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Testemunhos Testemunhos Perda Neonatal

Meu presente de Natal: no dia 24/12 aproveitámos ao máximo o barrigão. Eu estava com 39+2, às 15h comecei a sentir cólicas e, como eu tinha uma enfermeira me acompanhando, comecei a falar com ela e a monitorizar. Quando foram 20h ,comecei sentir as contrações.

Eu estava bem indecisa entre cesariana e parto normal, mas eu queria ter essa experiência, e deixar o meu filho escolher o seu dia! Então resolvi esperar e foi como Deus permitiu para ser, ele escolheu o dia dele!

Das 20h do dia 24/12 aguentei até 00h para sair de casa do dia 25/12, como qualquer mãe em trabalho de parto, você aguenta o máximo em casa e vai monitorizando para chegar ganhando na maternidade.

Eu cheguei na maternidade Brigida com 7cm de dilatação, às 00:50 mais ou menos. Chegando lá, foram super rápidos no atendimento, a médica na triagem não conseguiu ouvir a coração do Mateus com muita força, por isso eu fui encaminhada com urgência para uma cesariana de emergência. Colocaram-me numa cadeira de rodas e, sem eu poder dizer nada ao meu esposo, só balancei a cabeça, e com vontade de chorar me mantive firme.

Depois de alguns minutos, eu já estava na sala de cirurgia a aplicar a anestesia e o Rodrigo chegou minutos depois.

Em coisa de segundos tiraram o Mateus. Eu não pude vê-lo e nem se quer ouvir seu choro. Só me falaram que ele nasceu muito verde e correram com ele.

E todos me perguntam o que aconteceu com ele? Eu não vi postando nada do nascimento dele? Ele já nasceu?

Para todos que perguntam: foi tudo muito rápido, foram 3 dias do meu filho lutando pela vida, 3 dias clamando pela misericórdia de Deus sobre a vida dele, para que deixasse ele permanecer aqui nessa terra comigo.

E o que foi que aconteceu?

Mateus, quando foi nascer, dias ou horas antes (o médico não sabe dizer desde quando) ele acabou por fazer cocó dentro da barriga e lá dentro acabou broncoaspirando o cocó, que se chama mecônio, e assim que saiu de mim os médicos correram aspirar ele e fazer todos os cuidados.

E porque aconteceu? Não tem explicação, é a natureza do bebé, não tem como impedir de algo assim acontecer, não tem explicação.

Desde então, eu não vi os olhos do meu filho, nem o choro dele, apenas vi ele na UTI todo entubado, com muitas drogas e dormindo, e à base de oxigénio 100%.

Esse líquido foi para o pulmão e como ele não consegue sem o pulmão mandar oxigénio ao restante dos outros órgãos, tudo foi enfraquecendo, o rim, o coração…

Mateus dos Santos – Mateus significa “presente de Deus”. Meu milagre, nasceu 25/12/ 2022 às 1:43 pesando 3.285kg 51cm.

Vocês sabem o que é um milagre?

No primeiro dia na UTI, a médica deu-lhe 24h de vida, disse que só um milagre para ele ficar.
Eu, operada com 7 camadas de pele cortada, chorava muito, chorava e como chorava! Pediamos a Deus um milagre naquela UTI, eu e o Rodrigo.

Voltamos no outro dia na UTI e a médica disse “se vocês acreditam em milagre dessa noite ele foi um milagre”.

No dia seguinte ele precisou de uma máquina de diálise, pois o rim estava a parar, precisou de transfusão de sangue. Todo esse cuidado ele teve na maternidade, graças a Deus, Ele colocou anjos no nosso caminho que nos ajudaram nesses 3 dias.

Ele foi um milagre nesses 3 dias lutando! Eu orei tanto, clamei tanto, mas tanto… E eu me perguntava “por que Jesus, porquê com a Carla e com o Rodrigo?”

E não sabemos o porquê disso tudo, talvez a gente nem saiba, mas isso tudo dói tanto…Eu não desejo para ninguém isso que estamos passando, mas me pergunto ainda o porquê.

Me preparei tanto nesses 9 meses, fiz tudo o que deveria ser feito, foi maravilhoso gestar ele, sentir ele.

Nesses 3 dias eu achei que sabia o que era o amor, mas não… Eu não sabia o que era o amor, como é grande o amor de uma mãe e um pai por um filho, nosso filho nos mostrou a fé pois clamamos tanto a Deus, com todas as nossas forças, eu já não sabia como orar.. eu só pedia por fôlego de vida!

Ele nos mostrou a união, tanto a minha família e amigos, quantas pessoas que eu nem conheço, oraram e levantaram um clamor a ele.

Mas dia 28/12, ele descansou!

A médica pediu para eu e o amor e a família se despedir dele. Eu em nenhum momento orei para Deus levar ele, a minha oração era fôlego de vida senhor, assim como ressuscitou Lázaro no 3° dia ,faz com o meu filho também.

E no meio da tarde as enfermeiras já estavam a reanimá-lo manualmente e estava tudo caindo aos poucos… batimentos, saturação, tudo, tudo baixando.

Então resolvi entrar na UTI e orar para que Deus fizesse a vontade dele e não a minha. Eu não queria meu pequeno sofrendo, eu disse a Deus que eu não entendo os planos dele e nem sei se vou entender.
E às 18:50 ele descansou.

Como dói, como dói, meu coração está despedaçado! Eu acredito em propósitos, mas eu não entendo hoje!

Mas meu filho é um milagre, Mateus veio para mudar e mostrar o que é o AMOR.
Ele escolheu nascer com Jesus, seu nome significa presente de Deus e depois de 3 dias se foi.

Ele escolheu o melhor ventre para morar, escolheu a melhor família para ter com ele e escolheu os melhores pais, eu e o amor vamos para sempre amar esse menino e para sempre levar ele em nossos corações e memórias e lembranças.
Não poderia ter escolhido pais melhores a ele, foi rápido mas tão intenso com tanto amor.

O nosso milagre nos deixou! Agora só ficou a dor e a saudade, e como dói! Nada está no nosso controle!

Quando vamos conseguir parar de chorar eu não sei, quando vai parar de doer eu também não sei (acho que nunca vai parar de doer).
Pois nós tínhamos tantos planos com você, seu quarto está lindo! A mamãe está cheia de leite que era para te alimentar.

Durmo e acordo chorando, acordo pensando que estou em um sonho e vou poder te buscar na maternidade, acordo com uma dor absurda e vontade de te ter em meus braços.
Vontade de ir até a você e ficar com você, vontade de te pedir de volta! Mas não tem o que eu faça, pois não vou te ter de novo aqui.

E o seu pai? A mamãe já amava o seu pai, mas agora eu o amo muito, mas muito mais, a vontade é de me invadir para dentro dele e ficar ali escondida e quietinha, eu quero seu pai comigo o tempo todo, não quero ficar longe dele.

O seu pai é um homem incrível, ele tem sido tão forte tem cuidado tão bem da mamãe. E assim como dói na mamãe dói nele, as vezes que eu tive medo de entrar na UTI ele com muita dor e aperto no coração entrava para te visitar, pois você só tinha a nós! Meu amor eu te amo tanto.

Dia 29/12 foi o dia mais triste de toda a minha vida em ver o seu pai carregando o seu caixão, e ter que enterrarmos o nosso filho, meu Deus como dói!

Meu filho era lindo, os olhos puxadinhos e pequenos igual o da mamãe, boca da mamãe, beiçodinho igual e nariz do papai, tudo perfeito, Deus fez perfeito do jeito que eu pedi a Ele.

Agradecemos a todos que oraram junto com a gente, e a todos que estão com a gente!
Não sabíamos o quanto as pessoas nos amam e o quanto amam o Mateus!

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

Era o mês de Outubro de 2021 e os sinais que uma alma estava próxima a chegar foram aparecendo!

Eu sabia que Novembro e Dezembro iam ser meses a evitar para engravidar, para as datas não se cruzarem com as datas que pertenciam à Maya!

O tempo foi passando e os sinais eram cada vez mais intensos. Um dia, em pleno inverno, passeava o cão e vi 3 cegonhas! Pensei: cegonhas no inverno não parece muito normal, acredito que a cegonha vai chegar em breve, mas na minha mente pensava que começava a tentar após Janeiro de 2022.

A verdade é que neste dia eu devo ter engravidado. Testes de ovulação todos negativos, alguns problemas urinários… gravidez não era de todo uma possibilidade! A verdade é que no dia 25 de Dezembro acordei com um sentimento muito forte de que estava grávida. Parecia até contraditório, porque não queria ter engravidado naquele período, mas dentro de mim algo me dizia que estava grávida. Nessa manhã fiz um teste que se mostrou negativo e eu desabei a chorar e no fundo nem sabia bem porquê! O tempo foi passando e a menstruação estava atrasada, nada normal em mim. Dia 30/12/2021 resolvi fazer um teste e, qual o meu espanto, quando vejo o positivo. Em todas as outras 3 gravidezes o teste deu positivo mesmo antes do atraso da menstruação. Não foi o caso desta.

Fiquei em negação durante quase um mês, primeiro porque percebi que as datas iam ficar muito próximas e também com medo que os abortos se repetissem! Só quando fiz a primeira ecografia é que caí em mim!

Foi uma sensação única, os medos eram arrebatadores, mas a esperança de que desta vez tudo correria bem era mais forte. Em Fevereiro, com 10 semanas, fomos passar férias em Portugal e o nosso mundo desabou: uma perda de sangue monstruosa aconteceu (verdadeiramente pior do que os dois abortos que eu já tinha tido). Dei entrada na maternidade e a médica ao ver tanto sangue e ao saber o histórico, tentava encontrar as palavras para, se calhar, me dar mais uma má notícia. Pedi que fosse rápida (com o tempo ficamos calejados com as más notícias), até que a Dra disse que ia fazer uma ecografia vaginal e, qual o espanto dela, quando o meu bebé mexia no seu ninho, feliz da vida!

Então, com esperança o tempo foi passando e este arco-íris foi ganhando espaço na minha barriga. Ela foi aumentando, ele começou a dar sinais e uma conexão começou a criar-se!

Nunca soubemos bem o que aconteceu, mas a verdade é que este ser continuou agarrado à vida, agarrado a nós… fiquei de repouso para garantir que podia voltar para casa. Voltamos a casa e duas semanas depois fizemos a primeira ecografia, que mostrou que tudo estava bem com o nosso bebé. Então, com esperança o tempo foi passando e este arco-íris foi ganhando espaço na minha barriga. Ela foi aumentando, ele começou a dar sinais e uma conexão começou a criar-se!

Nem todos os dias foram fáceis, mas aceitei sempre as minhas emoções, permitir-me senti-las e extravasá-las sempre que necessário! O tempo foi passando, e com medo não queria preparar o quarto, mas a minha enfermeira e a psiquiatra foram-me recomendando começar a avançar aos poucos. Que depois no pós-parto ia ser mais difícil! Lá ganhei coragem e comecei.

Segui as recomendações: as roupas fui lavando e mudei o cheiro dos produtos para a intenção passar a ser outra (o cheiro da Maya será para sempre o cheiro da Maya) e este seria o cheiro para este bebé! Lavei roupas, organizamos o quarto, tudo foi fluindo, mas também houve momentos de emoções elevadas e de muito choro. O medo de voltar a entrar em casa de braços vazios invadia-me. Permitimo-nos avançar nesta montanha russa, de incertezas, medos, angústias e amor!

Tudo foi avançando e as semanas foram passando. O meu bebé que, tamanha era a conexão, que reagia até ao pensamento, diga-se de passagem, que o bebé arco-íris sente tudo muito mais. Preparámos um plano de parto, ao qual eu ainda pensava na tentativa de um parto normal após a cesariana da Maya (às 37 semanas fiz uma ecografia para analisar a minha cicatriz e tudo indicava que se o bebé assim entendesse podia ser normal). Mas o nascimento de um bebé não é só nosso e o pai tem um papel importante também…no nosso caso, o pai não se sentia confiante com o parto normal. Afinal havia todo um passado…

Acabei por ceder e marcamos uma cesariana… mesmo assim entre a espera ainda tive uma consulta e tentaram-me fazer o descolamento das membranas sem sucesso. Tudo apontava que o mais seguro para este bebé chegar era mesmo por cesariana!

Assim foi, no dia 29 o nosso bebé surpresa chegou. Com ele descobrimos que o nosso mundo teria muita cor…descobrimos também que passaríamos a ser pais de um menino…e após este dia eu aprendi a viver com um bebé nos braços e outros no coração.

O Adam sabe e saberá que para nós ele é o nosso 4º filho, mas o primeiro que trouxemos para casa, o primeiro que se comprometeu a fazer esta caminhada terrena connosco!

É uma benção ter este arco-íris connosco após todas as tempestades! Nada é por acaso e no momento certo tudo chega em tempo divino… com carinho, abraço cada um de vocês pais e mães de colo vazio, mas que em breve acreditem, terão o vosso arco-íris.

Ana, mãe do arco íris Adam
Abelhinha Maya e
Anjinhos Jonas e Ayam

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

A Clara chegou ao mundo a 4 de Janeiro depois de um parto de mais de 40 horas.

Tal como toda a gravidez, foram as horas mais lentas e mais rápidas da minha vida. Não vou mentir, não foi uma gravidez fácil. Aliás, começou com uma visita ao hospital, por causa de um sangramento e com más notícias: “Claudia, prepara o coração que esse bebé também não vai ficar. Os teus níveis estão muito baixos. Para a semana, quando fizeres o teste de novo, já confirmamos a não evolução com um negativo”.

Eu já estava preparada, afinal, o meu arco-íris não tinha ficado e uma pessoa quase que se habitua a receber más notícias – enfim, perda era tudo o que conhecia!

O teste veio positivo, em segundos. Mas tinham-me avisado que podia acontecer e, se fosse esse o caso, para esperar 3 dias, refazer e se ainda fosse positivo, voltar ao hospital.

Os positivos continuaram a aparecer e eu, com a ânsia, até fiz daqueles electrónicos e as semanas subiram.

Na consulta confirmou-se: má datação inicial, bebé de 7 semanas, coraçãozinho a bater. Eu fiz aquele caminho até casa 2 vezes sozinha. Em ambas tive de dar as más notícias ao meu parceiro. Esta foi a primeira vez que as lágrimas eram de felicidade.

Por ter perdido a Charlie tarde na gravidez, fui seguida muito de perto com ecos regulares e várias consultas. O resto da gravidez, felizmente, foi tranquilo. O meu estado emocional, por outro lado, foi uma montanha russa. Um dia de cada vez. Como forma de proteção, não partilhei a gravidez com quase ninguém e, quando o fiz, foi em fase bem avançada.

Quando o coração de um bebé deixa de bater dentro de nós sem motivo, aprendemos que não há rede de segurança em nenhuma fase da gestação e nada que garanta que vá correr bem. É aceitar o medo, a falta de controlo e seguir, esperando o melhor e preparando-nos para o pior. Mas eu também sabia que ela merecia ser celebrada. Quando passei as 25 semanas, mentalizei-me que ia ter de a conhecer, quer corresse bem ou mal, e por isso, já contava que o coração ia sofrer se ela não ficasse; não havia nada que me salvasse disso.

Houve muitas coisas que fiz diferentes, aliás, eu queria e precisava que fosse diferente, porque semelhanças, na minha cabeça, indicavam uma repetição do desfecho. É importante ter mecanismos de cooperação. Não que eles impeçam os medos ou os dias de saudade e choro, mas precisamos de aproveitar os bons e acreditar, nesses dias, que vai tudo correr bem. Por isso, se se encontrar a fazer qualquer coisa que possa parecer estranha mas que esteja, de alguma maneira, ligada à gravidez, é normal. É um dia de cada vez. É respirar e pôr um pé em frente do outro. Muitas vezes, é esperar que aquele dia acabe.

Mas, nos dias bons, se conseguir, aproveite. Nós culpamo-nos de não fazermos memórias suficientes com os bebés que perdemos e, por medo, acabamos por fazer o mesmo – mas mesmo sem recordação física, o bebé existiu e somos a mãe dele.

Tudo o que vos desejo, é que sintam o alívio, o amor, o quentinho, o cheirinho e a felicidade que eu senti quando a Clara chegou.

É estranho como ela nos pertence, mesmo quando penso que, se calhar, se a Charlie tivesse ficado, ela não teria chegado. E isso parece-me tão errado como a perda dos meus 2 bebés.

A todos nesta viagem, cuidem de vocês, procurem apoio e aproveitem como conseguirem, prometo que vale a pena!

Claudia.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez Testemunhos Perda Tardia

Há muito que quero partilhar convosco a minha “história”. mas a verdade é que ainda não tinha conseguido reunir as forças suficientes e, por outro lado, não queria que fosse apenas um “despejar da minha revolta”. Queria que, de alguma forma passasse uma imagem de esperança a todas vocês.

Provavelmente vou chocar algumas mamãs desse lado mas…terei de ser sincera convosco…Ser mãe nunca foi (durante quase toda a minha vida) um sonho! A minha história de vida (e que não vale a pena falar agora dela) não me permitia fazer do ser mãe um sonho.

Levei muitos anos a “mentalizar-me” porque, no fundo, também não me via sem filhos… Aliás, há mais de 10 anos que sabia que se conseguisse engravidar, iria ser um menino e que se iria chamar Miguel. Não me perguntem onde fui buscar esta certeza mas eu sabia, não sei como…

Finalmente ganhei coragem e, passado 1 ano e 2 meses de tentativas e com uns simples sintomas que poderia indicar uma gravidez, lá fiz o único teste de gravidez da minha vida e que mostrou um “GRÁVIDA 3+”. Foi um misto de felicidade, de preocupação, de medo mas… acima de tudo um “consegui”, um “fui capaz”!

Seguiram-se os passos normais, as consultas normais, as ecografias…fiz tudo como “manda a lei”, tanto no serviço nacional de saúde como nos intervalos das consultas no público, com a minha obstetra.

Às 6 semanas tive um “sustozinho” de uma perda de sangue e fui às urgências mas fiz uma medicação e tudo evoluiu de forma positiva. Também foi nesta consulta que ouvi, pela 1ª vez, e sem estar a contar com isso, o coração do bebé. Foi lindo!

Por volta das 15 semanas tive a confirmação que iria ser um menino, o meu Miguel.

Andando com a história para a frente e a 2 dias de fazer a ecografia do 2 trimestre fui às urgências pois, pela 3ª ou 4ª vez durante a gravidez, tinha umas dores de cabeça muito fortes.

Ali, naquela sala pequena, o mundo desabou! A partir daí, dessas palavras, foi como se entrásse em “piloto automático”, como se ficasse anestesiada, como se deixasse de estar lá (mas também não vos sei dizer onde andaria)…

Só fui porque uma amiga minha enfermeira e o meu namorado me pediram quase por favor só para ir ver. Para mim não passavam das minhas enxaquecas e que teria de as aguentar, uma vez que a medicação que faço em S.O.S para elas, não deve ser feita durante a gravidez.

Sempre ouvi dizer que na gravidez não era possível ter enxaquecas mas, a verdade, é que não estava a conseguir concordar com essa afirmação.

Entrei nas urgências dia 01 de Agosto (a 1 dia de fazer 21 semanas) a pensar que me iriam dar uma medicação qualquer na veia e que iria para casa passadas uma ou duas horas…só quenão!

Realmente fizeram-me essa medicação, o que me fez passar a dor de cabeça mas a tensão estava um pouco elevada e estava a perder proteína na urina. Teria de ficar para o dia seguinte. Esse ter de ficar manteve-se até dia 04 de agosto, altura em que fui transferida para a maternidade Bissaya Barreto em Coimbra.

Só posso dizer que foram dias de muito medo, por não saber o que se passava comigo, nem com o meu bebé. Muito medo de pensar sequer que o poderia vir a perder. Era tão pequenino, tão calminho, tão bem comportado, não me fez um único enjoo…se não fosse o crescer da barriga, nem parecia grávida. Como é que agora conseguiria imaginar não o poder fazer viver?!

Estive sempre rodeada de profissionais humanos, tanto médicos, como enfermeiros, como assistentes operacionais, devo-lhes muito mas…a minha saúde continuava a deteriorar-se. Numa semana inchei de tal maneira que aumentei 9kg de peso. A proteína que perdia na urina era cada vez mais, o fígado estava mal, os rins estavam mal, a hemoglobina muito baixa, as plaquetas muito baixas e a tensão sempre alta, principalmente a baixa…mas, sentia-me bem, acreditam?! Embora, cada vez mais sem esperança num final que considerasse feliz…

Dia 08 de Agosto fui chamada a uma sala, juntamente com o meu namorado, onde estava o diretor do serviço, o diretor do hospital, a equipa de enfermeiros desse turno e foi-nos transmitido que o bebé era pequeno para o que seria de esperar, que a minha placenta não estava a alimentá-lo convenientemente, que os meus órgãos estavam a entrar em falência e que teriam de interromper a gravidez.

Ali, naquela sala pequena, o mundo desabou! A partir daí, dessas palavras, foi como se entrásse em “piloto automático”, como se ficasse anestesiada, como se deixasse de estar lá (mas também não vos sei dizer onde andaria)… Era uma decisão que só eu e o meu namorado poderíamos tomar mas…não havia mais nenhuma! Por isso, e até hoje, não percebemos o porquê de ter de fazer um pedido à comissão de ética do hospital a pedir essa interrupção.

Percebo que será uma maneira dos profissionais se salvaguardarem, mas…será que eles saberão o que significa para uma mãe, para uns pais fazer um pedido para que matem o filho?!

Ainda hoje, passados 4 meses, se me pedem para assinar qualquer documento, eu viajo instantaneamente para aquela sala, para o assinar daquela folha branca! A única coisa que de alguma forma me alivia um pouco a dor, é que os médicos sempre disseram que se eu ficasse em risco de vida, eles iriam intervir mesmo sem o parecer dessa comissão de ética e…foi mesmo isso que aconteceu!

Às 22 semanas e 1 dia (dia 10 de Agosto) nasceu o meu Miguel, de parto normal e sem direito a epidural, uma vez que o valor das minhas plaquetas não me permitiram levar…

Tive dores, induzir o parto foi horrível, as contrações não são fáceis e o expulsar a placenta também não foi (tive de ir ao bloco para conseguirem) mas o que mais me doía e dói, até hoje, é a alma! Tudo, todos os sonhos acabaram ali e tenho muitas saudades das coisas que nem nunca vivi, não sei se me conseguem entender…

Escolhi (e uma vez que moramos a muitos quilómetros da maternidade e o meu companheiro estava a acabar de chegar a casa depois de ter estado comigo) passar pelo parto sem a presença dele, escolhi poupá-lo a isso. Não o deveria ter feito! O pai precisa estar connosco para conseguir perceber melhor por tudo o que passámos. Se me posso arrepender de alguma coisa, é do ter poupado a isso sem sequer lhe perguntar qual era a decisão dele.

Também escolhi não conhecer o meu Miguel…ainda não sei se fiz bem já que em quase todos os vossos testemunhos vocês escolhem ver os vossos bebés mas…a verdade é que não tive coragem. Foi o que me fez mais sentido na altura, sabendo que só teria essa oportunidade e que me poderia arrepender mais tarde…(e ainda não me arrependi).

Passado todo este tempo ainda não temos resultados dos exames feitos ao bebé e placenta, nem de análises super específicas feitas a mim (e só terei nova consulta em Fevereiro!) que me expliquem o porquê, precisava disso para me aliviar, de alguma forma…o diagnóstico foi que tive pré-eclâmpsia com síndrome de HELLP mas não percebem o porquê. Até porque, ao que parece, a pré-eclâmpsia está descrita nos manuais que pode acontecer a partir das 20 semanas mas nunca acontece, é só mais no final da gravidez e eu…comecei antes das 19 semanas, até! Todos são de opinião que tive algo muito grave mas…não o conseguem explicar! Provavelmente terei alguma doença autoimune mas não sabem com certeza e muito menos qual! Ainda pensaram que poderia ser hipertensa ou diabética antes da gravidez e não saber mas…isso já está posto de parte.

Será que alguma vez conseguirão descobrir? Não sei. Será que poderei voltar a tentar?

Não sei. Será que ainda está guardado algo bom para mim? Também não sei, mas gosto de pensar (e agora consigo finalmente fazê-lo) que foi o melhor para mim mas, e acima de tudo, para o meu Miguel. Ele está bem e eu também terei de ficar para ele estar feliz, acredito nisso!

Se é fácil? Não! É a pior coisa do mundo! Nenhuma mãe devia passar por isto mas, com muita força de vontade e ajuda psicológica, posso dizer-vos que é possível ter esperança num futuro mais bonito para nós.

Mesmo com frases do tipo “sabes, também já não és nova”- fiz agora 40 anos…; “foi melhor agora que mais para a frente”- às 22 semanas +1dia dói menos?! É perder um filho; “Não podes estar assim”- quem disse? Eu estou como quero e consigo!; “Não chores!” – porquê? Tenho mais é de chorar, deitar tudo cá para fora!; “Sabes? É o teu corpo que não dá!”-esta foi a mais dura porque até agora tudo indica que foi mesmo o meu corpo que foi fraco, mas precisava que me dissessem isso? Ninguém precisa!

Nós somos mais fortes, sabemos que, no fundo, as pessoas não sabem o que dizer e, quando dizem, só dizem disparates! Coitadas é delas!

Estamos numa época do ano que julgo ser ainda mais desafiante para todas nós (e o meu Miguel tinha data prevista de nascimento para dia 11 deste mês de Dezembro e seria o seu 1º Natal) mas nós somos fortes, somos guerreiras e vamos conseguir lidar com tudo isto com mais leveza, já que esquecer nunca o vamos conseguir (e acho que nem queremos).

Desejo que também vos seja possível acreditar e dou um grande beijinho no vosso coração. Estou aqui e disponível para falar convosco, em particular, se sentirem que vos posso ajudar com alguma coisa.

Mamã da Estrelinha Miguel

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Foi no dia 30 de Novembro de 2020 em que descobrimos que o Gabriel crescia dentro de mim. Após duas perdas gestacionais e tentativas falhadas, o Gabriel vinha a caminho.

O nosso amor tinha triplicado; seria o pensamento que à terceira é de vez e que desta vez iremos ver nascer, e crescer, o nosso 3º filho.

Durante 41 semanas fui seguida no hospital como gravidez de risco, sempre com medos e receios.

As semanas e meses foram passando. Nas consultas e ecografias diziam-me sempre que estava tudo bem e nós íamos ficando cada vez mais tranquilos e desejosos de conhecer o nosso filho. Devido à Covid, o pai nunca pôde assistir às ecografias realizadas no hospital, só pôde assistir às ecos 4D que fizemos e onde soubemos que o nosso bebé seria um menino.

Ficámos tão, mas tão felizes que escolhemos logo o nome de Gabriel.

O nosso Gabriel nasceu no dia 16 de Agosto de 2021  às 22:08 após 22 longas horas em trabalho de parto com a bolsa rebentada. Nasceu de uma cesariana de urgência, exigida por mim, por não aguentar mais o longo e difícil trabalho de parto.

O nosso Gabriel nasceu com 3.890kg e 52cm, um bebé grande,  lindo aparente saudável até que, quase duas horas após ele nascer, o pai estava a brincar com ele e viu que a respiração do Gabriel não estava normal. A pediatra pediu ao meu marido para sair para observar o nosso filho e foi aí que detectaram que algo não estava mesmo bem, que o Gabriel iria precisar de oxigénio. Entretanto eu cheguei do recobro e já não pude ver o meu filho. Apenas a pediatra e o meu marido me esperavam. A pediatra deu-me a notícia que o Gabriel teria de ficar a oxigénio e que se não recuperasse, teria de ser transferido para Lisboa para ter outro tipo de ajuda respiratória, que eles não tinham no hospital. A pior notícia que ela nos deu assim, sem rodeios, seria que as próximas horas seriam decisivas para o Gabriel .

Ficamos ali sem chão. O que ansiávamos há 41 semanas, este momento de estarmos juntinhos finalmente com o Gabriel nos braços, tornou-se o início de um caminho de separação por vários dias.

Ficámos os 3 sozinhos, um em cada lugar; o nosso filho lutando sozinho  pela vida numa incubadora de hospital, o pai teve de regressar a casa sozinho e eu sozinha, no quarto de hospital, sem poder ter o Gabriel comigo .

Ainda nessa madrugada, recebi a notícia que o nosso filho iria ser transferido para Lisboa, e onde o pai recebeu o diagnóstico do Gabriel: nasceu com uma Cardiopatia Congénita complexa e rara, ou seja, com varias malformações no seu coraçãozinho lindo e cheio de amor .

O Gabriel nasceu com uma TGA- Transposição das Grandes Artérias; coartação da artéria aorta, uma displasia na válvula tricúspide e uma CA -comunicação entre aurículas. Após o diagnóstico, o nosso filho foi transferido para o Hospital Santa Cruz, onde foi feito uma CV através de cateterismo.

Estive separada do meu filho quase 3 dias porque, como foi cesariana, tive de ficar no hospital em Santarém e o meu filho em Santa Cruz. Passei 3 dias sem saber se o conseguiria ver antes do Gabriel ser operado. Foi o pai quem esteve com o Gabriel esses 3 dias, mas só de dia, porque de noite não podíamos permanecer junto do nosso filho.

O estado clínico  do Gabriel era bastante reservado e requeria muitos cuidados. O Gabriel precisava de ser operado o mais rapidamente possível, mas uma septicemia o impedia. Foi uma semana de luta contra a septicemia, nós nem lhe podíamos tocar sequer…era imensamente duro não o poder fazer, mas sabíamos que era para o bem do nosso filho.

O Gabriel foi operado à coartação da aorta ao final de uma semana de ter nascido. Três semanas depois foi operado para colocar um banding na artéria pulmonar, porque o pulmão esquerdo estava a ficar demasiado afetado e irrigado de sangue.

Após isto tudo, o nosso filho ainda tinha que passar por outra cirurgia,  “grande cirurgia”, a troca das grandes artérias, a válvula tricúspide e o encerramento da CA e CV, mas o Gabriel precisava de estar bem para esta operação.

Entre estas duas cirurgias, o nosso filho teve um episódio de convulsões derivado a ter líquido entre o cérebro e o crânio, por causa do longo trabalho de parto – as horas sem oxigénio suficiente- mas conseguiu reverter a situação e recuperar bem, sem quase nenhuma sequela. Após a segunda cirurgia, contraiu uma infeção, chamada uma endocardite – uma infecção nas paredes do coração e seis semanas de antibióticos se seguiram até à grande cirurgia.

Como mãe, esperei 28 dias para o pegar ao colo, e ter o meu filho em meus braços, e o pai quase 2 meses para poder pegar no colo o nosso filho. Mas tudo isso ultrapassamos, pois o que mais desejávamos era que o nosso filho ficasse bem e viesses para casa connosco .

Nem sempre o nosso filho esteve muito mal… o Gabriel era um valente, um lutador, foi sempre surpreendendo tudo e todos, dando a volta por cima – ele sorria, fazia cara de sério, poucas vezes chorava, aliás só chorava quando tinha a fralda suja ou quando tinha cólicas.

O nosso filho lutou imenso –  uma semana antes da grande cirurgia à artéria aorta. Teve de lhe ser feito um cateterismo de urgência na quinta-feira antes da grande cirurgia, que correu muito bem . O nosso filho foi operado dia 26 de Outubro de 2021: a grande cirurgia, o que faltava para recuperar e vir para casa .

Foram 8 longas horas, as mais longas de sempre, que acabaram da pior forma, o nosso filho lutou com tudo, com todos os seus recursos, para sair do bloco bem. Lutou para vir para juntinho de nós fisicamente, mas algo não deixou. A cirurgia, em si, correu bem mas recebemos a pior notícia, a notícia que nenhum de nós queria ouvir ou acreditar, aliás nenhuns pais deveriam ouvir: que o nosso filho partiu para onde nunca mais o podemos ver, ouvir, sentir (não fisicamente porque o nosso filho vive em nós), enquanto sobrevivermos a esta dor imensa.

Temos e sentimos um orgulho imenso no nosso filho. Amamos-te imenso, filho. O nosso nenuco bochechinhas de sorriso lindo e coração cheio de amor.

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

Perdi o meu Tiago no dia 20 de Janeiro de 2021. Um bebé muito desejado, depois de vários anos de tratamentos de fertilidade. Foi muito duro e por várias vezes me veio à cabeça a ideia de que ser mãe não era para mim, parecia que não estava destinado.

O medo invadiu o meu coração. Procurei ajuda psicológica, fiz reiki, entre outras terapias, que me ajudaram a aceitar aquela perda.

Quando pude comecei novamente com as transferências de embriões. Cada negativo era um murro no estômago, vinha novamente o medo e a dor.

Foram 4 transferência negativas. As forças começavam a faltar. Mas, no fundo, não queríamos desistir. Cada sinal que recebia me “dizia não desistas”. O arco-íris estava lá para mim. Até que decidimos fazer uma última transferência; o embrião que supostamente era o mais fraquinho de todos e veio o positivo. Um valor muito baixo que ninguém acreditava que ia vingar. Mas vingou e hoje tenho uma bela princesa nos braços.

Não foi uma gravidez fácil. Toda aquela inocência acabou. Tudo era medo. Tudo era um problema. Não foi uma gravidez onde aproveitei para tirar fotos, para mostrar a barriga. Afastei-me de tudo que me fizesse pensar que poderia correr mal e confiei que o universo ia ser generoso comigo.

Como perdi o meu Tiago às 37 semanas, imaginem o final da minha gravidez… super ansiosa. O medo de ela parar de mexer era tanto. O trauma do dia em que soubemos que já não tinha batimentos….

Ela não quis esperar pelas 37 semanas e decidiu romper a bolsa num domingo à noite, dia 20 de Novembro de 2022. Curiosamente no dia do irmão (20).

Nasceu às 36+3 cheia de saúde e linda.

Isto tudo para passar a mensagem a quem, assim como eu, perdeu um bebé e está a tentar outro: Não desistam, o caminho é longo e duro. A luta contra a infertilidade é difícil. Mas acreditem no amor. Acreditem em vocês. 

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

Em dezembro de 2022 faz um ano que eu vivi um dos momentos mais duros e um dos momentos mais felizes da minha vida. No dia 1 de dezembro tive a confirmação de gravidez – o tão desejado positivo.

Antes, já tinha levado com um teste negativo e desilusão. Daquela vez, era mesmo: voltava a ler “grávida” no teste. Um misto de esperança e de muito medo no meu coração! Fui ter com o médico que nos fez o diagnóstico do Feijãozinho e que sempre quisemos que nos acompanhasse numa gravidez arco-irís e que nos desse boas notícias.

E assim foi! Ainda em tempos de Covid, como entrei pelas urgências, tive de ir sem o meu companheiro. Estávamos ambos muito ansiosos! Fiz ecografia e fiquei novamente sem chão, sem palavras e no vazio…

“Renata, não vejo bebé. Só tem o saquinho”, disse-me o médico. Vi, nos olhos do médico, empatia e cuidado. Partilhou a nossa tristeza. Estava, pensava eu, com 6 semanas de gestação. Saio em lágrimas das urgências e o médico disse para voltar na semana seguinte. O meu conforto: “eu ajudo-te, não te preocupes, eu não te deixo sozinha” – disse-me.

E assim foi. Voltei na semana seguinte, mais do que convencida que ia perder o meu bebé…foi o meu mecanismo de defesa: preparei-me logo para o pior e enchi-me das forças que podia, depois de sair do hospital lavada em lágrimas. Regresso nessa semana preparada para o pior e eis que ouço o entusiasmo do médico! Com um sorriso me disse que tinha havido certamente um erro nas semanas. Afinal, nessa semana é que fazia as 6 semanas e daí na semana anterior não haver bebé.

Que felicidade, que alívio! Partilhámos as boas notícias por videochamada! Continuava a esperança no arco-irís! Dezembro não começou bem e estava a ser difícil, mas depois as boas notícias aqueceram-nos o coração. A medo, “escondemos” a gravidez o máximo que conseguimos, tentando contar o mais tarde possível, até mesmo aos familiares mais próximos.

Foi desde o início uma gravidez muito vigiada e muito protegida! Estive com medo o tempo todo! Continuei a ser acompanhada pela psicóloga e psiquiatra, excelentes profissionais que guardarei no coração para todo o sempre.

Antes de cada ecografia, invadia-me uma enorme ansiedade. Um medo irracional até do que não tinha vivido e um ataque de choro antes da ecografia do primeiro trimestre. Mais tarde, seguiu-se a ainda mais temida morfológica, a maldita ecografia que ditou o diagnóstico do meu Feijãozinho. Fomos muito a medo…fizemos as ecografias a dobrar e foi com um alívio que ouvimos dar-nos as boas notícias que tanto desejávamos: “este bebé não tem um único defeito! Tem tudo para correr bem!”. Depois desta ecografia, escolhemos o nome dele e permitimo-nos sonhar e sonhamos!

Eu, que pensava que não ia conseguir ligar-me ao bebé emocionalmente para evitar magoar-me, que pensava que não seria capaz de me permitir amar desde o princípio, apaixonei-me perdidamente. Agarrei-me a ele com todas as forças, dei-lhe muito amor durante a gravidez, falei para ele – fiz tudo o que não pude fazer com o Feijãozinho.

A gravidez arco-irís foi uma luz na minha vida, fez-me voltar a ser feliz, mas não me devolve nunca o que perdi. Antes pelo contrário, mostrou-me tudo o que não pude viver, tudo o que me tiraram desde a interrupção médica…

Decidi, nesta gravidez, que independentemente de qual fosse o desfecho, iria dar-lhe todo o amor e aproveitar. Seria sempre mãe dele! E consegui aproveitar! Não vou mentir: foi estranho e ainda hoje é estranho ser feliz e conseguir permitir-me a ser feliz! Foram 2 anos difíceis de espera, de angústia, de exames, de perdas (não só do Feijãozinho, mas de pessoas e outras partes de mim). Mais para o fim só queria ver o meu menino cá fora, ouvi-lo chorar, tê-lo nos braços!

Não posso também esquecer a força e apoio que tive desde o início de profissionais de saúde maravilhosos: enfermeiras e médicos! A enfermeira que me segurou a mão num dos meus piores momentos deu um enorme abraço quando me viu grávida na consulta!

Enfim, o melhor dia para casar foi o melhor dia para nascer: com vida, com amor para esperança! Uma gratidão imensa!

Agora ouço “custou, mas foi”, como se o Feijãozinho tivesse sido uma tentativa falhada! Mas foi amor, foi força e é e será sempre o irmão mais velho do Gonçalo! O meu primeiro filho!

Não percam a esperança, peçam ajuda, rodeiem-se de uma boa rede de apoio e de boas pessoas e profissionais!

Renata Silva

Mãe do Feijãozinho e do Gonçalo

1 de dezembro de 2022

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Testemunhos Testemunhos Perda Neonatal

A minha vida, a minha Íris.

Hoje vou contar-vos a história da minha vida (a minha Íris). A Íris é o meu bebé arco-íris, depois de um aborto espontâneo e de uma gravidez anembrionária.

Dia 14/04/2022 veio o resultado positivo. Quando olhei para o teste nem queria acreditar, mas lá estava “grávida 1-2 semanas”. A alegria misturava-se com o medo mas algo me dizia que era desta, que o meu bebé tinha vindo para ficar.

No dia 23/05 fiz a primeira ecografia, no privado. Enquanto me sentava na marquesa, rezava para que o meu bebé estivesse ali. Assim que ligou o monitor ali estava ele, o pequeno ser que iria mudar a minha vida para sempre. Quando ouvi o coração bater eu e o pai chorámos, chorámos muito. Ali estava o som mais perfeito do universo, o coração do nosso bebé.

Tínhamos decidido que só queríamos saber o sexo no dia do parto porque era indiferente, o importante é que ele estava ali a crescer forte. As semanas foram passando, a barriga ficava gigante a olhos vistos, e a cada ecografia, lá estava o nosso baby a crescer. A ecografia morfológica estava perfeita; o nosso sonho tornado realidade. Dia 18/08, fui com a minha sogra fazer uma ecografia 4D e tinha informado que não queria saber o sexo mas, assim que ligaram o monitor, a primeira coisa que se viu foi que era uma menina. Estava ali e era impossível não perceber o que era e, nesse dia, soube que a minha Íris estava a caminho.

Dia 29/08 fui jantar fora com o meu marido e um casal amigo. Depois das entradas, levantei-me para ir à casa de banho e senti um pouco de líquido, mas como a Íris estava alojada em cima da minha bexiga pensei que fosse um pequeno “descuido”. Quando cheguei à casa de banho, a mesma estava ocupada e então começou a sair um jorro de água pelas pernas abaixo. Eu estava de vestido e lembro-me de ter entrado na casa de banho dos homens, que estava vazia, em pânico. Peguei no telemóvel e liguei ao meu marido que veio logo ter comigo, disse-lhe que a bolsa de água tinha rebentado, ele disse que era impossível, mas chamou o INEM,.

Chegamos ao CMIN e eu já só chorava. Estava naquele dia com 23 semanas e 4 dias.

A médica de urgência fez uma coleta do líquido e confirmou que era líquido amniótico. Fizeram uma eco e o coração da minha filha batia e ela mexia-se normalmente. Passámos essa noite no núcleo de partos para ver se eu iria entrar em trabalho de parto, mas os médicos tinham explicado que o limite da viabilidade eram as 24 semanas e que dificilmente a Íris sobreviveria se nascesse naquele momento. Rezei e pedi ao universo para que a minha menina se mantivesse dentro de mim, para eu a proteger e para que ela pudesse crescer mais um pouco. Consegui manter a gravidez durante mais algum tempo, estava tudo a correr dentro do previsto, mas a 11 de Setembro (com 25 semanas e 3 dias), a Íris decidiu nascer.

Disseram-me depois do parto que ela decidiu viver, pois a bolsa estava com uma infeção que tinha passado para ela e para mim, se ela não tivesse nascido naquele dia provavelmente não tinha sobrevivido.

No dia 11/09 às 16:43, nasceu a minha vida, de uma cesariana de urgência caótica, a Íris nasceu com 31 cm e 620gramas, pequenina em tamanho, mas enorme em força.

Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito meu amor

Os primeiros 15 dias foram muito complicados, ali estava ela numa incubadora, com ventilador e cheia de fios e medicação que a mantinham perto de mim, perto de nós… Com 15 dias a minha vida teve uma infeção no intestino e os médicos disseram que a probabilidade de ter de ser operada era grande e eu, lavada em lágrimas, mais uma vez implorei a Deus e ao universo que protegesse a minha filha.O antibiótico começou a fazer efeito, a Íris melhorava a olhos vistos, ganhava peso, era super ativa e reagia ao toque e à fala, principalmente ao meu.

Todos os dias chegava à beira dela e dizia “Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito meu amor” e ela, invariavelmente, sorria e apertava a minha mão, com aquela mãozinha dela perfeita.

A Íris foi aumentando a quantidade de leite materno que tomava pela sonda e eu de 3 em 3 horas tirava leite para ela. Conseguia sempre tirar cerca de 100ml, às vezes mais.

A 11/10, dia em que a minha vida fez um mês, já estava com 11 ml de leite, sem alimentação parentética, sem soro, só o leite da mãe e com mais de 800 gramas de peso. Nesse dia, chegamos lá eu e o pai, eu disse-lhe o bom dia dela, falamos com a médica que nos disse que a Íris estava a progredir muito bem, tinham feito análises, ecografia e raio x e tudo estava bem, incluindo o pulmão dela que sempre foi o calcanhar de Aquiles da minha menina. Estava a progredir favoravelmente,

Por volta das 13:00, a Íris, do nada, começou a fazer baixas saturações de oxigénio… as máquinas começaram a apitar, a médica chegou perto dela e mudou-a de posição para ver se ela melhorava, mudaram o tipo de ventilação mas nada fazia com que a saturação subisse, eu e o pai ali a olhar para ela, que continuava rosada e a mexer-se como se não se passasse nada… a médica pediu para mudarem o oxímetro, pois devia estar avariado porque os valores do monitor não correspondiam à cor nem à atividade da minha filha. A enfermeira mandou sair os pais todos e, mais uma vez, fiquei eu e o meu marido a pedir a Deus que protegesse a minha menina, que não permitisse que nada de mal lhe acontecesse, que não me tirasse o meu milagre.

Os minutos foram passando e ninguém nos vinha chamar nem dar notícias e, a cada pessoa que eu via a passar, o meu coração ia ficando mais apertado.

Às 14:10 tive uma crise de choro, a pior que tinha tido desde que a minha filha nasceu. Às 14:20, a diretora do serviço de neonatologia entrou na sala onde aguardávamos, fechou a porta e disse as piores palavras que qualquer mãe ou pai podem ouvir “a equipa fez de tudo mas a Íris não resistiu”

Eu beijei-a, abracei-a, cheirei-a, e disse-lhe o quanto a amava

O meu mundo desabou, não queria acreditar. Como podia ser, se ela estava tão bem? Se estava a progredir… tinham acabado de me dizer isso e agora não a tinham conseguido salvar? Nada fazia sentido. Pedi para ver a minha filha, a nossa filha e levaram-nos até ela. Ao caminhar pelo corredor, estupidamente, tinha a esperança que ia chegar lá e eles se tinham enganado, que não era a minha Íris… quando entrei na sala e vi a minha vida deitada dentro da incubadora, imóvel e todas as máquinas desligadas, o meu coração parou e caí de joelhos ali em frente, sem forças e sem vontade para continuar.

A minha vida estava ali, os meus sonhos estavam ali como é que de repente fico sem ela? O meu marido (a minha rocha, o meu porto de abrigo) tirou-a da incubadora para o colo dele e depois colocou-a no meu colo. Eu beijei-a, abracei-a, cheirei-a, e disse-lhe o quanto a amava, o orgulho que tinha nela e que ela era a bebé mais perfeita do mundo. Agora sem todos aqueles tubos e fios, eu e o pai pudemos ver claramente que ela era a cara do pai, mas tinha as minhas bochechas. Ficámos ali, junto dela o tempo que quisemos a abraçá-la e a dar-lhe beijos. As minhas irmãs e um dos meus irmãos puderam vir também para se despedir dela. Foi a primeira vez que a viram fisicamente, foi um golpe duro para eles, mas todos dizem que conseguiram assim ver a perfeição que era a minha filha.

A dor é gigante, avassaladora, mas o amor é invisível e está sempre connosco e a Íris é isso, é amor. Está sempre comigo a cada segundo do dia. Peço-lhe todos os dias para me ajudar a vencer aquele dia. Todos os dias continuo a acordar e a dizer: Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito, meu amor”

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Testemunhos Testemunhos Perda Tardia

4 de Abril de 2018, 38 semanas, 4 dias. O dia estava cinzento e era dia de um dos últimos CTG’s. O pai pressentia e só dizia “leva a tua mala e a do bebé”, e eu sempre dizia que não era o dia.

Facto é, que, nos últimos dias, eu já não o sentia com a mesma força e movimentos, mas normalizei por estar mesmo no fim e ter pouco espaço.
Inicio do CTG, depois de ter contado que não sentia tantos movimentos, deram-me prioridade e logo fomos atendidos. Após uns minutos, percebi na cara de todos e na quantidade de médicos e enfermeiros que vierem ver, que algo não estava bem. Deram-me um chupa e as expressões mantinham: os batimentos cardíacos estavam realmente muito fracos, tive medo, muito medo. Fiquei internada para vigilância e, se os batimentos estabilizassem, iríamos iniciar o trabalho de parto. Era naquele dia que ele ia nascer: o pai tinha razão.

Recordo-me de perguntar o que ia acontecer a seguir. Responderam que primeiro vigilância e logo após indução. Não queria nada e pedi que não me fizessem cesariana, não por medo, mas porque queria muito senti-lo nascer (mais tarde culpei-me muito, mas hoje em dia, está resolvido dentro de mim).

Ficamos em vigia até ao momento que paro de ouvir o CTG, chamo para me ajudarem. Vem um enfermeiro e encontra batimentos. 5 minutos depois e acontece igual…vem mais um enfermeiro e mais um e mais um, até que o pesadelo começa; não conseguiam encontrar batimentos, sem ninguém perceber muito bem o que se estava a passar pois a gravidez foi sempre super normal e tranquila e vigiada.

Tinha a equipa médica toda à minha volta, sentia nas caras deles e na expressão corporal que não estava bem. Ouvi para prepararem cesariana, naquele momento eu só queria que tudo acabasse bem e com ele nos meus braços. Vamos ao ecógrafo e ouvi alguém dizer “nada de batimentos”, o meu mundo desabou, parecia uma filme de terror. Todos corriam de um lado pra outro e vamos para uma cesariana de urgência. Não havia tempo para mais nada. Eu só tinha que me deixar ser anestesiada, e o que eu resisti porque me faltava o ar…até que me disseram ao ouvido “pensa em coisas bonitas”. Consegui e deixei-me ir… a partir daqui eu não sei de absolutamente mais nada.

demorou algum tempo a sair do fundo, mas o caminho faz se caminhando… 

Acordo sozinha, numa sala fria e cinzenta, olho em volta e nada, sozinha… Ao longe vejo chegar a mesma pessoa que me disse “pensa em coisas bonitas” com os olhos cheios de lágrimas. Eu só queria ouvir “está tudo bem”, mas não estava. Em loop pergunto “o meu menino?” e as lágrimas caem-lhe no rosto, abana a cabeça e percebi o que tinha acontecido (ela não podia dar-me aquela informação, mas também não podia deixar sem saber, era desumano). Naquele momento deixei-me ir e entreguei-me à dor e “bebedeira” que a anestesia me causou… horas no recobro e uma equipa brutal e espetacular que cuidou de mim até me “arranjarem” uma cama sem ser na maternidade. Felizmente tiveram esse cuidado comigo.  

Deixaram-me receber visitas, e eis quando chegam as médicas que queriam a todo o custo explicar me o que aconteceu. Eu naquele momento não queria saber de nada, pois estava demasiado fraca. Parecia que queriam “desculpar” o sucedido, mas não havia nada para explicar, foi assim que ele escolheu…

E o motivo foi um nó verdadeiro no cordão. Aí eu entendi o porquê da falta de movimentos dele. Chorei, chorei, chorei até não ter mais forças. Já na enfermaria acordei e aí a culpa, a raiva, a revolta, e o “porquê a mim?” deram conta de mim… foram meses difíceis de não conseguir enfrentar pessoas, grávidas, familiares a pedirem que colocasse o hospital em tribunal e não me recordo de alguém me perguntar o que eu precisava.

As pessoas são cruéis, não fazem por mal mas para se proteger, mas dói ouvir “és muito nova, fazes outro”, “é porque não tinha que ser”, “podia vir com problemas, foi melhor assim”, ou “é a vida”. Felizmente, hoje em dia eu troquei o “porquê” por “para quê” e estou-lhe muito grata por tudo o que passei/passámos. Foi uma aprendizagem brutal, demorou algum tempo a sair do fundo, mas o caminho faz-se caminhando… 

Ao Amor, será sempre a mensagem.

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Testemunhos Testemunhos Perda Tardia

Foram 6 meses e meio a gerar a Flor que faltava no meu jardim e a coisa mais linda que pude ter.

Desde o início, eu sabia que não ia ser fácil; desde a primeira consulta da pré-natal, até a aceitação do lupus, adquirir a hipertensão gestacional e os risco que íamos enfrentar. Mas quando vieram todos os risco, eu pude entender mais ainda a nossa situação. Fi um longo período para dizer À minha cabeça que “ela não iria aguentar!”…

Mas o nosso instinto de mãe fala mais alto. O nosso egoísmo em dizer: “eu quero você comigo”. O decorrer de todos os dias, entre fazer USG, medicação de anticoagulantes, controlo da pressãoi e pré-eclâmpsia foi bem complicado, até chegar o momento que precisei de ficar internada.

Foi aí que, no dia 05/07 começaríamos mais uma luta. O internamento foram os 15 dias mais longos das nossas vidas. Depois a desospitalização, achava que tudo iria se normalizar, afinal, estava a reagir bem.

Dia 27/07 (até o momento doloroso) – 2ª internamento e o dia que iríamos construir nossa maior história: primeiro pico da pré-eclampsia (dia 01/08), dilatação da barriga, pressão 20×11 e inchaços anormais. No dia seguinte (02/08), o aviso que meu corpo já não aguentava mais. A médica disse: “vai para a UTI”, ali eu já sabia, lá era onde só seria nós duas e a proteção divina, seria aa indução do parto. Dizer o adeus, ou melhor, o até breve…

E no dia 03/08, com apenas 481g, seu (re)nascimento- tão linda e a perfeição de um bebé. Você não tinha resistido e eu sei que ali seria o nosso adeus, mas não um adeus de despedida, apenas precisou ser amada e ensinar a mamãe o que era um amor incondicional.

Meus longos dias na UTI, dopada e sedada, me fizeram entender que fui uma mãe leoa. Ter lutado por você foi tão gratificante e ver que aquela mãe só não queria tver-te sofrer (mas não sofreu, era tão linda, mesmo tão pequena).

Filha, só quero te dizer que: Foi uma honra te gerar… por termos conseguido juntas “Não foi fácil!”.

Obrigada por confiar na mamãe, minha filha!

Por você e por nós.

Mamãe te ama!