Categorias
Perda gestacional Pós-Perda

Qualquer gravidez requer alguma preparação por parte dos pais. Acima de tudo, esta serve para assegurar que tudo o que está sob o nosso controlo e que vai correr bem. Sobretudo, após uma perda, este sentimento torna-se, ainda mais, acentuado. Afinal, uma perda é algo que não se controla e, por isso, é natural que se queira fazer o possível e impossível para dar a uma futura gravidez as melhores probabilidades possíveis. A isto, chamamos de pré-conceção consciente.

Deste modo, disponibilizamos algumas dicas para estar o mais preparada possível.

Pré-concepção consciente: Alimentação e nutrição

Uma alimentação equilibrada, por parte dos progenitores, contribui para a fertilidade do casal, tal como oferece os nutrientes que a mãe necessita em quantidades suficientes para ela e o bebé. A sua dieta pode afetar o desenvolvimento físico e neurológico do bebé.

Entre as vitaminas a incluir na sua dieta estão, por exemplo, o Ácido Fólico, Vitaminha D e Vitamina B12.

Por exemplo, o zinco atua no sistema imunológico e o cálcio, na divisão celular. Já nutrientes como ácido fólico, ómega 3 e vitamina B12 influenciam diretamente a formação do sistema nervoso do bebé.

Pré-concepção consciente: Exercício Físico

Durante uma gravidez, existem múltiplas transformações no corpo da mulher: a nível hormonal, mudanças anatómicas e cardiovasculares, aumento de peso e outras que podem afetar o seu sistema. O exercício durante a gravidez (exceto em casos em que há contraindicações) é recomendado e influencia como se sente com o seu corpo e até afetar a forma como experiencia o parto. Em Portugal, empresas como a Bebé e Barriguitas, focam-se no exercício físico para mamãs e preparam-nas para o parto (além de as acompanhar durante o pós-parto também).

Pré-concepção consciente: Pediatria pré-natal e obstetrícia

Muitas mulheres já terão o seu ginecologista/obstetra antes da gravidez, mas caso não tenham, e especialmente depois de uma perda, é aconselhável que procure apoio adicional que a possa tranquilizar durante a gestação.

Em relação à pediatria pré-natal, este é o primeiro passo no estabelecimento da relação entre os pais e o médico. O pediatra pode iniciar a família na sua função de pais para que estes possam responder adequadamente às necessidades e comportamento do bebé.

Aconselha-se que a primeira consulta ocorra algures depois das 30 semanas, mas pode começar mais cedo ou mais tarde se assim o desejar.

Estilo de vida

Factores que poderão afetar a sua gravidez:

  • Excesso de peso
  • Excesso de cafeína
  • Consumo de alcool, de drogas e tabaco
  • Medicação que está a tomar
  • Entre outras

Uma gravidez após uma perda é mentalmente difícil. Procure ajuda se precisar.

Apoio Psicológico

Voltar a pensar em recomeçar e voltar a tentar, pode ser muito díficil mentalmente. Assim, pode ser necessário apoio psicológico como acompanhamento por um profissional de saúde ou de uma doula. Apesar de estas áreas serem diferentes, são complementares ao bem estar dos pais.

Pode procurar ajuda aqui.

Importante: Por favor tenha em conta que, apesar da informação presente neste artigo ir de encontro às recomendações de médicos de família e profissionais de saúde, esta não substitui o apoio qualificado. Consulte sempre o seu médico de família e/ou obstetra e outros profissionais que o irão aconselhar de acordo com as suas necessidades.

Talvez queira ler também

Categorias
Perda tardia Testemunhos

Depois de 2 anos a tentar engravidar, e já em consultas de PMA (infertilidade), engravidei naturalmente. Soubemos em Novembro de 2020, estávamos mega felizes…

Tudo correu bem até à segunda ecografia, em que a médica me diz (devido à pandemia, estava sozinha) que o bebé tinha uma malformação muito grave…

Mandou entrar o meu marido, também lhe explicou o que passava, e marcou-nos consulta para uns dias mais tarde, onde iríamos decidir o que fazer. Disse-nos para até lá irmos pensando.

Ficamos completamente desnorteados, o mundo caiu-nos em cima.  Tínhamos em mãos a pior das decisões para tomar, tirar a vida ao nosso bebé, era um rapaz…depois da decisão, foram mais uns dias até fazer a interrupção, porque até nestas situações a burocracia impera, e esses só foram os piores dias da minha vida.

Era um bebé perfeito

Continuar a ter dentro de mim um bebé, que sabia ia ficar sem ele, um bebé com vida, que eu lhe ia tirar…

E no dia 14 de março de 2021, nasceu o nosso bebé sem vida, uma vida que fomos nós que decidimos terminar, mas que no fundo sabemos que foi o melhor.

Era um bebé perfeito (decidimos que o queríamos conhecer), não fosse ter “espinha bífida aberta”.

E no fim de tudo isto, fica uma dor enorme…. não há dia que não pense, não há dia que não me lembre, e tenho a certeza que será eternamente assim, porque não há maior dor, do que a de perder um filho…. 

Um beijinho do tamanho do mundo e um xi-coração apertado.

Categorias
Perda tardia Testemunhos

O meu nome é Vanessa tenho 31 anos e em 2020, no dia 20 de maio soube que estava grávida de 6 semanas.

Uma gravidez desejada, tudo super tranquilo até ao dia 19 de outubro já com 29 semanas…comecei a sentir umas picadas na barriga, um ligeiro corrimento com sangue; pensei logo que seria uma infeção urinária porque já tinha tido durante a gravidez.

Dirigi-me às urgências onde me foi dito que com o bebé estava tudo bem. Iríamos então fazer análises à urina e à urina acética (esta análise demoraria 2 dias até sair o resultado, até lá iria tomar progesterona. Assim foi. Fiz um CTG tudo normal.

O Afonso nasceu no dia 21 de Outubro às 23h45, um parto normal com uma equipa médica fantástica.

Dia 21 de outubro, mesmas dores mas mais fortes. Vou à consulta médica, só por precaução, quando a médica me diz “não há batimento cardíaco”… Nesse momento o mundo para, fico sem chão, sozinha no consultório.

Então a medica decide “vamos mudar de máquina pode ser uma avaria”… mas não era! O meu Afonso partiu e eu não consegui perceber quando ele deixou de se mexer. Já estava a entrar em trabalho de parto!

Na altura só pensei “e agora?!”. Lá fui para o hospital, nas urgências sozinha, só tive o meu namorado comigo às 17h30, dei entrada ao 12h30. Fui sujeita a todo o tipo de estudo_ amniocentese, análises, tudo!

O Afonso nasceu no dia 21 de outubro às 23h45, um parto normal com uma equipa médica fantástica. Não vi o meu filho porquem quando dei entrada no hospital, a médica disse-me “sente-se preparada para ver o seu filho, sabe que ele pode não ter uma aparência normal “… fiquei assustada e não vi. A médica disse isso porque o Afonso tinha a translucência da nuca um pouco elevada, mas fiz todos os exames e o meu bebé era normal.

Tenho alta no dia seguinte – se havia dia para saírem mães com ovinhos foi no dia que eu saí de colo vazio ainda em choque com o que nos aconteceu. Tinha tudo planeado, roupinhas e de repente a vida pregou-me uma partida.

Fizemos muitos exames morte inexplicada foi o resultado, e é isto que me dizem, sujeitei-me a tudo a nível de exames mas “a medicina ainda não está assim tão evoluída”.

Felizmente descobri o vosso blogue que tem sido uma grande ajuda a nível psicológico, porque sempre que vejo uma grávida, um bebé no ovinho pergunto-me quando será a minha vez.

E como fazemos tantos exames e ninguém vê que algo está errado com o bebé.

Espero que a minha história ajude quem também passou por uma perda.
Sou mãe de primeira viagem de um anjo que tenho a certeza me vai proteger 💙

Categorias
Testemunhos

Em janeiro de 2017 descobri que estava grávida! Sonhos, projetos, contar à família e aos amigos. Como sou uma pessoa super emocional e que sempre viveu intensamente o bom e o mau, estava para lá de feliz!

Passado duas semanas tive a minha primeira perda com apenas 6 semanas – uma gravidez molar. Senti um vazio como nunca poderia imaginar. Ia duas vezes por semana ao hospital para tirar sangue e ia a um médico ginecologista oncológico só para me dizer que o meu BetaHCG estava a descer.

Processo muito doloroso psicologicamente e que demorei muito para reagir, pois rodear-me de grávidas duas vezes por semana não é propriamente o que esperamos depois de passar por uma perda.

Despedi-me do meu trabalho, parei para respirar e passar pelo meu próprio processo à minha maneira, pois acredito que cada um tem o seu tempo e devemos respeitar.

Após um ano, a segunda perda ocorreu às 8 semanas. Pensava que nunca conseguiria parar de chorar, de lamentar e de perder a energia negativa e revolta que tinha com a vida.

Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Decidi um dia recorrer ao life coach que me deu ferramentas e um novo olhar para a vida – cuidar e gostar mais de mim, pensar menos no que os outros dizem e olhar para o quão forte fui durante a vida toda e o que consegui. Neste processo, tive de lidar com a depressão do meu marido e não foi fácil, mas nada é impossível…Muita resiliência, muito acreditar e muita força.  

Em janeiro de 2021 finalmente teste positivo – decidimos não contar a ninguém e viver numa bolha de amor, meditação e tranquilidade durante uma semana. Novo sangramento, nova perda.

Quando passas três vezes por isto, já vês as coisas de forma diferente mas sentes sempre o vazio. 
Neste processo aprendi que temos de nos amar a nós para darmos o nosso amor aos outros, que há coisas na vida que não podemos controlar e que devemos viver a vida no presente e agradecer o que ela nos dá.

Hoje já estamos em estudos genéticos a tentar encontrar respostas para as nossas perdas e continuamos a acreditar que um dia, quando tiver de ser, a vida nos vai trazer este amor fora do coração, como tantas mães descrevem.
Cair… respirar… recomeçar… amar… acreditar…


Com amor para todas, 
Sofia

Categorias
Testemunhos

Soube que estava grávida em Março, uma gravidez desejada e planeada, análises pré-natal feitas, apoio na nutricionista.

Marquei de imediato consulta obstetrícia e estava tudo bem. Às 8 semanas, lá fui eu para consulta de rotina, mas… Infelizmente o bebé não tinha batimentos cardíacos. Vi logo que algo não estava bem, o silêncio, o semblante da médica.
A equipa médica foi muito querida, explicaram tudo, talvez porque a médica já tinha passado pelo mesmo, ou, espero, porque as coisas estão a mudar.
Tinha um Aborto retido.

O pai não pôde entrar, ficou no carro e também ele foi apanhado de surpresa. Também ele tinha dúvidas que eu, por ser profissional de saúde, a custo fui explicando. Mas e quem não sabe? Quem não é da área? Senti um vazio tão grande…

(…) ajudaram -me com palavras que pareciam abraços.

Mas voltando ao aborto retido, optámos por esperar uma semana para ver se a expulsão acontecia naturalmente. Foi angustiante. Psicologicamente muito difícil. Difícil expressar por palavras. O corpo não colaborou, tomei os comprimidos.

Disse à médica que sou caso raro pois não tive dores físicas, só hemorragias (físicas e psicológicas). Um processo doloroso psicologicamente. Algo que ninguém está preparado.

Agradeço o apoio do meu marido, pais e, acima de tudo, de amigas que tinham passado pelo mesmo e que me ajudaram com palavras que pareciam abraços.
Abraços que nesta fase de pandemia fizeram muita falta.

Sou aromaterapeuta certificada, trabalho maioritariamente com grávidas, recém-mamãs e bebés. E nunca tinha pensado neste lado da maternidade.

Os óleos essenciais ajudaram -me a descansar um pouco melhor a nível emocional foram um grande complemento, juntamente com apoio psicológico.
Não sei se foi o destino, mas a partir de agora estou também disposta a ajudar outras mulheres que passem pelo mesmo. Se puder ajudar de alguma forma estou disponível.

Um bem-haja e grata pela página que ajudará muitas famílias e mulheres ❤

Categorias
Testemunhos

Assim como tantas mulheres, o desejo de ser mais, é algo que se tenta alcançar. Mas nem sempre as coisas correm da melhor forma e as marcas ficam para sempre gravadas na memória.

Em 2011 engravidei e às 6 semanas o coração do bebé deixou de bater.

Foi então que comecei um processo difícil de abortamento, segue-se um internamento muito doloroso fisicamente e psicologicamente. Depois deste sofrimento nem queria ouvir falar em engravidar porque as dores físicas e psicológicas estavam, e estiveram, presentes durante muito tempo.

Até que, ano de 2016, decidi que seria altura de voltar a engravidar. Logo engravidei e claro muito feliz mas mais uma vez (com cerca de 5 semanas) voltou aconteceu o mesmo. Desta vez o processo foi menos doloroso, no entanto o psicológico ficava novamente afetado.

Mesmo sendo um “feijăozinho”, a dor da perda é igual independente do tempo de gestação.

Pois bem, no mês a seguir numa consulta pós-abortamento, recebi a notícia que estava novamente grávida (como era possível estar grávida logo depois de ter abortado) e fiquei muito apreensiva, mas logicamente fiquei muito feliz.

Deixei de trabalhar por recomendação médica. Estava tudo a correr na normalidade até que novamente às 9 semanas tudo acontece, ou seja, comecei um novo processo de abortamento.

Fui hospitalizada e, mais uma vez, sofri imenso. As dores físicas e psicológicas foram com uma dimensão que não se consegue explicar. Nunca tive nenhum tipo de acompanhamento médico do foro psicológico e os profissionais desta área reagem e falam para nós como se fosse mais uma a perder um feto. Sim, porque como estamos a falar de abortamentos no primeiro trimestre; é impensável dizer-se que se trata de um bebé.

Até hoje é uma mágoa que guardo e que nunca irei esquecer.

Mesmo sendo um “feijăozinho”, a dor da perda é igual independente do tempo de gestação.

Hoje tenho dois meninos lindos. O primeiro nasceu em 2018 e o segundo nasceu este ano de 2021. Agradeço muito ter dois meninos (lindos e saudáveis) mas nunca irei esquecer o que passei e das marcas psicológicas que estão bem vincadas num passado muito presente.

Categorias
Testemunhos

Cada filho uma missão

Chamo-me Ivone. Acabo de fazer 45 anos. Nasci no Porto e vivi perto de Famalicão até ao fim da minha adolescência. Fui para a faculdade no Porto. Dali, migrei para a Itália como assistente Língua e aqui conheci o meu marido. Pensávamos que eu não podia ter filhos.

Estávamos a tentar há três anos e meio, e nada. Depois; o atraso, a ameaça de aborto, o colo do útero mais curto do que o devido.

Às 32 semanas, nasceu o Samuel.

Vi o meu menino depois de quatro longos dias e trouxe-o para casa depois de vinte. Fiquei com um grande trauma pela prematuridade do meu filho.

Tentei ajudar outras mães como eu. Criei um grupo, e percebi que a prematuridade pode ser vista como uma forma de luto. Agora, o Samuel tem 13 anos. Está bem, é saudável, mas ainda tenho essa cicatriz.

Quando o Samuel tinha seis anos, tive uma gravidez completa. O Gabriele Pio nasceu às 41 semanas, depois de um trabalho de parto de sonho. Romperam-me as membranas e disseram-me para me deitar. Os batimentos cardíacos subiram para 200 e caíram imediatamente para 45. Fizeram-me imediatamente a cesariana e o meu menino ganhou um lugar no céu.

Sempre o incluí como membro da nossa família. Nunca evitei falar dele, de o contar entre os meus filhos, e muitas pessoas reagem mal a isso. Tenho cinco fotografias dele que, para mim, são preciosas. Estão na minha carteira, na minha secretária em casa, no meu telefone, num medalhão, e não escondo nenhuma dessas coisas. Para mim não seria natural escondê-las.

O Gabriele faz parte de mim e estará sempre comigo. 

Depois de três anos, nasceu-me a Íris. Nasceu há nove meses quase certinhos e felizmente consegui amamentar. Teve um bocadinho de icterícia mas essa a nós faz-nos cócegas depois de tudo o que passámos.

A Íris tem quatro anos e conhece muito bem o irmão Gabriele. Fala dele sem medo e isso para nós é muito importante. A gravidez dela foi muito difícil. Fiz cesariana programada, porque estava aterrorizada. Normalmente digo que ela é a minha fadinha, porque trouxe outra vez a magia para a minha vida.

Agora tenho 45 anos. Está para fazer 8 anos que o céu tem um pedaço imenso do meu coração. E ainda dói.

O Samuel mostrou-me o que é a prematuridade e quanto pode ser precioso SABER que há outras pessoas que passaram ou passam pelo mesmo. O Gabriele mostrou-me como se ama com um céu de distância. A Íris ajudou-me a sentir-me outra vez viva. A magia existe, e para mim chama-se Irís. 

❤️
Categorias
Testemunhos

Venho partilhar com vocês a nossa história, uma história de 6 e de muito Amor! Eu, o meu marido, o meu filho do anterior casamento, os gémeos e a minha filha.

Tudo começou em Novembro de 2018, quando eu e o meu marido percebemos que algo estaria de errado,  mais de 1 ano tinha passado e nada de conseguir-mos engravidar. Foi aí que decidimos conversar com a minha Ginecologista, sobre a possibilidade de algo estar errado. A médica pôs em cima da mesa a possibilidade, e decidiu então avançar para os procedimentos normais de avaliação.

Dia 27 de Dezembro tivemos a confirmação de que havia sim um problema de infertilidade e expôs todas as hipóteses para nos ajudar a ser pais. Avançámos então para todos os procedimentos seguintes, necessários, para o tratamento. Sempre estivemos muito positivos e a levar o tratamento com imensa calma e… após todos os procedimentos, dia 14 de Abril temos a confirmação: estava grávida de Gémeos, transbordámos de felicidade, pois tínhamos conseguido engravidar e à primeira.

Tive gravidez de alto risco a partir das 9 semanas, porque tive um descolamento e foi a total felicidade até às 18 semanas.

Às 18 semanas tivemos a melhor e a pior notícia que podiamos ter, a melhor notícia foi que era um menino e uma menina um tão desejado casal, a pior notícia foi que, felizmente, estava tudo bem com o menino mas, infelizmente, a menina tinha um problema grave e a gravidez não era viável.

“diga à sua filha o quanto a ama, o quanto foi importante o tempo que esteve dentro de si, diga-lhe tudo agora”

Tive a reação mais fria e pragmática da minha vida, congelei, aquelas palavras eram como se não tivessem chegado ao coração. Quando saí do gabinete fui marcar normalmente a próxima Ecografia e, quando saí, o meu Mundo caiu; foi como se apenas naquela altura o cérebro tivesse passado a mensagem ao meu coração. Chorei, chorei muito agarrada ao meu marido, questionei a Deus o porquê.

Apenas depois nos apercebemos que não sabíamos então o que fazer, nem o que ia acontecer. Passados uns dias fomos à consulta, e aí foi-nos explicado os prodecimentos possíveis, na minha cabeça eu ia perder os dois, mas porquê se o meu filho estava bem.

Foi então que conheci um mundo que desconhecia e que depois apercebi-me que imensas mulheres passavam por ele e aí ainda me senti pior. Foi-me dada a possibilidade de fazer um Feticídio seletivo, ou seja, parar o coração da minha filha para a gravidez dela não avançar e a do meu filho continuar. Isto era possível porque estavam em bolsas separadas e porque a minha filha tinha um problema realmente grave e se não perdesse a vida durante a gravidez, iria ter imenso sofrimento até acontecer após o nascimento. Enquanto me explicavam tudo isto e de como era feito o prodecimento, na minha cabeça eu só tinha, que para ter um filho eu ia ter que parar o coração do outro e a minha cabeça bloqueou ali.

A lei em Portugal nestas situações de gémeos em bolsas separadas cujo segundo bebé está bem, só permite o feticídio seletivo às 32 semanas, ou seja, até lá tudo podia acontecer: eu podia inclusive perder os dois se a minha filha não sobrevivesse até às 32 semanas, podia até entrar em trabalho de parto antes das 32 semanas e eles iriam nascer. A minha filha iria nascer viva, ou não, e iria sofrer até acontecer o inevitável. Eu ia ter a minha filha dentro de mim a mexer, a interagir com o meu toque e a interagir com o irmão até lá, e eu sabia o que iria acontecer.

Foi uma gravidez de muito stress, medo, culpa, e tantas coisas mais à volta na minha cabeça, desde o primeiro dia que o hospital disponibilizou uma psicóloga para os dois. Nós iamos às consultas com ela, ajudou muito, a preparar-me para o dia em que eu ia parar o coração da minha filha.

O que eu fiz foi amor, foi por amor

O pior dia da minha vida tinha chegado, o dia em que fazia as 32 semanas. O dia que eu não queria. O dia em que eu perdi para sempre um pedaço de mim, o pior vazio que senti, e, ao mesmo tempo, no meio de tudo, tinha que estar capaz, com forças pelo meu menino que podia por causa do procedimento querer nascer, naquela altura ou nos dias seguintes.

Mas foi nesse dia que me foi enviada uma enfermeira que me acompanhou no antes, durante e pôs procedimento, um anjo de bata branca, deu-me uma força extraordinária; deu-me a mão antes do procedimento e disse-me ao ouvido “diga à sua filha o quanto a ama, o quanto foi importante o tempo que esteve dentro de si, diga-lhe tudo agora” e eu disse!! Foi tão bom!! Fez toda a diferença, hoje eu sei isso.

O meu sentimento de culpa desapareceu ali, o que eu fiz foi amor, foi por amor, e todo o amor que lhe dei durante 32 semanas ela retribui-me com mais amor.

1 ano depois nasceu a irmã, De forma natural engravidei e não tive medo na gravidez. Eu sabia que tinha uma estrelinha a proteger-nos a todos, e protege.

O irmão nasceu às 36 semanas, quis nascer exatamente no dia em que fazia 1 mês do procedimento, e a minha filha também nasceu.

Foi um misto de emoções o dia em que nasceram, a felicidade de finalmente conhecer e ter nos braços o meu filho, e o dia em que conheci e tive nos braços para lhe dizer mais uma vez o quanto a amava a minha filha. Sim eu quis ver e despedir-me do rosto da minha filha, a mesma enfermeira aconselhou-me a fazê-lo que era importante para o luto e foi sim, mais uma vez aquele anjo de bata branca me ajudou.

Ultrapassei com o passar dos dias; todos os dias tenho um momento em que me lembro como se fosse hoje. Para mim o dia em que perdi a minha filha foi em Novembro e o dia em que nasceu foi em Dezembro.

Foi uma corajosa aguentou com todas as forças até às 32 semanas pelo irmão, é o meu anjinho que quando perco um pouco as forças me lembra o que é a força e a coragem e me faz erguer.

A minha filha que 1 ano depois nasceu em Dezembro de 2020 foi o amor que a minha estrelinha me enviou.

Espero de alguma forma ajudar com o meu testemunho outras mulheres que estão a passar ou passaram pelo mesmo que eu, desconhecia mas são muitas, no dia em que fiz o procedimento lá estavam mais 2 casais a prepararem-se para o mesmo que eu, e eu fui o caminho a pensar porquê a mim e eles provavelmente a pensar o mesmo.

❤

️ Com amor.

Categorias
Ajuda prática Perda gestacional Perda tardia - Depois
explicar a perda de um bebé

A perda de um bebé pode ter um impacto profundo em toda a família. Terá impacto nas crianças que estavam à espera de um irmão(ã), sobrinha(o) ou primo(a). Igualmente na criança que sobreviveu de um par de gémeos ou até filhos que nascem depois do bebé ter morrido. Neste artigo, damos algumas dicas para explicar às crianças a perda de um bebé.

Apesar de estar dirigido aos pais, este artigo pode aplicar-se a outros familiares, professores e outras pessoas que possam apoiar a criança.

Explicar às crianças a perda de um bebé: dicas

Contar a alguém que um bebé morreu já pode ser bastante difícil. Contar a crianças pode ser especialmente complicado.

É desafiante escolher quando e qual informação dar e explicar o que aconteceu de forma a que a criança entenda. É também complexo passar a mensagem de que este fim não pode ser alterado.

Se não se achar capaz de contar aos seus filhos o que aconteceu, pode pedir a um familiar, como os avós, para o/a ajudar.

Esta pessoa poderá explicar o que aconteceu e o porquê de você estar triste e que, enquanto se estão a resolver as coisas, a criança terá de ficar com ela.

Se o seu bebé faleceu numa unidade neonatal, pode recorrer a um psicólogo ou terapeuta que o possa ajudar com isto.

Quando decidir partilhar a notícia com os seus filhos, é natural sentir-se ansiosa(o) e protetor(a). É importante que considere as idades e a sua capacidade de perceção.

As crianças podem reagir de forma diferente ao esperada – podem não lhe dar a atenção que acha que deveriam ou podem mostrar-se incrivelmente afectados. Ambas e tudo no entremeio é normal

É também fundamental que as crianças percebam que não há problema em chorar e que a(o) podem ver a chorar também.

Quando falar com eles, pode usar frases como “estamos tristes porque o nosso bebé morreu. Quando alguém morre, isso significa que nunca mais os vamos poder ver”. Pode também ser levado pelas questões das próprias crianças.

Pode querer incluir alguns detalhes como o sexo do bebé ou o nome. Assegure-os que podem perguntar mais quando quiserem.

Muitas vezes as crianças aceitam estas simples explicações sem grandes dúvidas e continuarem com as atividades em que se encontravam antes ou mudam imediatamente de assunto. Esta é uma reação normal.

Quando a perda é neonatal

E como explicar às crianças a perda de um bebé nos casos de perda neonatal?

Crianças pequenas que tenham visitado o bebé nas unidades neonatais poderiam estar sob a impressão que o bebé iria melhorar e vir para casa. Podem, portanto, ficar confusos e aflitos sem perceber porque é que este não foi o caso.

É possível que as suas rotinas tenham sido alteradas pelos longos períodos no hospital e desenvolvido uma relação com o bebé. É importante encorajá-los a falar sobre o que sentem e explicar-lhes o que aconteceu.

Algumas crianças gostam de saber sobre o funeral ou para onde vamos quando morremos. Crenças religiosas podem influenciar as suas respostas. Se não for o caso ou quiser manter o assunto mais neutro pode começar as suas respostas com “algumas pessoas acreditam…” ou simplesmente “não sabemos…” Para crianças mais novas, tente dar-lhes uma ideia do que vai acontecer no funeral. Relembre-os que o bebé não sente nada e não está em sofrimento – já que um funeral pode ser assustador.

como explicar às crianças a perda de um bebé

Uma forma de ajudar crianças mais novas a entender a morte é ler livros que abordam o tema de modo apropriado para a idade.

Ser honesto com as crianças

Mesmo pequenas, as crianças sentem quando algo está errado.

Se não lhes for dito o que está a contecer, isso pode assustá-los e fazê-los imaginar que eles são a razão da sua tristeza.

Por duro que pareça, uma linguagem simples e honesta é melhor do que frases que possam ter significados múltiplos.

Por exemplo, dizer que o bebé está a dormir podem soar confusas e pode preocupa-los sobre irem para a cama e não voltarem a acordar. Expressões como “perdemos o bebé” ou “ não está cá” podem levá-los a pensar que o bebé está só perdido ou vai voltar. Isso leva a uma esperança falsa sobre o estado do bebé e a possibilidade de ele poder acordar ou ser encontrado. Estas expressões podem também preocupar a criança sobre se o mesmo lhe poderá acontecer ou a si.

De igual forma, dizer que o bebé estava doente pode assustá-lo quando eles ficarem doentes.

Tal como os adultos, as crianças têm um vasto leque de emoções; estes podem aparecer em ordem aleatória. E, tal como os adultos, estes sentimentos podem ser conflituosos e complicados.

Sentimentos de revolta e culpa

As crianças têm sentimentos mistos sobre o novo irmão ou irmã. Uma criança que tenha sentido inveja durante a gravidez pode sentir-se culpada sobre a morte do bebé. Pode ser benéfico lembrá-lo que nada é culpa deles e nada que eles tenham feito ou pensado poderia mudar o que aconteceu.

Outras crianças podem sentir revolta contra o bebé ou até os pais. Poderão também temer que que outros chegados a si possam morrer também. Podem demonstrar também mais irritação do que o habitual a pais que estejam separados, especialmente se a mãe se encontrar criticamente doente ou tem de ficar no hospital.

Fatores de alerta no comportamento

Assim como os adultos, crianças, especialmente as mais novas, podem ter dificuldades em expressar os seus sentimentos. Procure mudanças no seu comportamento. Por exemplo, uma criança que já estava treinada para ir à casa de banho, podem querer voltar a fraldas ou recomeçar a molhar a cama. Poderão também tornar-se mais dependentes. Mudanças em rotinas de alimentação ou sono também devem ser notadas. Tente manter a rotina o mais normal possível e crie oportunidades para os seus filhos fazerem perguntas.

É comum para crianças expressarem os seus sentimentos através de brincadeira, pintura ou desenho. Isto poderá indicar os sentimentos e humor deles e ser uma forma de expressar o que sentem. Considere que apoio externo a criança pode precisar, quer seja através de familiares, amigos ou terapia.

Profissionais como professores, tutores ou médicos devem ser mantidos informados para que possam ser apoiados devidamente.

Crianças, por norma, navegam o entendimento como vai ver mais à frente. Se a criança já tiver experienciado uma morte na família ou tiver dificuldade de aprendizagem ou mental, isto pode afetar a sua capacidade de compreensão ou de resposta.

Categorias
Testemunhos

Olá, tenho 41 anos e em 2015 fiquei grávida do meu segundo filho… um bebé muito desejado e planeado tal como o meu primeiro filhote, na altura com 5 anos, que queria tanto um irmão.

Tudo corria bem até à ecografia das 20 semanas em que se descobriu que o meu bebé tinha uma malformação nos rins.

Parou de crescer! A médica que me seguia entrou em contacto comigo para a notícia mais triste da minha vida…teria de interromper a gravidez porque a gravidez não era viável e muito provavelmente nem chegaria ao fim. Tive uma médica que, apesar do sofrimento do momento, fez tudo para que fosse um processo rápido: entre a consulta, autorização, o parto e a alta hospitalar, foram 5 dias.

Foi um momento muito difícil, muito sofrimento e um psicológico muito afetado…não vi o meu menino por opção e só soube que era um menino quando “nasceu”. Tive alta hospitalar no dia em que o meu filhote mais velho completava 5 anos! O mais difícil foi explicar a uma criança de 5 anos que já não havia mais um irmão: agora era a nossa estrelinha! Ao final de 2 dias voltei novamente ao hospital…os meus peitos inchados, cheios de leite para dar e não ter a quem…é uma tristeza e um vazio enorme. Nunca tive apoio psicológico.

Apesar de me faltar um pedaço de mim… o meu menino, eu consigo ser feliz.

Ao final de 1 mês recebi o relatório médico onde se confirmava a malformação nos rins… não foi nada genético, apenas obra da natureza. Mas não desisti e, passado 5 meses, voltei a engravidar, uma gravidez normal mas com alguma ansiedade…aí veio a minha bebé arco-íris.

Uma menina linda e saudável que tem agora 4 anos. Apesar de me faltar um pedaço de mim…o meu menino, eu consigo ser feliz.

Nunca vou esquecer, ainda hoje por vezes choro a minha perda…era parte de mim!