Partimos para uma segunda gravidez, na esperança inocente de tudo correr bem outra vez.
Grande felicidade: estava grávida de gémeos!
Tudo a correr lindamente até à ecografia morfológica. Naquele dia, tinha ecografia no público de manhã e ecografia no privado de tarde, calhou assim. Por essa razão, fui sozinha à ecografia da manhã porque o meu marido viria comigo de tarde.
Alguns minutos depois de começar o exame, soube logo, não sei como, mas soube logo que algo não estava bem.
Passaram uns 20 minutos e ganhei coragem de perguntar à médica, que me disse para aguardar até ao final do exame, mas que as notícias não eram boas.
Comecei a tremer, sozinha. Só queria ter o meu marido comigo ali, como é que fui para ali sozinha?
Terminou o exame, e mesmo antes de chamar uma colega para confirmar o diagnóstico, a médica disse-me que se fosse uma gravidez única seria para terminar já.
Amniocentese a cada um dos bebés, opinião de mais dois médicos e dois ecocardiogramas fetais. Um menino com Síndrome de hipoplasia do coração esquerdo e uma menina aparentemente saudável.
Desde as 21 até às 32 o meu bebé cresceu, sentenciado, para dar oportunidade à irmã. E a culpa…
O procedimento de fecticídio selectivo foi mau, muito mau. 3 dias de tentativas, 5 buracos na minha barriga, cada picada horrivelmente dolorosa, uma preocupação gigante da agulha atingir a menina.
Pude pegar ao colo o meu filho, dar-lhe um beijo, despedir-me dele e tirar-lhe uma fotografia.
Quando finalmente a médica encontrou a posição certa para soltar o líquido, o visor da máquina de ecografia ficou bem em frente à minha cara. Vi o coração do meu bebé parar, propositadamente, diante dos meu olhos.
Mais duas semanas passaram até ao trabalho de parto acontecer naturalmente. Primeiro o meu filho e passadas umas horas a minha filha. Graças à enfermeira anjo que me acompanhou, posso dizer que tive um parto tranquilo, humanizado e sem dor. Pude pegar ao colo o meu filho, dar-lhe um beijo, despedir-me dele e tirar-lhe uma fotografia. Tenho as suas cinzas em casa, junto da sua família.
Depois da morte do meu bebé precisava de parar, ficar no escuro, deitada, chorar, mas não pude fazer nada disso. Seguiram-se os dias na neo, acordar de 3 em 3 horas para a alimentar, meses sem dormir, mais um internamento, bronquiolite, covid…
Agora, a fazer um ano desde o nascimento dos meus bebés, sinto que preciso de ajuda. Comecei a ter ataques de pânico e tenho completa consciência que estou traumatizada. Será o meu próximo passo, cuidar de mim.
Me chamo Valdiana sou mãe de 6 filhos, sendo 3 anjos.
No ano de 2021 fiquei grávida de gémeos. Porém, em agosto de 2021, com 16 semanas, o coração deles parou de bater e o meu quase se foi com eles pois eu já amava muito o Ben e a Celina.
Sofri muito e, ainda enlutada deles, fiquei grávida novamente. A esperança se reacendeu, meus olhos voltaram a brilhar e vi sentido na vida outra vez.
Quando estava com 19 semanas a bolsa rompeu e começou uma batalha pela vida do meu Nathanael. Com muito esforço meu e da equipa médica ele conseguiu chegar aos 8 meses.
No dia 17/7/22 nasceu, foi pra UTI e 11 horas depois o meu amor faleceu, levando com ele toda minha vontade de ficar, de continuar.
Hoje, com o meu coração ainda dilacerado, estou tentando prosseguir pelos meus 3 filhos que estão aqui e que precisam de mim.
Quando eu e o meu marido nos juntámos sempre desejamos uma casa com família grande e acolhedora, onde houvesse muito amor e união.
Então, aos 18 anos, começámos a jornada de criar família e saiu o primeiro positivo de amor, mas, o pior aconteceu e, com 8 semanas, vimos tudo a desmoronar. Uma primeira dor incontrolável, mas desistir estava longe de ser possível. Ao que aos 21 finalmente tivemos novamente o positivo, claro com muito medo, mas a esperança era grande.
Apesar de ter sido uma gravidez atribulada, fomos abençoados com uma menina linda em que sempre fomos falando em casa de que um dia mais irmãos viriam quando ela tivesse a sua independência. Passaram 5 anos e o desejo sempre a aumentar e começamos novamente na nossa tentativa de aumentar a família. Em 2020, tivemos o nosso positivo e a alegria transbordava. Já se tinham passado 12 semanas e, de repente, tudo foge do controle novamente, surgiu um corrimento, fui logo de imediato as urgências e foi detetado um aborto retido às 8 semanas em que o corpo iniciava a expulsão.
Novamente vieram as lembranças e aquela dor e agora tendo que explicar a uma criança tudo o que se tinha passado. Dói demais, mas ela ensinou-me a ser positiva e a olhar de outra maneira para toda a situação. Afinal tinha tido um parto maravilhoso e uma estrelinha para nos guardar.
Mas a luta para aumentar família permaneceu, e, em 2021, voltamos ao nosso positivo e todo um medo em volta de todo o processo, mas, com coragem, olhámos em frente. Mas, em pouco tempo, a nossa felicidade terminou, pois, apesar de vir com imensa força para este mundo, tinha ficado na trompa.
Todo o processo de uma gravidez ectópica acrescido, mas, apesar de todos os medos, bastou a dita injeção MTX e novamente terminava aquele positivo tão desejado e agora com o medo da reincidência.
A vida tem sido difícil, mas a luz brilhou e, em 2022, tivemos a alegria de duas riscas no tão esperado teste, com todos os medos das anteriores perdas. Fui logo de imediato fazer a ecografia vaginal para confirmar de que desta vez estaria no útero, e, realmente estava no sítio certo. Menos um medo. Veio então o medo da perda, comprei logo um doppler para ouvir o pequeno coração, o que me acalmou bastante. Fizemos a primeira ecografia e o nosso pequenino mexia bastante e adorava dormir encostadinho à minha placenta bem juntinho a mim.
Estava a crescer bem e a evoluir, uff, apesar de enjoos e de vir logo de repouso para casa. Tudo estava a correr na perfeição e um amor infindável de toda a família para receber o meu pequeno Henrique.
Foi então que fomos fazer a morfológica, às 22 semanas e tudo mudou…foi detetada a meningocele (o tipo mais grave da espinha bífida). Fui logo encaminhada para o Hospital Santa Maria em que tivemos todo o apoio de uma equipa maravilhosa que nos explicou o que passava e que chorou connosco.
Tivemos de parar o coração do nosso menino e com ele foi uma parte de nós papás.
Tem sido difícil, mas a esperança mantém-se e temos uma equipa médica que já nos garantiu que não nos vai abandonar. E depois temos uma sociedade toda ela retrógrada que não sabem o que este sofrimento e passa o tempo a questionar se somos bem acompanhados, se tomamos todas as medicações, se não temos a consciência que devemos parar… ninguém sabe o que vai no coração de uns pais que desejam ter filhos independentemente de já termos ou não filhos.
Não esquecemos nenhum filho e nenhum é substituível! Quando olho para o céu, sei que tenho 4 estrelinhas minhas e que têm um pai, mãe, e uma mana que os ama e fala constantemente neles.
O nosso caminho juntos começou quando, em fevereiro, tive o nosso positivo! Chorei tanto de felicidade! No início deu medo, fiquei extremamente aflita pois queria dar o meu melhor e tudo era novidade. O nosso primeiro bebé, e desde logo o amor da nossa vida!
Foi um início duro, com muitas náuseas, enjoos, e onde a minha energia vital estava toda dirigida a ti, filho. Não tinha energia para mais nada.
Com o tempo, as coisas foram melhorando e voltei a ser eu mesma, e tudo corria bem contigo. As semanas foram passando e perto das 18 semanas tive aquela que tantas vezes disse ser “a melhor sensação da vida”: sentir-te pela primeira vez, Manel. O pai tanto tempo passava com a mão na minha barriga para ter um bocadinho daquele elixir da felicidade que tu me davas.
Os momentos contigo foram os melhores de sempre, foste a minha melhor companhia, já tínhamos uma rotina tão boa, tão nossa. As conversas, a música que ouvia contigo antes de dormir, tudo me faz falta. E não entendo…Quero entender o propósito de tudo o que nos aconteceu depois, mas quando penso em ti e em todos os momentos bons fico tão triste e revoltada. E não é suposto, tu foste e és felicidade! Com a notícia da tua chegada fizeste de todos nós à tua volta pessoas felizes, cheios de amor por ti.
Com 21 semanas e 6 dias fomos fazer a Morfológica. Ainda tremo quando recordo o corredor, a sala e a médica insistentemente a procurar “algo”. No fim, quando me olhou nos olhos e disse “Algumas coisas não estão bem!” , o nosso mundo gelou! Após orientações seguiu-se amniocentese e posteriormente uma ressonância magnética fetal.
Todos os dias neste intervalo de exames foram pesados, muito pesados. Eu e o pai tínhamos o peso do mundo no coração, as noites de pouco ou nenhum descanso e muita ansiedade. Chegou o dia da RM, às 23 semanas, e após o exame a médica falou conosco e o pesadelo confirmou-se.
O nosso menino tinha um problema grave no Sistema Nervoso Central, que lhe iria infligir uma vida de sofrimento, preso no seu próprio corpo e onde estaria limitado em muitas coisas. Chorámos tanto nessa noite…por ti, por nós, pelos nossos sonhos e expectativas completamente destruídos. Tínhamos de tomar a pior decisão da nossa vida, até porque estávamos em contra relógio até às 24 semanas.
Após falar com a médica que nos acompanhou e após nos ser dirigida mais informação, a nossa decisão foi tomada cheia de dor, mas também cheia de amor… O nosso amor por ti, Manel. Tinhas direito a uma vida plena, onde poderias fazer o que os outros meninos fazem, ter todas as oportunidades e mais algumas, não era justo para nós e não era justo para ti que assim não fosse.
Após assinar aquele maldito papel e ter recebido informação sobre o que iria acontecer depois, eu e o pai descemos daquela maternidade em lágrimas e muita, muita revolta. Chegámos ao carro e continuámos a chorar abraçados por largos minutos e a tentar digerir que teríamos de te dizer adeus, o adeus mais doloroso! Que crueldade!
Chegámos a casa, envolvidos num sentimento de impotência e de uma dor sem fim na alma, mas queríamos despedir-nos de ti enquanto ainda te tínhamos conosco. Enquanto o teu coração ainda batia dentro de mim! O pai foi tão bom para nós em tudo, acho que sabes isso, ele foi a âncora do maior navio do mundo e esteve sempre lá. Fomos tirar fotos, comprámos as comidinhas que ainda não tinhas “provado” e tentámos dar-te o mimo que merecias. A demora acabou por ser maior que o suposto, e aguardámos uma semana até ser chamada para estar no hospital e dar início ao processo.
O dia 30 de junho chegou, dei entrada na maternidade e esse foi o pior dia desde que me lembro. Nem dores de parto, nem outras dores da vida me doeram como este dia doeu. O meu coração ficou por metade nesse dia, e a metade mais bonita foi a que foi embora!
Apesar de toda a dor, a minha única alegria naquele momento… Ia ver -te. E vi… Estavas tão quentinho no meu peito. O meu menino lindo!
Após internamento a parte mais dolorosa de todas, silêncio… Despedida! Estava na maca, a sala estava numa escuridão refrescante, estava perto da médica o suficiente para ter a minha mão sobre a perna dela, do outro lado a enfermeira. Fechei os olhos e enquanto elas faziam o seu trabalho, do início ao fim estive sempre a murmurar “a mãe ama-te muito, a mãe ama-te muito, a mãe ama-te muito…” Queria que levasses contigo esta certeza Manelinho!
Neste momento o pai não podia estar conosco, nos momentos seguintes sim. No meio de tudo tivemos sempre conosco pessoas cuidadosas que nunca me deixaram sentir sozinha, médicos, enfermeiras e auxiliares que fizeram o que sabiam e podiam para minimizar o nosso sofrimento.
Só lhes posso agradecer, sempre!
O pai esteve connosco até às 22h. E no dia seguinte de manhã já estava lá novamente. E foi no dia seguinte que se iniciou a indução do parto. Dores, tremores, mais dores, frio e mais dores. Foi assim a tarde até que levei epidural, (algo que não seria suposto) por as dores estarem a ser muito fortes. Aliviou muito até ser hora do pai ir embora, já eram quase 23h, ele foi e as dores voltaram.
Ainda estive algum tempo com dores e contrações cada vez mais insuportáveis, tudo era uma grande novidade para mim, tudo! Voltaram a dar-me medicação e voltei a descansar…Pouco. Eram 03:15 acordei e senti que eras tu…Algo estava diferente… chamei e as enfermeiras confirmaram, ia ver-te filho!
Apesar de toda a dor, a minha única alegria naquele momento…Ia ver -te. E vi… Estavas tão quentinho no meu peito. O meu menino lindo!
O resto, foi o resto… Perceber se estava tudo bem comigo, informações sobre o que se iria passar com o meu corpo, recomendações, alta médica, um colo vazio e um coração cheio de amor por ti.
Os dias seguintes foram difíceis, ainda são, passou pouco mais de quinze dias.
As perguntas são muitas, a culpa foi inevitável e ainda o é… Apesar de estarmos a trabalhar nisso! Quero encontrar paz, estar em paz comigo e com os outros. Vamos caminhando e tento todos os dias voltar a sorrir à vida! A nossa família toda tem sido um suporte incrível. Mas este é um processo tão solitário.
A ti meu Manelinho só tenho a agradecer. Vieste dar-me e ensinar-me muita coisa boa e a mais linda de todas elas, a ser Mãe! Obrigada por me teres escolhido, por não teres desistido de mim. Quero muito acreditar que um dia, num lugar onde já não existir tempo, vamos voltar a encontrar-nos e aí, nunca mais vais sair do meu colo.
A gravidez do nosso primeiro bebé foi planeada, mas nada calendarizada. Não segui com muita atenção o período de ovulação; aconteceu de forma muito natural e espontânea. Umas 3 ou 4 semanas passaram-se e lembrei-me “algo falhou este mês”; comentei com o Tomás e disse-lhe com a maior das confianças: estou grávida. Mais uma semana passou e não consegui aguentar a espera da análise beta-hCG para confirmar; comprei então um teste de gravidez: confirmado e com mais de 3 semanas. Enviei uma foto ao Tomás pelo Whatsapp; combinamos em fazer a surpresa aos meus pais, afinal de contas, seriam avós pela primeira vez e queríamos dar a notícia de uma forma memorável. Logo de seguida ele partilhou com os pais dele e irmãos, não conseguindo conter a alegria.
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Os meses desenrolaram-se, de forma geral, pacificamente. Haviam sempre cuidados extra, alguns receios à mistura, muita leitura para colmatar esses receios…o que todas as mães de primeira viagem podem autenticar! Os desconfortos assumidos como “normais” apareciam com o crescimento do bebé e o estiramento dos músculos da barriga, uma ou outra noite mal dormida, um mioma intramural que apenas me deu que fazer (e à equipa no serviço de urgência da maternidade) durante uns dias, mas que se “silenciou” até ao fim da gravidez (contrariando as expectativas dos médicos).
Decidimos não saber o sexo, mas como gostava de falar com o bebé na minha barriga tinha de encontrar um nome neutro além de “criaturinha”; depois de pensar em alguns ficou “pandinha” – tinha que ser, claro, o bebé adora dar pontapés e às vezes parecia que estava numa aula de kung-fu lá dentro (lembrando-me a personagem Panda do Kung-Fu). Criamos um grupo de Whatsapp com amigos e família para lançarem apostas sobre o sexo do bebé, e mais tarde com ideias de nomes. Eram quase 80 pessoas a mandar “bitaites”; podem imaginar o tipo de nomes que eram sugeridos! Foi muito divertido. A maioria apostava que seria menino, mas mantivemos firmes em não sabermos o sexo e fazermos a surpresa a todos.
O terceiro trimestre foi o mais vigiado; tinha surgido uma alteração a nível do intestino do bebé – uma dilatação que nunca desenvolveu mais do que o que tinha sido diagnosticado na ecografia das 31 semanas, que me tinha sido também explicado que poderia ser passageiro ou alvo de uma pequena cirurgia no período neonatal…nada demais a preocupar por agora pois a bebé desenvolvia bem, não havia sinais de stress fetal nem outros que pudessem comprometer a gravidez. Depois de uma ou outra noite mal dormida (congeminando preocupações e soluções), vesti o meu fato de otimista e segui com as marcações planeadas na maternidade e com a vida de grávida dentro da normalidade – agora mais pesada, mas ainda com bastante energia.
Às 36 semanas um aumento de líquido amniótico, mas não se tratava de uma alteração muito significativa, e assim se prosseguiu com as vigilâncias programadas (desta vez, semanais) – CTGs e ecografias realizadas sem intercorrências a acrescentar de acordo com a equipa.
Vivi todo este período como se tivesse divido em duas pessoas – a “Ana que queria ser mãe” fugiu para bem longe e a “Ana que quer sobreviver” ficou…
As últimas 4 semanas foram vividas com normalidade; o único desejo honesto que tínhamos era ter um parto natural, sem necessidade da indução marcada para dia 20 de dezembro (no limite das 41 semanas). Então seguimos as sugestões do obstetra para alcançar esse desejo, mas sempre muito conscientes da possibilidade de nunca ocorrer e necessitar da mesma.
Madrugada de 20 de dezembro de 2021. Acordei subitamente de um sonho. O sonho passava-se no sótão em casa dos meus pais (precisamente o local onde lhes demos a notícia da gravidez) e deixou-me com uma sensação muito desconfortável; senti que algo não estava bem de imediato, mas tentei racionalizar aquele momento e fiz o que sabia serem as melhores tentativas a estimular o bebé a mexer…mas nada; pouco tempo depois, já nas urgências da maternidade veio-se a confirmar o que sentia mas não queria acreditar – “acho que a Ana já sabe o que tenho para lhe dizer…” disse-me a médica que concluiu o diagnóstico da morte fetal; “eu lamento imenso”. O meu corpo mexeu, mas a minha mente paralisou naquele momento. Segui instruções para ligar ao Tomás que me esperava fora das urgências, para me dirigir à sala de partos, mudar de roupa e dar início ao parto…aquele parto que já estava agendado, mas não para este resultado. Vivi todo este período dividida em duas pessoas – a “Ana que queria ser mãe” fugiu para bem longe e a “Ana que quer sobreviver” ficou…
“Era uma menina”, uma das enfermeiras confirmou após o parto. Eu e o Tomás decidimos estar um bocadinho a sós com a nossa bebé. Enchemo-nos de orgulho e lágrimas ao saber que a surpresa ainda seria maior, contrariando a aposta da maioria. Chamamos-lhe Maria – o nome que eu tinha sugerido se fosse menina, mas que ainda não tínhamos chegado a um acordo. Tê-la no colo e vê-la partir foi a sensação mais devastadora que podemos assumir…
Os dias seguintes – até semanas – foram de muita tristeza e solidão, mesmo com imensa gente a cuidar de nós com muita atenção. A sensação de “vazio” no meio do peito lá ficou, lembrando da ausência. Atrás vieram os sentimentos de culpa, “o que é que eu fiz?”, “o que é que eu poderia ter feito?”. A ansiedade ganhava terreno, os dias em que saia à rua com as lágrimas prontas a cair e o nó na garganta acumulavam-se, a falta de forças para enfrentar o dia e para resistir à sensibilidade sublime ao ver um bebé ou uma mulher grávida ia sendo cada vez mais óbvia. Tinha de reagir. Sabia que a procura de respostas tirava muito tempo e energia dos meus dias – não estava a procurar no sítio certo e não era por encontrar uma resposta ao “porquê da morte da Maria” que conseguiria minimizar a minha dor. Comecei a olhar mais para dentro; perceber o que sentia em relação à Maria, perceber o que outras mães testemunhavam após uma experiência semelhante, acolher novas interpretações da perda (quer a nível espiritual como a nível de crescimento pessoal) e, no fundo, encontrar e estabelecer-me nesta nova identidade – uma mãe de colo vazio, que ainda vai enfrentar muitos desafios e medos na busca da felicidade maternal, mas que tem agora uma arma muito poderosa que a ampara nesse caminho, que é o amor incondicional.
Alguns meses passaram até agora – quase 6 no momento em que escrevo este testemunho – e sei que não houve um dia em que não pensei na Maria. Tanto fiz nestes meses por forma a celebrar a sua breve, e relevante, passagem neste mundo…tanto que ainda quero fazer! Tantas vezes peguei na sua fotografia, ora com muito orgulho, um sorriso e uma mão no peito, ora com lágrimas a correr pelo rosto e as mãos a tremer. Tantas vezes falamos, entre casal, família e amigos, no nome Maria. Tantas vezes…
Agora, os dias de orgulho – em que o as nuvens se abrem -são cada vez mais, mas sei que por aí virão dias em que a saudade terá aquele gosto mais amargo. E acredita que há dias que te vão surpreender, lembrando que ainda há algo aí dentro por preencher; acolhe esses dias, é a minha sugestão, pois há sempre uma lição a aprender.
A minha aventura no mundo da maternidade começou há 11 anos, quando nasceu o meu príncipe Martim, um filho muito desejado por mim e pelo meu marido. Uma alegria e aprendizagem diária. Ao fim de quase 7 anos, decidimos voltar a ter outro filho, ou seja, em 2017 comecei na preparação para engravidar.
Os anos foram passando e nós sempre na luta, sempre a tentar realizar este sonho de família. Sim, porque o nosso filho Martim sempre desejou ter um mano, ou mana; para o Martim e para nós, pais, era exatamente igual.
Após quase 4 anos a tentar engravidar e já quase a perder a esperança- nunca quis nada pelos meios artificiais, tudo de forma natural – eis que em meados de fevereiro de 2021 comecei a andar muito mal disposta, enjoada, cansada, sem vontade para fazer nada, mas não suspeitei no imediato. Até que houve um dia que fui tomar um meu duche e senti dor ao tocar no meu peito e aí deu-me um clique e pensei: “Ui, eu já senti esta dor! Aí que eu estou grávida!”
Não comentei com ninguém, para não criar falsas esperanças. No dia a seguir, no dia 23 de fevereiro dirigi-me a um laboratório e fiz uma análise à urina, e aguardei ansiosamente pelo resultado, que chegou no final do dia por email. Claro, quando abri, fiquei a olhar uns minutos sem perceber muito bem o que estava escrito, mas estava clara a informação: Estava grávida!
Fiquei tão feliz, que partilhei logo com o marido e filho em conjunto na sala, foi uma alegria, gargalhadas. Estávamos em plena felicidade.
Comecei com as consultas de rotina, análises, ecografias e tudo corria bem.
Estávamos ansiosos para saber o sexo do bebé, mas nunca foi o mais importante para nós. O que desejávamos era que viesse com saúde e perfeitinho. No dia 10 de maio fiz uma eco simples com a minha obstetra e soubemos que era uma menina!! Seria a nossa Gabriela.
Gabi, como já era carinhosamente tratada por nós cá de casa.
A barriga crescia a bom ritmo, e estava bem grandinha já. A Gabriela acompanhava o crescimento pois ela mexia-se bastante, não parava quieta.
Tudo corria bem, ou pelo menos eu achava que sim…
De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo.
No dia 14 de junho de 2021, fui realizar a 2ª Ecografia (Morfológica), estava eu com 22/23 semanas (6 meses) e fui acompanhada pelo meu filho Martim que disse que queria muito ver a mana.
Estivemos mais ou menos 1h30m lá dentro até que a minha obstetra pediu ao meu filho para sair e aguardar na sala de espera. Só por aí eu achei estranho, mas não percebi o que se estava a passar. Até que a médica me ajudou a levantar e agarrou nas minhas mãos e me disse que não tinha boas notícias para mim, só aí comecei logo a tremer e perguntei o que estava a passar, ao que a Drª me respondeu que a minha bebé tinha uma doença letal e rara e que tínhamos que decidir avançar ou interromper a gravidez.
Como assim interromper? Eu nem estava a acreditar naquilo que estava a ouvir!
De repente, eu tive a sensação que não estava ali, que era um pesadelo. Mas depois questionei a Drª, sobre o que estava a passar e o que é que eu podia fazer? Ao que ela me voltou a dizer o que já havia dito, que a minha bebé tinha uma Displasia Tanatofórica, ou seja, é uma doença letal, rara e que afeta a parte muscular toda. Mesmo que seguisse com a gravidez até ao final, após o nascimento, a minha bebé não ia sobreviver muito tempo e sem qualidade de vida. Ia sofrer e fazer sofrer!
Claro está, que naquele momento eu fiquei sem reação e chorei, chorei e chorei. Perante este cenário que eu estava a viver naquele consultório, a minha Gabi continuava a mexer-se dentro de mim como se estivesse tudo bem, mas não estava, mas ela não sabia, minha rica filha! Minha menina…
A médica disse que eu e o meu marido tínhamos que tomar uma decisão e informá-la no dia seguinte. Pois, se fosse para interromper eu tinha que ir primeiro ao Centro de Diagnóstico Pré-Natal e a uma consulta de Genética para preparar o processo de interrupção.
Perante estas indicações da médica, eu já só queria sair daquele consultório. E saí! Cheguei à sala de espera onde o meu filho Martim esperava por mim ansiosamente e sem perceber nada do que estava a passar. Mas, como o meu filho me conhece muito bem e se preocupa comigo, assim que eu saio para fora e o chamei para irmos embora, o Martim percebeu logo que algo não estava bem, até viu no meu olhar que tinha estado a chorar. Claro, tanto insistiu que tive que lhe contar por alto, mas não entrei em pormenores.
Esta decisão (…) foi um ato de Amor.
Quando chegamos a casa, já o meu marido tinha regressado do trabalho e olhou para mim e sentiu que eu não estava bem e perguntou-me logo como tinha corrido a ecografia, e eu comecei logo a chorar. Expliquei tudo direitinho e depois de ponderarmos bem, tomamos a decisão mais difícil das nossas vidas: Interromper a gravidez.
Uma bebé tão desejada, após anos a tentar e quando finalmente conseguimos, o sonho vai assim… chorei muito, senti-me a pior pessoa do Mundo. Ainda demorei a aceitar esta decisão! Mas tinha que ser: esta decisão foi um ato de Amor.
No dia 16 de junho de 2021, dirigi-me então à Maternidade Bissaya Barreto, acompanhada pelos meus pais, o meu marido não foi, por opção nossa, eu precisava que ele estivesse minimamente bem para à noite quando chegasse, ele me desse o apoio que ia precisar.
Claro está, quando chegamos à entrada da MBB pelas 9:00H eu entrei e os meus pais ficaram cá fora a aguardar. Foi uma espera infinita… Mal eu imaginava o que me esperava, ou seja, como se ia desenrolar todo aquele processo. Aguardei umas 2H até ir repetir a mesma Ecografia. Aquela que fiz na clínica e que deu o diagnóstico que não queria ter ouvido nunca.
Aconselhada pela minha obstetra, tinha que a repetir e ouvir uma 2ª opinião de outro médico, ou seja, médicos! Eram sempre bastantes à minha volta, assim como enfermeiras!
Pois bem, fui repetir a ecografia, estava deitada e à minha frente estava um grande ecrã, onde era possível eu ver a minha bebé: a minha Gabriela a mexer. Até que o médico, que estava a realizar o exame, se apercebeu que eu não estava bem, estava a tremer, e perguntou-me se queria que o ecrã fosse desligado. Eu disse que sim, sem hesitar! Sim, eu estava a ser “massacrada” por aquelas imagens da minha filha a mexer-se e eu a saber que “aquilo” ia ter um fim! Um fim que eu ainda não estava preparada! Mas há preparação possível?? Não há! Nunca!
No final da ecografia, fui a uma consulta de Genética, onde tinham já o relatório da ecografia a confirmar tudo o que havia sido dito na clínica. Estava confirmada uma Displasia Letal 1º grau e a característica principal era a cabeça em forma de trevo e toda a parte esquelética afetada, bem como alguns órgãos que iriam comprometer a boa saúde da minha filha, mesmo que seguisse com a gravidez até ao fim.
Nesta consulta, ainda questionaram se eu queria fazer o funeral, eu disse imediatamente que não. Não ia sujeitar a mim e à minha família a mais sofrimento, já bem bastava o sofrimento que estávamos a passar. Após a minha resposta, os médicos perguntaram se eu autorizava que eles fizessem a autópsia, ao que eu respondi que sim. Até porque eu queria respostas do porquê daquela doença, visto que o meu filho é perfeito, Graças a Deus.
Pedi esclarecimento sobre o processo de sepultar os bebés e explicaram que têm mecanismos próprios com toda a dignidade possível.
Em seguida, fui para outra sala, para retirarem líquido amniótico para ser analisado. No instante a seguir, voltaram a inserir a agulha e neste momento eu chorei bastante, mesmo. Porque esta agulha ia injetar um sedativo para parar o coração da minha menina, foi horrível o que senti naqueles minutos. Eu senti que era eu estava a dar permissão para que fizessem aquilo através da minha barriga, foi muito duro. Aos poucos fui deixando de sentir a minha filha a mexer. É muito triste, de verdade… Apesar de todo o meu sofrimento, eu estive sempre rodeada de médicos e enfermeiros a dar-me a mão e apoio, pois eu não podia ter ninguém da minha família comigo.
Com estes procedimentos todos, a manhã passou-se e a hora de almoço também e eram 15:30H quando saí para fora para ir almoçar. Quando saio, a minha mãe está lá fora à minha espera e eu agarrei-me logo a ela e desabei a chorar. Vinha com uma pressão enorme no meu peito por tudo o que me tinham feito lá dentro. Chorei bastante, estava a ser um dia difícil, mas era a preparação para o dia a seguinte, o internamento para o parto.
A seguir ao almoço, voltei à MBB para me serem feitas análises ao sangue e ainda teste ao Covid.
Vim para casa com os meus pais, vim a viagem toda em silêncio, com a minha barriga bem grandinha, mas sem vida. O facto de vir para casa com a minha bebé sem vida dentro de mim mexeu bastante com o meu psicológico!!
No dia a seguir, 17 de junho 2021, lá fui eu novamente com os meus pais e o meu filho, desta vez quis ir acompanhar a mãe. Foi a viagem toda agarrado a mim. Quando chegamos à MBB, saí com a minha mala das roupas, o meu filho saiu, assim como os meus pais e agarraram-se a mim a chorar. O meu Martim só dizia que não queria que acontecesse nada de mal à mãe. Pela mana já não podíamos fazer nada, mas pela mãe sim. E eu entrei para a maternidade com a cara lavada em lágrimas.
Instalaram-me no quarto e começaram logo a introduzir comprimidos para induzir o parto. Fui para um quarto sozinha e lá estive até à hora do parto. O que mais me custou foi ouvir e ver mães na sala de partos a terem os seus bebés e a saírem com eles. Tive que pedir para fecharem a porta do quarto, pois já não aguentava ver, pois eu ia sair sem nada….
Após a segunda dose de comprimidos no útero, passado pouco tempo comecei a ter contrações no quarto e nem tive epidural nem nada para me aliviar as dores, foi aguentar e ponto.
Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.
Houve um momento que pedi a arrastadeira pois estava muito aflita para fazer chichi e a Enfermeira trouxe e depois saiu do quarto, assim que, eu relaxei para começar a urinar, a minha bebé começou a sair e eu dei um grito, pois estava sozinha no quarto, e vieram logo médicos e enfermeiros e tive que fazer mais força, para a minha filha sair por completo. Deram-me qualquer coisa para eu dormir, pois eu de manhã tinha dito que não queria ver a bebé, eu queria guardar na minha cabeça a imagem de como eu imaginava a minha filha e não a imagem que as ecografias revelaram. Há pessoas que não entendem o porquê de eu não ter visto, mas só quem passa por lá é que entende e cada caso é um caso.
Neste dia, ao final da noite ainda tive alta, e o meu marido foi me buscar à MBB e, quando eu desci no elevador, com a mala que tinha levado com roupas, sem barriga e sem bebé, foi uma sensação avassaladora, terrível, um vazio…
As semanas seguintes foram complicadas, pois não conseguia sair à vontade de casa, com o medo das perguntas que as pessoas que iam fazer, mas lá tive que começar a sair e enfrentar os meus medos.
Os meus grandes apoios nesta fase foram os meus pais, marido e o meu filho Martim. Agarrei-me com todas as minhas forças à vida e pelo meu filho que precisa que a mãe esteja bem. Se eu estiver bem comigo, vou estar bem para qualquer pessoa.
Ninguém nos ensina a ser Mãe, assim como ninguém nos prepara para estas situações!
Já passaram 5 meses e às vezes paro e parece que tudo foi um pesadelo…
Acredito que a minha filha viveu 6 meses dentro de mim feliz e veio cá com um propósito que eu um dia irei perceber.
Por agora, resta-me olhar para o Céu comtemplar o meu Anjo da Guarda, Gabriela!
Foi no dia 12.08.2021 que, numa consulta, soube que muito silenciosamente vivias dentro de mim. O teu coração batia e, agora consigo dizê-lo, foi naquele momento que te comecei a amar incondicionalmente.
Todas as ecografias, análises, consultas corriam bem, as semanas iam passando e tu cada vez davas mais sinais de ti, reagias aos estímulos dos doces sabores e acordavas-me por vezes bem cedinho com as tuas brincadeiras.
Cada dia que terminava era mais um, até que chegava à sexta-feira e era mais uma semana de vida cá dentro que o papá colocava no calendário.
A barriga cada vez maior e linda. Até que chegou o dia em que tudo parecia desabar…31.10.2021, 23 semanas e 2 dias, rompimento prematuro da membrana com perda do líquido amniótico. “O caso é muito sério”, dizia a médica na urgência gelada daquela Maternidade.
O meu mundo, o meu sonho, a minha vida parecia desabar. Internamento, doses e mais doses de medicação, análises e mais análises e tudo ruía a cada minuto, os valores da infeção aumentavam, o bebé não tinha líquido amniótico suficiente para continuar a desenvolver-se e eu estava em risco.
Era inevitável, tínhamos que interromper o que de melhor tínhamos conseguido, o meu mundo desabou, que dor, por mais que queira expressar por palavras, todas são insuficientes.
Como é que te ia arrancar desta tua casa, deste teu porto seguro, quando te sentia tão vivo, tão bem, o meu maior amor, o meu Lourenço.
04.11.2021, 16:30h, 590 gramas.
Senti tudo, a dor física de um parto normal, sem tempo para epidural, a dor no coração de uma mãe que, depois de tudo, saía daquela sala de parto sem nada. Onde te arrancaram de mim tão cedo e me deixaram um buraco vazio, uma dor insuportável e interminável, tal como as lágrimas que me escorrem desde então.
No dia da alta, descemos aquelas escadas sem nada, nós e a maior dor da nossa vida… Completamente sem norte, sem rumo…
A esperança no futuro é a única coisa que nos pode salvar, mas o medo de não conseguirmos uma nova luz por vezes passa e quebra-me.
Eu sentia-te tanto, conversávamos tanto, ouvíamos música, contava-te histórias, dava-te mimos. Juntos já tínhamos preparado algumas das tuas roupinhas, tínhamos tudo tão arrumadinho…
Um sonho interrompido e roubado e uma ligação para sempre…
Somos pais do Lourenço e ele viveu feliz e brincou dentro de mim e só conheceu Amor durante 23 semanas e 5 dias
Em junho de 2021 descobri que estava grávida. Não quis acreditar. Parecia que estava num sonho.
Preparei toda uma surpresa para anunciar ao meu namorado. Saber que estava a gerar uma vida dentro de mim foi das melhores sensações que já tive. Senti-me tão viva.
Uma vez que isto era tudo novo para mim, pedi ajuda em como prosseguir daí para a frente. Marquei uma consulta de ginecologia para perceber se o embrião estava no sítio certo, de quanto tempo estava e se o coração batia.
Quando finalmente chegou a hora da consulta, lá fui. Estava tudo certo, o embrião estava no sítio certo, estava de 7 semanas (mais uns dias, menos uns dias) e consegui ouvir o coração a bater. Que som lindo. Que alívio.
Passaram-se mais umas semanas e marquei então a minha primeira ecografia obstétrica. Estávamos a 24 de julho quando fui então realizar a ecografia. Estava uma pilha de nervos, pois morria de medo que alguma coisa não estivesse bem. Chegou a hora, entro no consultório, a doutora explica-me o que se iria proceder e até aí tudo muito bem. Começou a fazer a ecografia e senti um silêncio que para mim não fazia sentido. Comecei a perceber que alguma coisa não estava bem. A doutora lança um suspiro e começa por dizer que o meu bebé apresenta um valor de Translucência Nucal elevado e que não estava a conseguir ver uma parte do coração mas que isso podia ser da posição do bebé ou pelo facto do coração ainda ser muito pequenino.
Neste momento, senti o chão a cair. Foi um balde de água fria.
Estamos habituados a ouvir que enquanto somos novas o risco de um bebé vir com algum problema é muito baixo. O que é certo é que com 24 anos e numa primeira gravidez, não esperava isto de todo. Chorei. Chorei muito. A doutora acalmou-me e explicou-me aquilo que a partir daquele momento seria o que eu deveria fazer: Biópsia das Vilosidades ou amniocentese.
Acho que nunca me tinha sentido tão perdida, tão confusa, tão sem saber o que fazer. Fui embora do consultório completamente destroçada e o pior foi tentar explicar ao meu namorado, que não pôde entrar comigo, tudo o que eu tinha ouvido. Contactei de imediato o meu médico de família para explicar a situação e ele fez-me uma carta para ir de urgência para o Hospital Público. Assim foi. Entro nas urgências de ginecologia e obstetrícia, na qual fui rapidamente chamada e aí conheci aquela que eu senti que iria ser a minha médica, a que eu queria que me acompanhasse até ao fim. Uma pessoa de uma empatia extrema.
Ela examinou-me e aconselhou-me a realizar uma biópsia das vilosidades, uma vez que estava entre as 11 e as 12 semanas, e que era o exame que mais rapidamente me iria dizer o que estava errado com o meu bebé. Passaram uns dias e chegou a data marcada para fazer a biópsia. Estava tão nervosa, tinha medo que alguma coisa pudesse correr mal, mas ao mesmo tempo descansada porque tinha sentido de imediato uma grande confiança naquela médica. Correu tudo bem. O exame realizou-se rapidamente e sem complicações e a recuperação também foi boa. Ao fim de uma semana iria receber o resultado rápido do exame onde me seria dito se o bebé tinha algum tipo de trissomia ou síndrome e ao fim de aproximadamente um mês vinha o resultado mais detalhado.
Passou-se uma semana e recebo uma chamada do Hospital a dizer que não tinha sido detectado nenhuma trissomia, mas que sim, havia uma alteração com o bebé. Fomos chamados para ir pessoalmente ao hospital para que a médica nos dissesse qual seria então a alteração. Lá fomos.
Ficámos a saber que era uma menina e tinha síndrome de Turner. Uma alteração no cromossoma sexual feminino e que é sobretudo um problema hormonal.
Em Portugal, não é possível interromper a gravidez numa situação destas, pois é uma síndrome que tem tratamento. Se bem que também não era algo que fossemos fazer num caso desses. Recebemos a notícia, interiorizamos e aceitamos. A nossa filha vinha e nós íamos aceitá-la independentemente se tinha Síndrome de Turner ou não.
Ao fim de um mês recebemos então o resultado detalhado no qual não tinha sido diagnosticado mais nenhuma malformação genética na minha filha. Às 18 semanas ia ter então uma nova ecografia obstétrica com a minha médica. Desta vez eu estava mais calma, já sabia qual era o problema e sentia-me confiante que o resto estaria bem, que já tínhamos tido a nossa dose de stress.
Estava enganada. Estava tudo mal. Quando a minha médica começou a fazer a ecografia houve novamente um grande silêncio. Silêncio demais. Percebi que, afinal, algo mais não estaria bem. Diz-me que o coração não estava normal. Senti-me novamente sem chão. Um balde de água gelada, um choque.
Ouvir que aquele bebé, tão desejado, tão querido por nós, não vai aguentar, foi das piores coisas que já ouvi. Ninguém está preparado para ouvir que o nosso filho não vai sobreviver. Faz-nos duvidar de tudo, de nós, do nosso corpo, da nossa fé.
Tive de interromper a minha gravidez às 19 semanas e 4 dias. Fui internada no dia do aniversário do meu namorado, senti as piores dores da minha vida. Fisicamente e psicologicamente.
Não sei como uma mulher consegue suportar tal dor. Até hoje, não sei como consegui sobreviver àquele que foi para mim o pior dia da minha vida. Foi dar à luz um bebé que não vinha para o meu colo, que fazia parte de mim, mas que não era mais nosso.
Apesar de ter tido o privilégio de poder ter o meu namorado comigo naquele dia, num quarto em que estávamos só os dois, nunca me senti tão sozinha, tão esquecida por Deus.
No dia seguinte após a interrupção uma equipa diferente veio-me visitar e ver se estava tudo bem e se tinham ficado restos dentro de mim. Verificaram que tinham ficado alguns resíduos e perguntaram-me se eu queria continuar internada ou se queria ir para casa onde tinha de fazer medicação para que o corpo expulsasse os restos. Eu só queria sair dali, precisava de sair dali. Optei por fazer a medicação em casa e disseram-me para regressar ao fim de uma semana. Assim foi.
Regressei para a consulta e desta vez seria com a médica que me tinha acompanhado até então. Os resíduos não tinham saído, pelo que tiveram de me tirar na hora. Estava cansada. Não suportava mais todo aquele inferno. Só queria que aquilo acabasse.
A médica mandou-me regressar ao fim de dois dias para verificar novamente se já estava mesmo tudo bem. Ao fim de dois dias regressei, ela verificou e finalmente ouvi as palavras que tinha saído tudo e que estava limpo, tinha acabado.
Só aí senti que finalmente este pesadelo ia acabar. Acabava fisicamente, mas continuava psicologicamente.
Senti que precisava de recomeçar, precisava de me encontrar. Foi-me oferecido apoio psicológico no hospital, mas eu optei por procurar apoio fora do hospital. Aquele sítio dá-me ansiedade.
Neste momento, estou a ter acompanhamento psicológico e estou-me a encontrar. Estou aos poucos a recuperar força em todos os sentidos.
Algo que me ajudou muito também, foi procurar páginas onde eu pudesse ler outros testemunhos e sentir-me abraçada por outras mulheres que também já passaram por isto.
Decido escrever a minha história com algum medo, mas com coragem. Existem vários tipos de perda, a que não controlamos e aquela em que temos a difícil tarefa de decidir. Desta última pouco se fala, pois é tão susceptível de julgamentos. Mas acreditem, o maior julgamento é aquele que fazemos a nós próprias. Mas tem de ser falado, e acima de tudo tem de ser compreendido.
A minha história é composta por um aborto espontâneo, o nascimento do meu bebé arco-íris, e mais recentemente uma interrupção médica da gravidez.
Em finais de 2018, pela primeira vez, um teste positivo de gravidez! Um bebé planeado e muito desejado. Por motivos profissionais tinha de avisar logo no trabalho pelo que pensei: “se os meus colegas iriam saber da minha gravidez, claro que também vou contar à minha família!”. Longe de saber que algo poderia correr mal, o que poderia correr mal? nada! bem, não foi bem assim. Fui uma em quatro. Às seis semanas de gestação comecei com hemorragias, uma ida às urgências em que pude ouvir (pela última vez) o bater do coração do meu filho, mas que nada se podia fazer além de ir para casa em repouso. Mais dois dias com hemorragias até que fui com o meu Obstetra e em que já não havia nada… Um vazio. Foi um choque muito grande. Por ingenuidade, ignorância, e até por tabu da sociedade a questão do aborto espontâneo não é/era uma coisa que se falasse abertamente, até que depois do que me aconteceu comecei a ouvir de pessoas próximas “a mim também já me aconteceu”, “acontece muitas vezes”. Mas diz-se baixinho, porque lá está, não são assuntos para se estar a falar. Tantas de nós sofremos em silêncio, que não conseguimos homenagear e falar sobre um ser que tanto amamos mas que só conheceu o bater do nosso coração.
Consegui engravidar alguns meses depois e 2019 foi um ano mágico, o ano do nascimento do meu bebé lindo, do meu Henrique, que me enche de orgulho de ser Mãe. Tive uma gravidez calma, sem mal-estar, com muita confiança mas com receio, claro. Mas infelizmente certas palavras que ouvimos marcam-nos, e nunca me vou esquecer de no meio de tanta felicidade pelo meu bebé arco-íris alguém me dizer: “vê lá se agora tens cuidado!”…
Entramos aqui num caminho que é tão difícil de lidar, se por um lado precisamos de falar sobre o vazio que sentimos quando perdemos um filho repentinamente, até que ponto não é falado para nos protegermos a nós próprias? O caminho só nós próprias o podemos fazer, o luto é nosso e do companheiro, mas a solidão torna-o numa luta que no meio de tanta dor pode tornar-se difícil de ultrapassar. Mas ultrapassamos.
Assim, depois do meu bebé arco-íris existe outra história nesta minha história que por ser tão recente ainda me dói, e que sei que me vai acompanhar por toda a minha vida. Um poder que nunca quis ter nem pensei em ter, que é o poder da decisão. A vida é feita de decisões, isso todas sabemos, mas a decisão que é feita para a Vida, ou não, é algo que é tão intenso quando destruidor. Mas não podemos deixar que nos destrua, porque sabemos que foi uma decisão de Amor.
Neste ano de 2021, em junho, teste positivo de gravidez! Bebé pensado mas não propriamente planeado, mas que no meio do receio o amor e entusiasmo ia crescendo a cada dia que passava. Na ecografia do primeiro trimestre o Obstetra revelou algo que não contávamos, um valor que não estava em conformidade, que ultrapassava ligeiramente o valor expectável. A amniocentese tinha de ser realizada. O tempo de espera até poder ser realizada a amniocentese e o tempo que leva a saber resultados cria um turbilhão de sentimentos tão ambíguos quanto contraditórios: é a esperança versus o desespero, a certeza de que está tudo bem mas… e se? e se? não pode ser! A ansiedade cresce de uma forma que esgota, cansa, desgasta. Quer seja uma semana, quer seja um mês, nada nos prepara para quando ouvimos “não temos boas notícias”. Alteração do cariótipo, Trissomia. Por termos esperado algum tempo pelos resultados já tínhamos uma decisão, mas que não deixa de ser a decisão mais difícil da nossa vida. Decidimos a interrupção médica da gravidez. Não interrupção voluntária, médica. Apesar das alterações cromossómicas serem compatíveis com a vida, existirá qualidade de vida? Todos queremos qualidade de vida para os nossos filhos, queremos felicidade, autonomia para quando não existirmos no mundo, e saúde acima de tudo, mas… e quando isso não é possível? somos egoístas por não arcarmos com as consequências de dar continuidade à vida ou hipócritas por acharmos que poupamos a uma vida de sofrimento? Ou seremos altruístas por decidirmos sermos nós a sofrer sem um filho para ele não sofrer?
Às 21 semanas e 4 dias conheci e despedi-me do meu filho, tive um parto em que só ouvi o meu choro e um vazio tão grande. Tive o meu bebé nos meus braços, toquei na sua linda cara e mãos perfeitas e pedi-lhe desculpa… desculpa-nos João Eduardo, perdoa-me meu filho…
Este meu testemunho está cheio de reflexões, de dor e dúvidas mas que sei que vou superar. Desengane-se quem desvaloriza o poder de uma decisão, desengane-se quem acha que é de ânimo leve. A perda gestacional também pode ser feita através de uma decisão, também é válida e traz muita dor. A mim dá-me alento a seguinte frase: “Amar um filho é querer o melhor para ele, mesmo que o melhor seja não o ter”. Que ajude a apaziguar alguém, e que ajude na compreensão do que é incompreensível para muitos.
Comecei a tentar engravidar precisamente há 3 anos. Depois de muitos negativos, frustrações e angústias que todas as “tentantes” passam, consegui finalmente o meu positivo em julho deste ano, 2021.
Já estava grávida de 7 semanas quando descobri a minha gravidez. Foi o melhor dia da minha vida, chorei durante 2 horas agarrada ao teste de gravidez sem acreditar que era finalmente o meu positivo e eu estava grávida, grávida!
O meu sonho tinha-se tornando finalmente realidade e eu já só pensava na alegria que isso nos ia trazer.
Sempre fui uma pessoa muito ansiosa e não suportava a ideia de esperar até às 12 semanas para ter a certeza que estava tudo bem com o meu bebé, então fiz 2 ecografias no privado que sempre se confirmou que estava tudo bem e o meu bebé era saudável. Um dia antes de fazer a primeira ecografia, uma amiga minha que é enfermeira fez-me uma ecografia em 4D. Dava para ver que o meu bebé era bem mexido, e o coração dele batia como o som mais bonito que ouvi em toda a minha vida. O narizinho era igual ao meu e eu fiquei super orgulhosa de saber que pelo menos nisso, que se ia parecer a mim.
Estava tão feliz; dizia-lhe bom dia todas as manhãs, pedia-lhe desculpa se fazia algum movimento brusco sem querer, estávamos a preparar o quarto dele e o armário já se preenchia de roupinhas tão lindas e todas organizadas prontas para o dia da sua chegada…
Mas no dia 6 de setembro tudo mudou, assim, literalmente da noite para o dia, fiquei sem chão.
Foi o dia da primeira ecografia, e eu percebi logo pela cara do médico que alguma coisa se passava, mas estava com tanto medo de ouvir a resposta que simplesmente me submeti ao silêncio. Tudo isto começou muito mal a nível psicológico. O médico era muito bruto a fazer-me a ecografia, fazia-me imensa força na barriga e depois de eu me queixar, ele responde “é que nas magras é mais fácil. Temos que fazer vaginal, tire lá a roupa”, mandou sair o meu marido do consultório e ficamos só eu, o médico e a enfermeira. Ele disse “estou a ver aqui um valor muito alto que não me está a agradar nada. Nível de transluscência nucal de 7,12 valores” ao qual a enfermeira respondeu com voz de espanto “7???” E eu aí percebi que realmente alguma coisa se estava a passar e perguntei o que isso queria dizer, as últimas palavras que eu ouvi foi “quer dizer que o feto tem seguramente problemas cardíacos graves ou problemas de cromossomas, como trissomias…” Eu parei, olhei para o chão e só pensava “o meu bebé. O meu filho. O meu sonho. Ainda ontem estava tudo bem. Como é possível?” Ele abriu a porta do consultório como se me estivesse a despachar e o meu marido que estava à minha espera do lado de fora, ao ver-me naquele estado, perguntou o que se tinha passado e o médico só respondeu “antes de vir fazer a amniocentese passe nas urgências e certifique-se que o coração ainda bate, porque se não bater escusa de fazer a viagem”. Eu não respondi, o meu marido só perguntava o que se estava a passar e eu só lhe pedi para me tirar dali rapidamente e me levar para casa.
Chorei compulsivamente desde que saí daquele consultório até chegar a casa, foram 2h de viagem.
Só pensava no que ia dizer à minha família, aos nossos amigos, como era possível que aquilo estivesse acontecer, como é que Deus me tinha traído desta maneira, porquê nós? Era tão desejado, era o nosso sonho e estavam a rouba-lo de nós…
Liguei à minha médica a contar o que se passou e tinha consulta na quarta-feira (isto passou-se segunda feira). Essas horas, até à consulta, foram angustiantes; eu não dormia, não comia, chorava, as pessoas mais próximas já sabiam e tive que chegar ao ponto de desligar o telemóvel para conseguir pensar, pôr os pés na terra e tomar a decisão mais difícil da minha vida.
Eu sabia o que tinha de fazer, mas nunca nada na minha vida me doeu tanto.
Eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba
No dia da consulta com a minha médica ela confirmou que realmente o valor era demasiado alto e era impossível que o bebé estivesse bem formado e sim, corria o risco de a gravidez não avançar…Ali, naquele momento, depois de ouvir aquelas palavras, depois de ter pensado durante horas completamente em branco, tomei a decisão de interromper a gravidez e não esperar pela amniocentese.
Estava cheia de medo do que me iam fazer, medo do desconhecido, e esperar pela amniocentese eram mais 2 semanas de angústia, depois outras 2 para saber o resultado e aí eu já estaria de 16 semanas e seria muito mais difícil a nível emocional e físico passar por tudo isso. Não quis adiar mais e avancei.
Nesse mesmo dia fiquei internada e começaram a induzir-me o aborto. Meteram-me num quarto onde eu ouvia choros de bebés acabados de nascer, mães a entrar em trabalho de parto e no corredor deparava-me com mães de braços cheios de amor e sonhos realizados, enfermeiras carinhosas a falar com aqueles bebés como eu já sonhava falar com o meu, pais sentados ao lado das camas das mães a compartilhar os primeiros momentos, as primeiras horas de vida dos seus filhos.
Literalmente, eu estava no lugar onde a vida começa para alguns e para outros, como o meu bebé, acaba.
A primeira tentativa de aborto falhou. E a médica disse “o coração ainda bate e o bebé está-se a mexer, ouça” e eu só pensava “eu não acredito nisto…” Eu estava em desespero total. A médica queria recusar-se a fazer nova tentativa de aborto, levantou a voz a falar comigo quando lhe disse pela milésima vez e quase a implorar que a minha decisão tinha sido interromper a gravidez e que por favor acabasse com aquele sofrimento para eu ir para casa! Depois de conversar comigo e com o meu marido sobre a nossa decisão, contra a vontade dela, lá disse ao enfermeiro “pronto, se é isso que querem… podes fazer “, nunca mais a vi, não voltou ao meu quarto, passou por mim no corredor como se não me conhecesse.
Durante 24h fiquei sozinha naquele quarto, como que abandonada à minha sorte e com visitas de 3 em 3h de enfermeiras diferentes que me iam metendo comprimidos pela vagina para provocar o aborto. Lembro-me que já tinham passado horas e nada de sinais de aborto e eu meti a mão na minha barriga e disse “perdoa-me e vai em paz. Estou a fazer isto porque te amo e vou amar-te sempre e jamais me perdoaria de te trazer ao mundo para sofreres. És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito” e assim me despedi do meu bebé pela última vez, horas depois comecei a sangrar bastante, sem dores, mas muito sangue.
Apesar de estar num sofrimento inexplicável, sentia-me aliviada, até que faço uma nova ecografia e ainda não tinha resultado, o meu bebé ainda estava lá… Estive 3 dias no hospital completamente abandonada, desamparada, e os médicos pareciam que estavam a jogar ao jogo da batata quente para ninguém tomar finalmente uma atitude!
No meu maior momento de desespero, embora chateada com Deus, confesso, comecei a rezar e pedi-lhe por tudo para me tirar daquele sofrimento porque eu só queria ir pra casa, rezei e chorei como nunca, até que sem contar, ao fim da noite apareceu o meu anjo da guarda. Abriu a porta e disse “já está cansada de estar aqui não já? Venha, eu vou cuidar de si” e eu já estava tão traumatizada que fui a medo sem saber o que ia acontecer desta vez, já que não estava a ser nada fácil.
O médico fez-me a ecografia e disse que já tinha começado a entrar em trabalho de parto, estava no começo do aborto. E eu perguntei se ainda havia batimentos e ele olhou para mim e embora lhe pudesse só ver os olhos, e ele não tenha dito uma única palavra, eu percebi que a resposta era sim, mas ele não me queria magoar ainda mais e foi aí que eu percebi que finalmente estava bem entregue e ele ia cuidar de mim, tal como prometera e ele foi o meu anjo da guarda.
Meteu-me a soro durante 1h, um comprimido vaginal, voltámos a ecografia e definitivamente o meu corpo já estava a libertar o meu bebé. O médico tirou-me o saco gestacional e restos que ficaram sem anestesia, eu não sei onde fui buscar tanta coragem e tanta força para passar por isso a sangue frio, mas a verdade é que a única dor que eu sentia era no coração.
Ele foi tão paciente, tão compreensivo, tão meigo, tão humano, que eu não senti nada para além de uma contração ou outra… E no fim, demos um abraço e eu só lhe conseguia dizer “obrigada” vezes sem conta e disse-lhe “você foi o meu anjo da guarda”. No dia seguinte fui para casa.
És e serás sempre meu filho. Nunca te esqueceremos e vais ser sempre o nosso primeiro filho. Amo-te muito!
Já passou 1 mês desde que eu perdi o meu bebé. Não me arrependo da decisão que tomei. Foi um ato de amor. Por amar tanto esse ser pequenino que eu nem cheguei a conhecer, é que o deixei partir.
Na minha vida tive dois grandes atos de coragem, a primeira foi amar um ser que não conheci e a segunda foi deixá-lo partir para não vê-lo sofrer.
Não tem sido fácil, ainda não tenho o útero 100% limpo e estamos à espera que a menstruação desça para limpar os restos que faltam, em último caso tenho de fazer raspagem, o que me sossega é que estou a ser acompanhada pelo meu anjo da guarda, esse médico que já me disse mais do que uma vez que não me ia abandonar.
Mas a dor que sinto, o aperto constante no peito, a angústia, o medo traumatizante de tudo que vivi naquele hospital não sei quando vai passar, não sei quando vou ter coragem de voltar a lutar pelo meu sonho de ser mãe, estou cansada psicologicamente, muito cansada.
Estou muito triste. Ainda me perguntam se é menino ou menina, ainda há quem me dê os parabéns pela gravidez, ainda há quem me olhe para a barriga…
Está a ser uma luta constante diária e já pedi ajuda psicológica porque assumi que não sou capaz de passar por isto sozinha.
Se o meu testemunho ajudar alguém a não sentir-se sozinha, como eu me sentia até horas atrás antes de descobrir está página, já fico contente, porque eu fartei-me de procurar testemunhos naquela cama de hospital e não encontrei nada onde me pudesse agarrar.
Neste último domingo, dia 10 de outubro, no dia em que fez 1 mês, o médico confirmou-me, pela autópsia que fizeram ao meu filho (sempre achei que era um menino, embora nunca venha a saber…), que ele tinha problemas renais, trissomia 21 e uma nuca muito alta mais uma série de patologias não confirmadas por ainda ser muito pequenino.
O meu coração ficou do tamanho de uma ervilha ao ouvir essas palavras, tomei a decisão certa, mas não suporto a ideia de o meu bebé ter tido tantos problemas e ainda ser tão pequenino…
Dia 15 de outubro vou acender uma vela pelo meu bebé e será só mais uma noite em que vou chorar de saudades de já não o ter comigo. É um vazio que se sente e uma dor que nunca mais acaba. O que eu desejava agora era que só me acordassem quando tudo isto passasse…