Xavier
Iniciei o meu papel de mãe em 2017, com o nascimento do Dinis, uma gravidez que correu dentro do “normal”. E assim pensava que era sempre, até descobrir que as coisas podem correr de outra forma.
Passados uns aninhos, surgiu a vontade de ser mãe novamente e, depois de deixarmos passar primeiro a “crise da COVID”, começaram as tentativas. Fiquei grávida novamente em 2023. Infelizmente, esse sonho desvaneceu rapidamente, pois a gravidez acabou num aborto espontâneo perto das 9 semanas. “Lamento, mas não ouvimos o coração do bebé…” Fiquei sem chão e descobri que é uma coisa bastante comum, só que ninguém fala nisso. Quando não há um bebé visível para a sociedade, a dor da mãe e a existência de uma vida são descartadas.
Após ter “ultrapassado” de alguma forma esta perda, voltei a tentar engravidar e, em setembro de 2024 surge o Xavier.

Uma gravidez ansiada por todos cá em casa, um novo membro na família, um irmão mais novo! A gravidez vai avançando, com medo, ansiedade e muita alegria à mistura. O partilhar da novidade no tempo certo, pois os médicos aconselharam a que deixássemos passar os “3 meses”, dado o histórico anterior. Que alegria e entusiasmo quando o mano recebeu a notícia! Não podíamos estar mais felizes! Apesar de um grande susto, resultado de um ligeiro descolamento de placenta perto das 12 semanas.
O Natal passou, já se faziam planos, o Ano Novo e os nossos desejos… e chegara a altura da ecografia morfológica, um dia que jamais vou esquecer: 15 de janeiro de 2025.
Estamos na sala de ecografia, eu, o pai e o médico. No decorrer da ecografia começam a surgir perguntas: se já tínhamos algum filho, se tinha corrido tudo bem e a cara muito séria e concentrada do médico, que nos diz “não tenho boas notícias para vos dar…” “o vosso bebé tem uma hérnia”. O quê? Não, isto não é verdade, estou a ter um pesadelo… agarrei na mão do pai e não ouvi mais nada. Gelei e aquela parede branca com um relógio que tinha à minha frente, parecia afunilar e a sensação que caía num buraco sem fundo. Uma Hérnia Diafragmática Congénita, foi o diagnóstico dado. Ficámos em choque, não tive reação, só queria sair dali ou acordar e ver que era tudo mentira.
Eu e o pai mantivemo-nos “firmes” até passarmos as portas do hospital. Desabámos ali, os dois abraçados e incrédulos com o que se estava a passar. Ficámos horas no carro a interiorizar toda a informação, sem conseguirmos falar e comer sequer.
Decidimos, a conselho também do médico que nos fez a ecografia, procurar outras opiniões e pesquisar sobre o diagnóstico.
Fomos falar com o médico de família, ainda no próprio dia que nos colocou mais a par do que era este tipo de diagnóstico, ou pelo menos prestei mais atenção. Disse-nos que estávamos bem entregues ao médico do hospital mas que teríamos toda a validade para procurar outras opiniões e ele aconselhou-nos um obstetra bem referenciado da nossa zona de residência.
Recorremos a esse médico no dia seguinte, deixámos a ecografia para ele analisar e, no mesmo dia telefonou-nos a dar feedback. Já tinha falado com o médico que nos tinha feito a ecografia e tinham trocado opiniões e, possivelmente iriam reencaminhar para outro hospital/ maternidade.
Seguiram-se exames mais específicos, um deles mais prioritário, a amniocentese. Nunca um exame me doeu tanto como este, para além da dor física, tinha a dor emocional. Estava sozinha na sala com os médicos, pois não deixaram entrar o pai. Chorei muito, tive alguém da equipa médica que me deu a mão e me acarinhou a cabeça dando-me algum alento. Acabei por ser seguida na MAC, com uma equipa que me seguiu até ao fim. Foram-nos apresentados todos os cenários hipotéticos, deram-nos a conhecer a equipa e todas as etapas pelas quais o Xavier iria passar, desde a obstetra, neonatologista, cirurgião, pois ele teria de ser operado após o nascimento, assim que estabilizasse.
Como havia dois tipos de resultados a sair da amniocentese e, um deles, demorou mais tempo, foi colocada a hipótese de interromper a gravidez e, para isso, tinha de assinar um papel em como autorizava a fazê-lo depois das 24 semanas, pois estávamos a chegar a esse prazo. Recusei. Se houvesse algo a acontecer, não seria por minha decisão, pois senti que poderia estar a “assinar uma sentença”; apesar de tudo, a taxa de sucesso era de 64% e tínhamos de nos agarrar a isso. Mais exames, eletrocardiogramas fetais, ressonância, tudo o resto estava bem, ele estava a desenvolver e a crescer no ritmo normal.
Era perfeito o meu filho! Tão lindo e tão frágil (…) senti o seu peso, o seu cheiro, toquei-lhe as mãos, a cara, a cabeça, os pés… não era visível nenhuma imperfeição.
Os meses passaram e rapidamente chegámos a maio. Fui internada para indução no dia 27. O parto teria de ser induzido, pois a equipa médica tinha de estar pronta a recebê-lo, devido ao diagnóstico. O processo iniciou ao final do dia, vieram as contrações, a dilatação avançava devagar, tinha duche e bola à disposição. Apesar de alguma ansiedade, tinha fé. Dia 28, o processo seguia bem mas, como o meu cansaço era evidente ao final do dia, acharam por bem retirar-me a ocitocina nessa noite para que pudesse descansar. Retomaríamos na manhã do dia 29, não podiam correr o risco de a equipa estar cansada para receber o Xavier, que como me foi dito pelo médico que me seguia “quero os médicos frescos e bem acordados”.
Dia 29, apesar da reintrodução da ocitocina, o processo não avançou tão rapidamente quanto o desejado e acabámos por ir para cesariana, ele tinha de nascer durante o dia. Estava acordada, “senti” tudo, até quando o tiraram da barriga; a médica disse-me “Já nasceu!” eram 18h17. Não houve contacto, pois ele tinha de ser imediatamente entubado e levado para a Neo. Vou recordar-me deste dia para sempre. O pai conheceu-o primeiro que eu, no corredor, quando estava a ser levado.
Só o consegui ver no dia seguinte. Era perfeito o meu filho! Tão lindo e tão frágil. E eu, impotente perante aquele cenário impressionável, uma incubadora num gabinete cheio de máquinas, monitores, apitos…
No final do dia 30, após análise e examinação da médica obstetra, o meu bebé foi transferido o hospital onde iria ser sujeito à delicada cirurgia, pois havia estabilizado. Ficámos felizes e de novo a esperança surgia.
Mas… na manhã do dia 31 recebi uma chamada que ninguém quer receber. A médica, do outro lado do telefone, pedia para falar com os pais do Xavier, ou na impossibilidade de serem os dois, que fosse o pai. Aí perdi a esperança e fiquei com um nó no peito, toda eu tremia. O tipo de discurso da médica aliado ao coração de mãe não enganam.
Liguei ao pai e pedi que me fosse buscar porque, já que estava a recuperar bem e tendo em conta toda situação foi-me concedida a alta.
Chegámos ao hospital, onde nos receberam muito bem mas, deram-nos a notícia que mais temíamos… o Xavier não tinha passado bem a noite e começou a dar sinais de vulnerabilidade e, apesar de todos os esforços médicos feitos para o manter vivo, o seu coração deixou de responder e partiu às 10h10 deste fatídico dia. Foi-nos permitido fazer a despedida. Uma despedida que era ao mesmo tempo uma apresentação, pois foi a primeira e última vez que o peguei no colo, senti o seu peso, o seu cheiro, toquei-lhe as mãos, a cara, a cabeça, os pés… não era visível nenhuma imperfeição. Não tinha visto ainda a cor dos seus olhos e, com ajuda da enfermeira, que ficou ao nosso lado a pedido, descobrimos que eram azuis.
A vida rasteirou-nos, abriu-nos um buraco no chão e no peito para sempre. Sentimo-nos perdidos e sem rumo, completamento impotentes. Nesse dia, só me preocupava a forma como iria dizer ao mano que o Xavier não iria para casa. Nunca escondemos nada do mano mais velho, pois queríamos que ele soubesse sempre o que se passava. Também lhe foi permitido despedir-se do mano, ainda que noutro contexto, tendo sempre em conta a sua vontade. Ele fala muito nele e quero que assim continue.
A ausência, a saudade doem, uns dias mais que outros, mas seguimos honrando a sua breve existência.
Hoje, passado um ano, ainda estamos a aprender a viver com a sua ausência, mas fazemos questão de o lembrar enquanto cá estivermos e de mantermos viva a sua memória.
Amamos-te para sempre,
O papá, a mamã e o mano.

