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Sílvia M.

Comecei a tentar engravidar precisamente há 3 anos. Depois de muitos negativos, frustrações e angústias que todas as “tentantes” passam, consegui finalmente o meu positivo em julho deste ano, 2021.

Já estava grávida de 7 semanas quando descobri a minha gravidez. Foi o melhor dia da minha vida, chorei durante 2 horas agarrada ao teste de gravidez sem acreditar que era finalmente o meu positivo e eu estava grávida, grávida!

O meu sonho tinha-se tornando finalmente realidade e eu já só pensava na alegria que isso nos ia trazer.

Sempre fui uma pessoa muito ansiosa e não suportava a ideia de esperar até às 12 semanas para ter a certeza que estava tudo bem com o meu bebé, então fiz 2 ecografias no privado que sempre se confirmou que estava tudo bem e o meu bebé era saudável. Um dia antes de fazer a primeira ecografia, uma amiga minha que é enfermeira fez-me uma ecografia em 4D. Dava para ver que o meu bebé era bem mexido, e o coração dele batia como o som mais bonito que ouvi em toda a minha vida. O narizinho era igual ao meu e eu fiquei super orgulhosa de saber que pelo menos nisso, que se ia parecer a mim.

Estava tão feliz; dizia-lhe bom dia todas as manhãs, pedia-lhe desculpa se fazia algum movimento brusco sem querer, estávamos a preparar o quarto dele e o armário já se preenchia de roupinhas tão lindas e todas organizadas prontas para o dia da sua chegada…

Mas no dia 6 de setembro tudo mudou, assim, literalmente da noite para o dia, fiquei sem chão.

Foi o dia da primeira ecografia, e eu percebi logo pela cara do médico que alguma coisa se passava, mas estava com tanto medo de ouvir a resposta que simplesmente me submeti ao silêncio. Tudo isto começou muito mal a nível psicológico. O médico era muito bruto a fazer-me a ecografia, fazia-me imensa força na barriga e depois de eu me queixar, ele responde “é que nas magras é mais fácil. Temos que fazer vaginal, tire lá a roupa”, mandou sair o meu marido do consultório e ficamos só eu, o médico e a enfermeira. Ele disse “estou a ver aqui um valor muito alto que não me está a agradar nada. Nível de transluscência nucal de 7,12 valores” ao qual a enfermeira respondeu com voz de espanto “7???” E eu aí percebi que realmente alguma coisa se estava a passar e perguntei o que isso queria dizer, as últimas palavras que eu ouvi foi “quer dizer que o feto tem seguramente problemas cardíacos graves ou problemas de cromossomas, como trissomias…” Eu parei, olhei para o chão e só pensava “o meu bebé. O meu filho. O meu sonho. Ainda ontem estava tudo bem. Como é possível?” Ele abriu a porta do consultório como se me estivesse a despachar e o meu marido que estava à minha espera do lado de fora, ao ver-me naquele estado, perguntou o que se tinha passado e o médico só respondeu “antes de vir fazer a amniocentese passe nas urgências e certifique-se que o coração ainda bate, porque se não bater escusa de fazer a viagem”. Eu não respondi, o meu marido só perguntava o que se estava a passar e eu só lhe pedi para me tirar dali rapidamente e me levar para casa.

Chorei compulsivamente desde que saí daquele consultório até chegar a casa, foram 2h de viagem.

Só pensava no que ia dizer à minha família, aos nossos amigos, como era possível que aquilo estivesse acontecer, como é que Deus me tinha traído desta maneira, porquê nós? Era tão desejado, era o nosso sonho e estavam a rouba-lo de nós…

Liguei à minha médica a contar o que se passou e tinha consulta na quarta-feira (isto passou-se segunda feira). Essas horas, até à consulta, foram angustiantes; eu não dormia, não comia, chorava, as pessoas mais próximas já sabiam e tive que chegar ao ponto de desligar o telemóvel para conseguir pensar, pôr os pés na terra e tomar a decisão mais difícil da minha vida.

Eu sabia o que tinha de fazer, mas nunca nada na minha vida me doeu tanto.

Eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba

No dia da consulta com a minha médica ela confirmou que realmente o valor era demasiado alto e era impossível que o bebé estivesse bem formado e sim, corria o risco de a gravidez não avançar…Ali, naquele momento, depois de ouvir aquelas palavras, depois de ter pensado durante horas completamente em branco, tomei a decisão de interromper a gravidez e não esperar pela amniocentese.

Estava cheia de medo do que me iam fazer, medo do desconhecido, e esperar pela amniocentese eram mais 2 semanas de angústia, depois outras 2 para saber o resultado e aí eu já estaria de 16 semanas e seria muito mais difícil a nível emocional e físico passar por tudo isso. Não quis adiar mais e avancei.

Nesse mesmo dia fiquei internada e começaram a induzir-me o aborto. Meteram-me num quarto onde eu ouvia choros de bebés acabados de nascer, mães a entrar em trabalho de parto e no corredor deparava-me com mães de braços cheios de amor e sonhos realizados, enfermeiras carinhosas a falar com aqueles bebés como eu já sonhava falar com o meu, pais sentados ao lado das camas das mães a compartilhar os primeiros momentos, as primeiras horas de vida dos seus filhos.

Literalmente, eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba.

A primeira tentativa de aborto falhou.  E a médica disse “o coração ainda bate e o bebé está-se a mexer, ouça” e eu só pensava “eu não acredito nisto…” Eu estava em desespero total. A médica queria recusar-se a fazer nova tentativa de aborto, levantou a voz a falar comigo quando lhe disse pela milésima vez e quase a implorar que a minha decisão tinha sido interromper a gravidez e que por favor acabasse com aquele sofrimento para eu ir para casa! Depois de conversar comigo e com o meu marido sobre a nossa decisão, contra a vontade dela, lá disse ao enfermeiro “pronto, se é isso que querem… podes fazer “, nunca mais a vi, não voltou ao meu quarto, passou por mim no corredor como se não me conhecesse.

Durante 24h fiquei sozinha naquele quarto, como que abandonada à minha sorte e com visitas de 3 em 3h de enfermeiras diferentes que me iam metendo comprimidos pela vagina para provocar o aborto. Lembro-me que já tinham passado horas e nada de sinais de aborto e eu meti a mão na minha barriga e disse “perdoa-me e vai em paz. Estou a fazer isto porque te amo e vou amar-te sempre e jamais me perdoaria de te trazer ao mundo para sofreres. És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito” e assim me despedi do meu bebé pela última vez, horas depois comecei a sangrar bastante, sem dores, mas muito sangue.

Apesar de estar num sofrimento inexplicável, sentia-me aliviada, até que faço uma nova ecografia e ainda não tinha resultado, o meu bebé ainda estava lá… Estive 3 dias no hospital completamente abandonada, desamparada, e os médicos pareciam que estavam a jogar ao jogo da batata quente para ninguém tomar finalmente uma atitude!

No meu maior momento de desespero, embora chateada com Deus, confesso, comecei a rezar e pedi-lhe por tudo para me tirar daquele sofrimento porque eu só queria ir pra casa, rezei e chorei como nunca, até que sem contar, ao fim da noite apareceu o meu anjo da guarda. Abriu a porta e disse “já está cansada de estar aqui não já? Venha, eu vou cuidar de si” e eu já estava tão traumatizada que fui a medo sem saber o que ia acontecer desta vez, já que não estava a ser nada fácil.

O médico fez-me a ecografia e disse que já tinha começado a entrar em trabalho de parto, estava no começo do aborto. E eu perguntei se ainda havia batimentos e ele olhou para mim e embora lhe pudesse só ver os olhos, e ele não tenha dito uma única palavra, eu percebi que a resposta era sim, mas ele não me queria magoar ainda mais e foi aí que eu percebi que finalmente estava bem entregue e ele ia cuidar de mim, tal como prometera e ele foi o meu anjo da guarda.

Meteu-me a soro durante 1h, um comprimido vaginal, voltámos a ecografia e definitivamente o meu corpo já estava a libertar o meu bebé. O médico tirou-me o saco gestacional e restos que ficaram sem anestesia, eu não sei onde fui buscar tanta coragem e tanta força para passar por isso a sangue frio, mas a verdade é que a única dor que eu sentia era no coração.

Ele foi tão paciente, tão compreensivo, tão meigo, tão humano, que eu não senti nada para além de uma contração ou outra… E no fim, demos um abraço e eu só lhe conseguia dizer “obrigada” vezes sem conta e disse-lhe “você foi o meu anjo da guarda”. No dia seguinte fui para casa.

És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito!

Já passou 1 mês desde que eu perdi o meu bebé. Não me arrependo da decisão que tomei. Foi um ato de amor. Por amar tanto esse ser pequenino que eu nem cheguei a conhecer, é que o deixei partir.

Na minha vida tive dois grandes atos de coragem, a primeira foi amar um ser que não conheci e a segunda foi deixá-lo partir para não vê-lo sofrer.

Não tem sido fácil, ainda não tenho o útero 100% limpo e estamos à espera que a menstruação desça para limpar os restos que faltam, em último caso tenho de fazer raspagem, o que me sossega é que estou a ser acompanhada pelo meu anjo da guarda, esse médico que já me disse mais do que uma vez que não me ia abandonar.

Mas a dor que sinto, o aperto constante no peito, a angústia, o medo traumatizante de tudo que vivi naquele hospital não sei quando vai passar, não sei quando vou ter coragem de voltar a lutar pelo meu sonho de ser mãe, estou cansada psicologicamente, muito cansada.

Estou muito triste. Ainda me perguntam se é menino ou menina, ainda há quem me dê os parabéns pela gravidez, ainda há quem me olhe para a barriga…

Está a ser uma luta constante diária e já pedi ajuda psicológica porque assumi que não sou capaz de passar por isto sozinha.

Se o meu testemunho ajudar alguém a não sentir-se sozinha, como eu me sentia até horas atrás antes de descobrir está página, já fico contente, porque eu fartei-me de procurar testemunhos naquela cama de hospital e não encontrei nada onde me pudesse agarrar.

Neste último domingo, dia 10 de outubro, no dia em que fez 1 mês, o médico confirmou-me, pela autópsia que fizeram ao meu filho (sempre achei que era um menino, embora nunca venha a saber…), que ele tinha problemas renais, trissomia 21 e uma nuca muito alta mais uma série de patologias não confirmadas por ainda ser muito pequenino.

O meu coração ficou do tamanho de uma ervilha ao ouvir essas palavras, tomei a decisão certa, mas não suporto a ideia de o meu bebé ter tido tantos problemas e ainda ser tão pequenino…

Dia 15 de outubro vou acender uma vela pelo meu bebé e será só mais uma noite em que vou chorar de saudades de já não o ter comigo. É um vazio que se sente e uma dor que nunca mais acaba. O que eu desejava agora era que só me acordassem quando tudo isto passasse…

Um beijinho de força para todas 

🤍
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Mariana: um testemunho de adoção após perda gestacional

Há mais de dois anos entrou nas nossas vidas a nossa Ana do Carmo.

Não foi fácil, mas nenhum filho nos facilita a vida. Logo logo quando ia desistir, ela finalmente apareceu e tem sido uma crescente emoção na nossa vida e na vida dela.

A nossa história começa com uns longos nove anos de namoro. Eu e o Martim casámos e, logo a seguir engravidei, mas infelizmente perdi o bebé às doze semanas. Foi um choque para mim (para nós) pois sempre idealizei ser Mãe de quatro… e achei que nunca teria problemas em engravidar. Mas a vida prega-nos destas partidas.

Foi um processo doloroso pois acabei por ter um parto normal, vi o meu bebé e tive de fazer duas raspagens no espaço de dois dias! Enfim, uma violência logo de início!

Mas, como sou uma pessoa positivista, logo a seguir comecei a pensar em engravidar novamente, mas descobri que também tinha hipotiroidismo, endometriose e pouca reserva ovárica. Assim, estive cerca de quatro anos para voltar a engravidar quer pela consulta de infertilidade no público, quer pelo privado: sempre a tentar e a ter desmanchos. Foram longos anos a fazer estimulação com injeções, se não me falha a memória foram três, pelo meio uma menopausa precoce… enfim… resumidamente: um filme.

No meio de tudo isto tinha uma grande vontade de adotar e o meu marido, que sempre me disse durante este processo todo que tinha casado comigo por mim e não para ter filhos, que se eles viessem tanto melhor

Até que em 2010/2011 metemos o processo de adoção, pensando até em adotar irmãos. Continuámos com o processo de infertilidade e, em janeiro de 2012, fiz uma FIV finalmente com 2 embriões e engravidei, não vingaram e, mais uma vez, a desilusão.

Mas, como a vida dá muitas voltas, tivemos uma surpresa no mês a seguir de fazer a FIV: engravidei naturalmente da minha primeira filha, a Constança. Um verdadeiro milagre da natureza, para nós, mas também para os médicos.

Foram 41 semanas de uma santa gravidez, embora com um mix de medo e felicidade, mas correu super bem. Pelo meio tive de comunicar às assistentes sociais que estava grávida e fomos aconselhados a suspender a adopção para “vivenciar” a gravidez. Embora não concordássemos muito, lá aceitámos.

A Constança nasceu e passado pouco tempo descobrimos que ela era surda. Lidámos muito bem com isso, dentro do que se pode lidar e partimos para a colocação de implantes cocleares…mas isto já dava outra história…o que interessava é que afinal tinha nascido uma filha que era o que mais queríamos!

Passado 9 meses de a Constança nascer, engravidei novamente e mais uma vez perdi. É aí que decidimos reforçar à segurança social a nossa vontade de continuar no processo de adoção e, até 2017, nada aconteceu.

A nossa Ana do Carmo chega quando menos esperávamos.
Eu já tinha dito ao Martim que esperava até aos 45…depois disso desistia pois não fazia mais sentido. Mas eis que em Fevereiro de 2017 chamaram-nos para fazer uma formação e lá fomos nós sem expectativa nenhuma. Lembro-me de dizer ao Martim…”já não vai acontecer connosco, é tão difícil!!”.

Em Março desse mesmo ano, a 4 dias antes de fazer anos…estava a trabalhar e ligaram da segurança social a dizer que havia uma menina, fiquei a tremer de todos os lados…isto está mesmo a acontecer ?!?! Tinha metido o dia de anos de férias (meto sempre) e nesse mesmo dia lá fomos à segurança social e lá estava a foto com ela.

Em dois dias tivemos de decidir e em quinze dias tínhamos de lá estar a ir buscá-la! Foi um turbilhão de emoções, uma série de decisões a fazer, tais como logística (comprar bilhetes de avião, alterar o quarto delas para comportar mais uma), preparar a nossa filha Constança da vinda da irmã, etc e, por fim, lá fomos nós.

Mais giro ainda foi que a Ana do Carmo estava aos cuidados de uma instituição cuja Freira já de idade tinha sido Freira no Colégio onde o Martim tinha andado e inclusive ela fazia-lhe ovos estrelados quando o Pai se atrasava a ir buscar-lo. Que coincidência inacreditável!!!

Caíram os dois nos braços um e do outro, não se viam desde que o Martim era miúdo. E agora era ela quem cuidava da Ana e ficou super feliz por ficarmos com ela, dizia ela que levávamos um tesouro e nós tão contentes por sabermos que a Ana tinha tido tanto amor dela.

Ela começou de imediato a chamar-nos Mãe e Pai….pois a psicóloga da instituição trabalhou muito bem a integração, aliás ela ao terceiro dia de chegarmos, ficou a dormir connosco.

Não foi de todo um processo fácil, principalmente para ela: de repente vê-se com dois adultos estranhos….lembro-me que nem a mão queria para adormecer…para mim também era tão estranho…a Constança adora que lhe dê festas e a mão e a Ana nada…tirava a mão…

Mas agora já diz “mãe dá miminho e festinhas” ou então “Mãe, gosto de ti até à Lua” ou ainda “Gosto muito da minha família…” e começa a enumerar cada um de nós.

Desde então, tem sido uma descoberta e um crescimento fantástico, mas nem tudo é um mar de rosas, porque não é fácil de repente amar alguém de um dia para o outro. É um processo gradual de conhecimento mútuo, um amor que vai crescendo de dia para dia.


Hoje, já não vemos a nossa vida sem ela! A nossa querida teimosa Anocas

Mariana e Martim, Porto

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Sofia M.

Em janeiro de 2017 descobri que estava grávida! Sonhos, projetos, contar à família e aos amigos. Como sou uma pessoa super emocional e que sempre viveu intensamente o bom e o mau, estava para lá de feliz!

Passado duas semanas tive a minha primeira perda com apenas 6 semanas – uma gravidez molar. Senti um vazio como nunca poderia imaginar. Ia duas vezes por semana ao hospital para tirar sangue e ia a um médico ginecologista oncológico só para me dizer que o meu BetaHCG estava a descer.

Processo muito doloroso psicologicamente e que demorei muito para reagir, pois rodear-me de grávidas duas vezes por semana não é propriamente o que esperamos depois de passar por uma perda.

Despedi-me do meu trabalho, parei para respirar e passar pelo meu próprio processo à minha maneira, pois acredito que cada um tem o seu tempo e devemos respeitar.

Após um ano, a segunda perda ocorreu às 8 semanas. Pensava que nunca conseguiria parar de chorar, de lamentar e de perder a energia negativa e revolta que tinha com a vida.

Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Decidi um dia recorrer ao life coach que me deu ferramentas e um novo olhar para a vida – cuidar e gostar mais de mim, pensar menos no que os outros dizem e olhar para o quão forte fui durante a vida toda e o que consegui. Neste processo, tive de lidar com a depressão do meu marido e não foi fácil, mas nada é impossível…Muita resiliência, muito acreditar e muita força.  

Em janeiro de 2021 finalmente teste positivo – decidimos não contar a ninguém e viver numa bolha de amor, meditação e tranquilidade durante uma semana. Novo sangramento, nova perda.

Quando passas três vezes por isto, já vês as coisas de forma diferente, mas sentes sempre o vazio. 
Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Hoje já estamos em estudos genéticos a tentar encontrar respostas para as nossas perdas e continuamos a acreditar que um dia, quando tiver de ser, a vida nos vai trazer este amor fora do coração, como tantas mães descrevem.

Cair… respirar… recomeçar… amar… acreditar…


Com amor para todas, 
Sofia

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Tatiana

Soube que estava grávida em Março, uma gravidez desejada e planeada, análises pré-natal feitas, apoio na nutricionista.

Marquei de imediato consulta obstetrícia e estava tudo bem. Às 8 semanas, lá fui eu para consulta de rotina, mas… Infelizmente o bebé não tinha batimentos cardíacos. Vi logo que algo não estava bem, o silêncio, o semblante da médica.
A equipa médica foi muito querida, explicaram tudo, talvez porque a médica já tinha passado pelo mesmo, ou, espero, porque as coisas estão a mudar.
Tinha um Aborto retido.

O pai não pôde entrar, ficou no carro e também ele foi apanhado de surpresa. Também ele tinha dúvidas que eu, por ser profissional de saúde, a custo fui explicando. Mas e quem não sabe? Quem não é da área? Senti um vazio tão grande…

(…) ajudaram -me com palavras que pareciam abraços.

Mas voltando ao aborto retido, optámos por esperar uma semana para ver se a expulsão acontecia naturalmente. Foi angustiante. Psicologicamente muito difícil. Difícil expressar por palavras. O corpo não colaborou, tomei os comprimidos.

Disse à médica que sou caso raro pois não tive dores físicas, só hemorragias (físicas e psicológicas). Um processo doloroso psicologicamente. Algo que ninguém está preparado.

Agradeço o apoio do meu marido, pais e, acima de tudo, de amigas que tinham passado pelo mesmo e que me ajudaram com palavras que pareciam abraços.
Abraços que nesta fase de pandemia fizeram muita falta.

Sou aromaterapeuta certificada, trabalho maioritariamente com grávidas, recém-mamãs e bebés. E nunca tinha pensado neste lado da maternidade.

Os óleos essenciais ajudaram -me a descansar um pouco melhor a nível emocional foram um grande complemento, juntamente com apoio psicológico.
Não sei se foi o destino, mas a partir de agora estou também disposta a ajudar outras mulheres que passem pelo mesmo. Se puder ajudar de alguma forma estou disponível.

Um bem-haja e grata pela página que ajudará muitas famílias e mulheres ❤

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Márcia

Assim como tantas mulheres, o desejo de ser mais, é algo que se tenta alcançar. Mas nem sempre as coisas correm da melhor forma e as marcas ficam para sempre gravadas na memória.

Em 2011 engravidei e às 6 semanas o coração do bebé deixou de bater.

Foi então que comecei um processo difícil de abortamento, segue-se um internamento muito doloroso fisicamente e psicologicamente. Depois deste sofrimento nem queria ouvir falar em engravidar porque as dores físicas e psicológicas estavam, e estiveram, presentes durante muito tempo.

Até que, ano de 2016, decidi que seria altura de voltar a engravidar. Logo engravidei e claro muito feliz mas mais uma vez (com cerca de 5 semanas) voltou aconteceu o mesmo. Desta vez o processo foi menos doloroso, no entanto o psicológico ficava novamente afetado.

Mesmo sendo um “feijăozinho”, a dor da perda é igual independente do tempo de gestação.

Pois bem, no mês a seguir numa consulta pós-abortamento, recebi a notícia que estava novamente grávida (como era possível estar grávida logo depois de ter abortado) e fiquei muito apreensiva, mas logicamente fiquei muito feliz.

Deixei de trabalhar por recomendação médica. Estava tudo a correr na normalidade até que novamente às 9 semanas tudo acontece, ou seja, comecei um novo processo de abortamento.

Fui hospitalizada e, mais uma vez, sofri imenso. As dores físicas e psicológicas foram com uma dimensão que não se consegue explicar. Nunca tive nenhum tipo de acompanhamento médico do foro psicológico e os profissionais desta área reagem e falam para nós como se fosse mais uma a perder um feto. Sim, porque como estamos a falar de abortamentos no primeiro trimestre; é impensável dizer-se que se trata de um bebé.

Até hoje é uma mágoa que guardo e que nunca irei esquecer.

Mesmo sendo um “feijăozinho”, a dor da perda é igual independente do tempo de gestação.

Hoje tenho dois meninos lindos. O primeiro nasceu em 2018 e o segundo nasceu este ano de 2021. Agradeço muito ter dois meninos (lindos e saudáveis) mas nunca irei esquecer o que passei e das marcas psicológicas que estão bem vincadas num passado muito presente.

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Carina A

Há feridas que doem para sempre.

O tempo acaba por acalmar a dor, aprendemos a viver com essa dor, mas não deixa de existir.

Eu perdi duas gravidezes. A primeira, há 12 anos, foi uma gravidez ectópica. Não me lembro bem quanto tempo durou. Só me recordo da sensação de que algo dentro da minha barriga estava a rebentar. A dor era tal que cheguei a perder os sentidos.

Depois o internamento. Estive lá durante 3 dias em que fazia exames diariamente de manhã e à tarde para se saber como estava a evoluir a gravidez até que as dores pararam e os médicos me disseram que o embrião tinha descido para o útero, mas que a gravidez era inviável e teria que esperar até que o corpo o expulsasse.

Não sei dizer quantas semanas passaram até que me voltaram a internar e provocaram o parto. Todo o processo foi feito na enfermaria, mas completamente sozinha…

Passado um ano voltei a engravidar mas desta vez a ferida ficou mesmo muito, muito funda.

De mão dada ao meu marido e ouvir uma voz muito doce da médica a dizer “já faleceu”

Ainda hoje tenho pesadelos com o que passei. Na ecografia das 13 semanas o médico detectou que algo não estava bem com o bebé. As medidas do bebé não estavam correctas e enviou-me para a consulta de diagnóstico precoce.

Aqui eu e o meu marido fomos muito bem recebidos. Explicaram-nos tudo o que estava a acontecer, o que significavam aquelas medidas e o que nos iram fazer. Voltei a repetir a ecografia e passado 2 ou 3 dias fiz a amniocentese. A imagem que ficou gravada na minha cabeça foi de estar deitada numa maca, de mão dada ao meu marido e ouvir uma voz muito doce da médica a dizer “já faleceu”.

Depois segue-se novo internamento, provocarem-me novamente o parto, tudo novamente sozinha e para piorar um pouco mais a situação desta vez vi o feto e fui eu que chamei a enfermeira após a expulsão.

Até hoje guardo aquela imagem horrível. Tinha 18 semanas de gestação. Fiquei a saber que o bebé tinha trissomia total, ou seja, todos os cromossomas eram a triplicar. É uma alteração genética raríssima. No ano anterior não tinha existido nenhum caso em Portugal, naquele ano houve apenas o meu e no ano seguinte houve 2 casos. Eu e o meu marido fizemos estudos genéticos e depois voltámos a tentar engravidar.

Atualmente temos dois rapazes, um de 10 anos e outro de 6. São uns meninos lindos, saudáveis e bons traquinas como todas as crianças devem ser.

Espero que ao partilhar a minha história possa ajudar alguém. Pelo menos e sinto que me ajuda a lidar melhor com o que passei.

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Cátia M.

Foi um bebé desejado, muito.
Foi planeado, foi desenhado, imaginado.

Ao fim de dois meses de tentativas, conseguimos.
Ao fim de dois meses de termos conseguido, perdemos.

O nosso bebé parou de se desenvolver às 7 semanas e não quis largar a minha barriga.

Ficou cá quase até às 10 semanas.
O meu aborto foi retido. Doeu, no físico mas ainda mais no coração. E foi por aí que ele se começou a ir.

Ficou retido mas o coraçãozinho dele começou a ir embora, aos poucos.

Ficou um dor inexplicável.
Ficou o sentimento de falha, de impotência.

Eu não o conheci, por alguma razão ele não quis vir mas amei-o e amo, como se estivesse estado nos meus braços.

Agora tenho a certeza, o meu anjinho foi o primeiro grande amor da minha vida

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Andreia

Ao fim de alguns meses, depois de 2 perdas, chega o tão desejado positivo. Desde o momento em que descobri que estava grávida, eu passei a amar um ser, um feijãozinho que crescia dentro de mim. Em todas as eco eu ia super ansiosa por boas notícias.

No dia em que ouvi o teu pequeno coraçãozinho a bater, o meu peito encheu-se de alegria foi um sentimento que não dá para descrever. A partir daí o meu e o teu coração batiam em sintonia, como se fosse só um. Nós fazíamos planos, já tínhamos alguns nomes, mas tudo o que mais queríamos era que viesses com muita saúde e perfeitinho. Eu sempre falei no masculino porque dentro de mim era um menino, Duarte seria o teu nome já eras tão amado.

Mas essa alegria não iria durar muito tempo… Algumas semanas depois eu tenho a pior notícia que me podiam ter dado… O meu bebé deixou de crescer e o teu pequeno coração não aguentou…10 semanas…

Os dias que se aproximam não são fáceis, mas eu não vou deixar de lutar pelo meu bebé.

Eu sei que ainda vou ter o meu bebé arco-íris e tal como eu sonho, um menino lindo de cabelo moreno como o pai e de pele clara como a mãe….

Que não me falte, saúde, fé, esperança, coragem e amor para eu ter o meu bebé nos meus braços…

Sei que onde estiveres estás a olhar por nós e serás mais uma estrelinha mais brilhante no céu, e o meu anjo da guarda…..


Até um dia meu amor….

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Joana

No início de 2021, que toda a gente desejou ser o ano em que começam a acontecer coisas boas, descobri que tinha ficado grávida. Embora não tivesse sido uma gravidez planeada, já não usava contraceptivos há algum tempo, portanto era algo para que estava preparada. A notícia veio com surpresa, mas muita alegria. Achei que era uma premonição, 2021 é o ano em que tudo muda para melhor. 


Não tinha ideia de quando tinha ficado grávida, e como estava com spotting muito leve fui fazer uma ecografia e recebi a notícia: 6 semanas, batimento cardíaco normal, lá estava o meu feijãozinho a nadar de um lado para o outro e a piscar.

Nesse dia tudo mudou. Íamos ser pais! Disseram-nos que após ver um batimento cardíaco a probabilidade de perda gestacional desce para os 3% a 4%.

Sou relativamente jovem, saúde exemplar, hemoglobina perfeita, sem diabetes, pressão arterial normal, ácido fólico no máximo, nada que indicasse qualquer risco. Sentimos-nos confiantes para contar à família mais próxima e aos nossos melhores amigos.

O meu corpo estava-se a adaptar muito rápido, nas semanas seguintes o meu peito cresceu imenso, já tinha uma barriguinha super fofa. Todas as noites adormecia a fazer festinhas “ao meu bebé” e a falar com ele baixinho.

O spotting leve eventualmente parou, a enfermeira disse-me que eram óptimas notícias, provavelmente um vaso sanguíneo mais sensível ou restos do sangramento de implantação.

Além de alguns enjoos estava a ter a gravidez perfeita. Ao final de 3 semanas fomos fazer nova ecografia.

Estávamos super entusiasmados para ver o nosso bebé outra vez! Sentámo-nos com a enfermeira, verificamos a pressão sanguínea, tudo óptimo, continua tudo perfeito.

Começa a ecografia, o feijãozinho brilhante não está em lado nenhum.

Após uns segundos em silêncio ela pergunta se pode fazer uma ecografia intravaginal que é mais exacta. Respondo que claro que sim, quero ver o meu bebé!

Mais silêncio… Já a prever o que vem a seguir pergunto se está tudo bem. A cara da enfermeira mudou… Pede desculpa, não encontra o batimento cardíaco. Aqui está o bebé, mas não mexe. Desta vez já consigo ver a cabeça, os bracinhos e as perninhas mas está quietinho, não nada, não pisca. “Não é culpa de ninguém, 90% das vezes são problemas nos cromossomas e é inevitável!” … E nos outros 10%? Silêncio…

Disseram-me para voltar para casa e descansar. É muita informação. Choro durante 2 dias, faço festas no meu bebé e desejo que seja um erro, peço-lhe desculpa, digo-lhe que vai ficar tudo bem.

Tenho três opções: esperar que a natureza faça o seu trabalho (opção ideal), provocar o aborto com medicação (opção intermédia, supõe menos riscos), fazer uma curetagem (pode interferir com gravidezes futuras, menos aconselhável).

Dizem-me: “O pior já passou”, “És jovem e saudável!”, “Tens outro!”, “Não era nada, eram só células!”, “É normal!”

Ao final de mais de duas semanas sem nada acontecer, volto à ginecologista que me aconselha a fazer o aborto com medicação em casa.

Vou para casa, tomo as primeiras doses de comprimidos – náusea, mal estar, vómitos. Ao final de 36 horas devo inserir o misoprostol. Em apenas uma hora começo a ficar com dores horríveis, cólicas que não passam com nada, parece que me estão a arrancar as entranhas. Ao final de duas horas começa o sangramento.

É horrível, intenso, nada me preparou para o que vem a seguir; pedaços do tamanho de ameixas a sair misturados com sangue, sangue na sanita, no chão, em todo o lado, cada vez que me mexo com as dores sai mais sangue. Acabo por me deitar na banheira para tentar acalmar a dor e controlar a sujidade. Acabo por estar 2 horas sentada numa poça de sangue que não para de aumentar.

Finalmente as dores acalmam e penso que o pior já passou. Levanto-me para tentar colocar um penso higiénico e poder ir para um lugar mais confortável, quando cai no chão o meu saco gestacional. Do tamanho de uma pequena laranja.

Fico em pânico. O meu marido ajuda-me a tomar banho, vestir e deitar e vai limpar a casa de banho. Continuo a perder mais de 1 penso higiénico de sangue a cada 10 minutos, não consigo ter roupa vestida sem a sujar.  Continua por mais 2 horas, cada vez que vou à casa de banho trocar o penso sinto pedaços a saírem de dentro de mim. Eventualmente reduz para a quantidade de um período normal. Consigo finalmente deitar-me, comer descansar. 

Dizem-me: “O pior já passou”, “És jovem e saudável!”, “Tens outro!”, “Não era nada, eram só células!”, “É normal!”

Se o pior já passou porque é que eu sinto que está apenas a começar? Se sou jovem e saudável porque raio estou nos 3%? E se não tiver outro e apenas passar por tudo outra vez?

Se eram só células porque é que tinha um batimento cardíaco, porque é que falei com ele todos os dias até adormecermos juntos? E se é normal… porque é que me sinto num poço sem fundo e não vejo forma de sair daqui?

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Carina

Olá

O meu nome é Carina e sou mãe de um lindo rapaz de 4 anos. Na sua gravidez surgiram alguns contratempos, mas nada de sério, pois, embora pequenino, nasceu saudável por cesariana de urgência. 

Passados dois anos e meio, fomos surpreendidos por uma nova gestação. Depois do choque inicial veio uma grande felicidade, no entanto acabou demasiado rápido… resultando num aborto espontâneo.

Como casal decidimos esperar pelos três anos do rapaz para voltarmos a tentar e assim foi. Ao fim de alguns meses fomos presenteados com um novo resultado positivo! Repleto de felicidade, mas também algum receio de uma nova perda gestacional, aliado ao Covid-19. O dia de Páscoa chegou e com ele também a neblina de um novo aborto espontâneo.

Estávamos desgastados e com o coração partido. Porém, após conversar com algumas mães que passaram por situações semelhantes, não desistimos e decidimos continuar. 

Poucos meses se passaram e obtivemos um novo positivo… que grande felicidade! “À terceira é de vez” pensámos. Marquei consulta de obstetrícia o mais rápido possível, realizámos ecografia e vimos um saco gestacional, ainda sem embrião por ser muito cedo. Admito, chorei muito nesse dia por tudo o que podia correr mal, mas acalmei e começámos a pensar como uma família de quatro. 

Dia 23 de agosto tive novo sangramento, e devido ao Covid-19, dirigi-me novamente sozinha para o Hospital, a pensar que era mais um aborto. 

(…) no entanto eu estava feliz e segura “ia dar tudo certo”.

O médico fez um exame exaustivo e detetou hemorragia interna. Tratava-se de uma gravidez ectópica na trompa esquerda. Tinha ignorado todos os sinais que o meu corpo me deu até este dia…o mau estar e as dores constantes. O médico explicou-me que o saco que a Obstetra vira anteriormente, era uma vesícula falsa, algo bastante comum numa gravidez ectópica. Aliado a isto, o facto de a primeira ecografia ter sido realizada precocemente, também dificultou a deteção da GE. 

Dado que estava com hemorragia, encaminharam-me de urgência para o bloco operatório e removeram-me a trompa e o embrião, que já tanto amava. O internamento foi uma tortura, os bebés choravam e com eles chorava eu por ter o meu colo vazio. Senti-me mutilada, com corpo defeituoso, e desanimada com receio de nunca mais conseguir vir a ser mãe. Emocionalmente foi a pior das perdas e, enquanto casal, estávamos destroçados. A Obstetra tranquilizou-me, dizendo que, mesmo apenas com uma trompa, havia grande probabilidade de voltar a engravidar e assim foi… Sem “treinos a sério” veio o novo positivo. 

Os olhos do meu marido encheram-se de lágrimas, mas não por felicidade e sim receio de voltarmos a passar por tudo, no entanto eu estava feliz e segura “ia dar tudo certo”.

Estou grávida de 19 semanas da minha menina arco-íris forte e bem mexida. É um dia de cada vez, mas cada pontapé é uma vitória. 

Se o vosso desejo é de serem mães e pais, não desistam! Lutem, sigam o vosso coração, sigam as recomendações médicas e, por favor, não ignorem os sinais que o vosso corpo vos dá.