Categorias
Testemunhos

É a primeira vez que te escrevo desde o dia em que soubemos.

Desculpa a ausência. Podia-te mentir e dizer que estive muito ocupada, mas a verdade é que nem estive assim tão ocupada.

Mas estive a reaprender a viver e a saborear as pequenas coisas, como ver um filme (que nem precisa de ser bom) no sofá, enrolada numa manta com o teu pai, ouvir música, cantar (desafinada) e passear, e a reaprender (ou talvez aprender, pela primeira vez) a trabalhar com calma, serenidade e consciência. Não foi algo forçado, mas se a tua chegada já foi transformadora, a tua partida foi ainda mais.

Eu estava bem, a sério que estava. Mas estes últimos dias têm sido difíceis. Tenho saudades tuas e uma tristeza profunda por saber que nunca te vou conhecer. Sinto-me quase vazia, como o pequeno saco que se formou no meu útero. Uma pequena casa que nunca foi habitada.

Quero enrolar-me no meu corpo e ficar. Só hoje. Amanhã já sou forte outra vez

Eu estava bem, a sério que estava. Mas agora preciso de respostas. Preciso de voltar a confiar no meu corpo. De voltar a acreditar que sou capaz de gerar uma vida e dar colo. Eu, que sempre me considerei cética, preciso de acreditar em algo mais forte do que números e ciência.

“Estas coisas acontecem, 1 em 4 gravidezes conhecidas.” Ok, mas e então? Porque é eu o teu pai fomos o 1 em 4? Porque é que não fomos o 3 em 4? Bem sei, nos escombros do meu ceticismo, que foi completamente aleatório, que nós não fomos escolhidos por uma entidade divina para alcançarmos um bem maior, acabar com a fome ou alcançar a paz no Mundo. Mas isso não torna menos duro.

Eu estava bem, a sério que estava. Mas já passaram dois meses e sinto-te cada vez menos. Dois meses de tristeza, medo e dor, mas também de alegria, tranquilidade e amor. Afinal, tudo vai correr bem. Será que vai?

Estou cansada de ser forte. Quero enrolar-me no meu corpo e ficar. Só hoje. Amanhã já sou forte outra vez – ou pelo menos funcional. Pode ser? Amanhã já volto a pensar nos problemas do dia-a-dia, nas contas para pagar, na cadela que precisa de ser escovada, nos planos para a Passagem de Ano e no que vou fazer para jantar. Mas hoje quero desligar, enrolar-me no meu corpo e ficar.

Eu estava bem, a sério que estava. Mas é Natal e tudo doi mais porque tu não estás aqui.

Categorias
Testemunhos

Em maio de 2019 soube que estava grávida após 1 ano de tentativas.

Fizemos a eco às 6 semanas e ouvi o som mais maravilhoso do mundo: o batimento cardíaco, som que ainda hoje ouço na minha mente.

Infelizmente às 8 semanas, quando me preparava para repetir a experiência, ouvi aquilo que ninguém quer ouvir: não há batimento, infelizmente a gravidez não evoluiu.

Passei por um processo doloroso física e psicologicamente. Nos dias seguintes tratei de me erguer e seguir em frente conforme deu, com o apoio brutal do meu marido (que também sofria imenso e nunca me e deixou cair).

Infelizmente, depois de muitos exames e consultas depois, a história repetiu-se mais 2 vezes. Sempre às 8 semanas.

Destas vezes não contamos a ninguém. Sofremos os dois em silêncio. Desisti. Desistimos. Resignamo-nos à infelicidade de não conseguir gerar vida.

Cada vez que alguém me dizia estar grávida, o sangue gelava. Ficava inconsolável semanas.

Quando chegou a quarta gravidez, a primeira espontânea (sem indutores de ovulação e afins), o medo reinstalou-se. O passar das semanas, cada vez era mais doloroso.

Cada consulta era de pânico. Fazia ecos todas as semanas.

Até que passei as 8, as 9, as 10 até às 41 semanas de gravidez. O medo era tanto que nos custou anunciar a gravidez mesmo às pessoas próximas (depois das 15 semanas). Nem me permitia ficar feliz, com medo da desilusão e da dor.

Passei a gravidez a mentalizar-me que era real. Que ia correr bem. Que desta vez era a sério.

Hoje tenho o meu bebé nos braços, e todos os dias dou graças. No meu caso agarrei-me à Fé. E esta é a mensagem que quero passar: Fé e resiliência. Independentemente da religião ou dos credos, para mim a Fé foi a minha âncora.

Todos os dias penso naqueles que também são meus filhos, mas que não chegaram. É devastador. Mas acreditem que um dia vai correr bem! 

Categorias
Testemunhos

Como é possível sentir tanta dor por um “ser” que conhecemos há semanas ou dias? Como é possível sentir que nos tiraram o chão com um simples silêncio numa ecografia ou com um papel a mostrar resultados não satisfatórios.

Como é possível, que depois desta dor, da constatação que já não vai crescer, ainda temos de lidar com a dor física? As alterações hormonais, que acumularam durante semanas ou mesmo dias…

Em 2019 descobri as 9s que o meu “bebé” já não tinha batimentos, agora, há dias, descobri por análises, que a minha gravidez não vai à frente e estou aqui a espera que o processo se desenrole sozinho, a “rezar” para não ter de tomar medicação, cheia de medo por não saber que tipo de gravidez é… Se ectópica, se não viável…tantas perguntas, tantas dúvidas..

É uma dor psicológica /física que ninguém quer, claro que há coisas piores, perdas piores, pais a passarem por isso sem nem sequer terem um filho, já tenho duas, posso agarrar-me a elas com todas as minhas forças, mas mesmo assim, ninguém nos tira essa dor.

Não há nada que se possa dizer, fazer, apenas aguardar que o tempo “cure”… Sinto, sinceramente, que da outra vez foi pior. Desta vez nem sequer ouvi o coração antes de levar com este desfecho, mas mesmo assim, quando se vê um positivo, por mais que saibamos que pode haver algo menos bom, temos esperança, ficamos felizes por mais uma pessoinha nossa, pela esperança de ser o tão desejado rapaz… Enfim, que dor!

Agora tenho medo da dor física, medo que não corra “bem” como da outra vez, medo de sofrer mais, medo de não me conseguir erguer, medo de desistir de mais uma gravidez…

Gostaria tanto que estas coisas deixassem de existir nas nossas vidas, que não houvesse abortos indesejados.

Que todos os pais que o querem ser, que possam ter o seu bebé, sem stress e sofrimentos, que nenhuma mãe e pai perca o seu filho (seja em que “idade” for)…

O meu desejo, é que todos esses pais encontrem paz, de alguma forma.

Categorias
Testemunhos

Estávamos de férias quando notei que tinha um atraso de 5 dias e pensei que já devia ter vindo o período, tendo em conta que sou regular. Numa dessas noites, passo na farmácia e faço o teste pela manhã; o qual dá positivo, duas linhas já bem demarcadas.

No dia seguinte pensei, “ok, se calhar é melhor avisar o nosso obstetra”. Enviei uma mensagem de whatsap com a imagem do teste, ao qual o nosso obstetra responde a felicitar-me e a dizer-me que deveria iniciar iodo e ácido fólico, coisa que não estava a fazer, pois não tinha sido planeado ao contrário da B. e da M., em que foi tudo planeado ao milímetro e correu tudo ok.

Depois combinamos que, 3 semanas mais tarde, faria a consulta de vigilância e confirmação da idade gestacional.

Sentia-me com energia, sem grande fome e sono, apenas tinha o peito dorido. Numa dessas noites nas férias, senti moinhas fortes e arrepios de frio mas não liguei. Pensei “isto faz parte”.

Chegado o dia da consulta estava ansiosa, pois pressentia que algo não estava bem (sentia que estava a ser diferente das outras vezes, sentia me menos grávida, com menos sono, sendo um dos meus sintomas), o obstetra mediu a tensão estava bem , o peso estava ok e depois dirigi me para a máquina de ecografias.

Quando o obstetra me coloca a sonda vaginal olho para o ecrã e tenho dificuldade em ver o saco gestacional. O obstetra, muito sério, chega o aparelho para mais perto de si e diz-me que lhe parece uma gravidez inicial. Eu não fiquei nada convencida, pois pelas minhas contas estaria de 8 semanas e já daria para ver um embrião e ouvir um coração a bater, mas vi apenas um saco pequenino e uma vesícula vitelina.

Eu sabia que algo estava errado, pelas contas estaria de mais tempo e a intuição não me falhou.


No entanto, o obstetra mandou-me ir ter com ele na semana seguinte ao hospital para confirmarmos a evolução desta gravidez.

No dia combinado, fui ao hospital e as minhas desconfianças confirmavam-se: tinha uma gravidez anembrionária.

Eu sabia que algo estava errado, pelas contas estaria de mais tempo e a intuição não me falhou aqueles arrepios já podiam ser o início de um aborto.

Nesse momento tive de decidir, ou esperar que tudo se desse espontaneamente ou induzir com misoprostol.
Eu decidi pelo misoprostol e compareci em jejum no dia previsto.

Depois da medicação, e muitas horas de espera fui com obstertra até ao ecógrafo para vermos como estavam as coisas. Disseram me que estava limpa e podia ir para casa e que teria de fazer eco 3 semanas depois para avaliação. Chega o dia da ecografia, o ecografista diz me que o útero está muito heterogéneo que ainda tinha restos ovulares

Em conversa com o meu obstetra decidimos que eu iria para um privado fazer a histeroscopia, onde ele em tempos me fez os partos.

Ando há 3 meses em processo de aborto, que só terminará com uma nova eco de avaliação onde terei a luz verde do obstretra.

Não basta o sofrimento que um aborto provoca, senão todo o processo. Esperamos o nosso bebé arco-íris.

Fé.

Categorias
Testemunhos

Em fevereiro de 2021, engravidei do meu primeiro bebé, estava feliz mas triste ao mesmo tempo. Era um misto de emoções, de insegurança, medo de não ser capaz de cuidar de um bebé mas a felicidade era tanta que só pensava nele com tanto mas tanto amor. Em março, tive um pequeno sangramento que me levou ao hospital, em que viram que efetivamente o bebé estava bem, mas a médica disse-me que, caso eu perdesse o bebé, que a culpa nunca seria minha.

Eu fiquei em alerta porque, se estivesse mesmo tudo bem, porque a médica diria aquilo?! Fui para casa e adormeci mas com medo de acordar. No dia seguinte, fui à casa de banho e estava cheia de sangue, em que olhei para o papel e vi o que nenhuma gravida queria ver. Foi assustador. Foi o pior pesadelo da minha vida. O meu namorado desmaiou ao ver, em que eu ainda o socorri para ir ao hospital para ter a certeza da minha suspeita. Mas o azar da minha vida não terminou naquele dia…

Em agosto de 2021, engravidei de novo. O medo apoderou-se de mim, tive medo de passar tudo de novo. Mas o bebé era tão desejado que tentei relaxar, rezei pela primeira vez na vida para que o bebé viesse bem de saúde. Até que comecei a sangrar novamente, mas desta vez foi um castanho, muito estranho, não entendi e tive assim quase 2 semanas. Fiz de imediato o repouso absoluto, mas nem assim parava de sangrar.

Falei com a minha obstetra e ela recomendou dirigir-me ao hospital em que ela estava e assim foi, cheguei lá fiz a análise Beta HCG e deu positivo, bastante até mas no útero não estava lá nada. A análise dava positivo, mas na ecografia não confirmava nenhuma gravidez em curso. A minha médica disse que eu podia estar de muito poucas semanas, mas eu sei que já estaria de 7 semanas e era impossível não se ver nada. Mas agarrei-me à fé e à esperança. Voltei lá passado 4 dias, repeti todo o processo e deu positivo, ainda mais do que devia. Depois de muitas tentativas, de muitas médicas a observarem-me, lá viram o meu bebé. Foi diagnosticada uma gravidez com localização indeterminada, ou seja, gravidez ectópica.

Lembro-me de chorar e dizer “não pode ser, outra vez não. Por favor, não”. Naquele momento tudo parou. Não ouvi mais nada sem ser a médica a comentar com a outra de que o feto já tinha batimentos cardíacos. Pior comentário que podiam fazer, porque aí sim o meu coração parou por segundos. A minha médica falou comigo, calmamente, e explicou qual seria o processo para retirar o bebé, pois eu estava em risco de vida e ela não podia permitir que algo me acontecesse. Não ouvi nada do que ela falava, eu só chorava e só queria estar com a minha mãe. Sim, estive sozinha o tempo todo. A dor. O medo. Tudo vivido sozinha. Tenho 25 anos e sinto-me mais velha, sinto-me cansada, sinto-me mal comigo, sinto que já não sou a mesma.

Neste momento, só respiro. Sou mãe de 2 anjinhos e um dia vou contar aos meus filhos o quão agradecida estou por ter tido aqueles bebés na minha barriga.

Categorias
Testemunhos

Comecei a tentar engravidar precisamente há 3 anos. Depois de muitos negativos, frustrações e angústias que todas as “tentantes” passam, consegui finalmente o meu positivo em julho deste ano, 2021.

Já estava grávida de 7 semanas quando descobri a minha gravidez. Foi o melhor dia da minha vida, chorei durante 2 horas agarrada ao teste de gravidez sem acreditar que era finalmente o meu positivo e eu estava grávida, grávida!

O meu sonho tinha-se tornando finalmente realidade e eu já só pensava na alegria que isso nos ia trazer.

Sempre fui uma pessoa muito ansiosa e não suportava a ideia de esperar até às 12 semanas para ter a certeza que estava tudo bem com o meu bebé, então fiz 2 ecografias no privado que sempre se confirmou que estava tudo bem e o meu bebé era saudável. Um dia antes de fazer a primeira ecografia, uma amiga minha que é enfermeira fez-me uma ecografia em 4D. Dava para ver que o meu bebé era bem mexido, e o coração dele batia como o som mais bonito que ouvi em toda a minha vida. O narizinho era igual ao meu e eu fiquei super orgulhosa de saber que pelo menos nisso, que se ia parecer a mim.

Estava tão feliz; dizia-lhe bom dia todas as manhãs, pedia-lhe desculpa se fazia algum movimento brusco sem querer, estávamos a preparar o quarto dele e o armário já se preenchia de roupinhas tão lindas e todas organizadas prontas para o dia da sua chegada…

Mas no dia 6 de setembro tudo mudou, assim, literalmente da noite para o dia, fiquei sem chão.

Foi o dia da primeira ecografia, e eu percebi logo pela cara do médico que alguma coisa se passava, mas estava com tanto medo de ouvir a resposta que simplesmente me submeti ao silêncio. Tudo isto começou muito mal a nível psicológico. O médico era muito bruto a fazer-me a ecografia, fazia-me imensa força na barriga e depois de eu me queixar, ele responde “é que nas magras é mais fácil. Temos que fazer vaginal, tire lá a roupa”, mandou sair o meu marido do consultório e ficamos só eu, o médico e a enfermeira. Ele disse “estou a ver aqui um valor muito alto que não me está a agradar nada. Nível de transluscência nucal de 7,12 valores” ao qual a enfermeira respondeu com voz de espanto “7???” E eu aí percebi que realmente alguma coisa se estava a passar e perguntei o que isso queria dizer, as últimas palavras que eu ouvi foi “quer dizer que o feto tem seguramente problemas cardíacos graves ou problemas de cromossomas, como trissomias…” Eu parei, olhei para o chão e só pensava “o meu bebé. O meu filho. O meu sonho. Ainda ontem estava tudo bem. Como é possível?” Ele abriu a porta do consultório como se me estivesse a despachar e o meu marido que estava à minha espera do lado de fora, ao ver-me naquele estado, perguntou o que se tinha passado e o médico só respondeu “antes de vir fazer a amniocentese passe nas urgências e certifique-se que o coração ainda bate, porque se não bater escusa de fazer a viagem”. Eu não respondi, o meu marido só perguntava o que se estava a passar e eu só lhe pedi para me tirar dali rapidamente e me levar para casa.

Chorei compulsivamente desde que saí daquele consultório até chegar a casa, foram 2h de viagem.

Só pensava no que ia dizer à minha família, aos nossos amigos, como era possível que aquilo estivesse acontecer, como é que Deus me tinha traído desta maneira, porquê nós? Era tão desejado, era o nosso sonho e estavam a rouba-lo de nós…

Liguei à minha médica a contar o que se passou e tinha consulta na quarta-feira (isto passou-se segunda feira). Essas horas, até à consulta, foram angustiantes; eu não dormia, não comia, chorava, as pessoas mais próximas já sabiam e tive que chegar ao ponto de desligar o telemóvel para conseguir pensar, pôr os pés na terra e tomar a decisão mais difícil da minha vida.

Eu sabia o que tinha de fazer, mas nunca nada na minha vida me doeu tanto.

Eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba

No dia da consulta com a minha médica ela confirmou que realmente o valor era demasiado alto e era impossível que o bebé estivesse bem formado e sim, corria o risco de a gravidez não avançar…Ali, naquele momento, depois de ouvir aquelas palavras, depois de ter pensado durante horas completamente em branco, tomei a decisão de interromper a gravidez e não esperar pela amniocentese.

Estava cheia de medo do que me iam fazer, medo do desconhecido, e esperar pela amniocentese eram mais 2 semanas de angústia, depois outras 2 para saber o resultado e aí eu já estaria de 16 semanas e seria muito mais difícil a nível emocional e físico passar por tudo isso. Não quis adiar mais e avancei.

Nesse mesmo dia fiquei internada e começaram a induzir-me o aborto. Meteram-me num quarto onde eu ouvia choros de bebés acabados de nascer, mães a entrar em trabalho de parto e no corredor deparava-me com mães de braços cheios de amor e sonhos realizados, enfermeiras carinhosas a falar com aqueles bebés como eu já sonhava falar com o meu, pais sentados ao lado das camas das mães a compartilhar os primeiros momentos, as primeiras horas de vida dos seus filhos.

Literalmente, eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba.

A primeira tentativa de aborto falhou.  E a médica disse “o coração ainda bate e o bebé está-se a mexer, ouça” e eu só pensava “eu não acredito nisto…” Eu estava em desespero total. A médica queria recusar-se a fazer nova tentativa de aborto, levantou a voz a falar comigo quando lhe disse pela milésima vez e quase a implorar que a minha decisão tinha sido interromper a gravidez e que por favor acabasse com aquele sofrimento para eu ir para casa! Depois de conversar comigo e com o meu marido sobre a nossa decisão, contra a vontade dela, lá disse ao enfermeiro “pronto, se é isso que querem… podes fazer “, nunca mais a vi, não voltou ao meu quarto, passou por mim no corredor como se não me conhecesse.

Durante 24h fiquei sozinha naquele quarto, como que abandonada à minha sorte e com visitas de 3 em 3h de enfermeiras diferentes que me iam metendo comprimidos pela vagina para provocar o aborto. Lembro-me que já tinham passado horas e nada de sinais de aborto e eu meti a mão na minha barriga e disse “perdoa-me e vai em paz. Estou a fazer isto porque te amo e vou amar-te sempre e jamais me perdoaria de te trazer ao mundo para sofreres. És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito” e assim me despedi do meu bebé pela última vez, horas depois comecei a sangrar bastante, sem dores, mas muito sangue.

Apesar de estar num sofrimento inexplicável, sentia-me aliviada, até que faço uma nova ecografia e ainda não tinha resultado, o meu bebé ainda estava lá… Estive 3 dias no hospital completamente abandonada, desamparada, e os médicos pareciam que estavam a jogar ao jogo da batata quente para ninguém tomar finalmente uma atitude!

No meu maior momento de desespero, embora chateada com Deus, confesso, comecei a rezar e pedi-lhe por tudo para me tirar daquele sofrimento porque eu só queria ir pra casa, rezei e chorei como nunca, até que sem contar, ao fim da noite apareceu o meu anjo da guarda. Abriu a porta e disse “já está cansada de estar aqui não já? Venha, eu vou cuidar de si” e eu já estava tão traumatizada que fui a medo sem saber o que ia acontecer desta vez, já que não estava a ser nada fácil.

O médico fez-me a ecografia e disse que já tinha começado a entrar em trabalho de parto, estava no começo do aborto. E eu perguntei se ainda havia batimentos e ele olhou para mim e embora lhe pudesse só ver os olhos, e ele não tenha dito uma única palavra, eu percebi que a resposta era sim, mas ele não me queria magoar ainda mais e foi aí que eu percebi que finalmente estava bem entregue e ele ia cuidar de mim, tal como prometera e ele foi o meu anjo da guarda.

Meteu-me a soro durante 1h, um comprimido vaginal, voltámos a ecografia e definitivamente o meu corpo já estava a libertar o meu bebé. O médico tirou-me o saco gestacional e restos que ficaram sem anestesia, eu não sei onde fui buscar tanta coragem e tanta força para passar por isso a sangue frio, mas a verdade é que a única dor que eu sentia era no coração.

Ele foi tão paciente, tão compreensivo, tão meigo, tão humano, que eu não senti nada para além de uma contração ou outra… E no fim, demos um abraço e eu só lhe conseguia dizer “obrigada” vezes sem conta e disse-lhe “você foi o meu anjo da guarda”. No dia seguinte fui para casa.

És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito!

Já passou 1 mês desde que eu perdi o meu bebé. Não me arrependo da decisão que tomei. Foi um ato de amor. Por amar tanto esse ser pequenino que eu nem cheguei a conhecer, é que o deixei partir.

Na minha vida tive dois grandes atos de coragem, a primeira foi amar um ser que não conheci e a segunda foi deixá-lo partir para não vê-lo sofrer.

Não tem sido fácil, ainda não tenho o útero 100% limpo e estamos à espera que a menstruação desça para limpar os restos que faltam, em último caso tenho de fazer raspagem, o que me sossega é que estou a ser acompanhada pelo meu anjo da guarda, esse médico que já me disse mais do que uma vez que não me ia abandonar.

Mas a dor que sinto, o aperto constante no peito, a angústia, o medo traumatizante de tudo que vivi naquele hospital não sei quando vai passar, não sei quando vou ter coragem de voltar a lutar pelo meu sonho de ser mãe, estou cansada psicologicamente, muito cansada.

Estou muito triste. Ainda me perguntam se é menino ou menina, ainda há quem me dê os parabéns pela gravidez, ainda há quem me olhe para a barriga…

Está a ser uma luta constante diária e já pedi ajuda psicológica porque assumi que não sou capaz de passar por isto sozinha.

Se o meu testemunho ajudar alguém a não sentir-se sozinha, como eu me sentia até horas atrás antes de descobrir está página, já fico contente, porque eu fartei-me de procurar testemunhos naquela cama de hospital e não encontrei nada onde me pudesse agarrar.

Neste último domingo, dia 10 de outubro, no dia em que fez 1 mês, o médico confirmou-me, pela autópsia que fizeram ao meu filho (sempre achei que era um menino, embora nunca venha a saber…), que ele tinha problemas renais, trissomia 21 e uma nuca muito alta mais uma série de patologias não confirmadas por ainda ser muito pequenino.

O meu coração ficou do tamanho de uma ervilha ao ouvir essas palavras, tomei a decisão certa, mas não suporto a ideia de o meu bebé ter tido tantos problemas e ainda ser tão pequenino…

Dia 15 de outubro vou acender uma vela pelo meu bebé e será só mais uma noite em que vou chorar de saudades de já não o ter comigo. É um vazio que se sente e uma dor que nunca mais acaba. O que eu desejava agora era que só me acordassem quando tudo isto passasse…

Um beijinho de força para todas 

🤍
Categorias
Perda gestacional Perda precoce

A dor e a surpresa de uma perda gestacional precoce são, por si só, uma experiência traumatizante. No entanto, há famílias que passam por este tipo de perda uma, outra e outra vez. Quando três abortos consecutivos ocorrem antes das 22 semanas, com os mesmos progenitores, considera-se uma situação de aborto de repetição.

O aborto de repetição afeta entre 1 a 5% das mulheres em idade reprodutiva.

Atualmente, em Portugal, podem ser realizados exames para apurar possíveis causas de perdas gestacionais precoces após a terceira perda. Ainda assim, mesmo depois de investigação, cerca de 50% dos casos continuam sem explicação clínica.

Aborto de repetição: possíveis causas

Apesar das causas genéticas serem, geralmente, responsáveis por cerca de 50% dos casos de aborto antes das 10 semanas de gestação, outras causas incluem:

  • causas anatómicas (como o útero septado e o útero bicórneo),
  • causas endócrinas (como alterações da tiroide)
  • causas imunológicas, infeciosas
  • trombofilias (alterações da coagulação do sangue que podem resultar em trombose) e outras. 

De facto, há, ainda, muitas áreas cinzentas no que diz respeito às causas e tratamentos de abortos de repetição e outras perdas gestacionais. Contudo, segundo um estudo recente do The Lancet, podem estar relacionadas com o uso de progesterona em gravidezes após a perda para que a gestação seja levada a termo com taxas substanciais de sucesso. Num outro estudo, a Tommys publicou informação também muito útil em relação à progesterona e medicação ligada à diabetes para otimizar as probabilidades de uma gravidez com sucesso.

Contudo, há muitos fatores em jogo que podem afetar o risco de aborto como a idade materna ou dos progenitores, historial de perdas anteriores, entre outros.

Por isso, é importante oficializar, clinicamente, as perdas que se tem. Sabemos que é triste, mas, desta forma, ser-lhe-ão oferecidos exames que poderão prevenir futuros abortos espontâneos.

Infelizmente, há ainda muitos casos em que as causas não são descobertas e isto afeta imenso os casais.

De qualquer forma, como já notámos, para a maioria das mulheres em idade reprodutiva, a gravidez é, por si só, um acontecimento transformativo e o aborto representa mais do que simplesmente a perda do produto de conceção.

Representa, principalmente, a morte de um filho, a mudança súbita de planos e expectativas e pode, até, despertar dúvidas sobre a sua competência como mulher e como pais. E o processo de luto não é fácil. Tem direito a chorar pelo bebé que perdeu. Seja ele o primeiro, segundo, terceiro…São todos seus e todos importam.

Talvez queira ler também

Categorias
Testemunhos

Em janeiro de 2017 descobri que estava grávida! Sonhos, projetos, contar à família e aos amigos. Como sou uma pessoa super emocional e que sempre viveu intensamente o bom e o mau, estava para lá de feliz!

Passado duas semanas tive a minha primeira perda com apenas 6 semanas – uma gravidez molar. Senti um vazio como nunca poderia imaginar. Ia duas vezes por semana ao hospital para tirar sangue e ia a um médico ginecologista oncológico só para me dizer que o meu BetaHCG estava a descer.

Processo muito doloroso psicologicamente e que demorei muito para reagir, pois rodear-me de grávidas duas vezes por semana não é propriamente o que esperamos depois de passar por uma perda.

Despedi-me do meu trabalho, parei para respirar e passar pelo meu próprio processo à minha maneira, pois acredito que cada um tem o seu tempo e devemos respeitar.

Após um ano, a segunda perda ocorreu às 8 semanas. Pensava que nunca conseguiria parar de chorar, de lamentar e de perder a energia negativa e revolta que tinha com a vida.

Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Decidi um dia recorrer ao life coach que me deu ferramentas e um novo olhar para a vida – cuidar e gostar mais de mim, pensar menos no que os outros dizem e olhar para o quão forte fui durante a vida toda e o que consegui. Neste processo, tive de lidar com a depressão do meu marido e não foi fácil, mas nada é impossível…Muita resiliência, muito acreditar e muita força.  

Em janeiro de 2021 finalmente teste positivo – decidimos não contar a ninguém e viver numa bolha de amor, meditação e tranquilidade durante uma semana. Novo sangramento, nova perda.

Quando passas três vezes por isto, já vês as coisas de forma diferente, mas sentes sempre o vazio. 
Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Hoje já estamos em estudos genéticos a tentar encontrar respostas para as nossas perdas e continuamos a acreditar que um dia, quando tiver de ser, a vida nos vai trazer este amor fora do coração, como tantas mães descrevem.

Cair… respirar… recomeçar… amar… acreditar…


Com amor para todas, 
Sofia

Categorias
Testemunhos

Soube que estava grávida em Março, uma gravidez desejada e planeada, análises pré-natal feitas, apoio na nutricionista.

Marquei de imediato consulta obstetrícia e estava tudo bem. Às 8 semanas, lá fui eu para consulta de rotina, mas… Infelizmente o bebé não tinha batimentos cardíacos. Vi logo que algo não estava bem, o silêncio, o semblante da médica.
A equipa médica foi muito querida, explicaram tudo, talvez porque a médica já tinha passado pelo mesmo, ou, espero, porque as coisas estão a mudar.
Tinha um Aborto retido.

O pai não pôde entrar, ficou no carro e também ele foi apanhado de surpresa. Também ele tinha dúvidas que eu, por ser profissional de saúde, a custo fui explicando. Mas e quem não sabe? Quem não é da área? Senti um vazio tão grande…

(…) ajudaram -me com palavras que pareciam abraços.

Mas voltando ao aborto retido, optámos por esperar uma semana para ver se a expulsão acontecia naturalmente. Foi angustiante. Psicologicamente muito difícil. Difícil expressar por palavras. O corpo não colaborou, tomei os comprimidos.

Disse à médica que sou caso raro pois não tive dores físicas, só hemorragias (físicas e psicológicas). Um processo doloroso psicologicamente. Algo que ninguém está preparado.

Agradeço o apoio do meu marido, pais e, acima de tudo, de amigas que tinham passado pelo mesmo e que me ajudaram com palavras que pareciam abraços.
Abraços que nesta fase de pandemia fizeram muita falta.

Sou aromaterapeuta certificada, trabalho maioritariamente com grávidas, recém-mamãs e bebés. E nunca tinha pensado neste lado da maternidade.

Os óleos essenciais ajudaram -me a descansar um pouco melhor a nível emocional foram um grande complemento, juntamente com apoio psicológico.
Não sei se foi o destino, mas a partir de agora estou também disposta a ajudar outras mulheres que passem pelo mesmo. Se puder ajudar de alguma forma estou disponível.

Um bem-haja e grata pela página que ajudará muitas famílias e mulheres ❤

Categorias
Testemunhos

Assim como tantas mulheres, o desejo de ser mais, é algo que se tenta alcançar. Mas nem sempre as coisas correm da melhor forma e as marcas ficam para sempre gravadas na memória.

Em 2011 engravidei e às 6 semanas o coração do bebé deixou de bater.

Foi então que comecei um processo difícil de abortamento, segue-se um internamento muito doloroso fisicamente e psicologicamente. Depois deste sofrimento nem queria ouvir falar em engravidar porque as dores físicas e psicológicas estavam, e estiveram, presentes durante muito tempo.

Até que, ano de 2016, decidi que seria altura de voltar a engravidar. Logo engravidei e claro muito feliz mas mais uma vez (com cerca de 5 semanas) voltou aconteceu o mesmo. Desta vez o processo foi menos doloroso, no entanto o psicológico ficava novamente afetado.

Mesmo sendo um “feijăozinho”, a dor da perda é igual independente do tempo de gestação.

Pois bem, no mês a seguir numa consulta pós-abortamento, recebi a notícia que estava novamente grávida (como era possível estar grávida logo depois de ter abortado) e fiquei muito apreensiva, mas logicamente fiquei muito feliz.

Deixei de trabalhar por recomendação médica. Estava tudo a correr na normalidade até que novamente às 9 semanas tudo acontece, ou seja, comecei um novo processo de abortamento.

Fui hospitalizada e, mais uma vez, sofri imenso. As dores físicas e psicológicas foram com uma dimensão que não se consegue explicar. Nunca tive nenhum tipo de acompanhamento médico do foro psicológico e os profissionais desta área reagem e falam para nós como se fosse mais uma a perder um feto. Sim, porque como estamos a falar de abortamentos no primeiro trimestre; é impensável dizer-se que se trata de um bebé.

Até hoje é uma mágoa que guardo e que nunca irei esquecer.

Mesmo sendo um “feijăozinho”, a dor da perda é igual independente do tempo de gestação.

Hoje tenho dois meninos lindos. O primeiro nasceu em 2018 e o segundo nasceu este ano de 2021. Agradeço muito ter dois meninos (lindos e saudáveis) mas nunca irei esquecer o que passei e das marcas psicológicas que estão bem vincadas num passado muito presente.