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No dia 5 de Outubro, é o 3° aniversário do Francisco, o nosso anjinho…

Nunca pensei dizer isto, mas com o passar do tempo, lembro me mais dele e de tudo o que passei. Não sei se é normal mas o chegar do dia deixa-me bastante triste.

Quando a 12 de Setembro fui fazer a 2ª ecografia morfológica fetal tudo mudou na minha vida. Saí de lá, com a sensação que a gravidez não iria durar muito.

A médica detetou um crescimento no bebé pouco desenvolvido para o tempo em que estava. Mas, para piorar a situação, tive uma pré-eclâmpsia, que me levou ao hospital algumas vezes.

Apesar dos avisos do médico, não aceitei ficar internada por ter uma filha pequena e o marido a trabalhar no estrangeiro. Chegou uma altura, que não aguentei mais e tive mesmo de ser transferida para o hospital de Braga e, no dia a seguir, a cesariana foi feita por me encontrar bastante mal.

O Francisco sobreviveu dois dias. Não o vi, apenas os meus pais.

Ainda não me arrependi da decisão mas, de qualquer forma, estava bastante debilitada para o fazer, pois estive nos cuidados intermédios a recuperar.

Não é fácil passar por uma situação destas, porque temos de registar um filho que não está nos nossos braços, temos de o enterrar, como já fizesse parte das nossas vidas há muito tempo e temos de lidar com as pessoas que nos rodeiam…. Principalmente, temos de saber lidar com a nossa dor… Que essa, nunca irá passar…

Dedicado a ti, Francisco.

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No dia 1 de janeiro de 2022 tivemos os taão aguardados 2 risquinhos no teste de gravidez e a partir daí aconteceu magia todos os dias. Foi uma gravidez santa sem enjoos, sem cansaço, sem mau humor. Todos os dias eram uma benção, sentia-me feliz e mais bonita do que nunca. A barriga crescia todos os dias e fez-se notar desde muito cedo.

Depois de um domingo de Páscoa feliz, em família, onde completamos 20 semanas, seguiu-se uma noite com algumas contrações mas consegui adormecer de novo. 

De manhã estava a perder sangue e corremos para o hospital. Em menos de nada disseram que estava em trabalho de parto e que a prioridade era salvar a mãe.

Estupefactos e assustados com tudo o que estávamos a viver, parecia que aquela realidade não era a nossa. Mas foi.

Durante 10 dias ficámos internados com um diagnóstico de insuficiência istmo cervical, repouso absoluto da mãe, mas o filho nunca se mexeu tanto como até então. Sentia o nosso pequeno a toda a hora e cada vez que punham o doppler era rápido para ouvir aquele galopar cheio de vida daquele coração perfeito.

Todos os dias naquele hospital foram um desafio. Todos os dias me diziam que o diagnóstico era grave, que não havia nada a fazer e que ele acabaria por nascer e não seria possível salvá-lo antes das 24 semanas. Depois disso também seria difícil. 

Todos os dias o discurso dos médicos era desanimador e todos os dias me incentivavam a pôr de pé para acelerar o processo. Ora, com um filho perfeito no ventre e a senti-lo mexer e a reagir ao meu toque, como seria capaz de apressar o processo?

Não estava em negação. Sentia que, infelizmente, não o teria ao peito como sempre tinha imaginado e não o iria ver crescer saudável e feliz como tanto pedi. Daí a apressar o seu nascimento é muito diferente.

Apesar dos desafios todos os dias tive o apoio incansável do pai do meu filho, no meio da tempestade conseguimos mantermo-nos mais unidos que nunca e durante as 2h/3h da visita não haviam tristezas. Jogávamos às cartas, ríamos e comíamos tranquilamente. Ficávamos os três, em família.

No dia 28/04 acordei com contrações e na eco vimos que ele já estava encaixado para nascer. Passamos para o bloco de partos.

Passamos lá o dia, tranquilos, a jogar cartas e a conversar. Não queríamos que o último dia dele connosco fosse de tristeza. E não foi. Estávamos e estamos felizes e muito, muito gratos por termos tido o nosso anjinho connosco durante toda a gravidez. Ele tornou o nosso sonho realidade e fez de mim uma mulher empoderada durante todo aquele tempo. 

O amor que lhe temos é tão, tão grande e a felicidade que ele nos deu é tanta que nós não podemos ficar só tristes.

Ao final daquele dia 28/04, depois de um parto natural, conhecemos o nosso filho.

O nosso Duarte veio ao mundo com 28cm, às 22 semanas e era lindo, lindo! O nosso bebé era parecido connosco e todas as suas feições eram de uma perfeição como nunca tinha visto. Apesar das 22 semanas, o nosso valentão apertou os dedos aos papás, reagiu ao nosso toque e colocou-se numa posição que parecia estar em paz. E nós também ficamos. A mãozinha esquerda ficou amarrada ao cordão, talvez a forma dele mostrar que vai ficar sempre ligado a nós.

Depois deste encontro mágico de amor, seguiram-se hemorragias horríveis, anemia, novo internamento e um sangramento que durou 3 meses.

Tudo isto aconteceu na primeira metade de 2022. Ainda assim não consigo olhar para este ano de outra forma que não seja com amor e gratidão. Apesar de não termos o nosso Duartinho ao colo, ele está connosco em tudo o que fazemos. Vai ser sempre nosso e nós sempre dele. 

Quando falo sobre o meu filho só consigo sentir amor. Só consigo sentir alegria por ter tido oportunidade de o gerar e de o conhecer. Tirei-lhe uma fotografia e já fiz um álbum, já fiz uns cinco retratos com artistas diferentes.

A perda dói. Dói a saudade, dói não conseguirmos expressar e dar-lhe todo o amor que lhe temos, dói não o vermos crescer. Ainda assim é possível sentirmos amor na perda. O amor que lhe temos é tão, tão grande e a felicidade que ele nos deu é tanta que nós não podemos ficar só tristes.

Somos pais dele, seremos sempre. Ninguém nos tira tudo de bom que vivemos naqueles meses. Ninguém nos tira o encontro mágico que vivemos quando o vimos.

É assim que o quero recordar. Com alegria e amor. É tudo o que tenho e tudo o que lhe queria dar se cá estivesse.

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Vou falar-vos da Francisca, a luz da minha vida.
Eu e o pai decidimos que em Setembro de 2021 seria uma boa altura para começarmos a tentar engravidar. E foi, de facto, uma boa altura.
A 7 de Novembro veio a boa notícia: a Francisca já estava dentro de mim.

No dia seguinte fomos ao médico e fizemos ecografia que confirmou: lá estava um pequeno saquinho com 5 semanas.

Eu estava cheia de medo, insegurança, receio. Sempre a achar que na próxima ecografia nos diriam algo que não queríamos ouvir. Aquele medo de mãe.

Mas o tempo foi passando, e às 8 semanas ouvimos o coração daquele bebé tão desejado.

Às 12 semanas, a ecografia morfológica confirmou que estava tudo bem e a nossa bebé (ainda sem sabermos que era uma menina) seguia forte.

De três em três semanas lá íamos nós ao nosso médico e lá estava ela, a mexer-se muito. E o médico dizia isto a cada consulta: “Vai ser comprida como o pai”. O pai mede 1,93m.

Em Fevereiro de 2022, ao contrário do que eu previa, é-nos dito que vinha aí uma menina. Não tinha nome, só tínhamos nome para menino…

Até que o pai, um dia, olha para mim e diz “vai chamar se Francisca”. Fomos ver o significado e dizia “francesa livre”. E o pai é francês. Então sem dúvida ficou o nome decidido, Francisca.

O tempo foi passando, a barriga cresceu, a alegria e felicidade também. E aí comecei a crer que sim, que já não ia acontecer nada, que a nossa Francisca tinha vindo para ficar.

No fim de Maio, numa ecografia morfológica, dizem-nos que a Francisca era magrinha e comprida, que a mãe devia repousar mais.

Calhou bem, pois só nessa semana eu tinha acabado de preparar as roupas.

E eu cumpri. De 15 em 15 dias lá íamos nos ver da Francisca e ela engordava mas muito pouco.

Até que, três semanas antes do seu nascimento, comecei a senti-la cada vez menos. Supostamente estava tudo bem, diziam os médicos. Mas eu sentia que não.

Quando ma deram nos braços para me despedir, soltou o único som que lhe havíamos ouvido nos seus poucos 5 dias. Conheceu-me, eu sei que sim.

Entre idas à urgência e a certeza dada que tudo estava bem, entro em trabalho de parto que se revelou muito rápido, rápido demais.

A Francisca não aguentou as contrações porque afinal tinha uma restrição de crescimento grave.
Tudo nela era pequeno, a placenta, o cordão. Menos ela: media 53cm.

No trabalho de parto, entrou em sofrimento e ficou privada de oxigénio.
Por isso, nasceu de uma cesariana improvisada, no meio do caos.
Foi reanimada 5 vezes e internada no Hospital Pediátrico de forma a se conseguir controlar os danos. Mas os danos eram irreparáveis.

A RM confirmou: a Francisca não tinha atividade cerebral e só o ventilador a mantinha ligada a nós.

Então, num dia quente de domingo, cinco dias depois da nossa luz ter vindo ao mundo, decidimos desligar o suporte de vida.

Quando ma deram nos braços para me despedir, soltou o único som que lhe havíamos ouvido nos seus poucos 5 dias.
Conheceu-me, eu sei que sim.

Nove meses de amor não se esquecem assim.

E assim, nos braços do seu querido pai, a Francisca esteve sem ventilação uns breves 40 minutos (porque nós queríamos e tínhamos uma vida inteira) e adormeceu na morte.

Gravei o seu toque, o seu cheiro. Fecho os olhos e sinto a sua essência. Beijei-a muito, mexi-lhe nas bochechas. A nossa bonequinha era a coisa mais linda que alguma vez tínhamos conhecido.

Há coisas duras na vida. Mas decidir desligar o ventilador de uma filha recém-nascida não tem descrição.

E agora, 4 semanas depois, estamos a tentar sobreviver. Sem ela, a luz da nossa vida.

A esperança não morreu. A vontade também não. Eu hei-de continuar a ser mãe, o pai há-de continuar a ser pai. E a benção de um irmão para a Francisca há-de chegar.

O nosso foco irá mudar, se isso acontecer. Mas para onde olharmos, onde está um, poderiam estar dois, onde estão dois poderiam estar três. Porque a Francisca é eterna nos nossos corações. Fez de nós pais e se tiver irmãos, vai ser falada e dada a conhecer.

Esta história nunca será de alegria. Espero vir um dia dizer-vos que foi uma história de superação, de resiliência, de coragem. Mas se há coisa que esta história foi, foi de amor. Um amor imensurável, terno e doce como nunca antes havíamos experienciado.

Foi isso que tu vieste trazer ao nosso mundo Francisca: amor. Até um dia, minha bonequinha. É um soninho. Até já.

Quanto às mães e pais que também viram o seu bebé adormecer na morte: não estão sozinhos. Estamos juntos. Amanhã será um dia melhor. 

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“Meu amor pequenino,

No dia 3 de novembro de 2020, fomos pais pela primeira vez de um lindo bebé chamado Lourenço: tu!

Nada fazia prever que a tua passagem iria ser tão curta nesta vida. Nasceste e foste de imediato para a incubadora.

Vi-te, ao longe, com os olhos ainda enevoados da anestesia da cesariana. Conheci-te através de uma fotografia, tirada pelo pai, já com tubos na boca, nariz e umbigo. “É igual a ti”, disse o pai. E eras mesmo! Branco, loiro, careca e com os olhos rasgados.

O pai, carinhoso e preocupado, dizia-me para descansar que logo, logo, tu virias para o quarto ter connosco…mas não te traziam. Estavas muito doente, tão doente, e ninguém sabia porquê nem como te ajudar a melhorar.

Vi-te pessoalmente e senti a tua pele macia pela primeira vez, cerca de 14 horas depois de nasceres. Peguei-te ao colo no teu 3º dia de vida, depois de sabermos que a tua doença não teria solução.

Viveste durante os 17 dias mais especiais das nossas vidas, sempre “um dia de cada vez”. No dia em que partiste, vimos-te pela primeira vez sem tubos, sem artefactos, vestido com a tua roupinha, e estivemos os três, abraçados, durante quase três horas. Naquele dia 20 de novembro de 2020, prometemos que iríamos para sempre celebrar a tua vida. Foste um guerreiro e inspiraste-nos a todos a viver com amor, serenidade e gratidão.

Obrigada, querido Lourenço, por cada colinho, cada reação, pelas músicas que te pude cantar, pelas duas vezes que abriste os olhos para mim, por me mostrares que não estavas confortável, pela tranquilidade de cada abraço, pelos carimbos da tua mão e pés que guardo com carinho, pelo creme que te pude colocar, pelos beijinhos que te dei, às escondidas, por debaixo da máscara, pelos momentos de amor incondicional que tivemos os três. És uma inspiração, meu bebé, e prometo honrar a tua vida sempre, enquanto eu viver, porque vives em mim.

Hoje celebramos-te com todo o amor e gratidão pela tua vida! Em cada vela acesa, em cada intenção, cada abraço, cada oração. Obrigada por nos teres escolhidos para teus pais, por teres escolhido esta família e estes amigos tão especiais. Obrigada por cada pessoa que trouxeste até nós, nesta caminhada sem ti. 

1 ano de ti, 1 ano de amor, 1 ano de gratidão, 1 ano de saudade do que foi e do que poderia ter sido! Amo-te para além da lua, “coisa mais bonita que Deus fez”! 

Lourenço pelos olhos da tia
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A minha Maria

Dei à luz no dia 16/6 as 8h58, com 1,640 e 47 cm, uma menina verdadeiramente lindíssima!! 🥰

A nossa menina nasceu muito antes do tempo, prematura (31 semanas), mas quis o Destino que a sua vida fosse curta mas cheia de amor e carinho nosso.

Nasceu a precisar de ajuda para respirar e derivado a uma evolução de estado muito grave, surgiram muitas complicações a nível cerebral tendo futuramente, se sobrevivesse, ficado com muitas sequelas.

Como estava somente ligada à Vida pelo suporte básico de vida, em conjunto equipa médica e nós pais, decidirmos o que viria a ser uma das maiores decisões da vida de um Pai e de uma Mãe…

Com todo o carinho, todo o amor, a nossa menina foi respirando sem a ajuda e deu o último suspiro, no colinho da mãe dia 19, pelas 18h07…

Durante todo este dia fizemos tudo o que podíamos fazer com um filho, cuidámos, tratámos da sua higiene, demos muitos carinhos, beijinhos, cantámos, embalamo-la,contamos histórias e ela sempre em paz…

Será lembrada com muito carinho e sobretudo muita luz. O último suspiro vai ser lembrado como sendo nos meus braços, mas porque foi, com a maior intimidade, conforto e amor que uma mãe pode dar.
A nossa história sempre foi e será de Amor e sempre será de um Amor Infinito visto por um Olhar de Esperança, que não vivido na sua Plenitude, foi vivido com muita Fé, Carinho e Amor mútuos.

Nunca percam a Esperança e a Fé. Sabemos que os dias vão ficar menos luminosos, a dor é grande e os sentimentos de um luto, mas como sempre, um dia de cada vez.

Os nossos Bebés-Anjo não se medem aos palmos, mas na Grandiosidade do coração e do Amor que nos envolve. São feitos de uma Imensa Luz, quanta o tamanho do Céu, e essa é a Luz que continuará a brilhar nos corações dos Papás-Anjo.

As Mamãs e os Papás-Anjo não estão sozinhos, “Estamos juntos” ❤

Filipa

@filipa_silva_lopes

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Em maio de 2020, tivemos a melhor notícia que podíamos ter tido e que esperávamos há 2 anos, estava grávida do nosso primeiro filho! Foi um choque porque parte de mim já não acreditava que seria possível, mas foi o choque mais bonito da minha vida. Sempre quisemos ter um menino, e logo na primeira ecografia pude dar essa notícia ao meu marido, que por causa da pandemia esperava ansiosamente no carro, foi uma alegria!!

Foram nove meses de magia, apesar de não podermos partilhar como gostaríamos por causa da pandemia, mas ver a minha barriga a crescer foi lindo, começar a sentir o nosso menino dentro de mim foi e será sempre das melhores sensações do mundo. Decidimos que o nosso menino se iria chamar Rafael.

Foi uma gravidez saudável, todas as análises e ecografias dentro dos valores normais e o Rafael a crescer cheio de saúde. Em nenhum momento da gravidez me senti nervosa,  como muitas meninas partilhavam comigo, estive sempre tranquila e a espera do meu bebé.

Às 38 semanas e meia, mais precisamente na noite de dia 13 de janeiro de 2021, tinha consulta no dia seguinte, sinto que estava a perder líquido…tinha uma rutura pequena na bolsa. Estive sempre calma e a ser acompanhada pelo meu médico que me transmitiu sempre tranquilidade, tinha que esperar o início do trabalho de parto. O bebé estava bem, estava tudo bem.


Fizemos o teste do covid no dia seguinte de manhã,  e assim que o resultado veio, negativo, fomos para a maternidade.

Uma equipa espetacular! Estávamos quase a conhecer o nosso Rafael.
Estive sempre bem, até que, tendo em conta as horas que já tinham passado, decidimos iniciar medicação para provocar as contrações. Na noite de 14 para 15 as contrações começaram em grande, são realmente dores muito fortes e, por já não aguentar e ter que descansar decidi levar a primeira dose de epidural. Conseguimos dormir, o Rafael sempre bem (sempre ligada ao CTG). 

No dia 15 de manhã comecei a fazer dilatação de uma forma rápida e às 14h já tinha os 10cm, já estava a iniciar a fase de expulsão, muitas dores, insuportáveis, pedi mais uma dose de epidural e fomos para o bloco de partos.

Com a ajuda do médico porque não sentia as contrações, começámos a fazer força. Ele dizia que eu estava a portar me bem, eu estava a fazer toda a força que podia, queria ver o meu bebé o quanto antes. Comecei a ficar muito cansada, e o médico aconselhou a usar ventosas para me ajudar, e assim foi.

Comecei a sentir que a força que eu fazia era inútil e que a ventosa não estava a resultar, nunca mais via o meu bebé..! Ate que 40m depois senti um alívio enorme, uma sensação inexplicável, o Rafael tinha nascido. Senti uma coisa quente com um cheiro maravilhoso, meio doce em cima da minha barriga, eu tinha os olhos fechados, abri, era ele em cima da minha barriga.

Imediatamente percebi que algo não estava bem, as enfermeiras tiraram-no e começaram a limpá-lo, não percebi o que faziam porque elas estavam todas à volta dele. Estava cansada, mas ao mesmo tempo queria que fizessem no contacto pele a pele e nunca mais, foram segundos, mas algo se passava.

Elas encostaram  a cabecinha do meu menino a mim e disseram “mãe da um beijinho ao Rafael para nós podermos tratar dele,  o pai pode vir connosco”.

O meu marido deu-me um beijo e foi, eu comecei a chorar porque não estava a perceber o que estava a acontecer. 

O médico aguardou que a placenta saísse, ajudou um pouco, deu-me poucos pontos, tinha feito uma laceração de 1° grau, fui para o quarto na maca mas, no caminho, a enfermeira perguntou se eu queria ver o meu menino. Eu disse que sim!

Passei por uma incubadora e lá estava ele, quietinho com muito cabelo preto, e o meu marido ao lado.

Estamos juntos a tentar viver com o que aconteceu, aos poucos vamos conseguir.

Fui para o quarto e passado duas horas deixaram-me ir vê-lo, fui pelo meu pé.

Quando cheguei lá o meu coração estava do tamanho de um grão de areia, apertado. E ainda ficou mais, o Rafael estava com os olhos semi abertos, a emitir som como que se estivesse a gemer, a sofrer. Pus os braços dentro da incubadora e toquei-lhe nos bracinhos, nas bochechas…era pouco, eu queria mais, e aquele som eram facadas no meu peito.

A enfermeira e a médica disseram que ele estava com os sinais vitais bem, e que teríamos que aguardar para ver o que ia acontecer, já tinham mudado a fralda o que era bom, tinha feito as necessidades e isso era bom sinal. Mas a mim não me tiravam da ideia que estava tudo mal…

Fomos para o quarto, eu e o meu marido. Estava de rastos, sentia que o meu mundo tinha desabado.

O meu marido foi lá vê-lo mais vezes enquanto eu tentava descansar. Eu queria ir, mas ao mesmo tempo custava-me tanto vê-lo assim que não tinha coragem.

A médica veio ao quarto explicar o que tinha acontecido, tinha havido uma hemorragia cerebral e as próximas horas eram importantes para perceber quais as sequelas.

Eu estava completamente vazia e sem reação, o meu marido estava confiante, dizia me que ele já não gemia, que já se mexia como um bebé normal. 

Inevitavelmente, criei uma esperança de que ele tivesse razão. 
As 3h da manhã a médica foi lá ao quarto pedir que o pai fosse ver o Rafael, eu acho que meu coração parou naquele momento. A hemorragia não parava…

Quando o meu marido veio eu percebi que algo estava muito mal, fui vê-lo, estava novamente quietinho, com os olhos fechados. Não consegui tocar-lhe, não fui capaz, fiquei lá pouco mais de 5m, não consegui estar ali sem poder dar colo, dar beijos e amor ao meu menino. É certo que não pedi para o fazer, não tinha palavras, não conseguia pensar, nada.

Fomos para o quarto, e eu deitei-me. E fiquei à espera que alguém entrasse no quarto a qualquer altura…

As 6h da manhã entrou a médica e deu-nos a pior notícia do mundo, a que ninguém merece, a que dói mais, aquela que não é suposto. O nosso bebé tinha partido. 
Foram minutos, horas, dias de uma dor inexplicável. Tudo parou.. Uma das vezes que saímos do quarto para eu ir fumar, as auxiliares tiraram o berço do quarto. Estava lá o ovo, a mala..

Sair da maternidade sem o nosso bebé é horrível.

Já passou quase um mês e meio. Dói muito, custa muito! Estamos juntos a tentar viver com o que aconteceu, aos poucos vamos conseguir. Nunca vai deixar de doer, nunca me vou esquecer. Mas tenho esperança que um dia consiga lembrar-me do meu menino com um sorriso.

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Ajuda prática Perda Tardia - Durante

Quando lhe dão a notícia de que o seu bebé faleceu ainda no seu útero, ou irá falecer em breve ou mesmo que terá de interromper a gravidez por razões médicas, uma das questões que pode colocar a seguir é como contar a amigos e familiares sobre a perda do seu bebé. Nas primeiras horas, poderá ser complicado. Logo que se sinta preparado, damos algumas dicas do que pode fazer para ser mais fácil:

  • Pedir ajuda quando precisar. Por exemplo: use um familiar em que confie para partilhar a notícia com a restante família ou amigos;
  • Em alternativa, uma mensagem para todos poderá chegar;
  • Se precisar ou quiser, pode também partilhar nas redes sociais para que possa revelar o que aconteceu e pedir que lhe deem espaço ou o(a) contactem para o(a) ajudarem.

Como contar a amigos e familiares sobre a perda do seu bebé: mais conselhos

Se o seu bebé tiver morrido perto da data prevista do seu nascimento, é comum que as pessoas a par da sua gravidez estejam à espera, entusiasticamente, por notícias boas. Assim, poderá ser um equilíbrio bastante delicado contar a amigos e familiares sobre a perda do seu bebé. Se ligar a familiares e amigos, pode, por exemplo, começar por: “Tenho notícias tristes”.

Assim, frases como esta poderão ajudar a definir o tom da conversa que se vai seguir. Ajudam ainda a reduzir o número de comentários e interjeições que serão custosas. Seja firme quanto ao tempo da conversa, explicando que será uma conversa breve. Isto pode ser não só pela quantidade de partilha, mas também para proteção pessoal.

Se a perda for neonatal, pessoas que estavam a par do estado de saúde do bebé podem também ter dificuldades em continuar uma conversa consigo.

É possível que os seus amigos e entes queridos não saibam bem o que dizer. As suas notícias são difíceis para eles também e poderão despertar experiências pessoais. Desta feita, poderá sentir-se culpado(a) e na situação de os confortar a eles. No entanto, é importante que se lembre que esta é a sua experiência e que esta é a altura para receber apoio e conforto em vez de se preocupar com os outros.

Peça ajuda, se precisar

Tente não sentir que tem de responder a todas as perguntas de toda a gente. Diga apenas o que achar melhor e conseguir. Mais tarde, haverá tempo e cabeça para partilhar mais detalhes e responder a pessoas.

Se precisar e puder, peça a família e amigos que tomem conta de crianças que possa ter ou ajudar em atividades caseiras, como trazer uma refeição ou até ajudar na lida da casa.

Frequentemente as pessoas vão querer ajudar e agradecem instruções claras. Se deixar outros filhos com avós ou familiares próximos, poderá também pedir-lhes que expliquem o que aconteceu e que os pais estão a resolver as coisas antes de voltarem para casa.

apoio, suporte, contar a amigos e familiares