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Tatiana V.

A minha história com a minha Benedita começou no dia em que descobri que estava grávida.

Desde o primeiro momento, aquela bebé passou a fazer parte de todos os meus sonhos, comecei a imaginar como seria, a falar com ela, a pensar em como seria finalmente tê-la nos meus braços.

Aos poucos, deixou de ser apenas o bebé que estava dentro da minha barriga e passou a ser a minha Beni, a minha menina, a minha princesa.


A gravidez foi, de uma forma geral, perfeita. Fiz todas as consultas e ecografias no mesmo hospital e, tirando a questão dos percentis e das estimativas do peso, nunca imaginei que pudesse acontecer alguma coisa à minha filha.

Às 36+1 semanas, no dia 26 de janeiro, estimaram que ela pesava 2.561 g, entre o percentil 10 e 25. Na última ecografia, a 12 de fevereiro, às 38+4 semanas, estimaram 3.465 g, correspondente ao percentil 65,6. Quando nasceu, às 39+5 semanas, pesava 2.830 g, aproximadamente no percentil 20.

Na altura, eu não imaginava que algum dia iria olhar para estes números tantas vezes e perguntar-me se havia alguma coisa que não vimos. Eu acreditava que a minha filha estava bem. Estava no fim da gravidez e só pensava em conhecê-la.
Já tinha imaginado a nossa vida com ela. Imaginava a Inês a conhecer a irmã, as duas juntas, a nossa casa cheia de meninas. Imaginava os primeiros banhos, as primeiras fotografias, os passeios, as noites, as roupas pequeninas e todas aquelas coisas simples que uma mãe acredita que terá oportunidade de viver. Eu tinha tantos sonhos para a minha Benedita e já a amava de uma forma que não consigo explicar.


Até que chegou o dia 20 de fevereiro de 2026, eu estava com 39 semanas e 5 dias, estava tão perto de finalmente levar a minha bebé para casa, era suposto ser o início de uma das fases mais bonitas da minha vida.

Eu tinha tantos sonhos para a minha Benedita e já a amava de uma forma que não consigo explicar.

Mas tornou-se o pior dia da minha vida.
A minha Benedita nasceu e eu tive de me despedir dela no mesmo momento…


Ainda hoje custa escrever estas palavras. Passei meses a preparar-me para conhecer a minha filha e, quando finalmente chegou o momento, tive de aceitar que não a levaria comigo para casa. Eu queria vê-la crescer. Queria descobrir a personalidade dela, saber a quem se parecia, ouvir a voz dela, vê-la sorrir, pegar nela ao colo, dar-lhe banho, vesti-la e adormecê-la. Queria vê-la crescer ao lado da Inês. Queria viver uma vida inteira com a minha filha e, de repente, tive de aprender a viver sem ela.


Perder um bebé é perder muito mais do que aquilo que conseguimos explicar. Eu tenho saudades da minha filha, mas também tenho saudades de tudo aquilo que nunca vou conhecer. Tenho saudades da bebé de seis meses que ela teria agora. Penso em como estaria, no que já faria, no sorriso que teria, nas pequenas manias que teria, em como seria vê-la com a irmã. Tenho saudades de uma vida inteira que imaginei e que nunca tivemos oportunidade de viver.


Depois da perda vieram as perguntas. O que aconteceu? Porquê? Havia algum sinal que não vimos? Havia alguma coisa que pudesse ter sido diferente? Vieram os exames, os relatórios, as esperas e a procura por respostas…Continuo a aguardar algumas respostas e os resultados da autópsia, porque ainda sinto necessidade de perceber o que aconteceu à minha menina.


Mas, no meio de todas as perguntas, há uma coisa de que nunca tive dúvidas: a Benedita foi profundamente amada. Foi amada desde o primeiro momento, foi amada em cada dia da gravidez, em cada movimento que senti, em cada ecografia, em cada plano que fiz, foi amada antes de eu conhecer o rosto dela, antes de ouvir a voz dela, antes de saber como seria o seu sorriso.

Por isso, se estás a ler a minha história porque também perdeste o teu bebé, quero que saibas que não estás sozinho. Não precisas de ser forte todos os dias. Não precisas de fingir que está tudo bem. Chora quando precisares, fala do teu bebé quando quiseres, guarda as fotografias, diz o nome dele ou dela. Não existe uma maneira certa de viver o luto.


Foi amada simplesmente porque era minha filha, e continua a ser.
Já passaram quase seis meses desde aquele dia, seis meses desde que a minha Beni nasceu e desde que a minha vida mudou para sempre. O tempo continua a passar, mesmo quando nós sentimos que ficámos presos naquele dia. A minha filha teria agora quase seis mesinhos e eu continuo a imaginar como seria tê-la comigo. Continuo a imaginar a nossa casa, a Inês com a irmã, os nossos dias, os momentos que estaríamos a viver.

Há dias em que consigo falar dela e sorrir. Há outros em que a saudade chega sem avisar e parece que tudo aconteceu ontem. Há dias em que penso que estou a aprender a viver com esta dor e outros em que ela volta com uma força enorme.


Mas hoje sei uma coisa que talvez no início não acreditasse ser possível: somos muito mais fortes do que pensamos.
Eu achava que não ia conseguir. Houve momentos em que não sabia como iria levantar-me no dia seguinte, como iria continuar a cuidar da minha família, como iria voltar a sorrir, como seria possível viver num mundo onde a minha filha não estava. E, mesmo sem saber como, fui conseguindo. Um dia de cada vez. Às vezes uma hora de cada vez.
Não significa que tenha deixado de doer. Não significa que aceitei ou que esqueci. Significa apenas que aprendi que podemos carregar uma dor enorme dentro de nós e, ainda assim, continuar a amar, continuar a viver e continuar a caminhar.


Por isso, se estás a ler a minha história porque também perdeste o teu bebé, quero que saibas que não estás sozinho. Não precisas de ser forte todos os dias. Não precisas de fingir que está tudo bem. Chora quando precisares, fala do teu bebé quando quiseres, guarda as fotografias, diz o nome dele ou dela. Não existe uma maneira certa de viver o luto.
E, mesmo que agora não consigas imaginar, um dia vais perceber que conseguiste chegar mais longe do que alguma vez pensaste.
Eu ainda estou a aprender.
Ainda tenho dias muito difíceis.
Ainda tenho saudades da minha Beni todos os dias.
Mas estou aqui.
E continuo a ser mãe dela
Continuo a amar a minha filha.
E continuo a levar a minha Benedita comigo, todos os dias, no lugar onde ela estará para sempre: dentro do meu coração.

A minha Beni. A minha princesa. A minha filha.

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