que é perfeitamente normal. Nestes dias parece que caímos num enorme buraco e que não vamos conseguir sair dele. Sentimos a perda de forma forte no nosso corpo. Arrancaram-nos uma parte de nós. 

Procure saber junto dos médicos quais foram as causas da perda do seu bebé. Poderá ajudá-la a amenizar a sua culpa e a encontrar as respostas que necessita.  

“Do lado de fora”, mas também de dentro, está o pai. O pai que luta para ver a mulher bem e que tudo faz para a amparar e ser um pilar no meio da dor. Converse sobre o seu companheiro e procure falar sobre os seus sentimentos. 

Não se culpe, nem julgue (ou pelo menos tente): o impacto na intimidade

É normal, após a perda gestacional ou neonatal, haver um abalo na intimidade. Para além da enorme perda ter impacto na vida íntima e em que como nos sentimos física e psicologicamente, as relações sexuais são muitas vezes associadas à gravidez. Saiba que é normal haver um afastamento sexual e impacto na intimidade. Dê tempo ao tempo e não se culpe por este impacto. 

Lamentamos imenso caso tenha passado ou esteja a passar neste momento por uma perda gestacional ou neonatal e desejamos-lhe muita força.

Demore o seu tempo. Respeite os seus sentimentos e as suas emoções.

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Olá, tenho 41 anos e em 2015 fiquei grávida do meu segundo filho… um bebé muito desejado e planeado tal como o meu primeiro filhote na altura com 5 anos que queria tanto um irmão.

Tudo corria bem até à ecografia das 20 semanas em que se descobriu que o meu bebé tinha uma mal formação nos rins.

Parou de crescer! A médica que me seguia entrou em contacto comigo para a notícia mais triste da minha vida…teria de interromper a gravidez porque a gravidez não era viável e muito provavelmente nem chegaria ao fim. Tive uma médica que apesar do sofrimento do momento ela fez tudo para que fosse um processo rápido…entre a consulta, autorização, o parto e a alta hospitalar, foram 5 dias.

Foi um momento muito difícil, muito sofrimento e um psicólogo muito afetado…não vi o meu menino por opção e só soube que era um menino quando “nasceu”. Tive alta hospitalar no dia que o meu filhote mais velho completava 5 anos! O mais difícil foi explicar a uma criança de 5 anos que já não havia mais um irmão, agora era a nossa estrelinha! Ao final de 2 dias voltei novamente ao hospital…os meus peitos inchados, cheios de leite para dar e não ter a quem…é uma tristeza e um vazio enorme. Nunca tive apoio psicológico.

Apesar de me faltar um pedaço de mim… o meu menino, eu consigo ser feliz.

Ao final de 1 mês recebi o relatório médico onde se confirmava a mal formação nos rins… não foi nada genético, apenas obra da natureza. Mas não desisti e passado 5 meses voltei a engravidar, uma gravidez normal mas com alguma ansiedade…aí veio a minha bebé arco-íris.

Uma menina linda e saudável que tem agora 4 anos. Apesar de me faltar um pedaço de mim…o meu menino, eu consigo ser feliz.

Nunca vou esquecer, ainda hoje por vezes choro a minha perda…era parte de mim!

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Há feridas que doem para sempre.

O tempo acaba por acalmar a dor, aprendemos a viver com essa dor, mas não deixa de existir.

Eu perdi duas gravidezes. A primeira, há 12 anos, foi uma gravidez ectópica. Não me lembro bem quanto tempo durou. Só me recordo da sensação de que algo dentro da minha barriga estava a rebentar. A dor era tal que cheguei a perder os sentidos.

Depois o internamento. Estive lá durante 3 dias em que fazia exames diariamente de manhã e à tarde para se saber como estava a evoluir a gravidez até que as dores pararam e os médicos me disseram que o embrião tinha descido para o útero, mas que a gravidez era inviável e teria que esperar até que o corpo o expulsasse.

Não sei dizer quantas semanas passaram até que me voltaram a internar e provocaram o parto. Todo o processo foi feito na enfermaria, mas completamente sozinha…

Passado um ano voltei a engravidar mas desta vez a ferida ficou mesmo muito, muito funda.

De mão dada ao meu marido e ouvir uma voz muito doce da médica a dizer “já faleceu”

Ainda hoje tenho pesadelos com o que passei. Na ecografia das 13 semanas o médico detectou que algo não estava bem com o bebé. As medidas do bebé não estavam correctas e enviou-me para a consulta de diagnóstico precoce.

Aqui eu e o meu marido fomos muito bem recebidos. Explicaram-nos tudo o que estava a acontecer, o que significavam aquelas medidas e o que nos iram fazer. Voltei a repetir a ecografia e passado 2 ou 3 dias fiz a amniocentese. A imagem que ficou gravada na minha cabeça foi de estar deitada numa maca, de mão dada ao meu marido e ouvir uma voz muito doce da médica a dizer “já faleceu”.

Depois segue-se novo internamento, provocarem-me novamente o parto, tudo novamente sozinha e para piorar um pouco mais a situação desta vez vi o feto e fui eu que chamei a enfermeira após a expulsão.

Até hoje guardo aquela imagem horrível. Tinha 18 semanas de gestação. Fiquei a saber que o bebé tinha trissomia total, ou seja, todos os cromossomas eram a triplicar. É uma alteração genética raríssima. No ano anterior não tinha existido nenhum caso em Portugal, naquele ano houve apenas o meu e no ano seguinte houve 2 casos. Eu e o meu marido fizemos estudos genéticos e depois voltámos a tentar engravidar.

Atualmente temos dois rapazes, um de 10 anos e outro de 6. São uns meninos lindos, saudáveis e bons traquinas como todas as crianças devem ser.

Espero que ao partilhar a minha história possa ajudar alguém. Pelo menos e sinto que me ajuda a lidar melhor com o que passei.

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Perda gestacional Perda precoce

Independentemente do tempo da gravidez, uma perda, vem sempre com o seu peso físico e emocional. Assim, neste artigo, escrevemos sobre uma complicação de uma das perdas gestacionais precoces mais comuns: o aborto retido.

prisão, aborto retido, tristeza

Geralmente, entre a oitava e a décima segunda semana da gestação é confirmado, em consulta, que o bebé, infelizmente, morreu no útero. Este é, muitas vezes, chamado um aborto incompleto.

Nestes casos, o corpo retém o saco gestacional, embrião e outros tecidos, demorando semanas (por vezes meses) a libertá-los naturalmente.

Por norma, quando se recebe esta terrível notícia, a equipa médica vai recomendar, primeiramente, deixar que o corpo aja de forma natural. Por outro lado, se não for esse o caso, poderão dar-lhe medicação. Esta serve para estimular a expulsão de material e feto do útero.

Na eventualidade deste método não funcionar, há como alternativa um procedimento cirúrgico para limpeza uterina.

Por vezes, algumas mães escolhem o tratamento de esvaziamento uterino imediatamente. Afinal, este é mais rápido e oferece algum controlo sobre a situação. Contudo, não deixa de ser um procedimento invasivo que poderá provocar consequências na mulher. Assim, tire, por favor, tempo para discutir com o seu ginecologista ou obstetra as suas opções. Desta forma, ficará mais confiante de que está a tomar a decisão mais acertada para si.

Aborto Retido: Causas e Sintomas

Tal como num aborto espontâneo, este pode trazer consigo alguns sintomas, ou ser assintomático. Por isso, em alguns casos, passam-se semanas sem que as mães percebam que a gravidez não está a evoluir.

Além do mais, por vezes os sinais de gravidez, como enjoos e desconforto continuam. Assim, torna-se muito difícil a sua descoberta. É, portanto, importante que a sua gravidez seja devidamente acompanhada e que vá a todas as consultas.

Os sinais mais comuns de aborto retido são:

  • Sangramento vermelho vivo ou acastanhado
  • Dor pélvica
  • Desaparecimento de sintomas gestacionais
  • Ausência de continuação de crescimento da barriga

Semelhante a outras perdas, as causas para um aborto retido passam por:

  • Problemas cromossómicos
  • Malformações fetais
  • Problemas de saúde maternos
  • Idade, peso e abuso de drogas
  • Entre outros

Apesar de esta ser uma experiência traumática e de grande peso emocional, não há razões para perder a esperança. Há muitas mães que têm posteriormente gravidezes de sucesso e sem complicações.

No entanto, procure ajuda se precisar. Embora seja uma experiência solitária, não tem de sofrer sozinha.

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