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Ana S

A minha aventura no mundo da maternidade começou há 11 anos, quando nasceu o meu príncipe Martim, um filho muito desejado por mim e pelo meu marido. Uma alegria e aprendizagem diária. Ao fim de quase 7 anos, decidimos voltar a ter outro filho, ou seja, em 2017 comecei na preparação para engravidar.

Os anos foram passando e nós sempre na luta, sempre a tentar realizar este sonho de família. Sim, porque o nosso filho Martim sempre desejou ter um mano, ou mana; para o Martim e para nós, pais, era exatamente igual.

Após quase 4 anos a tentar engravidar e já quase a perder a esperança- nunca quis nada pelos meios artificiais, tudo de forma natural – eis que em meados de fevereiro de 2021 comecei a andar muito mal disposta, enjoada, cansada, sem vontade para fazer nada, mas não suspeitei no imediato. Até que houve um dia que fui tomar um meu duche e senti dor ao tocar no meu peito e aí deu-me um clique e pensei: “Ui, eu já senti esta dor! Aí que eu estou grávida!”

Não comentei com ninguém, para não criar falsas esperanças. No dia a seguir, no dia 23 de fevereiro dirigi-me a um laboratório e fiz uma análise à urina, e aguardei ansiosamente pelo resultado, que chegou no final do dia por email. Claro, quando abri, fiquei a olhar uns minutos sem perceber muito bem o que estava escrito, mas estava clara a informação: Estava grávida!

Fiquei tão feliz, que partilhei logo com o marido e filho em conjunto na sala, foi uma alegria, gargalhadas. Estávamos em plena felicidade.

Comecei com as consultas de rotina, análises, ecografias e tudo corria bem.

Estávamos ansiosos para saber o sexo do bebé, mas nunca foi o mais importante para nós. O que desejávamos era que viesse com saúde e perfeitinho. No dia 10 de maio fiz uma eco simples com a minha obstetra e soubemos que era uma menina!! Seria a nossa Gabriela. 

Gabi, como já era carinhosamente tratada por nós cá de casa.

A barriga crescia a bom ritmo, e estava bem grandinha já. A Gabriela acompanhava o crescimento pois ela mexia-se bastante, não parava quieta.

Tudo corria bem, ou pelo menos eu achava que sim…

De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo.

No dia 14 de junho de 2021, fui realizar a 2ª Ecografia (Morfológica), estava eu com 22/23 semanas (6 meses) e fui acompanhada pelo meu filho Martim que disse que queria muito ver a mana.

Estivemos mais ou menos 1h30m lá dentro até que a minha obstetra pediu ao meu filho para sair e aguardar na sala de espera. Só por aí eu achei estranho, mas não percebi o que se estava a passar. Até que a médica me ajudou a levantar e agarrou nas minhas mãos e me disse que não tinha boas notícias para mim, só aí comecei logo a tremer e perguntei o que estava a passar, ao que a Drª me respondeu que a minha bebé tinha uma doença letal e rara e que tínhamos que decidir avançar ou interromper a gravidez.

Como assim interromper? Eu nem estava a acreditar naquilo que estava a ouvir!

De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo. Mas depois questionei a Drª, sobre o que estava a passar e o que é que eu podia fazer? Ao que ela me voltou a dizer o que já havia dito, que a minha bebé tinha uma Displasia Tanatofórica, ou seja, é uma doença letal, rara e que afeta a parte muscular toda. Mesmo que seguisse com a gravidez até ao final, após o nascimento, a minha bebé não ia sobreviver muito tempo e sem qualidade de vida. Ia sofrer e fazer sofrer!

Claro está, que naquele momento eu fiquei sem reação e chorei, chorei e chorei. Perante este cenário que eu estava a viver naquele consultório, a minha Gabi continuava a mexer-se dentro de mim como se estivesse tudo bem, mas não estava, mas ela não sabia, minha rica filha! Minha menina… 

A médica disse que eu e o meu marido tínhamos que tomar uma decisão e informá-la no dia seguinte. Pois, se fosse para interromper eu tinha que ir primeiro ao Centro de Diagnóstico Pré-Natal e a uma consulta de Genética para preparar o processo de interrupção.

Perante estas indicações da médica, eu já só queria sair daquele consultório. E saí! Cheguei à sala de espera onde o meu filho Martim esperava por mim ansiosamente e sem perceber nada do que estava a passar. Mas, como o meu filho me conhece muito bem e se preocupa comigo, assim que eu saio para fora e o chamei para irmos embora, o Martim percebeu logo que algo não estava bem, até viu no meu olhar que tinha estado a chorar. Claro, tanto insistiu que tive que lhe contar por alto, mas não entrei em pormenores.

Esta decisão (…) foi um ato de Amor. 

Quando chegamos a casa, já o meu marido tinha regressado do trabalho e olhou para mim e sentiu que eu não estava bem e perguntou-me logo como tinha corrido a ecografia, e eu comecei logo a chorar. Expliquei tudo direitinho e depois de ponderarmos bem, tomamos a decisão mais difícil das nossas vidas: Interromper a gravidez. 

Uma bebé tão desejada, após anos a tentar e quando finalmente conseguimos, o sonho vai assim… chorei muito, senti-me a pior pessoa do Mundo. Ainda demorei a aceitar esta decisão! Mas tinha que ser: esta decisão foi um ato de Amor. 

No dia 16 de junho de 2021, dirigi-me então à Maternidade Bissaya Barreto, acompanhada pelos meus pais, o meu marido não foi, por opção nossa, eu precisava que ele estivesse minimamente bem para à noite quando chegasse, ele me desse o apoio que ia precisar.

Claro está, quando chegamos à entrada da MBB pelas 9:00H eu entrei e os meus pais ficaram cá fora a aguardar. Foi uma espera infinita… Mal eu imaginava o que me esperava, ou seja, como se ia desenrolar todo aquele processo. Aguardei umas 2H até ir repetir a mesma Ecografia. Aquela que fiz na clínica e que deu o diagnóstico que não queria ter ouvido nunca.

Aconselhada pela minha obstetra, tinha que a repetir e ouvir uma 2ª opinião de outro médico, ou seja, médicos! Eram sempre bastantes à minha volta, assim como enfermeiras!

Pois bem, fui repetir a ecografia, estava deitada e à minha frente estava um grande ecrã, onde era possível eu ver a minha bebé: a minha Gabriela a mexer. Até que o médico, que estava a realizar o exame, se apercebeu que eu não estava bem, estava a tremer, e perguntou-me se queria que o ecrã fosse desligado. Eu disse que sim, sem hesitar! Sim, eu estava a ser “massacrada” por aquelas imagens da minha filha a mexer-se e eu a saber que “aquilo” ia ter um fim! Um fim que eu ainda não estava preparada! Mas há preparação possível?? Não há! Nunca!

No final da ecografia, fui a uma consulta de Genética, onde tinham já o relatório da ecografia a confirmar tudo o que havia sido dito na clínica. Estava confirmada uma Displasia Letal 1º grau e a característica principal era a cabeça em forma de trevo e toda a parte esquelética afetada, bem como alguns órgãos que iriam comprometer a boa saúde da minha filha, mesmo que seguisse com a gravidez até ao fim.

Nesta consulta, ainda questionaram se eu queria fazer o funeral, eu disse imediatamente que não. Não ia sujeitar a mim e à minha família a mais sofrimento, já bem bastava o sofrimento que estávamos a passar. Após a minha resposta, os médicos perguntaram se eu autorizava que eles fizessem a autópsia, ao que eu respondi que sim. Até porque eu queria respostas do porquê daquela doença, visto que o meu filho é perfeito, Graças a Deus.

Pedi esclarecimento sobre o processo de sepultar os bebés e explicaram que têm mecanismos próprios com toda a dignidade possível.

Em seguida, fui para outra sala, para retirarem líquido amniótico para ser analisado. No instante a seguir, voltaram a inserir a agulha e neste momento eu chorei bastante, mesmo. Porque esta agulha ia injetar um sedativo para parar o coração da minha menina, foi horrível o que senti naqueles minutos. Eu senti que era eu estava a dar permissão para que fizessem aquilo através da minha barriga, foi muito duro. Aos poucos fui deixando de sentir a minha filha a mexer. É muito triste, de verdade… Apesar de todo o meu sofrimento, eu estive sempre rodeada de médicos e enfermeiros a dar-me a mão e apoio, pois eu não podia ter ninguém da minha família comigo.

Com estes procedimentos todos, a manhã passou-se e a hora de almoço também e eram 15:30H quando saí para fora para ir almoçar. Quando saio, a minha mãe está lá fora à minha espera e eu agarrei-me logo a ela e desabei a chorar. Vinha com uma pressão enorme no meu peito por tudo o que me tinham feito lá dentro. Chorei bastante, estava a ser um dia difícil, mas era a preparação para o dia a seguinte, o internamento para o parto.

A seguir ao almoço, voltei à MBB para me serem feitas análises ao sangue e ainda teste ao Covid.

Vim para casa com os meus pais, vim a viagem toda em silêncio, com a minha barriga bem grandinha, mas sem vida. O facto de vir para casa com a minha bebé sem vida dentro de mim mexeu bastante com o meu psicológico!! 

No dia a seguir, 17 de junho 2021, lá fui eu novamente com os meus pais e o meu filho, desta vez quis ir acompanhar a mãe. Foi a viagem toda agarrado a mim. Quando chegamos à MBB, saí com a minha mala das roupas, o meu filho saiu, assim como os meus pais e agarraram-se a mim a chorar. O meu Martim só dizia que não queria que acontecesse nada de mal à mãe. Pela mana já não podíamos fazer nada, mas pela mãe sim. E eu entrei para a maternidade com a cara lavada em lágrimas.

Instalaram-me no quarto e começaram logo a introduzir comprimidos para induzir o parto. Fui para um quarto sozinha e lá estive até à hora do parto. O que mais me custou foi ouvir e ver mães na sala de partos a terem os seus bebés e a saírem com eles. Tive que pedir para fecharem a porta do quarto, pois já não aguentava ver, pois eu ia sair sem nada….

Após a segunda dose de comprimidos no útero, passado pouco tempo comecei a ter contrações no quarto e nem tive epidural nem nada para me aliviar as dores, foi aguentar e ponto.

Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.

Houve um momento que pedi a arrastadeira pois estava muito aflita para fazer chichi e a Enfermeira trouxe e depois saiu do quarto, assim que, eu relaxei para começar a urinar, a minha bebé começou a sair e eu dei um grito, pois estava sozinha no quarto, e vieram logo médicos e enfermeiros e tive que fazer mais força, para a minha filha sair por completo. Deram-me qualquer coisa para eu dormir, pois eu de manhã tinha dito que não queria ver a bebé, eu queria guardar na minha cabeça a imagem de como eu imaginava a minha filha e não a imagem que as ecografias revelaram. Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.

Neste dia, ao final da noite ainda tive alta, e o meu marido foi me buscar à MBB e, quando eu desci no elevador, com a mala que tinha levado com roupas, sem barriga e sem bebé, foi uma sensação avassaladora, terrível, um vazio…

As semanas seguintes foram complicadas, pois não conseguia sair à vontade de casa, com o medo das perguntas que as pessoas que iam fazer, mas lá tive que começar a sair e enfrentar os meus medos.

Os meus grandes apoios nesta fase foram os meus pais, marido e o meu filho Martim. Agarrei-me com todas as minhas forças à vida e pelo meu filho que precisa que a mãe esteja bem. Se eu estiver bem comigo, vou estar bem para qualquer pessoa.

Ninguém nos ensina a ser Mãe, assim como ninguém nos prepara para estas situações!

Já passaram 5 meses e às vezes paro e parece que tudo foi um pesadelo…

Acredito que a minha filha viveu 6 meses dentro de mim feliz e veio cá com um propósito que eu um dia irei perceber.

Por agora, resta-me olhar para o Céu comtemplar o meu Anjo da Guarda, Gabriela!

6 comentários a “Ana S”

Mãe de Gabriela, eu só queria agradecer pela coragem de contar a sua história. Eu nao penso que só aconteceu comigo mas ainda não tinha visto nenhuma história assim e começava a me sentir sozinha. A minha filha tinha uma hidropsia. Também tivemos de decidir e eu tive de verbalizar sozinha, por ser mulher. Me senti tão culpada. Os médicos me disseram que muitas mães passam pelo mesmo mas têm receio do julgamento por terem tomado a decisao. Só queria dizer obrigada por partilhar.

Olá querida Laura, pois não é nada fácil não, e só quem passa por uma situação tão dolorosa é que sabe. Nós Mulheres, mães temos um sentimento muito diferente depois de tomar uma decisão como esta. Senti alguns julgamentos, mas depois optei por não verbalizar com as pessoas erradas, que não tendo conhecimento de causa, julgam e nós sofremos ainda mais.
Receba um grande beijinho de força.

Senti tudo como se fosse comigo. Chorei ao ler o seu testemunho. Também tive que tomar essa difícil decisão. Envio um abraço apertado a si e à sua família. Muita força ❤️

Olá querida Sílvia, obrigada pelas suas palavras. Envio daqui um abraço apertadinho e muita força para todos, especialmente para si.
Nós mulheres, mães somos tão fortes e nem sabemos, mas temos os nossos dias que choramos sozinhas, só para nós e faz bem chorar. Mas será sempre uma dor que fica. Um grande beijinho.

Olá Ana. Primeiro que nada, deixar aqui um abraço muito apertado. Também por aqui houve uma situação semelhante à sua mas felizmente, ou infelizmente não sei bem, soubemos que algo não estava bem às 12 semanas e fomos-nos preparando para o pior e por isso, quando tivemos que decidir interromper, a decisão já estava mais que tomada e já me tinha conseguido despedir do meu bebé. A minha interrupção foi às 21 semanas e 5 dias e por isso não tive que fazer a injecção que interrompe os batimentos cardíacos do bebé mas tive que tomar um comprimido para um efeito indirectamente semelhante.
No meu caso sempre disse que queria ver o bebé e assim foi. O expulsivo, que aconteceu subitamente no quarto comigo fora de mim, num estado imensamente primitivo, foi o meu momento de revolta. De medicação tinha feito um paracetamol 4h antes e quando senti o meu bebé a sair (estava sozinha no quarto porque o meu marido tinha ido chamar o médico) instintivamente peguei nele e tirei-o do saco onde ele havia estado durante a gravidez. Foi um momento tão triste mas tão intenso que não sei descrever. Despedi-me dele e tentei reter o máximo de detalhes possíveis que neste momento tenho medo de esquecer.
Também tive receio de voltar à vida “normal” e continuo a ter saudades de estar grávida e do meu bebé mas os que me rodeiam foram tão bons para mim e fizeram-me sentir tão acolhida que neste momento falo muito abertamente sobre isto e faz-me tão bem falar.
Um grande beijinho para si e para todas as que lêem estes comentários.

Olá Sara, teve uma situação também nada fácil, bolas. Ter o seu bebé sozinha em casa… foi muito corajosa em retirar o bebé do saco e estar atenta a cada pormenor. É uma decisão de cada mulher (ver ou não ver). Ambas as decisões devem ser respeitadas. No seu caso, tinha mesmo que ver não é?
Nós mulheres, somos umas guerreiras que nem temos noção e achamos que vamos abaixo. Mas não vamos, há uma força interior que nos move e no meu caso, depois de perder a minha filha aos 6 meses, fui abaixo, sim fui! Mas quando percebi que se calhar houve um propósito para tal me ter acontecido, ergui a cabeça com tanta força e acreditei e acredito que algo bom virá por aí. Terá sido essa a mensagem da minha filha, na passagem tão curta? Eu acredito que sim.
Um grande beijinho querida Sara.
Força. Acredite e lutar sempre.

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