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Catarina M.

Naquele dia o meu mundo parou e a minha luz deixou de brilhar… 

6 de dezembro de 2021. Não existem palavras que descrevam o tamanho da minha felicidade. Tantos meses de luta e finalmente a minha vida ganhou cor, tudo era belo, o dia, a noite, o sol, a chuva, a trovoada, nada me entristecia mais, havia uma vida dentro de mim, uma vida tão desejada e já tão amada. Finalmente iria dar à Alícia o irmão que ela tanto queria e pedia.

Aproximava-se o dia de Natal e juntamente com o Marco decidimos dar a melhor prenda à família, e existe prenda melhor? A família ia aumentar. Decidi aguardar então uns dias para que esse dia fosse memorável. Só me apetecia gritar ao mundo o quão feliz estávamos, íamos ser pais novamente! A felicidade transbordava no meu olhar. Tudo corria bem nesta gravidez, ao contrário da minha primeira onde as dores constantes tinham sido incomodativas e até medonhas. Desta vez estava tudo a correr lindamente, não haviam dores, sentia-me nas nuvens… a barriga começou logo a notar-se às 6 semanas o que também tinha acontecido na gravidez da Alícia, que muito cedo foi descoberta. Agora não estava a ser diferente. E tão bom, mas tão bom olhar o espelho e ver a transformação do nosso corpo.

Os dias passaram e o dia de Natal chegou. A minha irmã era a única na família, à exceção do Marco que sabiam. Ao anunciar o tão desejado bebé que carregava no ventre, fui presenteada com a primeira roupinha. Um fato cinza e uns sapatinhos amarelinhos. Foi um momento mágico, a minha Alicia descobriu naquele momento que tinha sido promovida a mana mais velha. A minha filha com 6 anos chorou de felicidade e eu e o pai chorámos por ver uma criança tão pequena a ser tão sincera no amor que já tinha por aquele ser tão pequenino: “o meu filho” era o irmão dela. A minha filha desde então passou a beijar todos os dias a minha barriga, dizer “olá mano” e “gosto tanto de ti”. Segundo momento, contar aos meus sogros, e qual não é a minha felicidade que, ao anunciar a minha gravidez, descubro que a minha cunhada, esposa do irmão do Marco, estava igualmente de bebé e com diferença de 2 semanas apenas. Mas que alegria, que raio de sol entrou naquela casa. Foram dias absolutamente deliciosos. Não havia amor que coubesse no meu peito… até aquele dia. 

Dia 13 de janeiro de 2022, desloquei-me à maternidade Bissaya Barreto para uma consulta de rotina que nada estava relacionada com a gravidez. Era um lindo dia de sol. Estava de 9 semanas. Chegou o momento em que a médica me questionou “Já viu o seu bebé? Quer vê-lo?Ouvi-lo?”. Era tudo aquilo que queria ouvir e saiu um SIM a transbordar de amor. E o meu mundo parou ali, a minha alma escureceu, a minha vida desmoronou e toda a luz que até então me iluminava se tornou na pior das escuridões: “não tenho boas notícias, o desenvolvimento do seu bebé parou há uma semana, não há sinais vitais, Lamento!”  

Não sei como tive forças para conduzir até casa SOZINHA, não me recordo sequer do caminho que fiz. O meu corpo ficou sem vida, entrei completamente em piloto automático e tudo deixou de fazer sentido. O meu bebé estava morto no meu ventre e eu iria de ter de o expulsar SOZINHA! Eu não estava a acreditar, eu não queria ouvir mais nada, aquela máquina estava errada e eu ia para a maternidade Daniel de Matos onde ia ser realmente seguida, e tudo não ia passar de um erro! Em casa, chorei, chorei perdidamente até à chegada da Alicia. Quando lhe olhei nos olhos é que tive a noção do que me esperava, ela tinha que saber. Se foi duro perder o meu filho, imaginem o quão duro foi desfazer o sonho dela. Olhar-lhe nos olhos e dizer que não teria mais um irmão e tudo tinha terminado ali naquele momento! Cada lágrima dela foram facas espetadas no meu corpo que jamais cicatrizarão. Chorámos ali, as duas agarradas uma à outra, mas eu, eu sempre com a esperança… 

Evitei sofrer, chorar e até me privei de pensar que não estava bem. Não queria preocupar o Marco e por momentos fiz o mesmo, não falei com o objetivo de passar a mensagem de superação!

No dia seguinte, desfeita em cacos, fui à maternidade Daniel de Matos, desta vez com o Marco. A noite tinha sido longa e dolorosa… Aquela senhora jamais sairá da minha cabeça, amável, dócil como nunca mais me cruzei com ninguém, que ao ver-me naquele estado não me voltou a deixar sair, não quis que visse mais a realidade que me rodeava e fez questão que me atendessem LOGO, SEM ESPERAR. O meu corpo tremia, a minha voz não saía…Não haviam realmente mais batimentos cardíacos. Eu já estava realmente SOZINHA naquele momento. Já não existia mais vida dentro de mim. E que dor, que dor dilacerante. Na ignorância, fui para casa seguir todas as indicações e esperar que o corpo fizesse o resto. E pronto! Mais nada! Jamais imaginei o que vinha a seguir. Dia 15 de janeiro… DURO, muito duro, jamais se está preparado para um processo tão doloroso e desumano. Senti cada dor do meu corpo, senti e vi a morte e vi o meu filho nas minhas mãos. Sim, eu peguei e vi! Tinha de o fazer.

Os dias que seguiram foram péssimos, passei dias sozinha a chorar mas hoje, sinto que não foram suficientes, que devia ter-me permitido chorar ainda mais, gritar, deitar tudo cá para fora. O regresso ao trabalho ditou isso mesmo, as perguntas, os comentários fizeram-me engolir em seco “deixa tu és nova”, “tu até já tens uma filha”, “era uma coisita tão pequenina mais vale agora”, “isso vai passar, voltas a tentar”… A TORTURA. Eu não queria ouvir aquilo, eu não devia sequer ouvir aquilo, tinha acabado de perder um filho: o meu filho! Engoli muito em seco e privei-me de chorar para não ouvir “mas ainda estás assim por causa do aborto?”. Devia ter feito o meu luto, deixar-me chorar, receber um ombro, um abraço, mas não…só existiram comentários como “vai procurar um psicólogo”. Eu só precisava de colo. Evitei sofrer, chorar e até me privei de pensar que não estava bem. Não queria preocupar o Marco e por momentos fiz o mesmo, não falei com o objetivo de passar a mensagem de superação!

Duas semanas depois a tortura voltou ao saber que uma colega de trabalho estava grávida! Mas afinal onde estava o deus que eu agradeci quando descobri a 6 de dezembro que a minha maior felicidade estava a chegar? Onde estás? E agora? Como me vou reerguer? A escuridão invadiu-me e nada me conseguiu impedir de chorar, e eu só queria largar tudo e desistir, mas ele estava lá… o meu suporte, o meu ombro amigo, o meu companheiro e confidente, o meu marido esteve lá e só ele me conseguiu acalmar. Pensei muito na minha filha. Eles foram a minha força.

Os dias passaram com muitos altos e baixos, mas eu achei que tinha de voltar a erguer-me e tentar novamente, não desistir do sonho e assim aconteceu, por milagre a 21 de março o teste deu novamente positivo e eu chorei muito, chorei de alegria, agradecimento e medo. Sim, muito medo! Uma nova vida dentro de mim, um novo sonho, uma nova luz para me levar no caminho certo. Contei ao marido. SÓ. Só me pediu para me acalmar e viver os dias com serenidade. E assim tentei fazer, mas as dores nesta terceira gravidez estavam a ser imensas o que me fez recorrer a uma profissional para me acompanhar, SIM eu precisava ter a certeza que estava tudo a correr bem. Afinal, EU ESTAVA NOVAMENTE GRÁVIDA, mas não sentia entusiasmo, não consigo explicar, estava muito apreensiva, receosa, não me sentia sequer grávida, não tinha qualquer sintoma de tal. Sentia dores horríveis e tinha uma sensação inexplicável no meu corpo.

Realizei a primeira ecografia precocemente o que me deixou desanimada. Não se via nada com 4 semanas apesar de me ser transmitido que era normal, mas para uma mãe a sofrer de ansiedade como eu estava, era tudo menos normal. Passados três dias recorri à maternidade, apesar de me sentir muito bem com a profissional que escolhi para me acompanhar, as consultas eram muito caras e não tinha qualquer seguro ativo. Até hoje arrependo-me profundamente de o ter feito. A falta de sensibilidade daquela médica que me atendeu ainda hoje me provoca irritabilidade e tristeza. Eu só queria saber se estava tudo normal e a resposta, arrogantemente, “o que é que você entende por anormal? Isso ainda nem sequer é gravidez o que é que a senhora quer ver? Vá para casa e volte daqui a dias!”. Eu não queria acreditar no que eu estava a ouvir. Como é possível existir no mundo profissionais tão mal formados a este ponto? Como é possível não haver compaixão nem sensibilidade com mulheres que carregam vidas nos seus ventres? Chorei muito, era fim-de-semana e teria de aguardar. Segunda-feira chegou e eu só precisava ouvir palavras de consolo, de esperança. Pessoas com luz é o que precisamos neste momento, e a médica que escolhi toda ela transbordava calma, tranquilidade e generosidade. E pela primeira vez vi o meu saquinho, lá estava ele com 5 semanas e lá estava o meu feijãozinho, o meu potinho de amor.

Naquele dia foram lágrimas de alívio e tudo desapareceu, deixaram de existir dores, o meu corpo sossegou finalmente e sentia-me mais tranquila do que em qualquer dos dias anteriores. Só conseguia pensar que estava a conseguir acalmar-me e que finalmente estava a ter a paz que precisava e merecia. Assim se passaram duas semanas! 7 semanas de gestação, tudo tranquilo até que comecei a perder sangue. O meu rosto vestiu-se de preto e a caminho da consulta de urgência, tive a sensação que estava tudo a acontecer DE NOVO! A ecografia não revelou nada, estava tudo bem, ou melhor, não podia estar melhor, pela primeira vez ouvi o coração do meu feijãozinho. Lá estava ele tão pequenino a bater com tanta intensidade. Assim, mais uma vez o meu coração descansou. Mas as perdas não pararam e tive de voltar à maternidade (era sábado). O discurso foi o mesmo, “o bebé está ótimo, o coração está a bater”. As respostas às minhas questões ficaram em branco “de onde vêm esse sangue?” Tudo era normal, só para mim é que não. E eu sabia-o, sentia-o! Domingo… as dores apoderaram-se do meu corpo, só queria estar deitada e que ninguém falasse comigo. AGUENTEI. Segunda-feira, dia 18 de abril, comecei a perder muito sangue e os coágulos apareceram. Estava num almoço de família e com sorriso no rosto saí, e mais uma vez fui urgência. Eu já sabia, cada lágrima que caia me fazia ter perfeita noção que tinha perdido o meu filho, mas, na minha cabeça o coraçãozinho dele não parava de bater. Mas não, naquele dia perdi o meu terceiro filho. Segunda vez, num espaço de 3 meses. Eu só queria respostas, eu só queria saber que mal eu tinha feito para merecer isto. Eu só queria desparecer. Não queria sequer viver.  

Foi tudo natural, não foi necessária medicação… afinal o meu corpo já estava há 5 dias a fazer o trabalho dele. Não queria ver ninguém, estar com ninguém… gritei em silêncio, sufoquei e até hoje ninguém sabe desta perda, muito menos a minha filha que ainda hoje chora ao lembrar-se do seu feijãozinho.  

Um dia alguém disse “a dor não se mede pelo tempo de gestação” e não podia ser tão verdade. Perdi o meu filho com 9 e 7 semanas mas para mim não existia amor maior que aquele que carregava no meu ventre.  

Hoje ver a minha colega de trabalho grávida é um misto de sentimentos. Muito feliz por ela que me ouviu nas horas difíceis, mas muito infeliz por mim. O meu olhar não consegue desviar e ver a barriga crescer a cada dia que passa. Imagino-me com 28 semanas ou 13 semanas. É muito doloroso. Os dias não têm sido fáceis, tentei resistir e nunca procurei ajuda mas hoje, passados 131 dias do primeiro aborto e 36 do segundo, sinto-me um caco, um farrapo e não consigo superar a perda dos meus dois bebés. Não há dia nenhum que não acorde a pensar neles e no quão desejados eles foram. Hoje sinto-me com vontade de tentar novamente, mas cheia de medos e incertezas.

É muito triste saber que no nosso país a mulher precisa passar por três momentos de perda consecutivos para ter o acompanhamento devido e merecido. A mulher que perde um filho não é valorizada, após a minha segunda perda obrigaram-me a estar uma manhã inteira a ver e ouvir mulheres grávidas a entrar e sair da maternidade e eu, com uma pulseira branca, pulseira essa que fez com que todas me passassem à frente. Hoje sinto-me uma mulher infeliz por tudo o que passei e me proporcionaram. A minha força vou busca-la a grupos de apoio que sigo diariamente. Transcrevo algo que li numa dessas páginas que apoiam mulheres que SOFREM por perdas gestacionais e que não pode ser descrito de forma alguma de outra forma. É isto que eu sinto palavra por palavra: 

“Hoje falamos sobre o que não dizer. Pedimos, por favor, que esqueçam estas frases feitas. Sabemos que a intenção é boa. Querem acalmar a dor do vosso(a) amigo(a). A verdade é que estas frases são muito dolorosas de ouvir e desvalorizam o que estamos a sentir. Numa fase inicial, quem perdeu um bebé está tão, mas tão confuso, desorientado e angustiado que pode mesmo sentir-se tentado a minimizar a sua própria dor e luto e isso não deveria acontecer. Varrer para debaixo do tapete, pensar que podia ter sido muito pior, não se deixar sentir, é o pior que podemos fazer. Por isso, por favor, caso pensem em usar o “pelo menos…”, pensem duas vezes. Não sabem o que dizer? Não faz mal. UM ABRAÇO VALE MAIS QUE MUITAS, MAS MUITAS, PALAVRAS! “Pelo menos foi cedo… Pelo menos não veio com problemas… Pelo menos já tens filhos… Pelo menos és nova, podes tentar de novo… Pelo menos está num sítio melhor… O FACTO É QUE NÓS QUERÍAMOS E AMAMOS AQUELE ESPECÍFICO BEBÉ!” 

Um dia alguém disse “a dor não se mede pelo tempo de gestação” e não podia ser tão verdade. Perdi o meu filho com 9 e 7 semanas, mas para mim não existia amor maior que aquele que carregava no meu ventre.  

A dor ficou e ficará para sempre, faça o que fizer, o amor de um filho não substitui o outro. Obrigada por me terem deixado ser vossa mãe mesmo por pouco tempo. Meus raios de luz, meus potinhos de amor <3 <3 

Um dia vou ter coragem para partilhar a minha dor e talvez nesse dia “os outros” conseguirão perceber alguma coisa. 

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