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A gravidez do nosso primeiro bebé foi planeada, mas nada calendarizada. Não segui com muita atenção o período de ovulação; aconteceu de forma muito natural e espontânea. Umas 3 ou 4 semanas passaram-se e lembrei-me “algo falhou este mês”; comentei com o Tomás e disse-lhe com a maior das confianças: estou grávida. Mais uma semana passou e não consegui aguentar a espera da análise beta-hCG para confirmar; comprei então um teste de gravidez: confirmado e com mais de 3 semanas. Enviei uma foto ao Tomás pelo Whatsapp; combinamos em fazer a surpresa aos meus pais, afinal de contas, seriam avós pela primeira vez e queríamos dar a notícia de uma forma memorável. Logo de seguida ele partilhou com os pais dele e irmãos, não conseguindo conter a alegria.

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Os meses desenrolaram-se, de forma geral, pacificamente. Haviam sempre cuidados extra, alguns receios à mistura, muita leitura para colmatar esses receios…o que todas as mães de primeira viagem podem autenticar! Os desconfortos assumidos como “normais” apareciam com o crescimento do bebé e o estiramento dos músculos da barriga, uma ou outra noite mal
dormida, um mioma intramural que apenas me deu que fazer (e à equipa no serviço de urgência da maternidade) durante uns dias, mas que se “silenciou” até ao fim da gravidez (contrariando as expectativas dos médicos).


Decidimos não saber o sexo, mas como gostava de falar com o bebé na minha barriga tinha de encontrar um nome neutro além de “criaturinha”; depois de pensar em alguns ficou “pandinha” – tinha que ser, claro, o bebé adora dar pontapés e às vezes parecia que estava numa aula de kung-fu lá dentro (lembrando-me a personagem Panda do Kung-Fu). Criamos um
grupo de Whatsapp com amigos e família para lançarem apostas sobre o sexo do bebé, e mais tarde com ideias de nomes. Eram quase 80 pessoas a mandar “bitaites”; podem imaginar o tipo de nomes que eram sugeridos! Foi muito divertido. A maioria apostava que seria menino, mas mantivemos firmes em não sabermos o sexo e fazermos a surpresa a todos.

O terceiro trimestre foi o mais vigiado; tinha surgido uma alteração a nível do intestino do bebé – uma dilatação que nunca desenvolveu mais do que o que tinha sido diagnosticado na ecografia das 31 semanas, que me tinha sido também explicado que poderia ser passageiro ou alvo de uma pequena cirurgia no período neonatal…nada demais a preocupar por agora pois a
bebé desenvolvia bem, não havia sinais de stress fetal nem outros que pudessem comprometer a gravidez. Depois de uma ou outra noite mal dormida (congeminando preocupações e soluções), vesti o meu fato de otimista e segui com as marcações planeadas na maternidade e com a vida de grávida dentro da normalidade – agora mais pesada, mas ainda com bastante energia.


Às 36 semanas um aumento de líquido amniótico, mas não se tratava de uma alteração muito significativa, e assim se prosseguiu com as vigilâncias programadas (desta vez, semanais) – CTGs e ecografias realizadas sem intercorrências a acrescentar de acordo com a equipa.

Vivi todo este período como se tivesse divido em duas pessoas – a “Ana que queria ser mãe” fugiu para bem longe e a “Ana que quer sobreviver” ficou…

As últimas 4 semanas foram vividas com normalidade; o único desejo honesto que tínhamos era ter um parto natural, sem necessidade da indução marcada para dia 20 de dezembro (no limite das 41 semanas). Então seguimos as sugestões do obstetra para alcançar esse desejo, mas sempre muito conscientes da possibilidade de nunca ocorrer e necessitar da mesma. 

Madrugada de 20 de dezembro de 2021. Acordei subitamente de um sonho. O sonho passava-se no sótão em casa dos meus pais (precisamente o local onde lhes demos a notícia da gravidez) e deixou-me com uma sensação muito desconfortável; senti que algo não estava bem de imediato, mas tentei racionalizar aquele momento e fiz o que sabia serem as melhores tentativas a estimular o bebé a mexer…mas nada; pouco tempo depois, já nas urgências da maternidade veio-se a confirmar o que sentia mas não queria acreditar – “acho que a Ana já sabe o que tenho para lhe dizer…” disse-me a médica que concluiu o diagnóstico da morte fetal; “eu lamento imenso”. O meu corpo mexeu, mas a minha mente paralisou naquele momento. Segui instruções para ligar ao Tomás que me esperava fora das urgências, para me dirigir à sala de partos, mudar de roupa e dar início ao parto…aquele parto que já estava agendado, mas não para este resultado. Vivi todo este período dividida em duas pessoas – a “Ana que queria ser mãe” fugiu para bem longe e a “Ana que quer sobreviver” ficou… 

“Era uma menina”, uma das enfermeiras confirmou após o parto. Eu e o Tomás decidimos estar um bocadinho a sós com a nossa bebé. Enchemo-nos de orgulho e lágrimas ao saber que a surpresa ainda seria maior, contrariando a aposta da maioria. Chamamos-lhe Maria – o nome que eu tinha sugerido se fosse menina, mas que ainda não tínhamos chegado a um acordo. Tê-la no colo e vê-la partir foi a sensação mais devastadora que podemos assumir…

Os dias seguintes – até semanas – foram de muita tristeza e solidão, mesmo com imensa gente a cuidar de nós com muita atenção. A sensação de “vazio” no meio do peito lá ficou, lembrando da ausência. Atrás vieram os sentimentos de culpa, “o que é que eu fiz?”, “o que é que eu poderia ter feito?”. A ansiedade ganhava terreno, os dias em que saia à rua com as lágrimas prontas a cair e o nó na garganta acumulavam-se, a falta de forças para enfrentar o dia e para resistir à sensibilidade sublime ao ver um bebé ou uma mulher grávida ia sendo cada vez mais óbvia. Tinha de reagir. Sabia que a procura de respostas tirava muito tempo e energia dos meus dias – não estava a procurar no sítio certo e não era por encontrar uma resposta ao “porquê da morte da Maria” que conseguiria minimizar a minha dor. Comecei a olhar mais para dentro; perceber o que sentia em relação à Maria, perceber o que outras mães testemunhavam após uma experiência semelhante, acolher novas interpretações da perda (quer a nível espiritual como a nível de crescimento pessoal) e, no fundo, encontrar e estabelecer-me nesta nova identidade – uma mãe de colo vazio, que ainda vai enfrentar muitos desafios e medos na busca da felicidade maternal, mas que tem agora uma arma muito poderosa que a ampara nesse caminho, que é o amor incondicional.

Alguns meses passaram até agora – quase 6 no momento em que escrevo este testemunho – e sei que não houve um dia em que não pensei na Maria. Tanto fiz nestes meses por forma a celebrar a sua breve, e relevante, passagem neste mundo…tanto que ainda quero fazer! Tantas vezes peguei na sua fotografia, ora com muito orgulho, um sorriso e uma mão no peito, ora com lágrimas a correr pelo rosto e as mãos a tremer. Tantas vezes falamos, entre casal, família e amigos, no nome Maria. Tantas vezes…

Agora, os dias de orgulho – em que o as nuvens se abrem -são cada vez mais, mas sei que por aí virão dias em que a saudade terá aquele gosto mais amargo. E acredita que há dias que te vão surpreender, lembrando que ainda há algo aí dentro por preencher; acolhe esses dias, é a minha sugestão, pois há sempre uma lição a aprender.

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Perda gestacional Perda tardia

A interrupção da gravidez por razões médicas é mais comum do que possamos pensar. Para além da enorme tristeza pela perda de um bebé, de um filho, tem por detrás uma terrível decisão por parte dos pais. É o choque do diagnóstico, o peso e a culpa de ter de assinar um papel, a espera por uma autorização médica – às vezes vários dias, a espera por notícias sobre o internamento, são os últimos momentos com o nosso bebé, de uma enorme angústia, frustração, desilusão. Assim é o tumulto da interrupção médica da gravidez. Se estão a passar por esta interrupção e nos dias de espera, esperamos, de coração, que este artigo vos possa, de alguma forma, ajudar e trazer algum conforto. 

Podemos sentir que, de alguma forma, o nosso corpo falhou. Perguntamo-nos porquê? Porquê a mim? Onde falhei? Em primeiro lugar, queremos dizer que esta não é uma decisão sua — embora às vezes seja apelidada como “voluntária” — porque necessita de autorização dos pais — é, na grande maioria das vezes, uma decisão médica. 

interrupção médica da gravidez

Interrupção médica/voluntária da gravidez: quando pode ser feita

É permitida a interrupção até às 12 semanas de gravidez, se for indicada para evitar a morte ou danos físicos ou psicológicos graves e duradouros da grávida e até às 24 semanas de gravidez, caso se preveja que o bebé venha a sofrer de doença grave ou malformação congénita incuráveis. A interrupção médica da gravidez pode estar relacionada com problemas ao nível dos cromossomas, detetados, por exemplo, no 1º trimestre ou por exemplo por malformações fetais, mais comum, descobertas no 2º trimestre e por vezes no 3º — perda gestacional tardia. Cedo ou tarde é sempre uma perda e tem um impacto emocional muito grande no casal. Se está a passar ou passou por esta situação, lamentamos imenso. Saiba que não está sozinha e procure ajuda, se precisar.

Para além destes limites temporais, a interrupção voluntária da gravidez é ainda permitida, a qualquer momento, caso seja essencial para prevenir a morte ou danos físicos ou psicológicos graves e irreversíveis para a grávida ou caso se conclua que o feto não irá sobreviver.

Impacto emocional da interrupção médica da gravidez: e se?

Ainda assim e por mais que nos digam que não há outra opção, que nos aconselhem a avançar com a interrupção porque há uma grande probabilidade de não ser viável, são muitos os “e se” que nos passam pela cabeça. É normal. Mas saiba também que esta decisão, que, em última instância é “nossa” porque nada pode ser feito sem o nosso consentimento escrito — é um ato de amor. É porque os amamos que não os queremos ver sofrer. Mesmo assim é a decisão mais difícil das nossas vidas e nestes casos não existem certos nem errados. 

Sabemos que são momentos extremamente difíceis e, se necessitar, procure ajuda profissional

É também muito importante que tire todas as suas dúvidas com a equipa médica e que a informação que lhe seja transmitida sobre o seu bebé seja clara. 

O que acontece numa interrupção médica da gravidez?

Depois de ouvir o diagnóstico do médico, às vezes após ouvir até mais do que uma opinião, vão perguntar qual a sua decisão e terá depois uma consulta com alguns papéis para assinar. Se estiver a ser seguida num hospital privado será muito provavelmente encaminhada para um hospital/maternidade pública. Antes da interrupção o caso ainda é analisado por uma comissão de médicos chamada Comissão Técnica de Certificação que existe em cada estabelecimento de saúde oficial que realize interrupções da gravidez. Cada comissão técnica é composta por 3 a 5 médicos. Dela devem fazer parte obrigatoriamente um obstetra/ecografista, um neonatologista e, sempre que possível, um geneticista. 

Depois da autorização, segue-se o internamento, medicação e um procedimento semelhante à amniocentese para fazer parar o coração do bebé. Em seguida será induzido o parto

É importante que, antes de todos estes momentos, tenha conhecimento dos seus direitos e do que pode fazer se se quiser despedir do seu bebé. A equipa médica e de enfermeiros deverão informá-la do que pode ou não pode fazer e perguntar-lhe qual é a sua decisão e é importante que antes consiga saber, pensar e decidir. Uma vez mais, não há certos nem errados e, muitas vezes, nestes casos, a decisão dos pais, mas sobretudo da mãe, é com base em questões de sobrevivência naquele período difícil que estão a passar. 

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A minha aventura no mundo da maternidade começou há 11 anos, quando nasceu o meu príncipe Martim, um filho muito desejado por mim e pelo meu marido. Uma alegria e aprendizagem diária. Ao fim de quase 7 anos, decidimos voltar a ter outro filho, ou seja, em 2017 comecei na preparação para engravidar.

Os anos foram passando e nós sempre na luta, sempre a tentar realizar este sonho de família. Sim, porque o nosso filho Martim sempre desejou ter um mano, ou mana; para o Martim e para nós, pais, era exatamente igual.

Após quase 4 anos a tentar engravidar e já quase a perder a esperança- nunca quis nada pelos meios artificiais, tudo de forma natural – eis que em meados de fevereiro de 2021 comecei a andar muito mal disposta, enjoada, cansada, sem vontade para fazer nada, mas não suspeitei no imediato. Até que houve um dia que fui tomar um meu duche e senti dor ao tocar no meu peito e aí deu-me um clique e pensei: “Ui, eu já senti esta dor! Aí que eu estou grávida!”

Não comentei com ninguém, para não criar falsas esperanças. No dia a seguir, no dia 23 de fevereiro dirigi-me a um laboratório e fiz uma análise à urina, e aguardei ansiosamente pelo resultado, que chegou no final do dia por email. Claro, quando abri, fiquei a olhar uns minutos sem perceber muito bem o que estava escrito, mas estava clara a informação: Estava grávida!

Fiquei tão feliz, que partilhei logo com o marido e filho em conjunto na sala, foi uma alegria, gargalhadas. Estávamos em plena felicidade.

Comecei com as consultas de rotina, análises, ecografias e tudo corria bem.

Estávamos ansiosos para saber o sexo do bebé, mas nunca foi o mais importante para nós. O que desejávamos era que viesse com saúde e perfeitinho. No dia 10 de maio fiz uma eco simples com a minha obstetra e soubemos que era uma menina!! Seria a nossa Gabriela. 

Gabi, como já era carinhosamente tratada por nós cá de casa.

A barriga crescia a bom ritmo, e estava bem grandinha já. A Gabriela acompanhava o crescimento pois ela mexia-se bastante, não parava quieta.

Tudo corria bem, ou pelo menos eu achava que sim…

De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo.

No dia 14 de junho de 2021, fui realizar a 2ª Ecografia (Morfológica), estava eu com 22/23 semanas (6 meses) e fui acompanhada pelo meu filho Martim que disse que queria muito ver a mana.

Estivemos mais ou menos 1h30m lá dentro até que a minha obstetra pediu ao meu filho para sair e aguardar na sala de espera. Só por aí eu achei estranho, mas não percebi o que se estava a passar. Até que a médica me ajudou a levantar e agarrou nas minhas mãos e me disse que não tinha boas notícias para mim, só aí comecei logo a tremer e perguntei o que estava a passar, ao que a Drª me respondeu que a minha bebé tinha uma doença letal e rara e que tínhamos que decidir avançar ou interromper a gravidez.

Como assim interromper? Eu nem estava a acreditar naquilo que estava a ouvir!

De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo. Mas depois questionei a Drª, sobre o que estava a passar e o que é que eu podia fazer? Ao que ela me voltou a dizer o que já havia dito, que a minha bebé tinha uma Displasia Tanatofórica, ou seja, é uma doença letal, rara e que afeta a parte muscular toda. Mesmo que seguisse com a gravidez até ao final, após o nascimento, a minha bebé não ia sobreviver muito tempo e sem qualidade de vida. Ia sofrer e fazer sofrer!

Claro está, que naquele momento eu fiquei sem reação e chorei, chorei e chorei. Perante este cenário que eu estava a viver naquele consultório, a minha Gabi continuava a mexer-se dentro de mim como se estivesse tudo bem, mas não estava, mas ela não sabia, minha rica filha! Minha menina… 

A médica disse que eu e o meu marido tínhamos que tomar uma decisão e informá-la no dia seguinte. Pois, se fosse para interromper eu tinha que ir primeiro ao Centro de Diagnóstico Pré-Natal e a uma consulta de Genética para preparar o processo de interrupção.

Perante estas indicações da médica, eu já só queria sair daquele consultório. E saí! Cheguei à sala de espera onde o meu filho Martim esperava por mim ansiosamente e sem perceber nada do que estava a passar. Mas, como o meu filho me conhece muito bem e se preocupa comigo, assim que eu saio para fora e o chamei para irmos embora, o Martim percebeu logo que algo não estava bem, até viu no meu olhar que tinha estado a chorar. Claro, tanto insistiu que tive que lhe contar por alto, mas não entrei em pormenores.

Esta decisão (…) foi um ato de Amor. 

Quando chegamos a casa, já o meu marido tinha regressado do trabalho e olhou para mim e sentiu que eu não estava bem e perguntou-me logo como tinha corrido a ecografia, e eu comecei logo a chorar. Expliquei tudo direitinho e depois de ponderarmos bem, tomamos a decisão mais difícil das nossas vidas: Interromper a gravidez. 

Uma bebé tão desejada, após anos a tentar e quando finalmente conseguimos, o sonho vai assim… chorei muito, senti-me a pior pessoa do Mundo. Ainda demorei a aceitar esta decisão! Mas tinha que ser: esta decisão foi um ato de Amor. 

No dia 16 de junho de 2021, dirigi-me então à Maternidade Bissaya Barreto, acompanhada pelos meus pais, o meu marido não foi, por opção nossa, eu precisava que ele estivesse minimamente bem para à noite quando chegasse, ele me desse o apoio que ia precisar.

Claro está, quando chegamos à entrada da MBB pelas 9:00H eu entrei e os meus pais ficaram cá fora a aguardar. Foi uma espera infinita… Mal eu imaginava o que me esperava, ou seja, como se ia desenrolar todo aquele processo. Aguardei umas 2H até ir repetir a mesma Ecografia. Aquela que fiz na clínica e que deu o diagnóstico que não queria ter ouvido nunca.

Aconselhada pela minha obstetra, tinha que a repetir e ouvir uma 2ª opinião de outro médico, ou seja, médicos! Eram sempre bastantes à minha volta, assim como enfermeiras!

Pois bem, fui repetir a ecografia, estava deitada e à minha frente estava um grande ecrã, onde era possível eu ver a minha bebé: a minha Gabriela a mexer. Até que o médico, que estava a realizar o exame, se apercebeu que eu não estava bem, estava a tremer, e perguntou-me se queria que o ecrã fosse desligado. Eu disse que sim, sem hesitar! Sim, eu estava a ser “massacrada” por aquelas imagens da minha filha a mexer-se e eu a saber que “aquilo” ia ter um fim! Um fim que eu ainda não estava preparada! Mas há preparação possível?? Não há! Nunca!

No final da ecografia, fui a uma consulta de Genética, onde tinham já o relatório da ecografia a confirmar tudo o que havia sido dito na clínica. Estava confirmada uma Displasia Letal 1º grau e a característica principal era a cabeça em forma de trevo e toda a parte esquelética afetada, bem como alguns órgãos que iriam comprometer a boa saúde da minha filha, mesmo que seguisse com a gravidez até ao fim.

Nesta consulta, ainda questionaram se eu queria fazer o funeral, eu disse imediatamente que não. Não ia sujeitar a mim e à minha família a mais sofrimento, já bem bastava o sofrimento que estávamos a passar. Após a minha resposta, os médicos perguntaram se eu autorizava que eles fizessem a autópsia, ao que eu respondi que sim. Até porque eu queria respostas do porquê daquela doença, visto que o meu filho é perfeito, Graças a Deus.

Pedi esclarecimento sobre o processo de sepultar os bebés e explicaram que têm mecanismos próprios com toda a dignidade possível.

Em seguida, fui para outra sala, para retirarem líquido amniótico para ser analisado. No instante a seguir, voltaram a inserir a agulha e neste momento eu chorei bastante, mesmo. Porque esta agulha ia injetar um sedativo para parar o coração da minha menina, foi horrível o que senti naqueles minutos. Eu senti que era eu estava a dar permissão para que fizessem aquilo através da minha barriga, foi muito duro. Aos poucos fui deixando de sentir a minha filha a mexer. É muito triste, de verdade… Apesar de todo o meu sofrimento, eu estive sempre rodeada de médicos e enfermeiros a dar-me a mão e apoio, pois eu não podia ter ninguém da minha família comigo.

Com estes procedimentos todos, a manhã passou-se e a hora de almoço também e eram 15:30H quando saí para fora para ir almoçar. Quando saio, a minha mãe está lá fora à minha espera e eu agarrei-me logo a ela e desabei a chorar. Vinha com uma pressão enorme no meu peito por tudo o que me tinham feito lá dentro. Chorei bastante, estava a ser um dia difícil, mas era a preparação para o dia a seguinte, o internamento para o parto.

A seguir ao almoço, voltei à MBB para me serem feitas análises ao sangue e ainda teste ao Covid.

Vim para casa com os meus pais, vim a viagem toda em silêncio, com a minha barriga bem grandinha, mas sem vida. O facto de vir para casa com a minha bebé sem vida dentro de mim mexeu bastante com o meu psicológico!! 

No dia a seguir, 17 de junho 2021, lá fui eu novamente com os meus pais e o meu filho, desta vez quis ir acompanhar a mãe. Foi a viagem toda agarrado a mim. Quando chegamos à MBB, saí com a minha mala das roupas, o meu filho saiu, assim como os meus pais e agarraram-se a mim a chorar. O meu Martim só dizia que não queria que acontecesse nada de mal à mãe. Pela mana já não podíamos fazer nada, mas pela mãe sim. E eu entrei para a maternidade com a cara lavada em lágrimas.

Instalaram-me no quarto e começaram logo a introduzir comprimidos para induzir o parto. Fui para um quarto sozinha e lá estive até à hora do parto. O que mais me custou foi ouvir e ver mães na sala de partos a terem os seus bebés e a saírem com eles. Tive que pedir para fecharem a porta do quarto, pois já não aguentava ver, pois eu ia sair sem nada….

Após a segunda dose de comprimidos no útero, passado pouco tempo comecei a ter contrações no quarto e nem tive epidural nem nada para me aliviar as dores, foi aguentar e ponto.

Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.

Houve um momento que pedi a arrastadeira pois estava muito aflita para fazer chichi e a Enfermeira trouxe e depois saiu do quarto, assim que, eu relaxei para começar a urinar, a minha bebé começou a sair e eu dei um grito, pois estava sozinha no quarto, e vieram logo médicos e enfermeiros e tive que fazer mais força, para a minha filha sair por completo. Deram-me qualquer coisa para eu dormir, pois eu de manhã tinha dito que não queria ver a bebé, eu queria guardar na minha cabeça a imagem de como eu imaginava a minha filha e não a imagem que as ecografias revelaram. Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.

Neste dia, ao final da noite ainda tive alta, e o meu marido foi me buscar à MBB e, quando eu desci no elevador, com a mala que tinha levado com roupas, sem barriga e sem bebé, foi uma sensação avassaladora, terrível, um vazio…

As semanas seguintes foram complicadas, pois não conseguia sair à vontade de casa, com o medo das perguntas que as pessoas que iam fazer, mas lá tive que começar a sair e enfrentar os meus medos.

Os meus grandes apoios nesta fase foram os meus pais, marido e o meu filho Martim. Agarrei-me com todas as minhas forças à vida e pelo meu filho que precisa que a mãe esteja bem. Se eu estiver bem comigo, vou estar bem para qualquer pessoa.

Ninguém nos ensina a ser Mãe, assim como ninguém nos prepara para estas situações!

Já passaram 5 meses e às vezes paro e parece que tudo foi um pesadelo…

Acredito que a minha filha viveu 6 meses dentro de mim feliz e veio cá com um propósito que eu um dia irei perceber.

Por agora, resta-me olhar para o Céu comtemplar o meu Anjo da Guarda, Gabriela!

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O nosso Lourenço.

Foi no dia 12.08.2021 que, numa consulta, soube que muito silenciosamente vivias dentro de mim. O teu coração batia e, agora consigo dizê-lo, foi naquele momento que te comecei a amar incondicionalmente.

Todas as ecografias, análises, consultas corriam bem, as semanas iam passando e tu cada vez davas mais sinais de ti, reagias aos estímulos dos doces sabores e acordavas-me por vezes bem cedinho com as tuas brincadeiras.

Cada dia que terminava era mais um, até que chegava à sexta-feira e era mais uma semana de vida cá dentro que o papá colocava no calendário.

A barriga cada vez maior e linda. Até que chegou o dia em que tudo parecia desabar…31.10.2021, 23 semanas e 2 dias, rompimento prematuro da membrana com perda do líquido amniótico. “O caso é muito sério”, dizia a médica na urgência gelada daquela Maternidade.

O meu mundo, o meu sonho, a minha vida parecia desabar. Internamento, doses e mais doses de medicação, análises e mais análises e tudo ruía a cada minuto, os valores da infeção aumentavam, o bebé não tinha líquido amniótico suficiente para continuar a desenvolver-se e eu estava em risco.

Era inevitável, tínhamos que interromper o que de melhor tínhamos conseguido, o meu mundo desabou, que dor, por mais que queira expressar por palavras, todas são insuficientes.

Como é que te ia arrancar desta tua casa, deste teu porto seguro, quando te sentia tão vivo, tão bem, o meu maior amor, o meu Lourenço.

04.11.2021, 16:30h, 590 gramas.

Senti tudo, a dor física de um parto normal, sem tempo para epidural, a dor no coração de uma mãe que, depois de tudo, saía daquela sala de parto sem nada. Onde te arrancaram de mim tão cedo e me deixaram um buraco vazio, uma dor insuportável e interminável, tal como as lágrimas que me escorrem desde então.

No dia da alta, descemos aquelas escadas sem nada, nós e a maior dor da nossa vida… Completamente sem norte, sem rumo…

A esperança no futuro é a única coisa que nos pode salvar, mas o medo de não conseguirmos uma nova luz por vezes passa e quebra-me.

Eu sentia-te tanto, conversávamos tanto, ouvíamos música, contava-te histórias, dava-te mimos. Juntos já tínhamos preparado algumas das tuas roupinhas, tínhamos tudo tão arrumadinho…

Um sonho interrompido e roubado e uma ligação para sempre…

Somos pais do Lourenço e ele viveu feliz e brincou dentro de mim e só conheceu Amor durante 23 semanas e 5 dias ❤️

Lourenço, o nosso anjinho da guarda 💫🤍

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Em junho de 2021 descobri que estava grávida. Não quis acreditar. Parecia que estava num sonho.

Preparei toda uma surpresa para anunciar ao meu namorado. Saber que estava a gerar uma vida dentro de mim foi das melhores sensações que já tive. Senti-me tão viva.

Uma vez que isto era tudo novo para mim, pedi ajuda em como prosseguir daí para a frente. Marquei uma consulta de ginecologia para perceber se o embrião estava no sítio certo, de quanto tempo estava e se o coração batia.

Quando finalmente chegou a hora da consulta, lá fui. Estava tudo certo, o embrião estava no sítio certo, estava de 7 semanas (mais uns dias, menos uns dias) e consegui ouvir o coração a bater. Que som lindo. Que alívio.

Passaram-se mais umas semanas e marquei então a minha primeira ecografia obstétrica. Estávamos a 24 de julho quando fui então realizar a ecografia. Estava uma pilha de nervos, pois morria de medo que alguma coisa não estivesse bem. Chegou a hora, entro no consultório, a doutora explica-me o que se iria proceder e até aí tudo muito bem. Começou a fazer a ecografia e senti um silêncio que para mim não fazia sentido. Comecei a perceber que alguma coisa não estava bem. A doutora lança um suspiro e começa por dizer que o meu bebé apresenta um valor de Translucência Nucal elevado e que não estava a conseguir ver uma parte do coração mas que isso podia ser da posição do bebé ou pelo facto do coração ainda ser muito pequenino.

Neste momento, senti o chão a cair. Foi um balde de água fria.

Estamos habituados a ouvir que enquanto somos novas o risco de um bebé vir com algum problema é muito baixo. O que é certo é que com 24 anos e numa primeira gravidez, não esperava isto de todo. Chorei. Chorei muito. A doutora acalmou-me e explicou-me aquilo que a partir daquele momento seria o que eu deveria fazer: Biópsia das Vilosidades ou amniocentese.

Acho que nunca me tinha sentido tão perdida, tão confusa, tão sem saber o que fazer. Fui embora do consultório completamente destroçada e o pior foi tentar explicar ao meu namorado, que não pôde entrar comigo, tudo o que eu tinha ouvido. Contactei de imediato o meu médico de família para explicar a situação e ele fez-me uma carta para ir de urgência para o Hospital Público. Assim foi. Entro nas urgências de ginecologia e obstetrícia, na qual fui rapidamente chamada e aí conheci aquela que eu senti que iria ser a minha médica, a que eu queria que me acompanhasse até ao fim. Uma pessoa de uma empatia extrema.

Ela examinou-me e aconselhou-me a realizar uma biópsia das vilosidades, uma vez que estava entre as 11 e as 12 semanas, e que era o exame que mais rapidamente me iria dizer o que estava errado com o meu bebé. Passaram uns dias e chegou a data marcada para fazer a biópsia. Estava tão nervosa, tinha medo que alguma coisa pudesse correr mal, mas ao mesmo tempo descansada porque tinha sentido de imediato uma grande confiança naquela médica. Correu tudo bem. O exame realizou-se rapidamente e sem complicações e a recuperação também foi boa. Ao fim de uma semana iria receber o resultado rápido do exame onde me seria dito se o bebé tinha algum tipo de trissomia ou síndrome e ao fim de aproximadamente um mês vinha o resultado mais detalhado.

Passou-se uma semana e recebo uma chamada do Hospital a dizer que não tinha sido detectado nenhuma trissomia, mas que sim, havia uma alteração com o bebé. Fomos chamados para ir pessoalmente ao hospital para que a médica nos dissesse qual seria então a alteração. Lá fomos.

Ficámos a saber que era uma menina e tinha síndrome de Turner. Uma alteração no cromossoma sexual feminino e que é sobretudo um problema hormonal.

Em Portugal, não é possível interromper a gravidez numa situação destas, pois é uma síndrome que tem tratamento. Se bem que também não era algo que fossemos fazer num caso desses. Recebemos a notícia, interiorizamos e aceitamos. A nossa filha vinha e nós íamos aceitá-la independentemente se tinha Síndrome de Turner ou não.

Ao fim de um mês recebemos então o resultado detalhado no qual não tinha sido diagnosticado mais nenhuma malformação genética na minha filha. Às 18 semanas ia ter então uma nova ecografia obstétrica com a minha médica. Desta vez eu estava mais calma, já sabia qual era o problema e sentia-me confiante que o resto estaria bem, que já tínhamos tido a nossa dose de stress.

Estava enganada. Estava tudo mal. Quando a minha médica começou a fazer a ecografia houve novamente um grande silêncio. Silêncio demais. Percebi que, afinal, algo mais não estaria bem. Diz-me que o coração não estava normal. Senti-me novamente sem chão. Um balde de água gelada, um choque.

Ouvir que aquele bebé, tão desejado, tão querido por nós, não vai aguentar, foi das piores coisas que já ouvi. Ninguém está preparado para ouvir que o nosso filho não vai sobreviver. Faz-nos duvidar de tudo, de nós, do nosso corpo, da nossa fé. 

Tive de interromper a minha gravidez às 19 semanas e 4 dias. Fui internada no dia do aniversário do meu namorado, senti as piores dores da minha vida. Fisicamente e psicologicamente.

Não sei como uma mulher consegue suportar tal dor. Até hoje, não sei como consegui sobreviver àquele que foi para mim o pior dia da minha vida. Foi dar à luz um bebé que não vinha para o meu colo, que fazia parte de mim, mas que não era mais nosso.

Apesar de ter tido o privilégio de poder ter o meu namorado comigo naquele dia, num quarto em que estávamos só os dois, nunca me senti tão sozinha, tão esquecida por Deus. 

No dia seguinte após a interrupção uma equipa diferente veio-me visitar e ver se estava tudo bem e se tinham ficado restos dentro de mim. Verificaram que tinham ficado alguns resíduos e perguntaram-me se eu queria continuar internada ou se queria ir para casa onde tinha de fazer medicação para que o corpo expulsasse os restos. Eu só queria sair dali, precisava de sair dali. Optei por fazer a medicação em casa e disseram-me para regressar ao fim de uma semana. Assim foi.

Regressei para a consulta e desta vez seria com a médica que me tinha acompanhado até então. Os resíduos não tinham saído, pelo que tiveram de me tirar na hora. Estava cansada. Não suportava mais todo aquele inferno. Só queria que aquilo acabasse.

A médica mandou-me regressar ao fim de dois dias para verificar novamente se já estava mesmo tudo bem. Ao fim de dois dias regressei, ela verificou e finalmente ouvi as palavras que tinha saído tudo e que estava limpo, tinha acabado.

Só aí senti que finalmente este pesadelo ia acabar. Acabava fisicamente, mas continuava psicologicamente. 

Senti que precisava de recomeçar, precisava de me encontrar. Foi-me oferecido apoio psicológico no hospital, mas eu optei por procurar apoio fora do hospital. Aquele sítio dá-me ansiedade. 

Neste momento, estou a ter acompanhamento psicológico e estou-me a encontrar. Estou aos poucos a recuperar força em todos os sentidos.

Algo que me ajudou muito também, foi procurar páginas onde eu pudesse ler outros testemunhos e sentir-me abraçada por outras mulheres que também já passaram por isto. 

Um abraço apertadinho a todas nós. Somos fortes!

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Em dezembro de 2020, eu e o Papá tomámos a decisão de, em janeiro de 2021, procurarmos ajuda para conseguirmos o nosso tão desejado bebé que, durante 10 anos não tínhamos conseguido.

E a vida, em janeiro de 2021, acabou por nos presentear com uma bebé, quando nós mesmos já tínhamos perdido a esperança…estava grávida de 4 semanas.

Foi uma emoção tão grande! No meio de tantos negativos, aquele positivo foi um misto de sensações que não soubemos controlar.

Para que tudo corresse bem, procurámos as melhores clínicas de Portugal para realizar todos os exames, no qual todos estavam bem e a correr dentro da normalidade.

Dois dias após perder a minha avó (que era mais que minha mãe), realizei a primeira ecografia mais profunda onde se iria saber o sexo da bebé e ver se estava tudo OK. Foi impedida a entrada de acompanhantes.

Foi detetada uma translucência nucal muito elevada e a menina estava muito inchada, ao qual a médica me disse, sem problemas “A bebé não vai sobreviver, pode morrer a qualquer momento “…

Seguiu-se uma série de exames e ecografias, tal como a biópsia das vilosidades, que não detetou nada…a menina era, aparentemente, saudável.

Chegando às 21 semanas, nas últimas ecografias que realizei, a médica informou-me que a menina tinha uma hérnia diafragmática congénita, problemas cardíacos graves e estômago colapsado. O mais certo era a menina morrer ainda na barriga… mas, caso não acontecesse, acabaria por morrer numa das operações que iria ter que realizar à nascença.

Informaram-me que o melhor seria interromper a gravidez…Não quis acreditar que a vida me iria tirar o chão!

Tinha acabado de perder a minha avó e iria ter que acabar por perder a bebé que me deu força naquela partida tão dura.

A Benedita era a bebé mais desejada deste mundo. Tanto eu, como o Papá dela, a desejávamos com todo o nosso coração.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida

A Benedita já tinha o quartinho pronto e mais roupa que os Papás, que reviraram o mundo e percorreram em 6 meses mais médicos diferentes que em 6 gravidezes normais juntas.

A Benedita esteve 21 semanas e 3 dias dentro de mim. Permitiu-me ser mãe, realizou-me um sonho, mesmo tendo-me tornado mãe de colo vazio. A Benedita deixou-me senti-la durante horas, logo após as 17 semanas; não deixava dormir a Mamã e acalmava sempre que sentia o Papá.

Tinha o narizinho e os pés do Papá e adorava dormir toda enroladinha como a Mamã.

A vida é de facto injusta, e comigo tem sido avassaladora desde sempre. Quem diria que eu, que desde pequenina que sonhava com esta menina, iria ter que passar um processo destes tão doloroso. Eu, que me agarrei à esperança de que ela estivesse em crescimento e fosse apenas teimosa como a Mamã.

Tive que ter o acto de coragem mais difícil de toda a minha vida, por ela, para que não sofresse.

Passei pelo meu primeiro parto, sozinha, 4 dias num hospital, devido à pandemia “mais devastadora” do momento. Senti-a encostada às minhas pernas, grandinha e quentinha.

Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida.

O mais fácil é sempre dizer : “ És nova, terás outro! ” … A questão não está em ter outro, a questão está em ter sido uma bebé tão desejada durante anos.

Ninguém sabe, para além de mim e do Papá dela, o quão difícil foi aquele primeiro positivo, que nem sabíamos como reagir de tão felizes que estávamos.

O medo permanecerá sempre. E a saudade também.

E se há coisa que me faz sentir perto da minha filha, é estar abraçada ao Papá dela.

A Benedita será sempre o meu anjinho mais bonito do céu. Tudo acontece por uma razão…O meu arco-íris há-de chegar… Mas a Benedita fará sempre parte das conversas do dia-a-dia cá de casa! E será das maiores luzes na nossa vida, como o tem sido até agora, desde a sua partida para longe de nós!

Benedita, 06-05-2021 / 12h55

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Soube que estava grávida do Gabriel já com 12 semanas.

Sentia-me mais cansada do que o normal, então resolvi fazer o teste de gravidez. E lá estava ele positivo…era nosso 4º bebé: temos 2 meninas e 1 menino, ficámos com 2 casais, o que o pai sempre disse que haveria de ter.

No dia 22 de novembro fiz a primeira eco. Tudo bem um bebé praticamente formado e muito mexido. Correu tudo normal até às 16 semanas, quando tive uma perda de sangue enorme. Pensava mesmo que já não tinha o bebé, mas não, ele era forte e aguentou. No entanto, a placenta tinha começado a descolar.

Vim para casa de repouso. Fiz uma ecografia no dia 2 de janeiro, na qual a médica me diz “está tudo bem mãe, não se preocupe”. Mas o meu coração não descansava, havia algo que não me deixava descansar. Até que, no dia 27 de janeiro, comecei com contrações, fomos logo deixar os irmãos  e seguimos para hospital.

Quando fui observada, vi logo que havia algo de complicado. O médico chamou logo outra médica para vir ver. A bolsa estava a sair com o bebé lá dentro. Foi-me dito que estava a entrar em trabalho de parto com 22 semanas. Nem tinha noção do que viria depois, só queria perceber se estava vivo. E estava, tinha batimentos cardíacos.

O Gabriel nasceu com 25cm e 480 gramas (…) um bebé perfeito, só faltava crescer

Fui para a sala de partos, chamaram o pai para perto de mim e disseram-me: “o médico já vos vem esclarecer e contar ao pai o que está a acontecer.”

As horas passaram e não apareceu ninguém… Até que as águas rebentaram. Fiz outra ecografia para percebem se o bebé tinha batimentos e sim, mais uma vez tinha.

Na minha inocência perguntei se ia ficar ali ou teria de ir para outro hospital… A resposta que me foi dada foi que era um bebé muito pequeno, mesmo que nasça com vida não iam fazer nada…se já estava mal naquele momento caiu o resto.

É o meu filho, aquela médica estava a falar do meu filho!

Voltei para a sala de parto onde ele nasceu às 02:45 do dia 28 de Janeiro.

Não sei dizer quanto tempo, se segundos, se minutos…se foram minutos não foram muitos, estava completamente desnorteada mas só ouvi a parteira a dizer que já não tinha batimentos.

Levaram-no para medir e pesar e, no fim, trouxeram-no enrolado num lençol branco…O Gabriel nasceu com 25cm e 480 gramas. Lindo, perfeito e nada vermelho; um bebé perfeito, só faltava crescer.

Esteve deitado ao meu lado, até me dizerem que tinham que o levar. As horas a seguir não foram nada fáceis, ainda passei pelo bloco operatório, a placenta tinha sido retida então foi fazer a limpeza.

Só pensava em sair dali ir para casa, para junto dos meus filhos. A mais velha fazia 9 anos no dia a seguir. Só não queria que se soubesse nada naquele momento.

Saí no dia 29 de janeiro com um termo de responsabilidade. Ela não podia saber que tinha perdido um irmão na véspera dos anos dela. Vim para casa e só lhe contamos uma semana depois…

Hoje todos nós temos um anjinho bo céu a olhar por nós.


O nosso Gabriel que nunca vai ser esquecido.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez Testemunhos Perda Tardia

Senti necessidade de escrever sobre a minha grande perda. Está quase a fazer 6 anos, e este ano está a ser difícil. Estou a relembrar-me de tudo, e parece que estou a viver tudo novamente. 

Estava grávida, tinha acabado de completar 18 anos há pouquinhos meses, estava tão feliz. Levantei-me calmamente, mas eufórica. 

Era só mais uma ecografia, (na realidade não era mais uma eco, era o dia em que ia descobrir o sexo do bebé) mas naquele dia não estava com aquele brilho nos olhos.  Parece que estava com algum pressentimento. “São coisas da tua cabeça” pensava eu.Depois de mais uma hora de espera, entrei no gabinete. Deitei-me na maca, o médico foi falando durante a eco. Apontado medidas, até que me diz “é um menino.”

O sorriso apoderou-se da minha face, até que de repente oiço um “está tudo bem, mas temos de ir ao hospital ver aqui um problema”. Ao sair do gabinete, o obstetra disse à secretária para desmarcar as próximas ecos. Achei estranho, mas não desconfiei. O médico dirigiu-se comigo ao hospital (era à frente da clínica). Fez a minha ficha, e entrou para ir falar com um dos colegas de serviço.

Passados poucos minutos, que mais pareceram uma eternidade, chamaram-me. Deitei-me na maca.  O médico colocou gel na minha barriga, e começou a fazer a eco. O colega de serviço disse para o outro “É sem dúvida o que mais temias.” Eu sem perceber nada, sem respostas de nada! O “meu obstetra” sai e entra com vários estagiários. 

Eu estava imóvel, com a cabeça cheia de perguntas, até que oiço: “Veem como o diafragma não fechou? Os órgãos subiram”. Continuei a questionar, até que acabaram a eco. Vesti-me e sentei-me. Deram-me um copo de água. “O seu feto tem uma hérnia diafragmática. É grave, e tem de ir já para o Hospital da Estefânia, para ser vista por um cirurgião pediátrico e outro obstetra”. Aquelas palavras na minha cabeça não fizeram sentido. Não percebi o significado.

Desloquei-me ao Hospital D. Estefânia. Fui muito bem recebida, aconselharam a fazer uma amniocentese para se perceber o que se passava, se havia mais alguma anomalia e uma ressonância magnética. 
No fim da amniocentese, uma médica obstetra disse-me “Não vale a pena fazer repouso”. Foi nesse momento que percebi seriamente que algo não estava bem.

Esperei alguns minutos, e um cirurgião pediátrico veio falar comigo. Explicou-me a gravidade da situação, e que com base nos exames, só havia 10% de probabilidades do bebé sobreviver. Aquelas palavras doeram bastante. São palavras que nenhuma grávida quer ouvir. Pareciam que me estavam a tirar o meu filho. O bebé que eu sempre quis! Fui para casa, com a condição de voltar passados 2 dias com uma decisão tomada. 

No dia seguinte, comecei a perder líquido e, com medo ser líquido amniótico, desloquei-me ao Hospital. Expliquei ao médico que me atendeu o que se estava a passar, e ele confirmou com a eco a gravidade da situação, e disse que eu já não ia para casa. Fui internada por suspeita de rutura de bolsa. Foi uma noite tão difícil, lembro-me que estive a chorar até adormecer. Tomei a decisão de interromper a gravidez, tinha 23 semanas e uns dias. Foi-me explicado que seria preciso assinaturas de 3 médicos para ser legal interromper a gravidez. Esperei 4 dias, até terem as assinaturas. Comecei então o processo de interrupção. Deitei-me numa maca, enquanto um outro obstetra me fez uma eco, e disse-me ” esta injeção vai parar o coração do bebé.”

As lágrimas escorriam-me. Estava a perder o bebé que eu sonhei. O meu bebé! Não era o bebé de ninguém, era o meu bebé!

Passados uns terríveis minutos, o médico que me tinha dado a injeção voltou-se para duas estagiárias que estavam na sala e disse: “Sabem o que têm de pensar? É que este feto não tem viabilidade, mas naquela sala (apontado para o bloco de partos) estão ali vidas. Estão ali bebés para nascer.”

Fui para o quarto preparando-me para o início do processo. Foram-me colocados 3 comprimidos vaginais. Colocados à bruta. Passaram horas e horas, e sem sinais evidentes de parto. Mais 3 comprimidos vaginais. No dia seguinte, como não haviam sinais, foram colocados mais 3 comprimidos vaginais. E oxitocina na veia. Comecei a sentir dores, não sabia que seriam contrações. Toquei à campainha, expliquei a uma enfermeira que me disse que era mesmo assim, e que ainda ia demorar. Olhei ao relógio, eram 16:31h. Deixei de ver, não conseguia sentir. Estava péssima. Até que me deu uma dor tão forte, que só me deu tempo de agarrar à cama e apertar as barras de ferro. Fiz uma força enorme, força que eu nem sabia que tinha, e saiu. O meu bebé saiu dentro de mim. A enfermeira apareceu com os meus gritos, e disse-me muito nervosa “não te mexas que eu volto já”. Tentei não me mexer. Entrou no quarto a enfermeira, e outra colega. Tinham na mão um balde amarelo e instrumentos médicos que eu nem sei o que eram. Fechei os olhos, e escolhi não ver. Hoje arrependo-me, arrependo-me de não ter visto o meu bebé! Foi assim que nasceu a minha estrelinha, o meu príncipe. 

Poucos minutos depois, entra no quarto o médico com um papel para eu assinar e explica-me que é melhor fazermos uma autópsia, e deu-me um grande abraço. Aquele abraço soube-me tão bem! Eu estava tão frágil, acabada de fazer 18 anos, sem conhecer nada da vida, e a perder o meu filho. Tive alta no dia seguinte, com uma frase do médico: “um raio não caí duas vezes no mesmo sítio”. Essa frase entrou-me na cabeça e ainda hoje me lembro. Foram tempos muito difíceis, chorei tanto. Sentia que tinha perdido uma metade de mim.

O meu Kévin nasceu às 16:46h do dia 26 de Junho de 2015, com 497g e 24 semanas. Com uma hérnia diafragmática esquerda e outros problemas confirmados pela autópsia.

Passaram quase 6 anos. Nesses 6 anos, tive duas princesas lindas e saudáveis, mas não vieram substituir o meu menino. E sei que um dia vou voltar a reencontrá-lo. Porque nunca foi um Adeus, foi sempre um Até Já! ❤

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Para aumentar a dor de já ter perdido o meu filho Rodrigo, com 4 anos de idade em maio de 2015, depois de lutar durante 2 anos contra um cancro cerebral em fase terminal (AT/RT), descobrimos que estava grávida – era o nosso bebé arco-íris -, que se tornou, novamente, no nosso maior pesadelo em outubro de 2020.

Estava grávida de 26 semanas de gémeos, quando me disseram que um tinha sido absorvido pelo meu próprio corpo, e pelo irmão. O Lucas, a 18 de abril de 2020, fez o nosso mundo cair, mas estávamos felizes porque o Benjamim estava a crescer bem. Estava bem nas ecografias e via-se, nas ecografias, o nosso tão desejado menino a rir.

O parto estava planeado para outubro de 2020, mas como eu tenho endometriose, era uma gravidez de risco e tinha que ser mais vigiada. A obstetra dizia estar sempre tudo bem e nunca valorizou as minhas queixas com dores e perdas de sangue. A partir de setembro, quando ia quase todas as semanas ao hospital, apenas ligava o CTG e fazia ecografia e estava sempre tudo bem; mesmo quando eu deixei de sentir o meu Ben em inícios de outubro, estava sempre tudo bem.

Pude conhecer o meu filho, dar mimo e dar-lhe um beijinho de mãe.

No dia 15 de outubro de 2020, às 3 da manhã, senti uma dor enorme e estava a perder sangue. Eu sabia que não estava tudo bem e fui de emergência para o hospital. Cheguei lá de 39 semanas e disseram-me que já não havia batimentos cardíacos e que tinha fluido na minha barriga. Tinha de dar à luz de imediato, pois corria risco de vida e já não havia nada a fazer, pois o Benjamim já tinha partido.

Altura de Covid-19, pico alto da pandemia e aí sonhos destruídos. No dia seguinte voltámos a casa de coração cheio e colo vazio.

Pude conhecer o meu filho, dar mimo e dar-lhe um beijinho de mãe. O meu filho estava sereno, no sono eterno.

Não há maior dor que dar à luz um filho e não o ouvir chorar…Já lá vão 7 meses e a dor é a mesma.

Os meus anjinhos no céu.

A autópsia, obviamente, deu inconclusiva, mas sim, se a obstetra tivesse provocado o parto no dia 5 de outubro de 2020, quando eu lhe disse que não me sentia bem, o meu filho teria 7 meses.

A mamã e o papá amam-te daqui até ao céu.

Coração cheio, colo vazio.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez Testemunhos Perda Tardia

Depois de 2 anos a tentar engravidar, e já em consultas de PMA (infertilidade), engravidei naturalmente. Soubemos em novembro de 2020, estávamos mega felizes…

Tudo correu bem até à segunda ecografia, em que a médica me diz (devido à pandemia, estava sozinha) que o bebé tinha uma malformação muito grave…

Mandou entrar o meu marido, também lhe explicou o que passava, e marcou-nos consulta para uns dias mais tarde, onde iríamos decidir o que fazer. Disse-nos para até lá irmos pensando.

Ficamos completamente desnorteados, o mundo caiu-nos em cima.  Tínhamos em mãos a pior das decisões para tomar, tirar a vida ao nosso bebé, era um rapaz…depois da decisão, foram mais uns dias até fazer a interrupção, porque até nestas situações a burocracia impera, e esses só foram os piores dias da minha vida.

Era um bebé perfeito

Continuar a ter dentro de mim um bebé, que sabia ia ficar sem ele, um bebé com vida, que eu lhe ia tirar…

E no dia 14 de março de 2021, nasceu o nosso bebé sem vida, uma vida que fomos nós que decidimos terminar, mas que no fundo sabemos que foi o melhor.

Era um bebé perfeito (decidimos que o queríamos conhecer), não fosse ter “espinha bífida aberta”.

E no fim de tudo isto, fica uma dor enorme…. não há dia que não pense, não há dia que não me lembre, e tenho a certeza que será eternamente assim, porque não há maior dor, do que a de perder um filho…. 

Um beijinho do tamanho do mundo e um xi-coração apertado.