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Conhecemo-nos desde a escola primária, convivemos na nossa adolescência e cada uma seguiu caminhos diferentes. Do muito que poderia ter acontecido para voltarmos a falar depois de tantos anos, surgiu uma triste razão.

Na data que seria previsto o nascimento da Charlie, coloquei uma publicação para celebrar a minha bebé. Infelizmente ela nasceu às 25 semanas, sem vida. Tudo o que se seguiu às 00:22h do dia 22 de Fevereiro foi surreal: acordar na maternidade sem bebé, sair do hospital com uma caixinha de memórias (que nem consegui abrir até mais tarde) em vez de uma cadeirinha com a menina lá dentro, um corpo de pós-parto e o coração partido e, eu própria, uma sombra de mim.

Planeei um funeral em vez de um chá de bebé. Enterrei a bebé sem família e amigos por perto e fizemos o luto sozinhos, assegurados que estávamos a ser fortes. Esta é, afinal, uma jornada solitária e a vida continua sem nós. Quanto mais tempo passou e mais li, falei e descobri sobre o universo dos pais sem bebés, percebi que este assunto tabu silencia muitas pessoas em sofrimento e tenta suprimir esta dor (afinal, para a frente é que é o caminho, como nos dizem!). Um aborto espontâneo é considerado um acontecimento comum, mas e os sonhos e a vontade de filhos que os pais têm? Mais bebés morrem tarde na gestação do que se pensa. Mas porquê? E como? E se eu estou a sofrer sozinha (ainda que rodeada de amor familiar e de amigos), quantos outros pais passam pelo mesmo?

Por isso, e para mostrar que não é só uma gravidez que deixa de existir – é um bebé; uma esperança, um amor, uma vida – decidi mostrar ao mundo que a Charlie, tal como qualquer bebé vivo, mudou a minha vida. E que qualquer pai ou mãe que passa pelo mesmo, não está sozinho.

Esta mensagem aproximou-me de pessoas que não fazia ideia que tinham perdido, de uma forma ou outra, um bebé. Incluindo a Renata, que tanto me tem acompanhado nesta história e partilhou não só o seu filho, como o nosso amor por eles.

Estive meses a sentir-me sozinha

Ao ver esta publicação no Facebook, à qual não consegui ficar indiferente, era impossível não ficar, de imediato fui falar com a Claudia que, exatamente no mesmo mês que eu, tinha perdido a sua Charlie. Partilhei com ela a minha história, do meu filho, do meu “feijãozinho”. Confesso que me senti um pouco menos sozinha e ao mesmo tempo senti uma enorme tristeza por lhe ter acontecido o mesmo. Temos a mesma idade, e era, ou melhor, foi o nosso primeiro filho. Quando começamos a falar, doía-me aceitar e pensar que o meu filho “nasceu”. “Está a nascer!”.

Disseram-me na maternidade quando, por volta das 20h00 dei à luz o meu bebé, completamente quebrada e desolada. Não fazem a mínima ideia certamente o quanto aquele momento, aquela frase, me magoou. Achei escandaloso. O meu bebé estava morto. Ao meu lado, no bloco de partos das urgências, tinham estado efetivamente a nascer, no sentido positivo da palavra, bebés a chorar, a respirar, vivos e saudáveis. Ouvi mães a gritar e bebés a chorar durante horas, que me pareceram dias, numa sala só com um relógio à minha frente.

Agora, passados vários meses e depois de ter acesso a informação, o “nascer” já me faz mais sentido. Naquela altura não. Foi doloroso. Mas o facto é que o meu bebé nasceu. Nasceu demasiado cedo e com problemas cujas causas ainda não foram apuradas. Eu fui mãe. Eu amei. Era o meu filho. É isso que percebo agora e que me dá algum conforto. Na altura não tive informação suficiente para o processar, para perceber. Estive meses a sentir-me sozinha, a sentir um vazio, isolamento, a querer falar com alguém que “falasse a mesma língua”.

Perda gestacional: quando encontramos alguém com quem falar


Encontrei na Claudia esse apoio. A diferença é que ela está em Inglaterra e teve desde logo um tipo de ajuda que infelizmente não temos em Portugal. Inúmeras associações prestam apoio, dão um certificado de nascimento, explicam, sabem lidar com quem sofreu uma perda gestacional. Oferecem um ursinho de peluche, algo que nos faça lembrar do nosso bebé. Desde logo colocaram-na em contacto com grupos de apoio ainda que à distância.

Às vezes, penso no luto e neste processo como uma enorme autoestrada. Quando falei com a Claudia sentia que ela estava a meio do caminho e eu estava no início, parada numa estação de serviço.


Por isso, porque o luto tem muitas fases, porque este processo tem muitos altos e baixos e por vezes parece uma autêntica montanha russa, juntamo-nos para criar esta página sobre perda gestacional e esperamos ajudar.

Que esta página vos ajude quanto nos ajudou a nós.

Claudia e Renata

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