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A. Santos

A gravidez do nosso primeiro bebé foi planeada, mas nada calendarizada. Não segui com muita atenção o período de ovulação; aconteceu de forma muito natural e espontânea. Umas 3 ou 4 semanas passaram-se e lembrei-me “algo falhou este mês”; comentei com o Tomás e disse-lhe com a maior das confianças: estou grávida. Mais uma semana passou e não consegui aguentar a espera da análise beta-hCG para confirmar; comprei então um teste de gravidez: confirmado e com mais de 3 semanas. Enviei uma foto ao Tomás pelo Whatsapp; combinamos em fazer a surpresa aos meus pais, afinal de contas, seriam avós pela primeira vez e queríamos dar a notícia de uma forma memorável. Logo de seguida ele partilhou com os pais dele e irmãos, não conseguindo conter a alegria.

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Os meses desenrolaram-se, de forma geral, pacificamente. Haviam sempre cuidados extra, alguns receios à mistura, muita leitura para colmatar esses receios…o que todas as mães de primeira viagem podem autenticar! Os desconfortos assumidos como “normais” apareciam com o crescimento do bebé e o estiramento dos músculos da barriga, uma ou outra noite mal
dormida, um mioma intramural que apenas me deu que fazer (e à equipa no serviço de urgência da maternidade) durante uns dias, mas que se “silenciou” até ao fim da gravidez (contrariando as expectativas dos médicos).


Decidimos não saber o sexo, mas como gostava de falar com o bebé na minha barriga tinha de encontrar um nome neutro além de “criaturinha”; depois de pensar em alguns ficou “pandinha” – tinha que ser, claro, o bebé adora dar pontapés e às vezes parecia que estava numa aula de kung-fu lá dentro (lembrando-me a personagem Panda do Kung-Fu). Criamos um
grupo de Whatsapp com amigos e família para lançarem apostas sobre o sexo do bebé, e mais tarde com ideias de nomes. Eram quase 80 pessoas a mandar “bitaites”; podem imaginar o tipo de nomes que eram sugeridos! Foi muito divertido. A maioria apostava que seria menino, mas mantivemos firmes em não sabermos o sexo e fazermos a surpresa a todos.

O terceiro trimestre foi o mais vigiado; tinha surgido uma alteração a nível do intestino do bebé – uma dilatação que nunca desenvolveu mais do que o que tinha sido diagnosticado na ecografia das 31 semanas, que me tinha sido também explicado que poderia ser passageiro ou alvo de uma pequena cirurgia no período neonatal…nada demais a preocupar por agora pois a
bebé desenvolvia bem, não havia sinais de stress fetal nem outros que pudessem comprometer a gravidez. Depois de uma ou outra noite mal dormida (congeminando preocupações e soluções), vesti o meu fato de otimista e segui com as marcações planeadas na maternidade e com a vida de grávida dentro da normalidade – agora mais pesada, mas ainda com bastante energia.


Às 36 semanas um aumento de líquido amniótico, mas não se tratava de uma alteração muito significativa, e assim se prosseguiu com as vigilâncias programadas (desta vez, semanais) – CTGs e ecografias realizadas sem intercorrências a acrescentar de acordo com a equipa.

Vivi todo este período como se tivesse divido em duas pessoas – a “Ana que queria ser mãe” fugiu para bem longe e a “Ana que quer sobreviver” ficou…

As últimas 4 semanas foram vividas com normalidade; o único desejo honesto que tínhamos era ter um parto natural, sem necessidade da indução marcada para dia 20 de dezembro (no limite das 41 semanas). Então seguimos as sugestões do obstetra para alcançar esse desejo, mas sempre muito conscientes da possibilidade de nunca ocorrer e necessitar da mesma. 

Madrugada de 20 de dezembro de 2021. Acordei subitamente de um sonho. O sonho passava-se no sótão em casa dos meus pais (precisamente o local onde lhes demos a notícia da gravidez) e deixou-me com uma sensação muito desconfortável; senti que algo não estava bem de imediato, mas tentei racionalizar aquele momento e fiz o que sabia serem as melhores tentativas a estimular o bebé a mexer…mas nada; pouco tempo depois, já nas urgências da maternidade veio-se a confirmar o que sentia mas não queria acreditar – “acho que a Ana já sabe o que tenho para lhe dizer…” disse-me a médica que concluiu o diagnóstico da morte fetal; “eu lamento imenso”. O meu corpo mexeu, mas a minha mente paralisou naquele momento. Segui instruções para ligar ao Tomás que me esperava fora das urgências, para me dirigir à sala de partos, mudar de roupa e dar início ao parto…aquele parto que já estava agendado, mas não para este resultado. Vivi todo este período dividida em duas pessoas – a “Ana que queria ser mãe” fugiu para bem longe e a “Ana que quer sobreviver” ficou… 

“Era uma menina”, uma das enfermeiras confirmou após o parto. Eu e o Tomás decidimos estar um bocadinho a sós com a nossa bebé. Enchemo-nos de orgulho e lágrimas ao saber que a surpresa ainda seria maior, contrariando a aposta da maioria. Chamamos-lhe Maria – o nome que eu tinha sugerido se fosse menina, mas que ainda não tínhamos chegado a um acordo. Tê-la no colo e vê-la partir foi a sensação mais devastadora que podemos assumir…

Os dias seguintes – até semanas – foram de muita tristeza e solidão, mesmo com imensa gente a cuidar de nós com muita atenção. A sensação de “vazio” no meio do peito lá ficou, lembrando da ausência. Atrás vieram os sentimentos de culpa, “o que é que eu fiz?”, “o que é que eu poderia ter feito?”. A ansiedade ganhava terreno, os dias em que saia à rua com as lágrimas prontas a cair e o nó na garganta acumulavam-se, a falta de forças para enfrentar o dia e para resistir à sensibilidade sublime ao ver um bebé ou uma mulher grávida ia sendo cada vez mais óbvia. Tinha de reagir. Sabia que a procura de respostas tirava muito tempo e energia dos meus dias – não estava a procurar no sítio certo e não era por encontrar uma resposta ao “porquê da morte da Maria” que conseguiria minimizar a minha dor. Comecei a olhar mais para dentro; perceber o que sentia em relação à Maria, perceber o que outras mães testemunhavam após uma experiência semelhante, acolher novas interpretações da perda (quer a nível espiritual como a nível de crescimento pessoal) e, no fundo, encontrar e estabelecer-me nesta nova identidade – uma mãe de colo vazio, que ainda vai enfrentar muitos desafios e medos na busca da felicidade maternal, mas que tem agora uma arma muito poderosa que a ampara nesse caminho, que é o amor incondicional.

Alguns meses passaram até agora – quase 6 no momento em que escrevo este testemunho – e sei que não houve um dia em que não pensei na Maria. Tanto fiz nestes meses por forma a celebrar a sua breve, e relevante, passagem neste mundo…tanto que ainda quero fazer! Tantas vezes peguei na sua fotografia, ora com muito orgulho, um sorriso e uma mão no peito, ora com lágrimas a correr pelo rosto e as mãos a tremer. Tantas vezes falamos, entre casal, família e amigos, no nome Maria. Tantas vezes…

Agora, os dias de orgulho – em que o as nuvens se abrem -são cada vez mais, mas sei que por aí virão dias em que a saudade terá aquele gosto mais amargo. E acredita que há dias que te vão surpreender, lembrando que ainda há algo aí dentro por preencher; acolhe esses dias, é a minha sugestão, pois há sempre uma lição a aprender.

4 comentários a “A. Santos”

Partilho esta dor com a Ana, e até quase a data. Passámos o mesmo natal, a mesma passagem de ano, os mesmos últimos 6 meses. Também primeiro neto. Revejo-me em tudo o que a Ana descreve que sentiu e fez nos últimos 6 meses. Uma gravidez sem problemas, uma indução marcada iniciada no dia 20/12/2021, às 9 da manhã, no meu caso às 40 semanas. Nunca fiz dilatação maior que 2cm, nunca senti pressão do meu Santiago lá em baixo. A minha bacia era demasiado pequena para ele que era grande. Ele esteve sempre bem. No dia 21 às 7.30 da manhã teve uma paragem dos batimentos cardíacos. Viraram-me deram-me oxigénio, abanaram-no, voltou a bater o coração. E continuou bem durante 40 min. Mas mesmo assim a médica achou melhor levar-me para cesariana. E lá fui eu, a chorar de felicidade por finalmente ir conhecer o meu bebé. Mas quando o tiraram estava novamente em paragem. Reanimaram-no por 26 minutos. Voltou. Tinha aspirado meconio, estava muito mal. Levaram-no para a Mac e o pai foi para lá ter com ele. No dia 23/12 deixou-nos, foi muita coisa para um corpo tão pequenino, apesar de lutador. Estamos juntas ♥️

A Maria fará sempre parte da vossa família.
Desejo mtoooo que a vossa família aumente quando estiverem preparados. Tenho a certeza que acontecerá. Beijinho enorme mãe corajosa

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