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Há muito que quero partilhar convosco a minha “história”. mas a verdade é que ainda não tinha conseguido reunir as forças suficientes e, por outro lado, não queria que fosse apenas um “despejar da minha revolta”. Queria que, de alguma forma passasse uma imagem de esperança a todas vocês.

Provavelmente vou chocar algumas mamãs desse lado mas…terei de ser sincera convosco…Ser mãe nunca foi (durante quase toda a minha vida) um sonho! A minha história de vida (e que não vale a pena falar agora dela) não me permitia fazer do ser mãe um sonho.

Levei muitos anos a “mentalizar-me” porque, no fundo, também não me via sem filhos… Aliás, há mais de 10 anos que sabia que se conseguisse engravidar, iria ser um menino e que se iria chamar Miguel. Não me perguntem onde fui buscar esta certeza mas eu sabia, não sei como…

Finalmente ganhei coragem e, passado 1 ano e 2 meses de tentativas e com uns simples sintomas que poderia indicar uma gravidez, lá fiz o único teste de gravidez da minha vida e que mostrou um “GRÁVIDA 3+”. Foi um misto de felicidade, de preocupação, de medo mas… acima de tudo um “consegui”, um “fui capaz”!

Seguiram-se os passos normais, as consultas normais, as ecografias…fiz tudo como “manda a lei”, tanto no serviço nacional de saúde como nos intervalos das consultas no público, com a minha obstetra.

Às 6 semanas tive um “sustozinho” de uma perda de sangue e fui às urgências mas fiz uma medicação e tudo evoluiu de forma positiva. Também foi nesta consulta que ouvi, pela 1ª vez, e sem estar a contar com isso, o coração do bebé. Foi lindo!

Por volta das 15 semanas tive a confirmação que iria ser um menino, o meu Miguel.

Andando com a história para a frente e a 2 dias de fazer a ecografia do 2 trimestre fui às urgências pois, pela 3ª ou 4ª vez durante a gravidez, tinha umas dores de cabeça muito fortes.

Ali, naquela sala pequena, o mundo desabou! A partir daí, dessas palavras, foi como se entrásse em “piloto automático”, como se ficasse anestesiada, como se deixasse de estar lá (mas também não vos sei dizer onde andaria)…

Só fui porque uma amiga minha enfermeira e o meu namorado me pediram quase por favor só para ir ver. Para mim não passavam das minhas enxaquecas e que teria de as aguentar, uma vez que a medicação que faço em S.O.S para elas, não deve ser feita durante a gravidez.

Sempre ouvi dizer que na gravidez não era possível ter enxaquecas mas, a verdade, é que não estava a conseguir concordar com essa afirmação.

Entrei nas urgências dia 01 de Agosto (a 1 dia de fazer 21 semanas) a pensar que me iriam dar uma medicação qualquer na veia e que iria para casa passadas uma ou duas horas…só quenão!

Realmente fizeram-me essa medicação, o que me fez passar a dor de cabeça mas a tensão estava um pouco elevada e estava a perder proteína na urina. Teria de ficar para o dia seguinte. Esse ter de ficar manteve-se até dia 04 de agosto, altura em que fui transferida para a maternidade Bissaya Barreto em Coimbra.

Só posso dizer que foram dias de muito medo, por não saber o que se passava comigo, nem com o meu bebé. Muito medo de pensar sequer que o poderia vir a perder. Era tão pequenino, tão calminho, tão bem comportado, não me fez um único enjoo…se não fosse o crescer da barriga, nem parecia grávida. Como é que agora conseguiria imaginar não o poder fazer viver?!

Estive sempre rodeada de profissionais humanos, tanto médicos, como enfermeiros, como assistentes operacionais, devo-lhes muito mas…a minha saúde continuava a deteriorar-se. Numa semana inchei de tal maneira que aumentei 9kg de peso. A proteína que perdia na urina era cada vez mais, o fígado estava mal, os rins estavam mal, a hemoglobina muito baixa, as plaquetas muito baixas e a tensão sempre alta, principalmente a baixa…mas, sentia-me bem, acreditam?! Embora, cada vez mais sem esperança num final que considerasse feliz…

Dia 08 de Agosto fui chamada a uma sala, juntamente com o meu namorado, onde estava o diretor do serviço, o diretor do hospital, a equipa de enfermeiros desse turno e foi-nos transmitido que o bebé era pequeno para o que seria de esperar, que a minha placenta não estava a alimentá-lo convenientemente, que os meus órgãos estavam a entrar em falência e que teriam de interromper a gravidez.

Ali, naquela sala pequena, o mundo desabou! A partir daí, dessas palavras, foi como se entrásse em “piloto automático”, como se ficasse anestesiada, como se deixasse de estar lá (mas também não vos sei dizer onde andaria)… Era uma decisão que só eu e o meu namorado poderíamos tomar mas…não havia mais nenhuma! Por isso, e até hoje, não percebemos o porquê de ter de fazer um pedido à comissão de ética do hospital a pedir essa interrupção.

Percebo que será uma maneira dos profissionais se salvaguardarem, mas…será que eles saberão o que significa para uma mãe, para uns pais fazer um pedido para que matem o filho?!

Ainda hoje, passados 4 meses, se me pedem para assinar qualquer documento, eu viajo instantaneamente para aquela sala, para o assinar daquela folha branca! A única coisa que de alguma forma me alivia um pouco a dor, é que os médicos sempre disseram que se eu ficasse em risco de vida, eles iriam intervir mesmo sem o parecer dessa comissão de ética e…foi mesmo isso que aconteceu!

Às 22 semanas e 1 dia (dia 10 de Agosto) nasceu o meu Miguel, de parto normal e sem direito a epidural, uma vez que o valor das minhas plaquetas não me permitiram levar…

Tive dores, induzir o parto foi horrível, as contrações não são fáceis e o expulsar a placenta também não foi (tive de ir ao bloco para conseguirem) mas o que mais me doía e dói, até hoje, é a alma! Tudo, todos os sonhos acabaram ali e tenho muitas saudades das coisas que nem nunca vivi, não sei se me conseguem entender…

Escolhi (e uma vez que moramos a muitos quilómetros da maternidade e o meu companheiro estava a acabar de chegar a casa depois de ter estado comigo) passar pelo parto sem a presença dele, escolhi poupá-lo a isso. Não o deveria ter feito! O pai precisa estar connosco para conseguir perceber melhor por tudo o que passámos. Se me posso arrepender de alguma coisa, é do ter poupado a isso sem sequer lhe perguntar qual era a decisão dele.

Também escolhi não conhecer o meu Miguel…ainda não sei se fiz bem já que em quase todos os vossos testemunhos vocês escolhem ver os vossos bebés mas…a verdade é que não tive coragem. Foi o que me fez mais sentido na altura, sabendo que só teria essa oportunidade e que me poderia arrepender mais tarde…(e ainda não me arrependi).

Passado todo este tempo ainda não temos resultados dos exames feitos ao bebé e placenta, nem de análises super específicas feitas a mim (e só terei nova consulta em Fevereiro!) que me expliquem o porquê, precisava disso para me aliviar, de alguma forma…o diagnóstico foi que tive pré-eclâmpsia com síndrome de HELLP mas não percebem o porquê. Até porque, ao que parece, a pré-eclâmpsia está descrita nos manuais que pode acontecer a partir das 20 semanas mas nunca acontece, é só mais no final da gravidez e eu…comecei antes das 19 semanas, até! Todos são de opinião que tive algo muito grave mas…não o conseguem explicar! Provavelmente terei alguma doença autoimune mas não sabem com certeza e muito menos qual! Ainda pensaram que poderia ser hipertensa ou diabética antes da gravidez e não saber mas…isso já está posto de parte.

Será que alguma vez conseguirão descobrir? Não sei. Será que poderei voltar a tentar?

Não sei. Será que ainda está guardado algo bom para mim? Também não sei, mas gosto de pensar (e agora consigo finalmente fazê-lo) que foi o melhor para mim mas, e acima de tudo, para o meu Miguel. Ele está bem e eu também terei de ficar para ele estar feliz, acredito nisso!

Se é fácil? Não! É a pior coisa do mundo! Nenhuma mãe devia passar por isto mas, com muita força de vontade e ajuda psicológica, posso dizer-vos que é possível ter esperança num futuro mais bonito para nós.

Mesmo com frases do tipo “sabes, também já não és nova”- fiz agora 40 anos…; “foi melhor agora que mais para a frente”- às 22 semanas +1dia dói menos?! É perder um filho; “Não podes estar assim”- quem disse? Eu estou como quero e consigo!; “Não chores!” – porquê? Tenho mais é de chorar, deitar tudo cá para fora!; “Sabes? É o teu corpo que não dá!”-esta foi a mais dura porque até agora tudo indica que foi mesmo o meu corpo que foi fraco, mas precisava que me dissessem isso? Ninguém precisa!

Nós somos mais fortes, sabemos que, no fundo, as pessoas não sabem o que dizer e, quando dizem, só dizem disparates! Coitadas é delas!

Estamos numa época do ano que julgo ser ainda mais desafiante para todas nós (e o meu Miguel tinha data prevista de nascimento para dia 11 deste mês de Dezembro e seria o seu 1º Natal) mas nós somos fortes, somos guerreiras e vamos conseguir lidar com tudo isto com mais leveza, já que esquecer nunca o vamos conseguir (e acho que nem queremos).

Desejo que também vos seja possível acreditar e dou um grande beijinho no vosso coração. Estou aqui e disponível para falar convosco, em particular, se sentirem que vos posso ajudar com alguma coisa.

Mamã da Estrelinha Miguel

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Testemunhos Testemunhos Perda Neonatal

Foi no dia 30 de Novembro de 2020 em que descobrimos que o Gabriel crescia dentro de mim. Após duas perdas gestacionais e tentativas falhadas, o Gabriel vinha a caminho.

O nosso amor tinha triplicado; seria o pensamento que à terceira é de vez e que desta vez iremos ver nascer, e crescer, o nosso 3º filho.

Durante 41 semanas fui seguida no hospital como gravidez de risco, sempre com medos e receios.

As semanas e meses foram passando. Nas consultas e ecografias diziam-me sempre que estava tudo bem e nós íamos ficando cada vez mais tranquilos e desejosos de conhecer o nosso filho. Devido à Covid, o pai nunca pôde assistir às ecografias realizadas no hospital, só pôde assistir às ecos 4D que fizemos e onde soubemos que o nosso bebé seria um menino.

Ficámos tão, mas tão felizes que escolhemos logo o nome de Gabriel.

O nosso Gabriel nasceu no dia 16 de Agosto de 2021  às 22:08 após 22 longas horas em trabalho de parto com a bolsa rebentada. Nasceu de uma cesariana de urgência, exigida por mim, por não aguentar mais o longo e difícil trabalho de parto.

O nosso Gabriel nasceu com 3.890kg e 52cm, um bebé grande,  lindo aparente saudável até que, quase duas horas após ele nascer, o pai estava a brincar com ele e viu que a respiração do Gabriel não estava normal. A pediatra pediu ao meu marido para sair para observar o nosso filho e foi aí que detectaram que algo não estava mesmo bem, que o Gabriel iria precisar de oxigénio. Entretanto eu cheguei do recobro e já não pude ver o meu filho. Apenas a pediatra e o meu marido me esperavam. A pediatra deu-me a notícia que o Gabriel teria de ficar a oxigénio e que se não recuperasse, teria de ser transferido para Lisboa para ter outro tipo de ajuda respiratória, que eles não tinham no hospital. A pior notícia que ela nos deu assim, sem rodeios, seria que as próximas horas seriam decisivas para o Gabriel .

Ficamos ali sem chão. O que ansiávamos há 41 semanas, este momento de estarmos juntinhos finalmente com o Gabriel nos braços, tornou-se o início de um caminho de separação por vários dias.

Ficámos os 3 sozinhos, um em cada lugar; o nosso filho lutando sozinho  pela vida numa incubadora de hospital, o pai teve de regressar a casa sozinho e eu sozinha, no quarto de hospital, sem poder ter o Gabriel comigo .

Ainda nessa madrugada, recebi a notícia que o nosso filho iria ser transferido para Lisboa, e onde o pai recebeu o diagnóstico do Gabriel: nasceu com uma Cardiopatia Congénita complexa e rara, ou seja, com varias malformações no seu coraçãozinho lindo e cheio de amor .

O Gabriel nasceu com uma TGA- Transposição das Grandes Artérias; coartação da artéria aorta, uma displasia na válvula tricúspide e uma CA -comunicação entre aurículas. Após o diagnóstico, o nosso filho foi transferido para o Hospital Santa Cruz, onde foi feito uma CV através de cateterismo.

Estive separada do meu filho quase 3 dias porque, como foi cesariana, tive de ficar no hospital em Santarém e o meu filho em Santa Cruz. Passei 3 dias sem saber se o conseguiria ver antes do Gabriel ser operado. Foi o pai quem esteve com o Gabriel esses 3 dias, mas só de dia, porque de noite não podíamos permanecer junto do nosso filho.

O estado clínico  do Gabriel era bastante reservado e requeria muitos cuidados. O Gabriel precisava de ser operado o mais rapidamente possível, mas uma septicemia o impedia. Foi uma semana de luta contra a septicemia, nós nem lhe podíamos tocar sequer…era imensamente duro não o poder fazer, mas sabíamos que era para o bem do nosso filho.

O Gabriel foi operado à coartação da aorta ao final de uma semana de ter nascido. Três semanas depois foi operado para colocar um banding na artéria pulmonar, porque o pulmão esquerdo estava a ficar demasiado afetado e irrigado de sangue.

Após isto tudo, o nosso filho ainda tinha que passar por outra cirurgia,  “grande cirurgia”, a troca das grandes artérias, a válvula tricúspide e o encerramento da CA e CV, mas o Gabriel precisava de estar bem para esta operação.

Entre estas duas cirurgias, o nosso filho teve um episódio de convulsões derivado a ter líquido entre o cérebro e o crânio, por causa do longo trabalho de parto – as horas sem oxigénio suficiente- mas conseguiu reverter a situação e recuperar bem, sem quase nenhuma sequela. Após a segunda cirurgia, contraiu uma infeção, chamada uma endocardite – uma infecção nas paredes do coração e seis semanas de antibióticos se seguiram até à grande cirurgia.

Como mãe, esperei 28 dias para o pegar ao colo, e ter o meu filho em meus braços, e o pai quase 2 meses para poder pegar no colo o nosso filho. Mas tudo isso ultrapassamos, pois o que mais desejávamos era que o nosso filho ficasse bem e viesses para casa connosco .

Nem sempre o nosso filho esteve muito mal… o Gabriel era um valente, um lutador, foi sempre surpreendendo tudo e todos, dando a volta por cima – ele sorria, fazia cara de sério, poucas vezes chorava, aliás só chorava quando tinha a fralda suja ou quando tinha cólicas.

O nosso filho lutou imenso –  uma semana antes da grande cirurgia à artéria aorta. Teve de lhe ser feito um cateterismo de urgência na quinta-feira antes da grande cirurgia, que correu muito bem . O nosso filho foi operado dia 26 de Outubro de 2021: a grande cirurgia, o que faltava para recuperar e vir para casa .

Foram 8 longas horas, as mais longas de sempre, que acabaram da pior forma, o nosso filho lutou com tudo, com todos os seus recursos, para sair do bloco bem. Lutou para vir para juntinho de nós fisicamente, mas algo não deixou. A cirurgia, em si, correu bem mas recebemos a pior notícia, a notícia que nenhum de nós queria ouvir ou acreditar, aliás nenhuns pais deveriam ouvir: que o nosso filho partiu para onde nunca mais o podemos ver, ouvir, sentir (não fisicamente porque o nosso filho vive em nós), enquanto sobrevivermos a esta dor imensa.

Temos e sentimos um orgulho imenso no nosso filho. Amamos-te imenso, filho. O nosso nenuco bochechinhas de sorriso lindo e coração cheio de amor.

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

Perdi o meu Tiago no dia 20 de Janeiro de 2021. Um bebé muito desejado, depois de vários anos de tratamentos de fertilidade. Foi muito duro e por várias vezes me veio à cabeça a ideia de que ser mãe não era para mim, parecia que não estava destinado.

O medo invadiu o meu coração. Procurei ajuda psicológica, fiz reiki, entre outras terapias, que me ajudaram a aceitar aquela perda.

Quando pude comecei novamente com as transferências de embriões. Cada negativo era um murro no estômago, vinha novamente o medo e a dor.

Foram 4 transferência negativas. As forças começavam a faltar. Mas, no fundo, não queríamos desistir. Cada sinal que recebia me “dizia não desistas”. O arco-íris estava lá para mim. Até que decidimos fazer uma última transferência; o embrião que supostamente era o mais fraquinho de todos e veio o positivo. Um valor muito baixo que ninguém acreditava que ia vingar. Mas vingou e hoje tenho uma bela princesa nos braços.

Não foi uma gravidez fácil. Toda aquela inocência acabou. Tudo era medo. Tudo era um problema. Não foi uma gravidez onde aproveitei para tirar fotos, para mostrar a barriga. Afastei-me de tudo que me fizesse pensar que poderia correr mal e confiei que o universo ia ser generoso comigo.

Como perdi o meu Tiago às 37 semanas, imaginem o final da minha gravidez… super ansiosa. O medo de ela parar de mexer era tanto. O trauma do dia em que soubemos que já não tinha batimentos….

Ela não quis esperar pelas 37 semanas e decidiu romper a bolsa num domingo à noite, dia 20 de Novembro de 2022. Curiosamente no dia do irmão (20).

Nasceu às 36+3 cheia de saúde e linda.

Isto tudo para passar a mensagem a quem, assim como eu, perdeu um bebé e está a tentar outro: Não desistam, o caminho é longo e duro. A luta contra a infertilidade é difícil. Mas acreditem no amor. Acreditem em vocês. 

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

Em dezembro de 2022 faz um ano que eu vivi um dos momentos mais duros e um dos momentos mais felizes da minha vida. No dia 1 de dezembro tive a confirmação de gravidez – o tão desejado positivo.

Antes, já tinha levado com um teste negativo e desilusão. Daquela vez, era mesmo: voltava a ler “grávida” no teste. Um misto de esperança e de muito medo no meu coração! Fui ter com o médico que nos fez o diagnóstico do Feijãozinho e que sempre quisemos que nos acompanhasse numa gravidez arco-irís e que nos desse boas notícias.

E assim foi! Ainda em tempos de Covid, como entrei pelas urgências, tive de ir sem o meu companheiro. Estávamos ambos muito ansiosos! Fiz ecografia e fiquei novamente sem chão, sem palavras e no vazio…

“Renata, não vejo bebé. Só tem o saquinho”, disse-me o médico. Vi, nos olhos do médico, empatia e cuidado. Partilhou a nossa tristeza. Estava, pensava eu, com 6 semanas de gestação. Saio em lágrimas das urgências e o médico disse para voltar na semana seguinte. O meu conforto: “eu ajudo-te, não te preocupes, eu não te deixo sozinha” – disse-me.

E assim foi. Voltei na semana seguinte, mais do que convencida que ia perder o meu bebé…foi o meu mecanismo de defesa: preparei-me logo para o pior e enchi-me das forças que podia, depois de sair do hospital lavada em lágrimas. Regresso nessa semana preparada para o pior e eis que ouço o entusiasmo do médico! Com um sorriso me disse que tinha havido certamente um erro nas semanas. Afinal, nessa semana é que fazia as 6 semanas e daí na semana anterior não haver bebé.

Que felicidade, que alívio! Partilhámos as boas notícias por videochamada! Continuava a esperança no arco-irís! Dezembro não começou bem e estava a ser difícil, mas depois as boas notícias aqueceram-nos o coração. A medo, “escondemos” a gravidez o máximo que conseguimos, tentando contar o mais tarde possível, até mesmo aos familiares mais próximos.

Foi desde o início uma gravidez muito vigiada e muito protegida! Estive com medo o tempo todo! Continuei a ser acompanhada pela psicóloga e psiquiatra, excelentes profissionais que guardarei no coração para todo o sempre.

Antes de cada ecografia, invadia-me uma enorme ansiedade. Um medo irracional até do que não tinha vivido e um ataque de choro antes da ecografia do primeiro trimestre. Mais tarde, seguiu-se a ainda mais temida morfológica, a maldita ecografia que ditou o diagnóstico do meu Feijãozinho. Fomos muito a medo…fizemos as ecografias a dobrar e foi com um alívio que ouvimos dar-nos as boas notícias que tanto desejávamos: “este bebé não tem um único defeito! Tem tudo para correr bem!”. Depois desta ecografia, escolhemos o nome dele e permitimo-nos sonhar e sonhamos!

Eu, que pensava que não ia conseguir ligar-me ao bebé emocionalmente para evitar magoar-me, que pensava que não seria capaz de me permitir amar desde o princípio, apaixonei-me perdidamente. Agarrei-me a ele com todas as forças, dei-lhe muito amor durante a gravidez, falei para ele – fiz tudo o que não pude fazer com o Feijãozinho.

A gravidez arco-irís foi uma luz na minha vida, fez-me voltar a ser feliz, mas não me devolve nunca o que perdi. Antes pelo contrário, mostrou-me tudo o que não pude viver, tudo o que me tiraram desde a interrupção médica…

Decidi, nesta gravidez, que independentemente de qual fosse o desfecho, iria dar-lhe todo o amor e aproveitar. Seria sempre mãe dele! E consegui aproveitar! Não vou mentir: foi estranho e ainda hoje é estranho ser feliz e conseguir permitir-me a ser feliz! Foram 2 anos difíceis de espera, de angústia, de exames, de perdas (não só do Feijãozinho, mas de pessoas e outras partes de mim). Mais para o fim só queria ver o meu menino cá fora, ouvi-lo chorar, tê-lo nos braços!

Não posso também esquecer a força e apoio que tive desde o início de profissionais de saúde maravilhosos: enfermeiras e médicos! A enfermeira que me segurou a mão num dos meus piores momentos deu um enorme abraço quando me viu grávida na consulta!

Enfim, o melhor dia para casar foi o melhor dia para nascer: com vida, com amor para esperança! Uma gratidão imensa!

Agora ouço “custou, mas foi”, como se o Feijãozinho tivesse sido uma tentativa falhada! Mas foi amor, foi força e é e será sempre o irmão mais velho do Gonçalo! O meu primeiro filho!

Não percam a esperança, peçam ajuda, rodeiem-se de uma boa rede de apoio e de boas pessoas e profissionais!

Renata Silva

Mãe do Feijãozinho e do Gonçalo

1 de dezembro de 2022

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Testemunhos Testemunhos Perda Neonatal

A minha vida, a minha Íris.

Hoje vou contar-vos a história da minha vida (a minha Íris). A Íris é o meu bebé arco-íris, depois de um aborto espontâneo e de uma gravidez anembrionária.

Dia 14/04/2022 veio o resultado positivo. Quando olhei para o teste nem queria acreditar, mas lá estava “grávida 1-2 semanas”. A alegria misturava-se com o medo mas algo me dizia que era desta, que o meu bebé tinha vindo para ficar.

No dia 23/05 fiz a primeira ecografia, no privado. Enquanto me sentava na marquesa, rezava para que o meu bebé estivesse ali. Assim que ligou o monitor ali estava ele, o pequeno ser que iria mudar a minha vida para sempre. Quando ouvi o coração bater eu e o pai chorámos, chorámos muito. Ali estava o som mais perfeito do universo, o coração do nosso bebé.

Tínhamos decidido que só queríamos saber o sexo no dia do parto porque era indiferente, o importante é que ele estava ali a crescer forte. As semanas foram passando, a barriga ficava gigante a olhos vistos, e a cada ecografia, lá estava o nosso baby a crescer. A ecografia morfológica estava perfeita; o nosso sonho tornado realidade. Dia 18/08, fui com a minha sogra fazer uma ecografia 4D e tinha informado que não queria saber o sexo mas, assim que ligaram o monitor, a primeira coisa que se viu foi que era uma menina. Estava ali e era impossível não perceber o que era e, nesse dia, soube que a minha Íris estava a caminho.

Dia 29/08 fui jantar fora com o meu marido e um casal amigo. Depois das entradas, levantei-me para ir à casa de banho e senti um pouco de líquido, mas como a Íris estava alojada em cima da minha bexiga pensei que fosse um pequeno “descuido”. Quando cheguei à casa de banho, a mesma estava ocupada e então começou a sair um jorro de água pelas pernas abaixo. Eu estava de vestido e lembro-me de ter entrado na casa de banho dos homens, que estava vazia, em pânico. Peguei no telemóvel e liguei ao meu marido que veio logo ter comigo, disse-lhe que a bolsa de água tinha rebentado, ele disse que era impossível, mas chamou o INEM,.

Chegamos ao CMIN e eu já só chorava. Estava naquele dia com 23 semanas e 4 dias.

A médica de urgência fez uma coleta do líquido e confirmou que era líquido amniótico. Fizeram uma eco e o coração da minha filha batia e ela mexia-se normalmente. Passámos essa noite no núcleo de partos para ver se eu iria entrar em trabalho de parto, mas os médicos tinham explicado que o limite da viabilidade eram as 24 semanas e que dificilmente a Íris sobreviveria se nascesse naquele momento. Rezei e pedi ao universo para que a minha menina se mantivesse dentro de mim, para eu a proteger e para que ela pudesse crescer mais um pouco. Consegui manter a gravidez durante mais algum tempo, estava tudo a correr dentro do previsto, mas a 11 de Setembro (com 25 semanas e 3 dias), a Íris decidiu nascer.

Disseram-me depois do parto que ela decidiu viver, pois a bolsa estava com uma infeção que tinha passado para ela e para mim, se ela não tivesse nascido naquele dia provavelmente não tinha sobrevivido.

No dia 11/09 às 16:43, nasceu a minha vida, de uma cesariana de urgência caótica, a Íris nasceu com 31 cm e 620gramas, pequenina em tamanho, mas enorme em força.

Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito meu amor

Os primeiros 15 dias foram muito complicados, ali estava ela numa incubadora, com ventilador e cheia de fios e medicação que a mantinham perto de mim, perto de nós… Com 15 dias a minha vida teve uma infeção no intestino e os médicos disseram que a probabilidade de ter de ser operada era grande e eu, lavada em lágrimas, mais uma vez implorei a Deus e ao universo que protegesse a minha filha.O antibiótico começou a fazer efeito, a Íris melhorava a olhos vistos, ganhava peso, era super ativa e reagia ao toque e à fala, principalmente ao meu.

Todos os dias chegava à beira dela e dizia “Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito meu amor” e ela, invariavelmente, sorria e apertava a minha mão, com aquela mãozinha dela perfeita.

A Íris foi aumentando a quantidade de leite materno que tomava pela sonda e eu de 3 em 3 horas tirava leite para ela. Conseguia sempre tirar cerca de 100ml, às vezes mais.

A 11/10, dia em que a minha vida fez um mês, já estava com 11 ml de leite, sem alimentação parentética, sem soro, só o leite da mãe e com mais de 800 gramas de peso. Nesse dia, chegamos lá eu e o pai, eu disse-lhe o bom dia dela, falamos com a médica que nos disse que a Íris estava a progredir muito bem, tinham feito análises, ecografia e raio x e tudo estava bem, incluindo o pulmão dela que sempre foi o calcanhar de Aquiles da minha menina. Estava a progredir favoravelmente,

Por volta das 13:00, a Íris, do nada, começou a fazer baixas saturações de oxigénio… as máquinas começaram a apitar, a médica chegou perto dela e mudou-a de posição para ver se ela melhorava, mudaram o tipo de ventilação mas nada fazia com que a saturação subisse, eu e o pai ali a olhar para ela, que continuava rosada e a mexer-se como se não se passasse nada… a médica pediu para mudarem o oxímetro, pois devia estar avariado porque os valores do monitor não correspondiam à cor nem à atividade da minha filha. A enfermeira mandou sair os pais todos e, mais uma vez, fiquei eu e o meu marido a pedir a Deus que protegesse a minha menina, que não permitisse que nada de mal lhe acontecesse, que não me tirasse o meu milagre.

Os minutos foram passando e ninguém nos vinha chamar nem dar notícias e, a cada pessoa que eu via a passar, o meu coração ia ficando mais apertado.

Às 14:10 tive uma crise de choro, a pior que tinha tido desde que a minha filha nasceu. Às 14:20, a diretora do serviço de neonatologia entrou na sala onde aguardávamos, fechou a porta e disse as piores palavras que qualquer mãe ou pai podem ouvir “a equipa fez de tudo mas a Íris não resistiu”

Eu beijei-a, abracei-a, cheirei-a, e disse-lhe o quanto a amava

O meu mundo desabou, não queria acreditar. Como podia ser, se ela estava tão bem? Se estava a progredir… tinham acabado de me dizer isso e agora não a tinham conseguido salvar? Nada fazia sentido. Pedi para ver a minha filha, a nossa filha e levaram-nos até ela. Ao caminhar pelo corredor, estupidamente, tinha a esperança que ia chegar lá e eles se tinham enganado, que não era a minha Íris… quando entrei na sala e vi a minha vida deitada dentro da incubadora, imóvel e todas as máquinas desligadas, o meu coração parou e caí de joelhos ali em frente, sem forças e sem vontade para continuar.

A minha vida estava ali, os meus sonhos estavam ali como é que de repente fico sem ela? O meu marido (a minha rocha, o meu porto de abrigo) tirou-a da incubadora para o colo dele e depois colocou-a no meu colo. Eu beijei-a, abracei-a, cheirei-a, e disse-lhe o quanto a amava, o orgulho que tinha nela e que ela era a bebé mais perfeita do mundo. Agora sem todos aqueles tubos e fios, eu e o pai pudemos ver claramente que ela era a cara do pai, mas tinha as minhas bochechas. Ficámos ali, junto dela o tempo que quisemos a abraçá-la e a dar-lhe beijos. As minhas irmãs e um dos meus irmãos puderam vir também para se despedir dela. Foi a primeira vez que a viram fisicamente, foi um golpe duro para eles, mas todos dizem que conseguiram assim ver a perfeição que era a minha filha.

A dor é gigante, avassaladora, mas o amor é invisível e está sempre connosco e a Íris é isso, é amor. Está sempre comigo a cada segundo do dia. Peço-lhe todos os dias para me ajudar a vencer aquele dia. Todos os dias continuo a acordar e a dizer: Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito, meu amor”

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Testemunhos Testemunhos Perda Tardia

4 de Abril de 2018, 38 semanas, 4 dias. O dia estava cinzento e era dia de um dos últimos CTG’s. O pai pressentia e só dizia “leva a tua mala e a do bebé”, e eu sempre dizia que não era o dia.

Facto é, que, nos últimos dias, eu já não o sentia com a mesma força e movimentos, mas normalizei por estar mesmo no fim e ter pouco espaço.
Inicio do CTG, depois de ter contado que não sentia tantos movimentos, deram-me prioridade e logo fomos atendidos. Após uns minutos, percebi na cara de todos e na quantidade de médicos e enfermeiros que vierem ver, que algo não estava bem. Deram-me um chupa e as expressões mantinham: os batimentos cardíacos estavam realmente muito fracos, tive medo, muito medo. Fiquei internada para vigilância e, se os batimentos estabilizassem, iríamos iniciar o trabalho de parto. Era naquele dia que ele ia nascer: o pai tinha razão.

Recordo-me de perguntar o que ia acontecer a seguir. Responderam que primeiro vigilância e logo após indução. Não queria nada e pedi que não me fizessem cesariana, não por medo, mas porque queria muito senti-lo nascer (mais tarde culpei-me muito, mas hoje em dia, está resolvido dentro de mim).

Ficamos em vigia até ao momento que paro de ouvir o CTG, chamo para me ajudarem. Vem um enfermeiro e encontra batimentos. 5 minutos depois e acontece igual…vem mais um enfermeiro e mais um e mais um, até que o pesadelo começa; não conseguiam encontrar batimentos, sem ninguém perceber muito bem o que se estava a passar pois a gravidez foi sempre super normal e tranquila e vigiada.

Tinha a equipa médica toda à minha volta, sentia nas caras deles e na expressão corporal que não estava bem. Ouvi para prepararem cesariana, naquele momento eu só queria que tudo acabasse bem e com ele nos meus braços. Vamos ao ecógrafo e ouvi alguém dizer “nada de batimentos”, o meu mundo desabou, parecia uma filme de terror. Todos corriam de um lado pra outro e vamos para uma cesariana de urgência. Não havia tempo para mais nada. Eu só tinha que me deixar ser anestesiada, e o que eu resisti porque me faltava o ar…até que me disseram ao ouvido “pensa em coisas bonitas”. Consegui e deixei-me ir… a partir daqui eu não sei de absolutamente mais nada.

demorou algum tempo a sair do fundo, mas o caminho faz se caminhando… 

Acordo sozinha, numa sala fria e cinzenta, olho em volta e nada, sozinha… Ao longe vejo chegar a mesma pessoa que me disse “pensa em coisas bonitas” com os olhos cheios de lágrimas. Eu só queria ouvir “está tudo bem”, mas não estava. Em loop pergunto “o meu menino?” e as lágrimas caem-lhe no rosto, abana a cabeça e percebi o que tinha acontecido (ela não podia dar-me aquela informação, mas também não podia deixar sem saber, era desumano). Naquele momento deixei-me ir e entreguei-me à dor e “bebedeira” que a anestesia me causou… horas no recobro e uma equipa brutal e espetacular que cuidou de mim até me “arranjarem” uma cama sem ser na maternidade. Felizmente tiveram esse cuidado comigo.  

Deixaram-me receber visitas, e eis quando chegam as médicas que queriam a todo o custo explicar me o que aconteceu. Eu naquele momento não queria saber de nada, pois estava demasiado fraca. Parecia que queriam “desculpar” o sucedido, mas não havia nada para explicar, foi assim que ele escolheu…

E o motivo foi um nó verdadeiro no cordão. Aí eu entendi o porquê da falta de movimentos dele. Chorei, chorei, chorei até não ter mais forças. Já na enfermaria acordei e aí a culpa, a raiva, a revolta, e o “porquê a mim?” deram conta de mim… foram meses difíceis de não conseguir enfrentar pessoas, grávidas, familiares a pedirem que colocasse o hospital em tribunal e não me recordo de alguém me perguntar o que eu precisava.

As pessoas são cruéis, não fazem por mal mas para se proteger, mas dói ouvir “és muito nova, fazes outro”, “é porque não tinha que ser”, “podia vir com problemas, foi melhor assim”, ou “é a vida”. Felizmente, hoje em dia eu troquei o “porquê” por “para quê” e estou-lhe muito grata por tudo o que passei/passámos. Foi uma aprendizagem brutal, demorou algum tempo a sair do fundo, mas o caminho faz-se caminhando… 

Ao Amor, será sempre a mensagem.

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Testemunhos Testemunhos Perda Tardia

Foram 6 meses e meio a gerar a Flor que faltava no meu jardim e a coisa mais linda que pude ter.

Desde o início, eu sabia que não ia ser fácil; desde a primeira consulta da pré-natal, até a aceitação do lupus, adquirir a hipertensão gestacional e os risco que íamos enfrentar. Mas quando vieram todos os risco, eu pude entender mais ainda a nossa situação. Fi um longo período para dizer À minha cabeça que “ela não iria aguentar!”…

Mas o nosso instinto de mãe fala mais alto. O nosso egoísmo em dizer: “eu quero você comigo”. O decorrer de todos os dias, entre fazer USG, medicação de anticoagulantes, controlo da pressãoi e pré-eclâmpsia foi bem complicado, até chegar o momento que precisei de ficar internada.

Foi aí que, no dia 05/07 começaríamos mais uma luta. O internamento foram os 15 dias mais longos das nossas vidas. Depois a desospitalização, achava que tudo iria se normalizar, afinal, estava a reagir bem.

Dia 27/07 (até o momento doloroso) – 2ª internamento e o dia que iríamos construir nossa maior história: primeiro pico da pré-eclampsia (dia 01/08), dilatação da barriga, pressão 20×11 e inchaços anormais. No dia seguinte (02/08), o aviso que meu corpo já não aguentava mais. A médica disse: “vai para a UTI”, ali eu já sabia, lá era onde só seria nós duas e a proteção divina, seria aa indução do parto. Dizer o adeus, ou melhor, o até breve…

E no dia 03/08, com apenas 481g, seu (re)nascimento- tão linda e a perfeição de um bebé. Você não tinha resistido e eu sei que ali seria o nosso adeus, mas não um adeus de despedida, apenas precisou ser amada e ensinar a mamãe o que era um amor incondicional.

Meus longos dias na UTI, dopada e sedada, me fizeram entender que fui uma mãe leoa. Ter lutado por você foi tão gratificante e ver que aquela mãe só não queria tver-te sofrer (mas não sofreu, era tão linda, mesmo tão pequena).

Filha, só quero te dizer que: Foi uma honra te gerar… por termos conseguido juntas “Não foi fácil!”.

Obrigada por confiar na mamãe, minha filha!

Por você e por nós.

Mamãe te ama!

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

Tenho 2 filhos e são ambos bebés arco-íris!

A situação mais difícil foi a minha segunda perda em 2020, às 17 semanas, depois de uma 1ª eco normal e um teste Harmony sem problemas.

Em 2021 voltei a engravidar porque não havia motivo aparente nem doenças diagnosticadas (às vezes preferia que tivesse havido…) mas às 9 semanas o sonho acabou .

Posso dizer que só tenho neste momento um bebé de 2 meses no colo porque o médico que encontrei se mostrou otimista desde a primeira consulta, caso contrário teríamos desistido.

Esta gravidez foi uma montanha russa de sentimentos, sendo o medo o principal. Por exemplo, só contámos a novidade quando já não era possível esconder. Com apoio psicológico, a determinada altura percebi que não era justo para nenhum de nós, bebé incluído, fazer de conta que não estava a acontecer nada. Era uma vida nova e merecia ser celebrada como tal!

Mesmo assim, agora que passou, arrependo-me de não ter tirado mais fotos, guardado mais lembranças… O mais provável é ter sido a minha última gravidez e ficou uma grande nostalgia. 

Apesar de tudo é uma história com final feliz!

Desejo todo o amor e compaixão a quem esteja a passar ou tenha passado pelo mesmo.

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Gravidez pós-perda Testemunhos Testemunhos arco-íris Testemunhos Perda Precoce

Estive grávida 5 vezes. Na primeira gravidez (2012,) o sonho durou apenas às 7 semanas. A segunda gravidez teve sucesso. Embora tenha tido ameaça de aborto com perdas de sangue às 6 semanas, com repouso e progesterona, chegamos às 41 semanas. Nasceu então a minha bebé arco- íris a 7 de janeiro de 2014.

A terceira gravidez (2019) tive um aborto espontâneo às 10 semanas. O choque foi ainda maior do que da primeira perda. Primeiro, porque sempre pensei que era só fazer a medicação e ia correr tudo bem, nunca pensei que ia correr mal. E depois também porque já tinha dito à minha filha que carregava um bebé na minha barriga.

Foi um turbilhão de emoções enorme. Saí do hospital sem qualquer apoio. O meu ginecologista, na revisão, passadas 5 semanas, só me soube dizer que podia tentar de novo, quando o que eu esperava ouvir era “vamos fazer exames” porque o meu coração me dizia que algo se passava. Perdia sempre sangue às 6 semanas e era sempre com o mesma intensidade. Mas, como não ouvi isso, saí porta fora sem tão pouco dizer que era isso que eu pretendia.

Na consulta da médica de família o discurso foi: “ainda bem que o seu corpo eliminou, é sinal que está a fazer bem o trabalho dele, porque quando há estas perdas é porque há um defeito do óvulo ou do embrião.” Eu aí ainda disse que na gravidez anterior tinha perdido sangue com as mesmas semanas, nasceu e é perfeita e saudável e que o melhor era vermos porque tinha de haver uma justificação”. Não mandou fazer nada porque, segundo o protocolo, só se investiga após a 3ª perda consecutiva.

Fiz uma pausa. Uma colega recomendou falar com uma pessoa que talvez me ajudasse a encontrar um médico que investigasse e assim foi. Arranjei uma consulta no Porto e o tal médico disse que apenas em 5% dos casos se descobrem as causas. Fizemos o cariótipo do casal, estava tudo ok, eu fiz mais análises que estavam todas dentro do normal. Então o médico recomendou que, numa futura gravidez, fizesse aspirina, assim como progesterona e foi descoberto que tenho o útero bicórneo.

Uma vez que as análises estavam todas ok e o Porto fica longe de Viseu, onde vivo, comecei de novo a sondar as pessoas; quem as acompanhou, etc., pois queria tentar um médico por cá, que concordasse com o que o do Porto me mandou fazer e aceitasse acompanhar-me numa futura gravidez. Uma senhora, minha conhecida, recomendou-me o seu médico e, pelo relato dela, a minha intuição disse “marca consulta”. Fui a essa consulta, o médico concordou com a recomendação do médico do Porto e teve interesse em ver os exames todos desde que quis ser mãe. Olhou para eles como nenhum outro tinha olhado. Os que não tinha comigo enviei depois.

Finalmente, em finais de 2020, senti-me preparada para tentar de novo mas desta vez com muito receio. No início de 2021 descubro a minha quarta gravidez. Mal descubro que estou grávida, uma colega fica contaminada com covid-19. Eu vim logo para casa por prevenção, mas passado 10 dias os sintomas aparecem e testo positivo. Passadas 2 semanas tenho aborto espontâneo…

Na consulta após o aborto, o médico disse que, apesar eu ter antecedentes, quer acreditar que este aborto esteja relacionado com a covid. A sugestão que me deu foi fazer mais um par de análises e, se tudo estiver bem, tentar novamente sabendo que corro o risco de ter novo aborto espontâneo ou, então, avançar para a correção do útero. Aí, teria de aguardar mais tempo, mas que a escolha seria minha. Ele faria o que eu optasse.

Ele disse que se eu não tivesse uma gravidez com sucesso, ou este aborto não tivesse coincidido com o facto de eu ter estado infetada com covid -9, nem me dava a escolher – a opção seria avançar para a correção. Mais uma vez sigo a minha intuição, que me dizia “faz as análises e acredita”, e assim foi. Fiz mais exames a nível particular; sempre, pois nunca tive apoio a nível do SNS. Mal envio o resultado por e-mail, o médico responde: finalmente encontramos o que tanto procuramos, a “causa”. Tenho uma trombofilia. A minha é défice de proteína S.

Marquei então consulta para entender um pouco melhor do que se tratava, e então o médico disse logo que mal engravidasse teria de fazer injeções lovenox, às quais dei o nome “piquinhas de amor”.

Em Outubro de 2021, descubro que estou grávida e iniciei logo as injeções. Tive uma gravidez maravilhosa, com as coisas normais de qualquer gravidez.

No final começou a reduzir o líquido e o meu médico decidiu, muito bem, provocar o parto. Digo muito bem porque depois me disseram que a placenta tinha um hematoma. Os outros médicos sempre disseram que estava tudo ok, enquanto o meu (anjo na terra) dizia “vou apertar a vigilância, vamos ver se aguentamos até as 37 semanas”.

Aguentamos e sinto que a minha filha esta cá graças a ele e à minha insistência.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

Há nove meses nasceu uma criança sem vida.

Será este o princípio? Hoje faz nove meses que nasceu uma criança em silêncio. Hoje faz nove meses que dei à luz uma criança que tinha perdido a vitalidade dois dias antes.

Durante a minha gravidez, eu vivi uma experiência de muita alegria e também de muita angústia, porque foi a minha primeira criança, a minha primeira filha e a gravidez foi a coisa mais bela que me passou pelo corpo. Eu vivi uma experiência de uma sincera felicidade. As hormonas ajudavam a essa expansão: tudo era vida quando o corpo tem vida… vida dentro da vida. É um momento absolutamente mágico.

A certa altura eu comecei a deparar-me com as minhas próprias histórias interiores, com as minhas próprias angústias, e dei conta que eu não seria perfeita enquanto mãe. Quando somos pais e quando percebemos nitidamente que não vamos conseguir ser irrepreensíveis, começamos a perceber as limitações do nosso ser emocional, enquanto mãe ou pai, vamos percebendo cada vez melhor aquilo que é possível fazer. Não é possível fazer mais do que aquilo que foi feito, porque partimos do pressuposto que a pessoa fez da forma que achava certa naquela altura específica, naquele enquadramento, naquele cenário, naquele padrão emocional.

E foi um longo caminho, o crescimento desta criança, de compressão da minha própria infância. Eu cresci muito durante os seis meses da minha gestação e nestes nove meses seguintes ao parto.  

As condições, por ter sido descoberta uma síndrome rara na criança, e os caminhos de uma não interrupção, seriam catastróficos e fizeram com que esta criança nascesse sem vida.

Então ao terceiro dia, depois de interrompermos a vida, ela nasceu.

Todos os elementos da família fazem história na família. Todos aqueles que vieram à vida sem vida, são parte desta história e perante o que eu vivi e o que estudei e que eu sinto, é que uma das coisas mais interessantes a fazer para nosso preenchimento e para o equilíbrio da família, é nós inserirmos com um nome estes seres. Sabermos que posição é que eles ocuparam na nossa família. Inserir esta criança, percebendo a posição de cada filho na família. Porque se temos dois filhos e perdemos um ou outro, o segundo pode ser na verdade o terceiro, e isso muda tudo no potencial desse filho, ou o primeiro que se achava o primeiro é na verdade o segundo.

Então, já que se abriu esse vazio, que se preencha esse espaço de amor,

O mais importante em última análise, é poder celebrar cada ser, que veio à luz em certo momento. É dar-lhe um nome, é introduzi-lo na família de forma invisível, evidentemente, mas é ter um contacto com esta vida, percebendo qual foi o propósito, aceitar aquela história, celebrando da melhor forma possível aquilo que nos foi dado por esta criança que nos fez crescer, que nos fez ampliar a percepção, e que, pela dor, nos fez expandir a consciência. Porque como diria a Simone Weil, e Simone é o nome da minha filha, é preciso um espaço vazio, para entrar a força do invisível.

Então, já que se abriu esse vazio, que se preencha esse espaço de amor, pelo que é invisível, pelo visível, e que o nosso coração possa beber das nossas historias por inteiro. Sem serem apenas perdas vazias de significado mas serem processos transitórios de muito amor, vitalidade, de total compreensão.

Para terminar, existiram coisas que eu fui fazendo, depois do parto além de descansar, aceitar o arrombo hormonal que precisa de ser respeitado, o arrombo emocional que precisa de ser ouvido, choro que precisa de correr, grito que precisa de sair. Eu escrevia, escrevia muito, para ela, para a Simone, fiz uma espécie de caderninho secreto de diálogos de uma para uma e meditava. E falei muito pouco com as pessoas à minha volta porque eu sentia que as pessoas não tinham condições psíquicas para falarem sobre a morte e sobre a beleza daquela minha experiência. Talvez devesse ter falado mais e partilhado mais o que é uma experiência absolutamente milagrosa de dar a luz, mesmo que tenha sido em silêncio. E talvez por isso faça este pequeno texto, para que fique para a eternidade e para mim própria, enquanto ainda tenho 33 anos, que foi um ano de ressurreição. Então escrevam uma carta para esse filho, deem-lhe um nome, e introduzam-no na vossa Grade Familiar de forma silenciosa, apenas para inscreverem essa criança no vosso ser. E não deixemos que essas histórias sejam segredos ou tabus.

Então trabalhemos para a verdade, para o amor e para a luz e continuemos esta longa caminhada.

Nove meses foi o tempo que eu demorei a perceber exatamente que era nesta história que eu tinha que agarrar, para conseguir comunicar com estas pessoas feridas do passado. Eu queria, no fundo, abraçar todas as mães e pais, que perderam estes bebés tão maravilhosos, queria dizer que amo muito estas criancinhas que não puderam vir à vida, mas que acima de tudo, quem nasce somos nós. Porque somos nós que nascemos quando damos à luz um filho. É o filho que nos vem mostrar quais as feridas que ainda estão por sarar.

Um beijo a todas estas mães, a estes pais, a estes avós, a estes irmãos, a estes tios e estes primos e aos amigos, que estão sempre lá para nos acolher. A estas crianças eu entrego-lhes o meu sorriso cúmplice e o meu brilho.