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Hoje, um ano depois do dia mais triste das nossas vidas, abro pela primeira vez, o meu coração para partilhar a minha história, a nossa história. 

Hoje, com o coração mais calmo, e depois de aceitar que deixar partir é um ato de amor, venho contar-vos que a perda de um filho é dos momentos mais traumáticos na vida de qualquer família.

Era Agosto e nós íamos fazer a ecografia morfológica, decidi levar a nossa filha para que pudesse ver pela primeira vez o mano/a. 

Sempre ouvi dizer que as mães têm um sexto sentido, e caramba… nesse dia fiquei a saber da pior forma possível, que afinal ele existe mesmo.

Pouco tempo antes de entrar no consultório, lembro-me perfeitamente de dizer esta frase “tenho tanto medo que não esteja tudo bem”. E não, não estava. Mal eu sabia que partir daquele dia, iria carregar uma das maiores dores em toda a minha vida. 

Entrámos no consultório, entusiasmados. Afinal íamos ser pais de 2, que bênção!

O médico coloca a sonda, e pergunta-nos se já sabemos o sexo do nosso bebé, e nós respondemos que não. Minutos depois, recebemos a notícia que íamos ter mais uma menina, para fazer companhia a este nosso leque familiar de mulheres. 

Pouco tempo depois, um silêncio invade a sala. A dada altura, decidimos perguntar se estava tudo bem, ao qual prontamente o médico me diz que não, não está tudo bem. O seu bebé tem um quisto no cérebro, tem de ir imediatamente à maternidade fazer exames mais específicos. 

Saímos desalmadamente daquele consultório, lavados em lágrimas, em desespero e completamente sem reação. 

Rapidamente as nossas famílias nos prestaram auxílio e vieram ao nosso encontro. Nessa tarde, corremos todos os hospitais possíveis. Estava a ser seguida no hospital particular, e dirigi-me as urgências ao qual rapidamente fui descartada, pois poderia não ser uma gravidez evolutiva. A resposta que me foi dada, era de que se tratava de uma situação muito burocrática. Corri mais 2 hospitais, acabei na Maternidade Alfredo Da Costa, onde com a maior empatia do mundo, me marcaram uma consulta no Diagnóstico Pré-Natal. Um sítio onde tudo começa, e onde acaba para muitos dos bebés. 

Era sábado, tinha um fim-de-semana inteiro pela frente…foi horrível. Não estávamos a conseguir aceitar o que se estava a passar, e estávamos aterrorizados a espera que a segunda feira chegasse. 

O dia chegou, dirigi-me à Maternidade Alfredo da Costa para a minha primeira consulta, no local onde ninguém quer estar, o diagnóstico pré-natal. Lá eu poderia imaginar que aos 30 anos de idade, iria ter de passar por um processo tão difícil como este.

No dia 15 de Outubro , no dia em que se celebra o dia da consciencialização da perda gestacional, a Benedita veio ao mundo, num parto respeitado e humanizado.

Depois de várias horas em espera lá entrei, e o médico teve perto de 1h a fazer uma ecografia. Realmente viu que existia um problema, mas ainda com muitas dúvidas. Aconselharam-me a fazer a amniocentese, para avaliar e despistar outro tipo de doenças gravas. Nesse mesmo dia fiz o procedimento. 

Lembro-me perfeitamente de nesse mesmo dia, me darem um termo de responsabilidade para assinar, caso fosse necessária intervenção médica, ou melhor dizendo uma Interrupção médica da gravidez, tendo em conta o estado avançado em que já me encontrava da gravidez. 

Colocarem nas nossas mãos, o destino da vida dos nossos filhos é um peso muito grande. É o peso de uma vida. A vida da minha filha. 

Informaram-me que deveria fazer uma ressonância magnética, pois só partir daí se conseguia ver melhor o bebé e problemas internos. 

Fui para casa de repouso, e 2 dias depois estava a fazer a ressonância. Disseram-me que teria de aguardar o resultado, e que a maternidade me ligaria para ir novamente a consulta. 

3 semanas depois, volto a fazer ecografia e a dúvida do médico persiste apesar da ressonância confirmar que existia um problema. 

Informaram-me que teria de aguardar, e fazer um acompanhamento da minha bebé para ver se o problema podia ter um retrocesso. Segundo os médicos era um problema que poderia ir ao lugar com o crescimento fetal. 

Na altura fiquei muito revoltada, não aceitava porque tanto tempo, porque me fazerem sofrer tanto. A espera era horrível, e eu sabia que quanto mais tempo passasse, mais doloroso seria para a nossa família. 

Durante longos 2 meses entre esperas e exames, lá chegamos ao diagnóstico final. 

Nesse dia, deram-nos a pior noticia que se pode dar a qualquer mãe ou pai. 

A nossa filha aos 8 meses de gestação, foi diagnosticada com uma má formação do sistema nervoso central, tinha uma síndrome muito rara e que seria totalmente incompatível com a vida humana. Foi devastador.

Disseram-me que uma neura pediatra iria entrar em contacto connosco, para nos explicar o que se estava a passar com a nossa bebé, e assim foi. 

Estávamos devastados, íamos a sair da maternidade quando recebemos uma chamada de uma enfermeira, a enfermeira Leonor Gonçalves, que para mim continua a ser um anjo da guarda. A Leonor queria saber como nós estamos, e falar connosco. Assim foi, voltamos para trás, fomos levados para uma sala e lembro-me como se fosse hoje. A Leonor, tocou no meu braço e disse pode chorar, fique a vontade. Foi um dos gestos mais bonitos que podiam ter tido connosco naquele momento doloroso. A ajuda veio ter connosco, sem pedirmos ajuda. Foi bonito e muito importante para nós. Até aos dias de hoje, a Leonor está sempre presente nas nossas vidas. 

Realmente são as pessoas que fazem os sítios, e o trabalho daqueles profissionais é tão importante para nós pais que vamos perder os nossos filhos. 

Dia 11 de Outubro, vamos }a maternidade iniciar o processo. Nesse dia somos deparados com uma série de questões, e mais uma vez a Leonor estava lá para nos apoiar, ajudar e agilizar todo este processo. 

A Leonor ajudou-nos com as questões mais burocráticas, e falou-nos sobre a oportunidade de conhecer a nossa filha, de ficar com as impressões dos pés e das mãos da nossa filha. Nem sequer pensei que isso fosse possível para um bebé que nasce sem vida.

 Dois dias depois, seguia-se o meu internamento para iniciar a indução de trabalho de parto. 

Nesses 2 longos dias, tivemos que tratar daquilo que mais custa a qualquer pai, enterrar um filho. Tratar do funeral da nossa filha que ainda não tinha nascido, e quem nem o mundo ia conhecer. 

Foi completamente devastador, não fui capaz de entrar na agência funerária, assinei os papéis no carro. Mas saímos dali com tudo tratado. 

Seguia-se outra fase complicada, comprar uma roupa para a nossa filha. Entrei 3 vezes na mesma loja e não consegui comprar nada. Acabei por ter de pedir ajuda a família para comprar a roupa para a nossa filha. 

É muito duro preparar o funeral de alguém ainda em vida. 

Dia 13 de Outubro com 31 semanas, fui internada. Cheguei a maternidade, a Enfermeira Leonor já estava a nossa espera. Fomos para uma sala, onde revimos todos os pormenores do que iria acontecer partir dali. 

A Leonor generosamente, sentou-me num cadeirão ao lado da janela e disse-me para eu me despedir da minha filha, para lhe poder dizer que me perdoasse, porque o que eu estava a fazer era um ato de amor.  A Leonor deu-me tempo, deu-me a mão, fez-me sentir mais calma. 

Ensinou-me a exercícios para me sentir mais calma, para saber controlar as dores no trabalho de parto. 

Fomos então para a sala de ecografias, onde a médica estava a minha espera, acho que foi o momento mais duro do processo no hospital. Iriam ter de provocar a paragem cardíaca a nossa Filha. Deitei-me, demos a mão os dois e encostamos as nossas cabeças e a médica pediu-nos que não olhássemos para o monitor. Minutos depois, senti-me a perder os sentidos, estava completamente em outra dimensão e só me lembro da Leonor me tirar a máscara e dizer “fique comigo, concentre-se na minha voz”. O procedimento terminou, e estava meio adormecida.

Desci para o internamento, onde fui para uma sala isolada, para não ter qualquer tipo de contacto com as outras grávidas e ouvir os bebés chorar. Acho que isso é de uma enorme empatia que se pode ter com alguém. 

Fiz a primeira medicação para indução de parto, e nesse dia nada aconteceu, ao final da noite tentaram outro método de indução, que teria de se dar uma janela de 24h para tentar novo método. No dia seguinte, comecei a ter muitas dores, mas não tinha dilatação ainda, e na noite de 14, as dores começaram a agravar. A todas as enfermeiras da maternidade só posso agradecer todo o carinho que me deram, traziam me medicação, sentaram-se na minha cama e deram-me a mão, limparam as minhas lágrimas imensas vezes. 

Na manhã seguinte fui para o banho para atenuar as dores, estavam insuportáveis. Já estava em trabalho de parto desde essa noite. A médica veio avaliar, e já estava pronta para ir para o bloco de partos. Desci, levei epidural e começa o início de tudo, o medo, o fazer nascer. 

A enfermeira parteira Cleisa, que até hoje não me esqueço do nome dela disse-me “vamos ao seu ritmo, nasce quando você quiser” e assim foi. 

No dia 15 de Outubro , no dia em que se celebra o dia da consciencialização da perda gestacional, a Benedita veio ao mundo, num parto respeitado e humanizado. Não, a Benedita não chorou, mas tudo em mim se desfez por completo. 

Levaram a Benedita e aconchegaram-na na mantinha que tinha sido da irmã, a enfermeira regressa com uma caixa de memórias, com a hora do nascimento, o dia, e a impressão dos pezinhos e das mãozinhas. 

Chorei muito, foi devastador. 

No dia seguinte tive alta logo de manhã e fui para casa descansar, a nossa filha estava ao cuidado da nossa família, mas tínhamos que nos preparar para lhe dar a notícia. 

Na manhã seguinte fui buscá-la, sentei-me com ela e expliquei o que aconteceu à mana. Ela reagiu bem, ficou calma apenas nos perguntou se ia continuar a ser só ela na nossa vida e nós respondemos que sim e demos um abraço. 

Estivemos 1 semana a espera que liberassem o corpo da Benedita, e o dia do funeral chegou. Decidimos cremar a nossa filha, e lembro-me que ao chegar ao crematório havia uma placa que dizia “Filho de Soraia Carvalho”, foi aí que tudo se tornou ainda mais real. 

Demos a mão e entrámos, quando eu vi aquele caixão pequenino, não consegui conter-me e chorei compulsivamente. Foi um ambiente muito pesado, foi muito complicado, mas as nossas famílias estiveram sempre lá para nós. 

Aos poucos fui aprendendo a lidar com a nossa dor, a gerir os meus sentimentos. Descobri da pior forma, que o luto é um caminho longo e solitário. 

Hoje com o coração mais calmo, fiz as pazes com a vida, porque tal e qual como comecei a nossa história, deixar ir é um ato de amor. E assim foi.

Enquanto mãe, vivi o dia mais feliz da minha vida, e o mais triste também. Mas Hoje, Inicio um novo ciclo, e tu querida Benedita vais sempre fazer parte da história da minha há vida. 

Querida Benedita, espero que estejas em paz. Lembro-me de ti todos os dias. 

Com amor, Mãe.

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Decidimos parar de tomar a pílula. Estávamos preparados para dar início à aventura da nossa vida.

Fiz um teste de gravidez. Minto. Fiz dois.

Um tradicional que me indicou dois traços bem fortes e um digital que me indicou que estaria grávida há mais de três semanas.
Fiquei nervosa, mas feliz.

Há algum tempo que sentia algumas cólicas.
Completamente suportáveis e do que já tinha lido, um sintoma comum de uma gravidez inicial. 

Para descargo de consciência, vamos marcar consulta o mais rapidamente possível para saber se está tudo bem e podermos respirar de alívio e sermos felizes por inteiro.
Consegui consulta dois dias depois.
“Não vejo nada no útero. Desconfio que esteja noutra cavidade..”
Já tinha lido sobre gravidez ectópica.
Naquele momento caiu-me o mundo. Não podia ser.
Não me podia estar a acontecer a mim.

Uma mulher saudável, de 29 anos, primeira gravidez. E agora? 
Fui para a urgência do hospital.

Tinha de ser novamente examinada para perceber a situação e a “solução”.
Gravidez tubária.
O embrião, o feto, o nosso bebé, a nossa sementinha de 5 semanas e 7 dias tinha-se alojado na minha trompa esquerda. Cresceu e fez com que houvesse uma ruptura.
“Coágulos, coágulos. Ela tem a barriga cheia de sangue”
Comecei a entrar em pânico.
Entrei na urgência por volta das 17:00, às 19:00 estava a vestir uma bata, a assinar um termo de responsabilidade e a saber que ia para cirurgia (pela primeira vez na minha vida), sem saber qual seria o desfecho. Sozinha (Covid).

Deixei de ver e comecei a desfalecer. Que medo avassalador.
O meu bebé foi sacrificado por não ser uma gravidez viável sendo ectópica e a minha trompa retirada.

Os meses vão passando, a vida lá fora segue, as pessoas deixam de perguntar como estás e ali estás tu, perdida na tua própria dor a tentar encontrar um porquê que não existe. 

Em recuperação, já em casa, abria as redes sociais e era o raro o dia que não dava de caras com o anúncio de uma gravidez. O meu coração ficava do tamanho de uma ervilha.
Desde sempre que imaginavamos cenários na nossa cabeça de como iríamos contar à família e amigos. Meses depois uma amiga foi mãe.
Chorei, chorei, chorei. Sentia uma angústia… Estava feliz por ela mas também tinha inveja.

Chorava porque não queria estar a sentir aquilo mas não conseguia controlar.

Os meses vão passando, a vida lá fora segue, as pessoas deixam de perguntar como estás e ali estás tu, perdida na tua própria dor a tentar encontrar um porquê que não existe. 
Dava por mim a pensar que apesar de no sítio errado, o meu filho estava a crescer, saudável e que não era justo.
Via mulheres que perdiam os filhos a meio, ou mesmo no fim de uma gestação e perguntava-me se era justo sentir-me assim, com uma gravidez de cinco semanas.
Sentia que não me podia comparar. Que a dor seria muito maior e que a minha comparando não era nada.

Mas, agora consigo, com plena lucidez mental, perceber que não se comparam dores. 
Não há dores maiores ou mais pequenas. 
Esta dor foi e é a minha. 
É o meu luto.

Cinco meses depois, após uma salpingectomia unilateral, estou com fé que o universo me vai permitir ser mãe e não me fará passar por tamanha dor novamente. 
Tenho medo. 
Mas o sonho de ser mãe é maior.

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Perda precoce Testemunhos Testemunhos Perda Precoce

Tenho 43 anos e uma filha com 21 anos e disse sempre que não queria mais filhos; pelo o parto ter sido complicado e por vários motivos pessoais.

Com os anos, fui sentido de novo essa vontade. Por várias razões, foi-se adiando, até que este verão, a 26 de Agosto, estava de férias, após um grande atraso menstrual – pensando eu que seria mais um atraso ou talvez uma pré-menopausa-, fiz um teste rápido que deu positivo.

Passado estes anos todos, fiquei super feliz! Apressei-me em marcar consulta para fazer avaliação, uma vez que segundo as minhas contas, estaria de 7 semanas.

No dia 06/09 fui à primeira consulta um pouco apreensiva mas feliz, a minha obstetra segue-me desde os 18 anos, é uma excelente profissional em quem confio plenamente. Ao iniciar a eco transvaginal começou por explicar o que via e, de repente, um silêncio. Rapidamente entendi que algo não estaria bem… Disse que tinha dúvidas e não conseguia confirmar se estava tudo bem, teríamos de repetir a eco uma semana depois porque ou não estava de tantas semanas ou a gravidez não estava a evoluir. Fiquei sem chão, pensando e mentalizando-me para o pior. Passei uma semana super angustiada.

No dia 13/09, como combinado, la estávamos nós para repetir a eco. Mantiveram-se as dúvidas mas disse-nos para não ter esperanças porque achava que não estava a evoluir. Agendamos para dia 15/09 eco com colega para segunda opinião e nova avaliação. Mais uma vez fiquei com o coração nas mãos e mentalizei-me para o pior… No dia 15/09 lá estávamos nós, à hora combinada, e confirma-se o que ninguém quer ouvir: não há batimento cardíaco, segue-se o diagnóstico de aborto retido às 6 semanas e 2 dias.

após tantos anos perdi o meu 2° filho. Sentimento de revolta, raiva e a questão mas porquê?

Parecia que estava em piloto automático, dirigimos-nos à receção para efetuar o pagamento e agendar a consulta de avaliação. Ao sair da clínica desabei, estava confirmado, após tantos anos perdi o meu 2° filho. Sentimento de revolta, raiva e a questão porquê ao fim de tantos anos?

Conforme indicações, iríamos aguardar uma semana para ver se o corpo fazia a rejeição. Já estava com algumas cólicas, mas o processo desencadeaou-se na noite de 17/09/2022 para 18/09/2022 com cólicas e perdas de sangue. O pior aconteceu às 7h00 da manhã de dia 19/09/2022, senti cólicas fortes e perdas, fui rapidamente à casa de banho mas não cheguei a tempo… caiu o saco gestacional com o embrião para o meu penso. Fiquei sem chão: estava ali o meu bebé e fiquei sem ele…

Sei que para as pessoas à nossa volta também não é fácil ajudar, uma vez que nós é que passamos físicamente e psicologicamente por este processo todo, mas senti-me desesperada, sem chão. Seguiram-se quase duas semanas completas com perdas de sangue e dores devido às contrações do útero. Sentia-me um caco, sem vontade de fazer nada, e em alguns períodos do dia muito triste e chorosa. No dia 27/09/2022 fui à consulta de avaliação, após eco transvaginal, estava quase tudo “limpo” só faltavam alguns coágulos, o processo tinha decorrido naturalmente, sem medicação e sem curetragem. Sentia-me muito cansada, foi me prescrito ferro e ácido folico para 20 dias com recomendação para descansar e recuperar ao meu ritmo.

Jà decorreram quase 3 semanas após o aborto, começo a sentir-me melhor fisicamente mas psicologicamente tenho alturas de tristeza e muio choro… Encontro-me ainda de baixa, irei retomar a minha atividade dia 17/10 espero estar com forças para regressar à minha vida.

Queria partilhar o meu testemunho porque acho que pode ajudar outras pessoas a passarem pela mesma situação. Acabei por me sentir sozinha nesta bolha de felicidade porque no meu caso, o meu marido e a minha filha, não reagiram muito bem à notícia da gravidez, ficaram os 2 em estado de choque não estavam à espera ao fim de tantos anos,e por opção, não divulgamos que estava grávida até confirmar que estaria tudo bem.

Após o diagnóstico, têm sido incansáveis até porque acho que se sentem impotentes face a este sofrimento, e os homens na minha opinião não demonstram tanto as suas emoções. 

Quero dizer que o facto de nos dizerem “ainda bem que foi cedo se fosse mais tarde era pior” ou “não foi é porque não tinha de ser” não ajuda, sei que a intenção é boa, mas para quem está em sofrimento só nos deixa mais um sentimento de tristeza . Por vezes é suficiente uma mão dada, um abraço, “estou aqui se precisares de alguma coisa” ou simplesmente “como estás?”. Cada pessoa tem de viver a dor à sua maneira, e a partir do momento em que há um teste positivo, estamos a gerar o nosso filho, é uma perda e há que fazer o luto.

Perdi o meu segundo filho e vai permanecer em mim para sempre… 

Desejo força para todas as pessoas que como eu passem por uma perda. E espero em breve conseguir seguir o meu caminho e voltar à minha vida embora sempre com o coração apertado porque é uma situação muito difícil.

Resta-me agradecer o apoio de todos os nossos próximos que têm sido incansáveis e me têm dado forças para seguir, sem eles seria impossível. 

O nascimento seria no mês de abril de 2023, impossível não pensar em datas. 

Um beijinho e força a todas.

À minha estrelinha: estarás para sempre no meu coração.

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Testemunhos Testemunhos Perda Neonatal

No dia 5 de Outubro, é o 3° aniversário do Francisco, o nosso anjinho…

Nunca pensei dizer isto, mas com o passar do tempo, lembro-me mais dele e de tudo o que passei. Não sei se é normal, mas o chegar do dia deixa-me bastante triste.

Quando a 12 de Setembro fui fazer a 2ª ecografia morfológica fetal tudo mudou na minha vida. Saí de lá, com a sensação que a gravidez não iria durar muito.

A médica detetou um crescimento no bebé pouco desenvolvido para o tempo em que estava. Mas, para piorar a situação, tive uma pré-eclâmpsia, que me levou ao hospital algumas vezes.

Apesar dos avisos do médico, não aceitei ficar internada por ter uma filha pequena e o marido a trabalhar no estrangeiro. Chegou a uma altura em que não aguentei mais e tive mesmo de ser transferida para o hospital de Braga e, no dia a seguir, a cesariana foi feita por me encontrar bastante mal.

O Francisco sobreviveu dois dias. Não o vi, apenas os meus pais.

Ainda não me arrependi da decisão mas, de qualquer forma, estava bastante debilitada para o fazer, pois estive nos cuidados intermédios a recuperar.

Não é fácil passar por uma situação destas, porque temos de registar um filho que não está nos nossos braços, temos de o enterrar, como se já fizesse parte das nossas vidas há muito tempo e temos de lidar com as pessoas que nos rodeiam…Principalmente, temos de saber lidar com a nossa dor…Essa, que nunca irá passar…

Dedicado a ti, Francisco.

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Tinha acabado de me mudar com o meu namorado quando descobri a gravidez em 2020. Foram passando as semanas e descobrimos ser uma menina, a nossa princesa, que na altura não foi buscada mas logo que nós soubemos da existência dela foi muito amada.

Poucas semanas depois, vieram as dores e fiquei internada no hospital. Passado uma semana recebo a notícia de que a minha bebé morreu; não tinha batimentos dentro de mim aos 4 meses. O meu estado de saúde agravou-se e levaram-me para o bloco para realizar uma curetagem… 2 dias de UCI sem dizerem nada ao meu namorado.

Lá consegui conversar com ele e passamos por momentos de muito sofrimento após a perda da nossa menina.

6 meses depois lá estava eu, grávida outra vez mas, infelizmente, às 5 semanas descobrimos uma gravidez anembrionária.

5 meses depois voltamos a tentar e, pela 3ª vez ,dizíamos adeus ao nosso anjinho. Mas como Deus tem um propósito nas nossas vidas e ele não faz as coisas por acaso, passadas 5 semanas engravidei novamente…

Só descobri essa gravidez às 22 semanas e tive todo o cuidado do mundo. Hoje tenho o meu bebé arco-íris nos meus braços, já com os seus 3 meses. As enfermeiras e auxiliares, que acompanharam a minha primeira perda, foram as que estiveram ao meu lado, no parto do meu bebé, aquelas foram realmente anjos que Deus colocou na minha vida e sei que a minha história é uma história de superação e que nunca podemos desistir dos nossos sonhos.

O meu era ser mãe e consegui.

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Partilho a minha história com esperança de confortar algum coração que tenha passado pela mesma situação…
Fizemos a ecografia morfológica onde detetamos que a nossa bebé tinha mal formações e, por isso, tivemos que fazer uma interrupção da gravidez.

Na altura não estava bem a perceber tudo o que estava a acontecer mas hoje sei que foi a decisão certa, uma vez que o problema detetado era incompatível com a vida à nascença. Ia ser só o arrastar de uma coisa que sabíamos que ia acontecer…ficar sem ela..

Fiz o meu luto, procurei saber as razões pela qual aconteceu tudo e quais as possibilidades de voltar a acontecer..
É uma ferida que carrego comigo, vai estar comigo para sempre, mas que aprendi a viver com ela.

Hoje estou grávida novamente , numa fase muito inicial e a viver tudo de uma forma completamente diferente…

Valorizo tanto cada dia que passa!
Tenho o maior desejo que corra tudo bem mas sei que está tudo nas mãos de Deus… Tenho o coração tranquilo e o que tiver de ser, será.

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Faz-me todo o sentido enviar esta mensagem hoje, 18 de Setembro, dia que faz precisamente 2 meses que fiz a intervenção cirúrgica mais difícil da minha vida: a da interrupção seletiva de um dos meus gémeos.


No nosso caso, após a transferência de um embrião, ele dividiu, fomos surpreendidos com o facto do Universo nos dar em dobro o nosso maior desejo, mas, rapidamente, percebemos que esse segundo feto não estava bem: tinha vários problemas. O mundo caiu, foram semanas de ansiedade, porque não era totalmente garantido que o gémeo saudável conseguisse ultrapassar essa intervenção.

Não duvidamos por um momento que era o que tinha que ser feito: foi um ato de amor por ele que não tinha condições fora do útero, mas ainda não compreendemos o porquê de nos ter acontecido.

O nosso bebé surpresa tinha um nome, é o Gonçalo. Não há um dia que não me lembre dele e irei vê-lo para sempre no irmão.

Espero que ele saiba que o que fizemos foi por bem, foi por amor e que nunca o iremos esquecer.

Quero acreditar que um dia ele voltará para nós.

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No dia 7 de Dezembro fui ao hospital fazer um exame regular do papanicolau e a enfermeira perguntou-me, antes de fazer o exame, se eu poderia estar grávida. Nós tínhamos tentado umas vezes e o meu período não tinha vindo no mês passado, mas eu tinha feito um teste em casa e era negativo. Ela pediu-me para fazer outro teste antes do exame “just in case”. Eu aceitei sabendo que o resultado seria negativo. 15 minutos depois o resultado mostrou ser positivo e eu fiquei em choque.

Era um bebé planeado e desejado mas, sendo a primeira gravidez, há sempre aquele misto de felicidade, medo, expectativa, euforia.

Eu estava grávida de 6 semanas e, até às 21 semanas, nunca houve nada de errado com exames. Apenas queríamos que o bebé fosse saudável e não queríamos saber o sexo do bebé até ao parto. O meu exame dos cromossomas das 12 semanas revelou que eu tinha apenas 1 chance em 9000 em o bebé ter trissomia 21 ou Síndrome de Edwards. No exame de morfologia, em Março, confirmou-se que o nosso bebé era esse caso em 9000.

A 9 de Março de 2021, tive a consulta de morfologia com um scan que revelou que o bebé tinha um  “buraco” no coração e lábio leporino. Levaram-nos para um quarto pequeno, onde só havia um sofá, uma mesinha com lenços de papel, ao que o meu parceiro disse logo “este é o quarto das más notícias” e até ouvir da boca da enfermeira eu não queria acreditar. Pediram-nos para voltar outra vez na sexta 12 de Março para um teste com uma especialista de problemas cardiovasculares de bebés dentro da barriga. Nesse exame, ligaram o som do coração pela primeira vez e, porque o foco da consulta era perceber o que se passava com o coração, não me avisaram que iam ligar o som que eu nunca tinha ouvido. Foi a primeira e última vez que o ouvi. Depois da consulta e outra vez numa sala de más notícias, a médica explicou-nos que o problema com o coração por si só não era raro, mas associado ao lábio leporino, céu da boca rasgado e algo anormal no cérebro, o diagnóstico não era animador.  

Foram-me dadas 3 escolhas:

  • 1) espero mais umas semanas e faço o exame da amniocentese para saber mais sobre este diagnóstico;
  • 2) Levo a gravidez até ao fim e o bebé pode ou não sobreviver ao parto mas se sobreviver, certamente vai ter uma qualidade e esperança de vida muito limitada;
  • 3) termino a gravidez imediatamente com ajuda médica.

Foi a decisão mais rápida e mais difícil que tomei na minha vida. Os dias que se seguiram foram uma espécie de pesadelo. Naquela sexta feira tomei o primeiro comprimido para parar as hormonas da gravidez e no domingo dei entrada no hospital às 4 da tarde. Às 7 da tarde tomei o primeiro comprimido de 5 para provocar o parto e, durante horas, estive numa luta com o meu corpo porque este teimava em dizer à ciência que não era a hora.

A Rita Leonor nasceu as 12h30pm no dia 15 de Março e não sobreviveu ao parto, como era de esperar. Ficamos a saber que tínhamos uma filha e como não tínhamos preparado nada, nem nome, decidimos na hora dar-lhe o nome das nossas avós que já tinham falecido. Felizmente, há gente maravilhosa neste mundo, e as parteiras foram anjos e trouxeram cobertores e roupas que outros anjos tinham tricotado para famílias nesta situação impensável. Eu não queria ver a bebé inicialmente mas ainda bem que tive um momento de clareza e tivemos o nosso tempo para segurar a bebé e estarmos com ela sozinhos. Mostramos-lhe a nossa música favorita, tiramos fotos e dissemos adeus.

De volta a casa de braços vazios, foi tempo de recuperar e esperar pela notícia que o corpo estava preparado para o funeral depois de todos os exames feitos. O funeral foi dia 1 de Abril com apenas o meu parceiro e os pais dele. Seguiram-se meses de espera para o resultado dos exames e a confirmação de que a Rita Leonor tinha a síndrome de Edwards e que não sobreviveria ao parto. Seguiram-se meses de incerteza na relação, um luto tão diferente para mim e o meu parceiro, um abismo que se abriu entre os dois e que só o diálogo e a paciência cimentou a ponte entre os dois e reduziu a distância.

Hoje, ano e meio depois, estou grávida de novo, mas sem a expectativa da primeira vez. Há uma cautela enorme, um quase não querer sequer falar sobre para não “agoirar” ou não me apegar a este sonho de novo.

Esperamos ansiosamente pela ecografia das 20 semanas para podermos respirar sabendo que nada, nunca nada é garantido. 

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

O meu nome é Flávia e realizei uma interrupção médica da gravidez a 17 de Novembro de 2017 por uma má formação. 

Foi diagnosticada uma deficiência congénita em ambos os membros superiores, designada por mão torta radial nível 4, ou seja, o grau pior pois os ossos não formaram: os ossos que iriam sustentar os polegares de ambas as mãos simplesmente não existiam.

Às 18 semanas de gravidez, na ecografia que descobri que era um rapaz, também descobri que teria uma deficiência para o resto da vida. Ir ao céu e ao inferno em poucos segundos é bem possível e foi o que vivenciei naquela sala.

Consultamos um dos melhores ortopedista pediátricos que foi muito claro: se nascer, irá passar a vida em cirurgias e nunca poderá ser autónomo.

Naquela altura eu só não queria ser responsável por colocar um filho num mundo tão mal preparado para aceitar pessoas com deficiências e, muito menos, ver sofrimento nos olhos de um filho um dia mais tarde.

Ao pesquisar sobre interrupção médica da gravidez, a única coisa que aparece é procedimentos legais e muito poucas mulheres a falarem realmente o que acontece ou o que sentiram. 

Na altura foi muito doloroso e o hábito de olhar para a barriga parou. O hábito de estar sempre a tocar e tentar perceber onde estava dentro da barriga passou a não se fazer. Os espelhos, de um momento para o outro, tornaram-se objectos dolorosos, tomar banho virou um sofrimento e o trocar de roupa fazia-se sem olhar para baixo. Doeu perceber que os gestos que me traziam felicidade passaram a ser sofrimento. E quando tinha que sair à rua e, aleatóriamente, deparava-me com grávidas e bebés, fazia com que as lágrimas começassem a escorrer do nada, de forma automática. O isolamento era cada vez maior, dentro da minha própria casa. 

Tomar a decisão e assinar aquele papel a dizer que queria interromper a gravidez naquela altura era como se tivesse a assinar um papel para matar o meu filho. E o período de reflexão que é obrigatório foi terrível. Até hoje a pergunta mantém-se: será que foi o certo?! 

Os olhares de pena dos médicos e dos auxiliares, em conjunto com as palavras “muita força” ou “vocês ainda são novos”, eram ouvidos com um misto de compreensão e raiva ao mesmo tempo, se é que isso é possível, mas com um sentimento de gratidão por cada uma das pessoas envolvidas no processo, claro. Os três comprimidos para parar o processo hormonal da gravidez foram tomados e cada um que tomava, naquele consultório, sentia um pontada no coração e uma parte de mim morria ali. Era o início do luto de alguém que estava dentro de mim. 

Até hoje a pergunta mantém-se: será que foi o certo?

O procedimento era ter um parto normal, de forma a possibilitar ter filhos futuramente e, fazendo juz a um parto normal, o meu durou 25 horas com a diferença que o meu filho já nasceu sem vida. Não há nada que doa mais do que ver um filho nascer sem vida e ainda em fase de desenvolvimento. Doeu ver, doeu sentir.

Passar pela dor física e psicológica de provocar um parto a uma mulher que não vai ter o seu filho vivo é das sensações mais dolorosas que se pode passar. Deveria haver um método mais rápido e que não doesse tanto. Chorei, chorei muito, apenas não queria que fosse assim ou não era suposto ser assim.

Na manhã seguinte a ser internada, tive a visita de um médico que deu ordem para me darem um antibiótico para acelerar o processo pois já chegava de sofrer….e acelerou! 

E, sem epidurais nem qualquer outra anestesia, pois só tivemos tempo de chamar a enfermeira, o meu filho nasceu, morto, às 12h45 do dia 17 de Novembro de 2017, no quarto 412 do hospital do SAMS e o pior de tudo foi vê-lo.

Doeu todo o processo, desde a descoberta até sair do hospital sem o meu filho nos braços e dói, até hoje, e acho que irá doer sempre! É um buraco no coração e na alma que nunca mais ficará sarado. Uma mãe nunca deveria perder um filho pois esse acontecimento modifica-te para sempre.

Hoje, passados 5 anos, quando fecho os olhos, é como se tivesse sido ontem e acho que irá perdurar até ao resto da minha vida. Felizmente já tive o meu bebé arco-íris saudável, mas foi uma gravidez vivida com muito medo de ouvir uma notícia terrível. Graças a Deus nasceu um bebé forte e saudável, que já conta com 19 meses e, neste momento, estou à espera de outro menino que ainda está a fermentar na barriga, que já conta com 33 semanas. O incrível, ou talvez não, é que irá nascer exactamente no mês que eu perdi o meu primeiro filho; Novembro. 

E sim, digo a todas as pessoas que sou mãe de três filhos, um deles é um anjo que está no céu a olhar pelos irmãos 

Partilho o meu testemunho porque acho muito importante falar, e aconselho a todas as mulheres que perdem os seus bebés que falem e procurem ajuda – eu não o fiz na altura,por achar que iria conseguir lidar com a situação, e existem feridas que se mantêm abertas até hoje por causa disso. 

Obrigada pela oportunidade de dar o meu testemunho.

Um grande beijo,

Flávia

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No dia 1 de janeiro de 2022 tivemos os taão aguardados 2 risquinhos no teste de gravidez e a partir daí aconteceu magia todos os dias. Foi uma gravidez santa sem enjoos, sem cansaço, sem mau humor. Todos os dias eram uma benção, sentia-me feliz e mais bonita do que nunca. A barriga crescia todos os dias e fez-se notar desde muito cedo.

Depois de um domingo de Páscoa feliz, em família, onde completamos 20 semanas, seguiu-se uma noite com algumas contrações mas consegui adormecer de novo. 

De manhã estava a perder sangue e corremos para o hospital. Em menos de nada disseram que estava em trabalho de parto e que a prioridade era salvar a mãe.

Estupefactos e assustados com tudo o que estávamos a viver, parecia que aquela realidade não era a nossa. Mas foi.

Durante 10 dias ficámos internados com um diagnóstico de insuficiência istmo cervical, repouso absoluto da mãe, mas o filho nunca se mexeu tanto como até então. Sentia o nosso pequeno a toda a hora e cada vez que punham o doppler era rápido para ouvir aquele galopar cheio de vida daquele coração perfeito.

Todos os dias naquele hospital foram um desafio. Todos os dias me diziam que o diagnóstico era grave, que não havia nada a fazer e que ele acabaria por nascer e não seria possível salvá-lo antes das 24 semanas. Depois disso também seria difícil. 

Todos os dias o discurso dos médicos era desanimador e todos os dias me incentivavam a pôr de pé para acelerar o processo. Ora, com um filho perfeito no ventre e a senti-lo mexer e a reagir ao meu toque, como seria capaz de apressar o processo?

Não estava em negação. Sentia que, infelizmente, não o teria ao peito como sempre tinha imaginado e não o iria ver crescer saudável e feliz como tanto pedi. Daí a apressar o seu nascimento é muito diferente.

Apesar dos desafios todos os dias tive o apoio incansável do pai do meu filho, no meio da tempestade conseguimos mantermo-nos mais unidos que nunca e durante as 2h/3h da visita não haviam tristezas. Jogávamos às cartas, ríamos e comíamos tranquilamente. Ficávamos os três, em família.

No dia 28/04 acordei com contrações e na eco vimos que ele já estava encaixado para nascer. Passamos para o bloco de partos.

Passamos lá o dia, tranquilos, a jogar cartas e a conversar. Não queríamos que o último dia dele connosco fosse de tristeza. E não foi. Estávamos e estamos felizes e muito, muito gratos por termos tido o nosso anjinho connosco durante toda a gravidez. Ele tornou o nosso sonho realidade e fez de mim uma mulher empoderada durante todo aquele tempo. 

O amor que lhe temos é tão, tão grande e a felicidade que ele nos deu é tanta que nós não podemos ficar só tristes.

Ao final daquele dia 28/04, depois de um parto natural, conhecemos o nosso filho.

O nosso Duarte veio ao mundo com 28cm, às 22 semanas e era lindo, lindo! O nosso bebé era parecido connosco e todas as suas feições eram de uma perfeição como nunca tinha visto. Apesar das 22 semanas, o nosso valentão apertou os dedos aos papás, reagiu ao nosso toque e colocou-se numa posição que parecia estar em paz. E nós também ficamos. A mãozinha esquerda ficou amarrada ao cordão, talvez a forma dele mostrar que vai ficar sempre ligado a nós.

Depois deste encontro mágico de amor, seguiram-se hemorragias horríveis, anemia, novo internamento e um sangramento que durou 3 meses.

Tudo isto aconteceu na primeira metade de 2022. Ainda assim não consigo olhar para este ano de outra forma que não seja com amor e gratidão. Apesar de não termos o nosso Duartinho ao colo, ele está connosco em tudo o que fazemos. Vai ser sempre nosso e nós sempre dele. 

Quando falo sobre o meu filho só consigo sentir amor. Só consigo sentir alegria por ter tido oportunidade de o gerar e de o conhecer. Tirei-lhe uma fotografia e já fiz um álbum, já fiz uns cinco retratos com artistas diferentes.

A perda dói. Dói a saudade, dói não conseguirmos expressar e dar-lhe todo o amor que lhe temos, dói não o vermos crescer. Ainda assim é possível sentirmos amor na perda. O amor que lhe temos é tão, tão grande e a felicidade que ele nos deu é tanta que nós não podemos ficar só tristes.

Somos pais dele, seremos sempre. Ninguém nos tira tudo de bom que vivemos naqueles meses. Ninguém nos tira o encontro mágico que vivemos quando o vimos.

É assim que o quero recordar. Com alegria e amor. É tudo o que tenho e tudo o que lhe queria dar se cá estivesse.