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Filipa

O meu nome é Filipa, tenho 36 anos, desde que me lembro sempre quis ser mãe, e sou mãe de 3 filhos, duas estrelas no universo e um terror dos sete mares em terra, há 17 meses.

Esta minha história começa em 2015, deixei de tomar a pílula e começamos a tentar engravidar!

Setembro de 2015, grávidos…que explosão de felicidade, de medo, não acreditámos! Segue tudo bem, tudo tranquilo, tirando os meus enjoos terríveis, as náuseas constantes, não conseguia comer… mas com o bebé tudo bem!! Ecografias normais, tudo tranquilo… 12 semanas, uns dias antes da ecografia fiz a recolha de sangue para o bioquímico, para no dia da eco já termos os resultados! (mas que resultados são estes pah?? Vai estar tudo ok…e aquilo também é só uma probabilidade…).

Fazemos a eco, há qualquer problema com umas medições…mas nada a temer! No final, cruzamento de dados e uma probabilidade de 1/129 para trissomia 21. Fiquei dormente… a médica apaziguou-nos, que era uma mera probabilidade e que estava tudo bem com o baby, e falou da possibilidade da amniocentese e de uma análise (Harmony), não comparticipada, mas que os resultados eram fiáveis e não era evasiva! Bora lá….não vai ser nada, lá fomos fazer a análise.

Durante as duas semanas de espera, uma eternidade, não se falou cá em casa de nada! Mas a notícia chegou… chegada a casa de trabalhar, estava lá a minha cunhada (enfermeira na obstetrícia, no hospital) com um pai desfeito e eu a perceber tudo sem uma única palavra… ela deixou o relatório, e foi embora e eu não chorei…fiquei ali… dormente!

Primeiro teste neste hospital de um Harmony com 99,9% de probabilidade de um bebé rapazola, com trissomia 21. Nova consulta, nova apresentação de possibilidades, continuar com a gravidez, fazer amniocentese, e caso quiséssemos interromper teria mesmo que avançar para o exame!

INTERROMPER???? Quem?? Toda a minha vida disse que NUNCA ia interromper uma gravidez por saber que o meu filho tinha uma deficiência… mas, e agora? O que é que eu quero fazer? A decisão do meu companheiro estava tomada, interromper, eu… não sabia de nada, nem quem era, nem que crenças tinha, nem que ideais eram os meus… estava completamente perdida num universo escuro!

Avançamos para o exame, sabíamos qual era o resultado, mas eu fiquei de repouso absoluto nos dias indicados, o meu companheiro ficou em casa, não me mexi para nada… a esperança lá escondidinha a fazer das suas!!

Mais duas semanas de espera pelo resultado, nesses dias muito chorei, não dormi, não queria tocar na minha barriga, não queria sentir nada, não queria ser… parecia que estava a assistir a um filme… discutimos este mundo e o outro, berrámos um com o outro… e no fim eu tomei a minha decisão: interromper a gravidez!

Que passo, que abalo naquilo em que eu sempre acreditei, que murro no meu ser… mas esta era a minha decisão, com um medo terrível de um arrependimento futuro e vítima, acho que posso dizer vítima, do julgamento das minhas pessoas, claro que não todas, mas naquele momento ficou a ferida de quem julgou, de quem tentou por tudo que não o fizesse, de me darem estas e aquelas provas de que podia correr bem…

Nova consulta, decisão tomada e verbalizada à médica. Não consigo explicar a leveza que senti, aquele peso de uma decisão tão difícil saiu-me de cima, este peso tinha-se sobreposto à tristeza da perda iminente do meu filho! Estava ali mesmo o Natal, e a passagem de ano… passei o Natal a saber que ia perder o meu filho, só pedia para ele não se mexer, para eu não o sentir, dia 30 de dezembro dei entrada no hospital para a interrupção, foi fisicamente muito doloroso, um parto… o meu filho nasceu, já sem vida às 22h15m. Dia 31 tive alta (graças à médica que me estava a acompanhar no internamento)… Eu continuava dormente…parecia que não me tinha acontecido a mim… dormente!!

Claro que chorei muito, estava devastada, mas…não há explicação, estava bem… até que em meados de março a minha cunhada engravida do meu sobrinho que amo com todo o meu coração, e o meu mundo desabou na minha cabeça, chorei dias seguidos, a fio sem conseguir parar, não entendia o porquê…era uma revolta tão grande dentro de mim! E aí… acompanhamento psicológico (e o que custou dar o passo) e tão bom, tão bem que me fez… e tão grata que estou a quem me acompanhou, e acompanha, e a quem me deu a dica de “se calhar devias falar com alguém…”, nunca vou esquecer.

Engravidar outra vez, aos poucos fomos pensando nisso com medos gigantes, uma ansiedade todos os meses… outro setembro, de 2017 – grávida! Que medo… não dissemos a ninguém quase, no meu trabalho ninguém sabia (e agora penso…porquê? depois tive que contar a toda a gente à mesma…).

Tive uma perda de sangue perto das 8 semanas, hospital a correr, a chorar baba e ranho… a notícia “este embrião não parece nada ter 8 semanas, só dá umas 6 semanas, vá para casa e vamos aguardar, daqui a umas semanas vemos a evolução”, passados uns dias voltei às urgências “parece-me uma gravidez não evolutiva, o embrião não está a evoluir, vá para casa e se tiver uma perda muito significativa de sangue volte cá”… aterrorizada, mas com aquela esperança… um dia a chegar ao meu trabalho tenho uma perda gigante, urgências: “Quer ficar cá e fazemos a indução medicamentosa para a expulsão ou quer aguardar em casa? A minha ex-mulher também teve 4 abortos e agora temos 2 filhos…”.

Eu quis ficar,  desta vez fiquei sozinha, uma noite, não expulsei tudo no hospital, só em casa o maior, o meu filho, também era rapaz, soubemos depois dos testes genéticos que fizeram! Fiquei em casa o mês todo de baixa, a recompor-me, ou vá… a tentar…

Fizemos testes genéticos… Nada…”foi mesmo má sorte, nunca vimos o euro milhões calhar duas vezes à mesma pessoa pois não?”… O quê??como? Isto foi o euro milhões?? Tá bom…

Tenho os meus 3 filhos comigo, sempre, e tenho-os para toda a vida

E o tempo foi passando e sem fazermos contas à vida, sem pensarmos no timing de engravidar outra vez…em setembro de 2019 nasceu o nosso JL!!

Sei que estava bem psicologicamente e fisicamente para avançarmos com esta gravidez, com os medos normais de uma gravidez, mas sem medos extrapolados ou irreais… fomos andando, com sustos, mas foi tudo correndo normalmente! Claro que pensava que poderia correr algo mal, mas quem não pensa? Estava bem… e estou bem! Tenho os meus 3 filhos comigo, sempre, e tenho-os para toda a vida, e aprendi tanto, e cresci ainda mais para os amar “até ao infinito e mais além”…

Nunca me arrependi da minha decisão, estou em paz com tudo o que passou e aprendi a acolher em mim a minha dor, como acolho a minha felicidade…

Beijinhos do tamanho do mundo, cheios de esperança e amor!!

Filipa

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M.

Olá, eu sou a M.

Deveria ter nascido algures pelo solstício de verão de 2017 mas acabei por “nascer” muito antes, em dezembro de 2016.

E porque é que sou eu que vos trago este testemunho?

Porque a minha mãe não quer que eu desapareça.

Porque eu, mesmo que por pouco tempo, existi. Era um corpo muito pequenino, como se quer no primeiro trimestre de uma gravidez, mas era também todo um mundo de sonhos e planos, um amor muito grande que não cabia no coração.

Há pormenores que não vos poderei contar para proteger o meu pai… mas toda a minha curta vida foi uma confusão. Na alegria de saber que eu existia, os meus pais contaram a boa nova a pessoas da sua extrema confiança que, supostamente, iriam manter com os meus pais o segredo até que fosse “seguro”. Nada mais errado. Duas pessoas depressa se tornaram muitas mais, que rapidamente encheram de ansiedade a minha mãe, por entre telefonemas e presentes, por entre dicas e avisos de dedo em riste.

Por infortúnio, a nossa médica não estava disponível nessa altura e fomos vistos por um ser sem qualquer réstia de empatia desde o primeiro momento. Mas, da segunda vez que nos vimos, talvez tenha doído mais a indiferença daquele ser do que o desabamento que veio sobre nós: “Então, não se admire! Isto é perfeitamente normal!”. Foi este o único comentário à incredulidade da minha mãe perante outro seco “Não encontro batimento, isto não deve dar em nada”. “Isto”.

O diagnóstico foi confirmado por outros médicos e o parto foi induzido. Duas vezes. Muitos dias em que a minha mãe teve de ir trabalhar como se nada fosse enquanto esperava o triste fim de um capítulo.

Acabei por ter de ser arrancada do corpo da minha mãe por ela mesma; eu era pequena mas teimava em ficar onde estava. O meu destino? Talvez seja melhor que não vos conte. Ninguém quer saber de um bebé no primeiro trimestre. É um “isto”.

A minha mãe sabia tudo o que há para saber sobre o assunto, do ponto de vista de um leigo. Sabia não ter culpa, mas sente-a ainda. Sabia ser algo comum, mas sente ainda que a sua dor é exclusiva e incompreendida.

E, mesmo por entre os escombros de tal desabamento, não faltaram vozes que gritavam barbaridades como “Daqui a pouco fazes outro”, “Isso passa” ou “Assim foi melhor”. Ninguém quer saber de um bebé no primeiro trimestre. E por isso ninguém reconhece que o luto é necessário.

E perguntam vocês no meio disto tudo “Mas como é que sabiam que era uma menina?”. Não sabíamos, nem interessa. A minha mãe nunca teve preferência e hoje está muito feliz com o meu irmão, mas era o que lhe dizia o instinto. Para ela, a memória de mim tinha de ter um nome, e continua a ter. Porque eu não tenho uma lápide mas tenho uma história. Sou a M.

Hoje tenho um irmão e tomo conta dele aqui ao longe. Sei que ele terá um futuro melhor do que o meu e está tudo bem, porque eu ajudei a prepará-lo- Mas hoje a minha mãe sofre ainda. Dói-lhe a minha ausência, mas dói ainda mais que a sua dor seja indiferente a quem deveria estar presente. Dói-lhe que ninguém queira saber dos bebés que não nasceram. Dói-lhe que não seja permitido o luto a tantas mães por aí.

A todas as mães que sofrem em silêncio: saibam que não estão sozinhas. Saibam que merecem sentir aquilo que acharem que faz sentido para vocês. À minha mãe não lhe foi permitido, mas ela espera conseguir que outras pessoas tenham uma experiência melhor. E espera um dia conseguir que a dor passe.

Porque a única certeza que temos no meio disto tudo é que uma perda como esta é para sempre. Mesmo que em corpo eu fosse muito pequena. Mesmo que

Eu tenha sido apenas um sonho enorme. Eu perdi a minha mãe como ela me perdeu a mim, mas ambas fazemos ainda parte uma da outra e queremos criar memórias bonitas. E não estamos sozinhas nesta luta, somos tantas…

Que nos encontremos todos um dia.

M.