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Jeni

Em junho de 2021 descobri que estava grávida. Não quis acreditar. Parecia que estava num sonho.

Preparei toda uma surpresa para anunciar ao meu namorado. Saber que estava a gerar uma vida dentro de mim foi das melhores sensações que já tive. Senti-me tão viva.

Uma vez que isto era tudo novo para mim, pedi ajuda em como prosseguir daí para a frente. Marquei uma consulta de ginecologia para perceber se o embrião estava no sítio certo, de quanto tempo estava e se o coração batia.

Quando finalmente chegou a hora da consulta, lá fui. Estava tudo certo, o embrião estava no sítio certo, estava de 7 semanas (mais uns dias, menos uns dias) e consegui ouvir o coração a bater. Que som lindo. Que alívio.

Passaram-se mais umas semanas e marquei então a minha primeira ecografia obstétrica. Estávamos a 24 de julho quando fui então realizar a ecografia. Estava uma pilha de nervos, pois morria de medo que alguma coisa não estivesse bem. Chegou a hora, entro no consultório, a doutora explica-me o que se iria proceder e até aí tudo muito bem. Começou a fazer a ecografia e senti um silêncio que para mim não fazia sentido. Comecei a perceber que alguma coisa não estava bem. A doutora lança um suspiro e começa por dizer que o meu bebé apresenta um valor de Translucência Nucal elevado e que não estava a conseguir ver uma parte do coração mas que isso podia ser da posição do bebé ou pelo facto do coração ainda ser muito pequenino.

Neste momento, senti o chão a cair. Foi um balde de água fria.

Estamos habituados a ouvir que enquanto somos novas o risco de um bebé vir com algum problema é muito baixo. O que é certo é que com 24 anos e numa primeira gravidez, não esperava isto de todo. Chorei. Chorei muito. A doutora acalmou-me e explicou-me aquilo que a partir daquele momento seria o que eu deveria fazer: Biópsia das Vilosidades ou amniocentese.

Acho que nunca me tinha sentido tão perdida, tão confusa, tão sem saber o que fazer. Fui embora do consultório completamente destroçada e o pior foi tentar explicar ao meu namorado, que não pôde entrar comigo, tudo o que eu tinha ouvido. Contactei de imediato o meu médico de família para explicar a situação e ele fez-me uma carta para ir de urgência para o Hospital Público. Assim foi. Entro nas urgências de ginecologia e obstetrícia, na qual fui rapidamente chamada e aí conheci aquela que eu senti que iria ser a minha médica, a que eu queria que me acompanhasse até ao fim. Uma pessoa de uma empatia extrema.

Ela examinou-me e aconselhou-me a realizar uma biópsia das vilosidades, uma vez que estava entre as 11 e as 12 semanas, e que era o exame que mais rapidamente me iria dizer o que estava errado com o meu bebé. Passaram uns dias e chegou a data marcada para fazer a biópsia. Estava tão nervosa, tinha medo que alguma coisa pudesse correr mal, mas ao mesmo tempo descansada porque tinha sentido de imediato uma grande confiança naquela médica. Correu tudo bem. O exame realizou-se rapidamente e sem complicações e a recuperação também foi boa. Ao fim de uma semana iria receber o resultado rápido do exame onde me seria dito se o bebé tinha algum tipo de trissomia ou síndrome e ao fim de aproximadamente um mês vinha o resultado mais detalhado.

Passou-se uma semana e recebo uma chamada do Hospital a dizer que não tinha sido detectado nenhuma trissomia, mas que sim, havia uma alteração com o bebé. Fomos chamados para ir pessoalmente ao hospital para que a médica nos dissesse qual seria então a alteração. Lá fomos.

Ficámos a saber que era uma menina e tinha síndrome de Turner. Uma alteração no cromossoma sexual feminino e que é sobretudo um problema hormonal.

Em Portugal, não é possível interromper a gravidez numa situação destas, pois é uma síndrome que tem tratamento. Se bem que também não era algo que fossemos fazer num caso desses. Recebemos a notícia, interiorizamos e aceitamos. A nossa filha vinha e nós íamos aceitá-la independentemente se tinha Síndrome de Turner ou não.

Ao fim de um mês recebemos então o resultado detalhado no qual não tinha sido diagnosticado mais nenhuma malformação genética na minha filha. Às 18 semanas ia ter então uma nova ecografia obstétrica com a minha médica. Desta vez eu estava mais calma, já sabia qual era o problema e sentia-me confiante que o resto estaria bem, que já tínhamos tido a nossa dose de stress.

Estava enganada. Estava tudo mal. Quando a minha médica começou a fazer a ecografia houve novamente um grande silêncio. Silêncio demais. Percebi que, afinal, algo mais não estaria bem. Diz-me que o coração não estava normal. Senti-me novamente sem chão. Um balde de água gelada, um choque.

Ouvir que aquele bebé, tão desejado, tão querido por nós, não vai aguentar, foi das piores coisas que já ouvi. Ninguém está preparado para ouvir que o nosso filho não vai sobreviver. Faz-nos duvidar de tudo, de nós, do nosso corpo, da nossa fé. 

Tive de interromper a minha gravidez às 19 semanas e 4 dias. Fui internada no dia do aniversário do meu namorado, senti as piores dores da minha vida. Fisicamente e psicologicamente.

Não sei como uma mulher consegue suportar tal dor. Até hoje, não sei como consegui sobreviver àquele que foi para mim o pior dia da minha vida. Foi dar à luz um bebé que não vinha para o meu colo, que fazia parte de mim, mas que não era mais nosso.

Apesar de ter tido o privilégio de poder ter o meu namorado comigo naquele dia, num quarto em que estávamos só os dois, nunca me senti tão sozinha, tão esquecida por Deus. 

No dia seguinte após a interrupção uma equipa diferente veio-me visitar e ver se estava tudo bem e se tinham ficado restos dentro de mim. Verificaram que tinham ficado alguns resíduos e perguntaram-me se eu queria continuar internada ou se queria ir para casa onde tinha de fazer medicação para que o corpo expulsasse os restos. Eu só queria sair dali, precisava de sair dali. Optei por fazer a medicação em casa e disseram-me para regressar ao fim de uma semana. Assim foi.

Regressei para a consulta e desta vez seria com a médica que me tinha acompanhado até então. Os resíduos não tinham saído, pelo que tiveram de me tirar na hora. Estava cansada. Não suportava mais todo aquele inferno. Só queria que aquilo acabasse.

A médica mandou-me regressar ao fim de dois dias para verificar novamente se já estava mesmo tudo bem. Ao fim de dois dias regressei, ela verificou e finalmente ouvi as palavras que tinha saído tudo e que estava limpo, tinha acabado.

Só aí senti que finalmente este pesadelo ia acabar. Acabava fisicamente, mas continuava psicologicamente. 

Senti que precisava de recomeçar, precisava de me encontrar. Foi-me oferecido apoio psicológico no hospital, mas eu optei por procurar apoio fora do hospital. Aquele sítio dá-me ansiedade. 

Neste momento, estou a ter acompanhamento psicológico e estou-me a encontrar. Estou aos poucos a recuperar força em todos os sentidos.

Algo que me ajudou muito também, foi procurar páginas onde eu pudesse ler outros testemunhos e sentir-me abraçada por outras mulheres que também já passaram por isto. 

Um abraço apertadinho a todas nós. Somos fortes!

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