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M.

Olá, eu sou a M.

Deveria ter nascido algures pelo solstício de verão de 2017 mas acabei por “nascer” muito antes, em dezembro de 2016.

E porque é que sou eu que vos trago este testemunho?

Porque a minha mãe não quer que eu desapareça.

Porque eu, mesmo que por pouco tempo, existi. Era um corpo muito pequenino, como se quer no primeiro trimestre de uma gravidez, mas era também todo um mundo de sonhos e planos, um amor muito grande que não cabia no coração.

Há pormenores que não vos poderei contar para proteger o meu pai… mas toda a minha curta vida foi uma confusão. Na alegria de saber que eu existia, os meus pais contaram a boa nova a pessoas da sua extrema confiança que, supostamente, iriam manter com os meus pais o segredo até que fosse “seguro”. Nada mais errado. Duas pessoas depressa se tornaram muitas mais, que rapidamente encheram de ansiedade a minha mãe, por entre telefonemas e presentes, por entre dicas e avisos de dedo em riste.

Por infortúnio, a nossa médica não estava disponível nessa altura e fomos vistos por um ser sem qualquer réstia de empatia desde o primeiro momento. Mas, da segunda vez que nos vimos, talvez tenha doído mais a indiferença daquele ser do que o desabamento que veio sobre nós: “Então, não se admire! Isto é perfeitamente normal!”. Foi este o único comentário à incredulidade da minha mãe perante outro seco “Não encontro batimento, isto não deve dar em nada”. “Isto”.

O diagnóstico foi confirmado por outros médicos e o parto foi induzido. Duas vezes. Muitos dias em que a minha mãe teve de ir trabalhar como se nada fosse enquanto esperava o triste fim de um capítulo.

Acabei por ter de ser arrancada do corpo da minha mãe por ela mesma; eu era pequena mas teimava em ficar onde estava. O meu destino? Talvez seja melhor que não vos conte. Ninguém quer saber de um bebé no primeiro trimestre. É um “isto”.

A minha mãe sabia tudo o que há para saber sobre o assunto, do ponto de vista de um leigo. Sabia não ter culpa, mas sente-a ainda. Sabia ser algo comum, mas sente ainda que a sua dor é exclusiva e incompreendida.

E, mesmo por entre os escombros de tal desabamento, não faltaram vozes que gritavam barbaridades como “Daqui a pouco fazes outro”, “Isso passa” ou “Assim foi melhor”. Ninguém quer saber de um bebé no primeiro trimestre. E por isso ninguém reconhece que o luto é necessário.

E perguntam vocês no meio disto tudo “Mas como é que sabiam que era uma menina?”. Não sabíamos, nem interessa. A minha mãe nunca teve preferência e hoje está muito feliz com o meu irmão, mas era o que lhe dizia o instinto. Para ela, a memória de mim tinha de ter um nome, e continua a ter. Porque eu não tenho uma lápide mas tenho uma história. Sou a M.

Hoje tenho um irmão e tomo conta dele aqui ao longe. Sei que ele terá um futuro melhor do que o meu e está tudo bem, porque eu ajudei a prepará-lo- Mas hoje a minha mãe sofre ainda. Dói-lhe a minha ausência, mas dói ainda mais que a sua dor seja indiferente a quem deveria estar presente. Dói-lhe que ninguém queira saber dos bebés que não nasceram. Dói-lhe que não seja permitido o luto a tantas mães por aí.

A todas as mães que sofrem em silêncio: saibam que não estão sozinhas. Saibam que merecem sentir aquilo que acharem que faz sentido para vocês. À minha mãe não lhe foi permitido, mas ela espera conseguir que outras pessoas tenham uma experiência melhor. E espera um dia conseguir que a dor passe.

Porque a única certeza que temos no meio disto tudo é que uma perda como esta é para sempre. Mesmo que em corpo eu fosse muito pequena. Mesmo que

Eu tenha sido apenas um sonho enorme. Eu perdi a minha mãe como ela me perdeu a mim, mas ambas fazemos ainda parte uma da outra e queremos criar memórias bonitas. E não estamos sozinhas nesta luta, somos tantas…

Que nos encontremos todos um dia.

M.

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