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Ajuda prática Perda gestacional

Como lidar com a perda gestacional e neonatal? É uma pergunta aberta e que não tem nem respostas certas ou erradas. Porquê? Porque cada pessoa faz o seu luto e lida com a perda de forma diferente. Há quem queira falar sobre a perda e que não se evite o assunto. Há pessoas mais reservadas que só querem estar no seu canto e que preferem o silêncio. Cada pessoa tem o ritmo naquela que é uma recuperação que tem muitos altos e baixos. Neste artigo, procuramos ajudar a dar algumas respostas sobre como superar esta perda, aliás, como aprender a viver com ela. 

E, lembre-se, o tempo não cura tudo. O nosso processo durante esse tempo e o que fazemos é que vai ajudar a sarar as feridas. 

Não havendo uma forma certa ou errada, deixamos alguns conselhos que a podem ajudar.

lidar com a perda gestacional

Conselhos para lidar com a perda gestacional ou neonatal 

Peça ajuda, se precisar 

Se precisar de ajuda, por favor procure-a. Pode ser através de amigos ou familiares em quem confie, através de apoio psicológico ou contactando com pessoas que tenham passado por uma situação idêntica. O Amor para Além da Lua, por exemplo, tem um grupo privado de apoio à perda gestacional no qual pode participar. Temos também uma secção de testemunhos onde pode ler histórias de perda gestacional (precoce ou tardia) e neonatal. 

Relativamente ao apoio psicológico, hoje em dia existem, por exemplo, vários profissionais de saúde especializados no luto que a podem ajudar a lidar com a perda gestacional. 

Não se apresse “a ficar bem” e a reagir 

É muito comum as pessoas, não sabendo o que dizer, tentarem ajudar ao dizer “tens de superar e ter força”, “és nova vais ver que bem rápido vais ter outro filho”, “anima-te”. A intenção é a melhor e a nossa tendência é julgar-nos e acharmos que temos de reagir e ultrapassar. Às vezes, ao querer fazer o caminho mais curto, não nos permitir sentir tristeza e pensar no assunto, é apenas varrer “um assunto para debaixo do tapete” e adiar o inadiável. É importante deixarmo-nos sentir tristeza, levarmos o nosso tempo, fazermos o nosso luto. 

Aceite os seus sentimentos e tente esclarecer as suas dúvidas

Os dias, semanas e meses após a perda de um bebé são extremamente dolorosos e a verdade é que sentimos, e é um facto, que não há palavras para nos confortar. Se sentir revolta, raiva e angústia, saiba que é perfeitamente normal. Nestes dias parece que caímos num enorme buraco e que não vamos conseguir sair dele. Sentimos a perda de forma forte no nosso corpo. Arrancaram-nos uma parte de nós. 

Procure saber junto dos médicos quais foram as causas da perda do seu bebé. Poderá ajudá-la a amenizar a sua culpa e a encontrar as respostas que necessita para conseguir lidar com a perda gestacional. 

pensar no bebé perda gestacional

Apoie o seu companheiro

“Do lado de fora”, mas também de dentro, está o pai. O pai que luta para ver a mulher bem e que tudo faz para a amparar e ser um pilar no meio da dor. Converse com ele e procure falar sobre os seus sentimentos. Superar uma perda pode ser mais fácil a dois e pode fazer com que o pai se sinta menos sozinho. 

Não se culpe, nem julgue (ou pelo menos tente): o impacto na intimidade

É normal, após a perda gestacional ou neonatal, haver um abalo na intimidade. Para além da enorme perda ter impacto na vida íntima, porque nos sentimos mal física e psicologicamente, as relações sexuais são muitas vezes associadas à gravidez. Saiba que é normal haver um afastamento sexual e impacto na intimidade. Dê tempo ao tempo e não se culpe por este impacto. 

intimidade perda gestacional

Lidar com a perda gestacional e neonatal não é fácil e é uma caminhada. Aliás, para uns pode ser uma caminhada e para outros pode ser uma maratona. O importante é não parar de andar e ter esperança porque os dias melhores vão chegar. 

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Ajuda prática Perda gestacional Pós-Perda

Para além de consultas de psicologia com profissionais especializados no luto, há também, para alturas de maior urgência, linhas telefónicas de apoio psicológico. Não está sozinho(a)!

  • Centro SOS-Voz Amiga: Ajuda na solidão, ansiedade, depressão e risco de suicídio : 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 (Diariamente das 15:30 à 00:30)
  • Voz de apoio: Horário: 21:00 – 24:00; Contacto Telefónico: 225 506 070 | Email: sos@vozdeapoio.pt
  • Linha de apoio psicológico SNS24: 808 24 24 24 . O serviço está disponível 24h/dia, 7 dias por semana.
  • Sociedade Portuguesa de Psicanálise: 300 051 920 (Segunda-feira a Domingo das 8:00 à 00:00)

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Testemunhos

Em dezembro de 2020, eu e o Papá tomámos a decisão de, em janeiro de 2021, procurarmos ajuda para conseguirmos o nosso tão desejado bebé que, durante 10 anos não tínhamos conseguido.

E a vida, em janeiro de 2021, acabou por nos presentear com uma bebé, quando nós mesmos já tínhamos perdido a esperança…estava grávida de 4 semanas.

Foi uma emoção tão grande! No meio de tantos negativos, aquele positivo foi um misto de sensações que não soubemos controlar.

Para que tudo corresse bem, procurámos as melhores clínicas de Portugal para realizar todos os exames, no qual todos estavam bem e a correr dentro da normalidade.

Dois dias após perder a minha avó (que era mais que minha mãe), realizei a primeira ecografia mais profunda onde se iria saber o sexo da bebé e ver se estava tudo OK. Foi impedida a entrada de acompanhantes.

Foi detetada uma translucência nucal muito elevada e a menina estava muito inchada, ao qual a médica me disse, sem problemas “A bebé não vai sobreviver, pode morrer a qualquer momento “…

Seguiu-se uma série de exames e ecografias, tal como a biópsia das vilosidades, que não detectou nada…a menina era, aparentemente, saudável.

Chegando às 21 semanas, nas últimas ecografias que realizei, a médica informou-me que a menina tinha uma hérnia diafragmática congénita, problemas cardíacos graves e estômago colapsado. O mais certo era a menina morrer ainda na barriga… mas, caso não acontecesse, acabaria por morrer numa das operações que iria ter que realizar à nascença.

Informaram-me que o melhor seria interromper a gravidez…Não quis acreditar que a vida me iria tirar o chão!

Tinha acabado de perder a minha avó e iria ter que acabar por perder a bebé que me deu força naquela partida tão dura.

A Benedita era a bebé mais desejada deste mundo. Tanto eu, como o Papá dela, a desejávamos com todo o nosso coração.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida

A Benedita já tinha o quartinho pronto e mais roupa que os Papás, que reviraram o mundo e percorreram em 6 meses mais médicos diferentes que em 6 gravidezes normais juntas.

A Benedita esteve 21 semanas e 3 dias dentro de mim. Permitiu-me ser mãe, realizou-me um sonho, mesmo tendo-me tornado mãe de colo vazio. A Benedita deixou-me senti-la durante horas, logo após as 17 semanas; não deixava dormir a Mamã e acalmava sempre que sentia o Papá.

Tinha o narizinho e os pés do Papá e adorava dormir toda enroladinha como a Mamã.

A vida é de facto injusta, e comigo tem sido avassaladora desde sempre. Quem diria que eu, que desde pequenina que sonhava com esta menina, iria ter que passar um processo destes tão doloroso. Eu, que me agarrei à esperança de que ela estivesse em crescimento e fosse apenas teimosa como a Mamã.

Tive que ter o acto de coragem mais difícil de toda a minha vida, por ela, para que não sofresse.

Passei pelo meu primeiro parto, sozinha, 4 dias num hospital, devido à pandemia “mais devastadora” do momento. Senti-a encostada às minhas pernas, grandinha e quentinha.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida.

O mais fácil é sempre dizer : “ És nova, terás outro! ” … A questão não está em ter outro, a questão está em ter sido uma bebé tão desejada durante anos.

Ninguém sabe, para além de mim e do Papá dela, o quão difícil foi aquele primeiro positivo, que nem sabíamos como reagir de tão felizes que estávamos.

O medo permanecerá sempre. E a saudade também.

E se há coisa que me faz sentir perto da minha filha, é estar abraçada ao Papá dela.

A Benedita será sempre o meu anjinho mais bonito do céu. Tudo acontece por uma razão…O meu arco-íris há-de chegar… Mas a Benedita fará sempre parte das conversas do dia-a-dia cá de casa! E será das maiores luzes na nossa vida, como o tem sido até agora, desde a sua partida para longe de nós!

Benedita, 06-05-2021 / 12h55

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Testemunhos

Soube que estava grávida do Gabriel já com 12 semanas.

Sentia-me mais cansada do que o normal, então resolvi fazer o teste de gravidez. E lá estava ele positivo…era nosso 4º bebé: temos 2 meninas e 1 menino, ficámos com 2 casais, o que o pai sempre disse que haveria de ter.

No dia 22 de novembro fiz a primeira eco. Tudo bem um bebé praticamente formado e muito mexido. Correu tudo normal até às 16 semanas, quando tive uma perda de sangue enorme. Pensava mesmo que já não tinha o bebé, mas não, ele era forte e aguentou. No entanto, a placenta tinha começado a descolar.

Vim para casa de repouso. Fiz uma ecografia no dia 2 de janeiro, na qual a médica me diz “está tudo bem mãe, não se preocupe”. Mas o meu coração não descansava, havia algo que não me deixava descansar. Até que, no dia 27 de janeiro, comecei com contrações, fomos logo deixar os irmãos  e seguimos para hospital.

Quando fui observada, vi logo que havia algo de complicado. O médico chamou logo outra médica para vir ver. A bolsa estava a sair com o bebé lá dentro. Foi-me dito que estava a entrar em trabalho de parto com 22 semanas. Nem tinha noção do que viria depois, só queria perceber se estava vivo. E estava, tinha batimentos cardíacos.

O Gabriel nasceu com 25cm e 480 gramas (…) um bebé perfeito, só faltava crescer

Fui para a sala de partos, chamaram o pai para perto de mim e disseram-me: “o médico já vos vem esclarecer e contar ao pai o que está a acontecer.”

As horas passaram e não apareceu ninguém… Até que as águas rebentaram. Fiz outra ecografia para percebem se o bebé tinha batimentos e sim, mais uma vez tinha.

Na minha inocência perguntei se ia ficar ali ou teria de ir para outro hospital… A resposta que me foi dada foi que era um bebé muito pequeno, mesmo que nasça com vida não iam fazer nada…se já estava mal naquele momento caiu o resto.

É o meu filho, aquela médica estava a falar do meu filho!

Voltei para a sala de parto onde ele nasceu às 02:45 do dia 28 de Janeiro.

Não sei dizer quanto tempo, se segundos, se minutos…se foram minutos não foram muitos, estava completamente desnorteada mas só ouvi a parteira a dizer que já não tinha batimentos.

Levaram-no para medir e pesar e, no fim, trouxeram-no enrolado num lençol branco…O Gabriel nasceu com 25cm e 480 gramas. Lindo, perfeito e nada vermelho; um bebé perfeito, só faltava crescer.

Esteve deitado ao meu lado, até me dizerem que tinham que o levar. As horas a seguir não foram nada fáceis, ainda passei pelo bloco operatório, a placenta tinha sido retida então foi fazer a limpeza.

Só pensava em sair dali ir para casa, para junto dos meus filhos. A mais velha fazia 9 anos no dia a seguir. Só não queria que se soubesse nada naquele momento.

Saí no dia 29 de janeiro com um termo de responsabilidade. Ela não podia saber que tinha perdido um irmão na véspera dos anos dela. Vim para casa e só lhe contamos uma semana depois…

Hoje todos nós temos um anjinho bo céu a olhar por nós.


O nosso Gabriel que nunca vai ser esquecido.

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Infertilidade

Há mais de dois anos entrou nas nossas vidas a nossa Ana do Carmo.

Não foi fácil, mas nenhum filho nos facilita a vida. Logo logo quando ia desistir, ela finalmente apareceu e tem sido uma crescente emoção na nossa vida e na vida dela.

A nossa história começa com uns longos nove anos de namoro. Eu e o Martim casámos e, logo a seguir engravidei, mas infelizmente perdi o bebé às doze semanas. Foi um choque para mim (para nós) pois sempre idealizei ser Mãe de quatro… e achei que nunca teria problemas em engravidar. Mas a vida prega-nos destas partidas.

Foi um processo doloroso pois acabei por ter um parto normal, vi o meu bebé e tive de fazer duas raspagens no espaço de dois dias! Enfim, uma violência logo de início!

Mas, como sou uma pessoa positivista, logo a seguir comecei a pensar em engravidar novamente, mas descobri que também tinha hipotiroidismo, endometriose e pouca reserva ovárica. Assim, estive cerca de quatro anos para voltar a engravidar quer pela consulta de infertilidade no público, quer pelo privado: sempre a tentar e a ter desmanchos. Foram longos anos a fazer estimulação com injeções, se não me falha a memória foram três, pelo meio uma menopausa precoce… enfim… resumidamente: um filme.

No meio de tudo isto tinha uma grande vontade de adotar e o meu marido, que sempre me disse durante este processo todo que tinha casado comigo por mim e não para ter filhos, que se eles viessem tanto melhor

Até que em 2010/2011 metemos o processo de adoção, pensando até em adotar irmãos. Continuámos com o processo de infertilidade e, em janeiro de 2012, fiz uma FIV finalmente com 2 embriões e engravidei, não vingaram e, mais uma vez, a desilusão.

Mas, como a vida dá muitas voltas, tivemos uma surpresa no mês a seguir de fazer a FIV: engravidei naturalmente da minha primeira filha, a Constança. Um verdadeiro milagre da natureza, para nós, mas também para os médicos.

Foram 41 semanas de uma santa gravidez, embora com um mix de medo e felicidade, mas correu super bem. Pelo meio tive de comunicar às assistentes sociais que estava grávida e fomos aconselhados a suspender a adopção para “vivenciar” a gravidez. Embora não concordássemos muito, lá aceitámos.

A Constança nasceu e passado pouco tempo descobrimos que ela era surda. Lidámos muito bem com isso, dentro do que se pode lidar e partimos para a colocação de implantes cocleares…mas isto já dava outra história…o que interessava é que afinal tinha nascido uma filha que era o que mais queríamos!

Passado 9 meses de a Constança nascer, engravidei novamente e mais uma vez perdi. É aí que decidimos reforçar à segurança social a nossa vontade de continuar no processo de adoção e, até 2017, nada aconteceu.

A nossa Ana do Carmo chega quando menos esperávamos.
Eu já tinha dito ao Martim que esperava até aos 45…depois disso desistia pois não fazia mais sentido. Mas eis que em Fevereiro de 2017 chamaram-nos para fazer uma formação e lá fomos nós sem expectativa nenhuma. Lembro-me de dizer ao Martim…”já não vai acontecer connosco, é tão difícil!!”.

Em Março desse mesmo ano, a 4 dias antes de fazer anos…estava a trabalhar e ligaram da segurança social a dizer que havia uma menina, fiquei a tremer de todos os lados…isto está mesmo a acontecer ?!?! Tinha metido o dia de anos de férias (meto sempre) e nesse mesmo dia lá fomos à segurança social e lá estava a foto com ela.

Em dois dias tivemos de decidir e em quinze dias tínhamos de lá estar a ir buscá-la! Foi um turbilhão de emoções, uma série de decisões a fazer, tais como logística (comprar bilhetes de avião, alterar o quarto delas para comportar mais uma), preparar a nossa filha Constança da vinda da irmã, etc e, por fim, lá fomos nós.

Mais giro ainda foi que a Ana do Carmo estava aos cuidados de uma instituição cuja Freira já de idade tinha sido Freira no Colégio onde o Martim tinha andado e inclusive ela fazia-lhe ovos estrelados quando o Pai se atrasava a ir buscar-lo. Que coincidência inacreditável!!!

Caíram os dois nos braços um e do outro, não se viam desde que o Martim era miúdo. E agora era ela quem cuidava da Ana e ficou super feliz por ficarmos com ela, dizia ela que levávamos um tesouro e nós tão contentes por sabermos que a Ana tinha tido tanto amor dela.

Ela começou de imediato a chamar-nos Mãe e Pai….pois a psicóloga da instituição trabalhou muito bem a integração, aliás ela ao terceiro dia de chegarmos, ficou a dormir connosco.

Não foi de todo um processo fácil, principalmente para ela: de repente vê-se com dois adultos estranhos….lembro-me que nem a mão queria para adormecer…para mim também era tão estranho…a Constança adora que lhe dê festas e a mão e a Ana nada…tirava a mão…

Mas agora já diz “mãe dá miminho e festinhas” ou então “Mãe, gosto de ti até à Lua” ou ainda “Gosto muito da minha família…” e começa a enumerar cada um de nós.

Desde então, tem sido uma descoberta e um crescimento fantástico, mas nem tudo é um mar de rosas, porque não é fácil de repente amar alguém de um dia para o outro. É um processo gradual de conhecimento mútuo, um amor que vai crescendo de dia para dia.


Hoje, já não vemos a nossa vida sem ela! A nossa querida teimosa Anocas

Mariana e Martim, Porto

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Perda gestacional Perda precoce

A dor e a surpresa de uma perda gestacional precoce são, por si só, uma experiência traumatizante. No entanto, há famílias que passam por este tipo de perda uma, outra e outra vez. Quando três abortos consecutivos ocorrem antes das 22 semanas, com os mesmos progenitores, considera-se uma situação de aborto de repetição.

O aborto de repetição afeta entre 1 a 5% das mulheres em idade reprodutiva.

Atualmente, em Portugal, podem ser realizados exames para apurar possíveis causas de perdas gestacionais precoces após a terceira perda. Ainda assim, mesmo depois de investigação, cerca de 50% dos casos continuam sem explicação clínica.

Aborto de repetição: possíveis causas

Apesar das causas genéticas serem, geralmente, responsáveis por cerca de 50% dos casos de aborto antes das 10 semanas de gestação, outras causas incluem:

  • causas anatómicas (como o útero septado e o útero bicórneo),
  • causas endócrinas (como alterações da tiroide)
  • causas imunológicas, infeciosas
  • Trombofilias (alterações da coagulação do sangue que podem resultar em trombose) e outras. 

De facto, há, ainda, muitas áreas cinzentas no que diz respeito às causas e tratamentos de abortos de repetição e outras perdas gestacionais. Contudo, segundo um estudo recente do The Lancet, podem estar relacionadas com o uso de progesterona em gravidezes após a perda para que a gestação seja levada a termo com taxas substanciais de sucesso. Num outro estudo, a Tommys publicou informação também muito útil em relação à progesterona e medicação ligada à diabetes para otimizar as probabilidades de uma gravidez com sucesso.

Contudo, há muitos fatores em jogo que podem afetar o risco de aborto como a idade materna ou dos progenitores, historial de perdas anteriores, entre outros.

Por isso, é importante oficializar, clinicamente, as perdas que se tem. Sabemos que é triste, mas, desta forma, ser-lhe-ão oferecidos exames que poderão prevenir futuros abortos espontâneos.

Infelizmente, há ainda muitos casos em que as causas não são descobertas e isto afeta imenso os casais.

De qualquer forma, como já notamos, para a maioria das mulheres em idade reprodutiva, a gravidez é, por si só, um acontecimento transformativo e o aborto, representa mais do que simplesmente a perda do produto de conceção.

Representa, principalmente, a morte de um filho, a mudança súbita de planos e expectativas e pode, até, despertar dúvidas sobre a sua competência como mulher e como pais. E o processo de luto não é fácil. Tem direito a chorar pelo bebé que perdeu. Seja ele o primeiro, segundo, terceiro…São todos seus e todos importam.

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Perda tardia Testemunhos

Depois de 2 anos a tentar engravidar, e já em consultas de PMA (infertilidade), engravidei naturalmente. Soubemos em Novembro de 2020, estávamos mega felizes…

Tudo correu bem até à segunda ecografia, em que a médica me diz (devido à pandemia, estava sozinha) que o bebé tinha uma malformação muito grave…

Mandou entrar o meu marido, também lhe explicou o que passava, e marcou-nos consulta para uns dias mais tarde, onde iríamos decidir o que fazer. Disse-nos para até lá irmos pensando.

Ficamos completamente desnorteados, o mundo caiu-nos em cima.  Tínhamos em mãos a pior das decisões para tomar, tirar a vida ao nosso bebé, era um rapaz…depois da decisão, foram mais uns dias até fazer a interrupção, porque até nestas situações a burocracia impera, e esses só foram os piores dias da minha vida.

Era um bebé perfeito

Continuar a ter dentro de mim um bebé, que sabia ia ficar sem ele, um bebé com vida, que eu lhe ia tirar…

E no dia 14 de março de 2021, nasceu o nosso bebé sem vida, uma vida que fomos nós que decidimos terminar, mas que no fundo sabemos que foi o melhor.

Era um bebé perfeito (decidimos que o queríamos conhecer), não fosse ter “espinha bífida aberta”.

E no fim de tudo isto, fica uma dor enorme…. não há dia que não pense, não há dia que não me lembre, e tenho a certeza que será eternamente assim, porque não há maior dor, do que a de perder um filho…. 

Um beijinho do tamanho do mundo e um xi-coração apertado.

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Testemunhos

Em janeiro de 2017 descobri que estava grávida! Sonhos, projetos, contar à família e aos amigos. Como sou uma pessoa super emocional e que sempre viveu intensamente o bom e o mau, estava para lá de feliz!

Passado duas semanas tive a minha primeira perda com apenas 6 semanas – uma gravidez molar. Senti um vazio como nunca poderia imaginar. Ia duas vezes por semana ao hospital para tirar sangue e ia a um médico ginecologista oncológico só para me dizer que o meu BetaHCG estava a descer.

Processo muito doloroso psicologicamente e que demorei muito para reagir, pois rodear-me de grávidas duas vezes por semana não é propriamente o que esperamos depois de passar por uma perda.

Despedi-me do meu trabalho, parei para respirar e passar pelo meu próprio processo à minha maneira, pois acredito que cada um tem o seu tempo e devemos respeitar.

Após um ano, a segunda perda ocorreu às 8 semanas. Pensava que nunca conseguiria parar de chorar, de lamentar e de perder a energia negativa e revolta que tinha com a vida.

Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Decidi um dia recorrer ao life coach que me deu ferramentas e um novo olhar para a vida – cuidar e gostar mais de mim, pensar menos no que os outros dizem e olhar para o quão forte fui durante a vida toda e o que consegui. Neste processo, tive de lidar com a depressão do meu marido e não foi fácil, mas nada é impossível…Muita resiliência, muito acreditar e muita força.  

Em janeiro de 2021 finalmente teste positivo – decidimos não contar a ninguém e viver numa bolha de amor, meditação e tranquilidade durante uma semana. Novo sangramento, nova perda.

Quando passas três vezes por isto, já vês as coisas de forma diferente mas sentes sempre o vazio. 
Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Hoje já estamos em estudos genéticos a tentar encontrar respostas para as nossas perdas e continuamos a acreditar que um dia, quando tiver de ser, a vida nos vai trazer este amor fora do coração, como tantas mães descrevem.
Cair… respirar… recomeçar… amar… acreditar…


Com amor para todas, 
Sofia

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Testemunhos

Soube que estava grávida em Março, uma gravidez desejada e planeada, análises pré-natal feitas, apoio na nutricionista.

Marquei de imediato consulta obstetrícia e estava tudo bem. Às 8 semanas, lá fui eu para consulta de rotina, mas… Infelizmente o bebé não tinha batimentos cardíacos. Vi logo que algo não estava bem, o silêncio, o semblante da médica.
A equipa médica foi muito querida, explicaram tudo, talvez porque a médica já tinha passado pelo mesmo, ou, espero, porque as coisas estão a mudar.
Tinha um Aborto retido.

O pai não pôde entrar, ficou no carro e também ele foi apanhado de surpresa. Também ele tinha dúvidas que eu, por ser profissional de saúde, a custo fui explicando. Mas e quem não sabe? Quem não é da área? Senti um vazio tão grande…

(…) ajudaram -me com palavras que pareciam abraços.

Mas voltando ao aborto retido, optámos por esperar uma semana para ver se a expulsão acontecia naturalmente. Foi angustiante. Psicologicamente muito difícil. Difícil expressar por palavras. O corpo não colaborou, tomei os comprimidos.

Disse à médica que sou caso raro pois não tive dores físicas, só hemorragias (físicas e psicológicas). Um processo doloroso psicologicamente. Algo que ninguém está preparado.

Agradeço o apoio do meu marido, pais e, acima de tudo, de amigas que tinham passado pelo mesmo e que me ajudaram com palavras que pareciam abraços.
Abraços que nesta fase de pandemia fizeram muita falta.

Sou aromaterapeuta certificada, trabalho maioritariamente com grávidas, recém-mamãs e bebés. E nunca tinha pensado neste lado da maternidade.

Os óleos essenciais ajudaram -me a descansar um pouco melhor a nível emocional foram um grande complemento, juntamente com apoio psicológico.
Não sei se foi o destino, mas a partir de agora estou também disposta a ajudar outras mulheres que passem pelo mesmo. Se puder ajudar de alguma forma estou disponível.

Um bem-haja e grata pela página que ajudará muitas famílias e mulheres ❤

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Testemunhos

Cada filho uma missão

Chamo-me Ivone. Acabo de fazer 45 anos. Nasci no Porto e vivi perto de Famalicão até ao fim da minha adolescência. Fui para a faculdade no Porto. Dali, migrei para a Itália como assistente Língua e aqui conheci o meu marido. Pensávamos que eu não podia ter filhos.

Estávamos a tentar há três anos e meio, e nada. Depois; o atraso, a ameaça de aborto, o colo do útero mais curto do que o devido.

Às 32 semanas, nasceu o Samuel.

Vi o meu menino depois de quatro longos dias e trouxe-o para casa depois de vinte. Fiquei com um grande trauma pela prematuridade do meu filho.

Tentei ajudar outras mães como eu. Criei um grupo, e percebi que a prematuridade pode ser vista como uma forma de luto. Agora, o Samuel tem 13 anos. Está bem, é saudável, mas ainda tenho essa cicatriz.

Quando o Samuel tinha seis anos, tive uma gravidez completa. O Gabriele Pio nasceu às 41 semanas, depois de um trabalho de parto de sonho. Romperam-me as membranas e disseram-me para me deitar. Os batimentos cardíacos subiram para 200 e caíram imediatamente para 45. Fizeram-me imediatamente a cesariana e o meu menino ganhou um lugar no céu.

Sempre o incluí como membro da nossa família. Nunca evitei falar dele, de o contar entre os meus filhos, e muitas pessoas reagem mal a isso. Tenho cinco fotografias dele que, para mim, são preciosas. Estão na minha carteira, na minha secretária em casa, no meu telefone, num medalhão, e não escondo nenhuma dessas coisas. Para mim não seria natural escondê-las.

O Gabriele faz parte de mim e estará sempre comigo. 

Depois de três anos, nasceu-me a Íris. Nasceu há nove meses quase certinhos e felizmente consegui amamentar. Teve um bocadinho de icterícia mas essa a nós faz-nos cócegas depois de tudo o que passámos.

A Íris tem quatro anos e conhece muito bem o irmão Gabriele. Fala dele sem medo e isso para nós é muito importante. A gravidez dela foi muito difícil. Fiz cesariana programada, porque estava aterrorizada. Normalmente digo que ela é a minha fadinha, porque trouxe outra vez a magia para a minha vida.

Agora tenho 45 anos. Está para fazer 8 anos que o céu tem um pedaço imenso do meu coração. E ainda dói.

O Samuel mostrou-me o que é a prematuridade e quanto pode ser precioso SABER que há outras pessoas que passaram ou passam pelo mesmo. O Gabriele mostrou-me como se ama com um céu de distância. A Íris ajudou-me a sentir-me outra vez viva. A magia existe, e para mim chama-se Irís. 

❤️