
Partilhar porque nos ajuda neste caminho de encontro da paz com a nossa história mas, acima de tudo, por todas as pessoas que neste momento passam por situações semelhantes – não estão e nunca estarão sozinhas. Este tem sido o nosso lema na partilha da nossa história com amigos, com amigos de amigos e muitas vezes até com pessoas desconhecidas que se vão cruzando no nosso caminho e a quem achamos que contar pode fazer a diferença.
Durante três anos e em quatro ocasiões diferentes visitámos a Lindo Wing em Londres para ver o nosso bebé e acabávamos sempre por ouvir “Lamentamos mas já não detectamos batimentos cardíacos”. Palavras que se tornavam tão recorrentes como assustadoras, e que cada vez nos afastavam mais daquilo que mais queríamos – ter o nosso bebé nos braços.
Com os quatros bebés que perdemos – entre as 8 e as 11 semanas – tivemos o privilégio de lhes ouvir sempre o coração e sabemos que (pelo menos) dois deles eram meninas (graças à indicação médica de testar os embriões que foram retirados no bloco – o que infelizmente não aconteceu nos dois primeiros). Infelizmente, durante todo este processo ouvimos algumas vezes “acontece, têm que tentar outra vez” – até hoje não consigo aceitar que um profissional de saúde seja capaz de colocar as coisas desta forma tão fria para quem está a sofrer tanto fisica e emocionalmente. Li muito, pesquisei muito e tentei muitos procedimentos (muitos deles mais alternativos e até invasivos) que em nada adiantaram mas que me foram dando a sensação de mover em frente. E às vezes era só isto que queríamos ter, a sensação de que estávamos a fazer alguma coisa diferente em cada uma das vezes.
Felizmente também tivemos o apoio de profissionais de excelência que nos trouxeram de volta para o caminho certo da investigação.
Ao Dr Raj Rai e ao Prof Pedro Xavier estaremos para sempre gratos pela sua disponibilidade, dedicação e empatia pela nossa causa. Nunca ouvimos uma palavra de dúvida sobre se iríamos conseguir, pelo contrário , o que ouvíamos eram planos de ação concretos que nos davam novamente alento nesta longa jornada. Sem nunca termos chegado a nenhum diagnóstico concreto, fomos encaminhados para FIV com indicação para testarmos os embriões antes da implantação dos embriões. Numa segunda tentativa estava novamente grávida pela quinta vez. Chegar às 12 semanas pareceu uma autêntica maratona e chegar às 40semanas foi muitas vezes um sufoco de ansiedade. Com o apoio de (bastante) medicação, com apoio psicológico e com uma rede de apoio incrível, o meu primeiro filho nasceu a 25 de Julho de 2023 – 3 anos e 3 meses depois de termos recebido a primeira má notícia que iria mudar a nossa vida para sempre. Lembro-me de dizer à minha mãe depois do primeiro aborto – “podemos nem estar a meio desta caminhada e temos que nos preparar para esse cenário”. Esta frase acompanhou-me durante o processo todo e ajudou-me a gerir as minhas próprias expectativas.
Hoje escrevo-vos grávida do meu segundo filho e com lágrimas nos olhos pela família bonita que fomos construindo ao longo destes anos e da qual nunca foi opção desistir. Hoje olho para o Dinis Maria e vejo toda a caminhada feita até o recebermos, as dores físicas, os procedimentos realizados, as horas em clínicas e hospitais, as noites sem dormir, o sofrimento muitas vezes apenas vivido a dois e na maior parte das vezes em silêncio.
Hoje, olho para o meu marido e lembro-me sempre que “no fim das contas é a parceria que vai fazer a diferença”. Nunca me falhou, nunca me faltou.
Esta é uma história dificil com um final feliz mas sabemos que nem sempre é assim. Perdas gestacionais nem sempre acabam com um bebé nos braços, nem sempre sabemos o que as outras pessoas estão a passar por isso a palavra empatia tem estado desde então muito presente na nossa vida.
A todas as pessoas que estão neste momento a passar por um processo semelhante, que possam ver nestes testemunhos a luz que muitas vezes teima em não aparecer. Não estão sozinhas.
Rita
