A ti, que lutas todos os dias, que passaste o inverno entre internamentos, mas que não perdes a inocência e a simplicidade de um sorriso.
Aquele sorriso, fácil de encantar, que faz qualquer pessoa dar uma gargalhada, que apesar das limitações, consegue aprender e que bem que aprendes!
Curioso, que gosta de histórias, de pintar e de Metallica! És tão fácil de cativar… e os nossos abraços? Esses são só nossos!
A ti, que vives no Céu, eu sei que não temos aventuras como com o mano, nem brincadeiras, porque a maior aventura vivemo-la todos os dias: aprender a viver longe de ti, foi o maior desafio de todos. Maior do que qualquer internamento, paralisia cerebral ou falar pouco.
Passaram 4 anos e eu contínuo a pensar em ti, todos os dias, onde quer que vá! E não adianta que me digam “que foi melhor assim…”. Não foi, nunca será. Melhor para quem? Para ti, que nunca conheceste o poder de um abraço? Para mim e para o pai, que pensamos como seria ter-te aqui a fazer macacadas de criança? Ou para o mano, que queria ter com quem brincar?
Somos uma família de 4, separados por um Céu de saudade. Hoje nem que as estrelas brilhem, cá dentro, tenho uma trovoada de sentimentos. O tempo passa, mas o Amor que tenho por vocês, esse é infinito e nunca deixarei que me digam que foi melhor… não são os outros que carregam um filho num colo de 2… e enquanto assim for, serão sempre meus…
Com um único corrimento transparente com alguns raios de sangue, dirigi- me ao hospital apenas por descargo de consciência…
Cheguei feliz com uma barriguinha espevitada nesse dia para 12 semanas e 3 dias. Quando chamada para observação, a médica, ainda interna, comentou que não sabia mexer numa das máquinas e, quando fizemos a primeira eco, decidiram passar para outra máquina.
Foi tudo tão rápido que fiquei sem acreditar que o meu tão sonhado bebé estava morto dentro de mim há quase 3 semanas. Os enjoos continuavam e o dr Google dizia que eram boas notícias. Era a gravidez a evoluir.
Apesar de um início de gravidez muito turbulento, em que me separei do pai do meu bebé por me ter pedido que abortasse, de muito ter chorado, de dois picos de tensão alta, nada fazia prever este desfecho.
Era na sexta que ia fazer a ecografia do primeiro trimestre… Dada a notícia chorei compulsivamente e optei por ficar internada …
Era isso ou ir para casa e preocupar ainda mais a minha mãe que também já sonhava com este feijãozinho. Não voltei a sangrar nesse dia e só queria estar sozinha!
Sinto-me vazia, como se o meu futuro idealizado tivesse agora sido cortado em mil pedaços e tivesse manchado.
Estava sozinha e com medo. Nessa noite não dormi, pedi muito a todos os contactos que pude que me fizessem mais uma ecografia, queria muito uma segunda opinião, a máquina podia ter algum problema, pensei… ou talvez o feto tivesse realmente menos semanas porque eu não era regular…
Fiz então a ecografia antes de iniciar o restante tratamento… uma médica amorosa e paciente, mostrou-me tudo e explicou-me tudo. Fez toda a diferença. Ainda muito chorona, mas já mentalizada !
Só à noite é que as duras cólicas vieram e o corpo pedia-me que fizesse força…
Duas vezes a fazer uma força lá do fundo das costas e dois enormes coágulos saíram; era o meu bebé com toda a certeza!
Tranquiliza-me a fé de que o bebé cumpriu a sua missão e, apesar de tudo, continua a ser ele que me tornou mãe! O meu bebé só aprendeu a voar.
Voltei a observação e, apesar do bebé já não estar lá, ainda tinha muita coisa para sair, mais um ciclo de tratamento para ver se conseguimos evitar uma ida ao bloco!
Tive alta, confiaram que o meu corpo se encarregaria do resto e não tive de passar pelo medo que a anestesia já me estava a causar.
Ontem foi o único dia que não chorei, sentia-me tão culpada por isso … simplesmente estava vazia!
Com a alta, despedi-me daquela cama com um colo vazio, o sonho de sair com o amor da minha vida no ovinho deu lugar a uma dor nas entranhas, a um desgosto de alma e um coração em milhares de pedaços. Estou em casa, voltei à realidade e nada assusta tanto…
Tive dores fortes, mas a dor de não ter aqui o meu bebé é mais forte do que tudo….apesar de ter ficado pelas 9 semanas e eu só ter descoberto quase 3 semanas depois, o meu ratinho de 4 cm tornou-me Mamã.
Depois de casarmos, planeámos ter um bebé. Fizemos as consultas e exames de preconceção, bem como a toma das vitaminas pré-natais, tudo muito certinho.
Descobri no dia 24 de janeiro de 2022. Uma felicidade enorme com aquela inocência à mistura. Fiz uma surpresa ao meu marido, com uma brincadeira numa caixinha. Estávamos tão felizes… O nosso sonho estava ali.
Pelas 7 semanas comecei com perdas de sangue, dirigi-me às urgências no qual foi descoberta uma gravidez gemelar. Avisaram-me imediatamente que normalmente um dos bebés não evolui. E assim foi. Na semana seguinte voltaram a avaliar e um dos bebés não tinha evoluído.
Sinceramente não lidei como uma perda, porque o saco já estava vazio e acabámos por nos concentrar no bebé que estava a evoluir bem. Continuei com algumas perdas, mas sempre me foi dito que seria devido à perda do primeiro bebé.
Até às 12 semanas confesso que nunca achei que a gravidez fosse para a frente. Mas chegámos ao marco que achava eu o mais importante: a ecografia do 1ºtrimestre. Tudo normal e dentro dos parâmetros nessa ecografia.
Pelas 16 semanas descobrimos que seria menina, a nossa Ema. O nosso sonho tornado realidade. Cada vez sentia-a mexer mais e lembro-me de comentar isso com a obstetra do qual me respondeu “é sinal de vitalidade” (nunca me esquecerei desta frase).
Tínhamos férias marcadas para o dia seguinte à eco do 2º trimestre, pensando nós que tudo continuaria a correr bem. Estava a ser acompanhada como gravidez de risco, mas, como me foi dito que estava sempre tudo bem, confiei.
Nessa ecografia, a médica guardou para o fim para nos dizer vagamente e sem chamar as coisas pelos nomes que as coisas não estavam bem. Saiu do consultório, voltou e não explicou nem disse absolutamente nada. Pedi-lhe o relatório e recusou. Foi-me dito que seria enviado à minha obstetra e que ela depois falaria comigo. Vi logo que seria grave, pois esconderam-me informações das quais tinha direito. No dia seguinte, tivemos a consulta com a obstetra que nos explicou melhor, e disse realmente que parecia ser muito grave. Partimos imediatamente para uma amniocentese.
Doeu-me a alma. Doeu-me cada veia do meu corpo. Nunca na minha vida experimentei dor tão forte como aquela.
Uma semana depois veio o primeiro resultado e tudo normal (enchemos-nos de esperanças). Só 4 semanas depois do exame é que recebemos o resultado completo. Aí o mundo caiu-nos. A nossa bebé não iria sobreviver. Foi uma grande luta entre profissionais de saúde que tiveram zero de empatia e que me trataram como a “batata podre do hospital”, e entre os que me acolheram com uma humanidade sem igual e me deram tudo o que precisava. Tínhamos de interromper a gravidez e isso incluía um parto normal, que é tudo o que menos queremos viver quando vivemos um pesadelo destes…
No dia 12 julho, às 26s+6d, foi feito o feticídio. O momento mais difícil que alguma vez vivi. Terem de parar o coração da minha filha, ainda dentro de mim. Sentia-a mexer até ao fim. Doeu-me a alma. Doeu-me cada veia do meu corpo. Nunca na minha vida experimentei dor tão forte como aquela. Nem sabia que a dor física se podia juntar à dor emocional e tornar-se aquele monstro. Parte de mim morreu naquele dia, sabem? Não ficamos as mesmas pessoas. Como é que uma vida acaba onde tudo começa? Nada fazia sentido. Saí despedaçada, vazia, mal via o chão de tanto chorar.
Após 2-3 dias de uma dolorosa e difícil indução de parto, nasceu a minha Ema, às 00h25 do dia 15 de julho.
Foi um parto tão silencioso que se torna assustador. De facto, há choro, mas não é o choro do bebé, só os nossos, e há um bebé, mas um bebé sem vida, que não levamos para casa. A minha pequenina, minha Ema, o meu maior amor nos meus braços.
Qual é o propósito de um nascimento sem vida? O meu desejo de ser mãe estava nos meus braços e era agora um sonho destruído… Ficámos ali, meia hora a namorar a nossa filha, o primeiro e último colo que lhe íamos dar. Qual o propósito de um nascimento sem vida? Numa sala onde a vida começa, onde o choro deveria ser de alegria e de um bebé com vida…
Os dias seguintes foram um turbilhão de sentimentos. Chorávamos dia e noite. Não dormíamos. Assistimos ao meu corpo pós-parto, confusos com tudo. Ainda hoje, não há uma única vez que não me olhe ao espelho e não me imagine grávida da minha borboleta. Fica-nos marcado no corpo.
A minha filha será sempre o meu grande amor, a minha borboleta. Vou guardá-la e lembrá-la sempre.
Após uns dias procurei ajuda aqui no “Amor para além da Lua” onde me acolheram e me ajudaram, como eu tanto precisava (e que eu agradeço tanto). Com o passar do tempo, com toda a dor, revolta e também amor nasceu também a minha grande vontade de ajudar. E assim, no dia 5 de agosto, criei o “Amor com Asas”, uma página também de apoio à Perda Gestacional e Neonatal. Um projeto ao qual me dediquei de corpo e alma, que me ajudou e ainda ajuda muito, na evolução da minha recuperação. Tornou-se a minha terapia também. Em outubro juntou-se a minha querida Telma, uma grande amiga que chegou à minha vida com a luz que eu precisava, unidas pela dor da perda. Como designer, também criei o meu atelier “Amor de papel” onde transformei também a minha dor em amor, com ilustrações de nascimentos e perdas de bebés. Espero do fundo do coração que aqui, no “Amor para além da Lua” ,encontrem o conforto que precisam. Não se sintam sozinhos, é um caminho difícil, mas partilhamos a mesma dor.
Um abracinho a todos,
Renata
Pode visitar as páginas nas redes sociais da Renata em:
Estamos a tentar engravidar há 7 anos. Um ano depois de tentarmos naturalmente, sem sucesso, começamos a ser acompanhados em PMA no CMIN, e assim foi durante 5 anos.
O diagnóstico era apenas que eu não ovulava. Começamos por coito programado, passámos para Inseminação e duas FIV sem sucesso. Os médicos apenas encolhiam os ombros, diziam que não percebiam o que se passava e à minha pergunta sobre se existia um exame para explicar as falhas de implantação, foi-me dito que não, que a explicação era que os meus óvulos não tinham qualidade.
Entretanto emigramos, mas o desejo de ter filhos não esmoreceu e, no meio de tudo, tive a sorte de encontrar uma equipa médica fantástica que fez todos os exames possíveis para detetar o motivo. E assim foi, após uma esteroscopia, foi-me detetada uma endometrite crónica que, segundo o que investiguei, poderia explicar as falhas de implantação.
Após tratamento e resolução, fiz mais uma FIV e o primeiro positivo chegou no dia 16 de Novembro de 2022. Infelizmente na primeira ecografia começaram os pesadelos pois não conseguiam ver os batimentos cardíacos. No entanto, como o feto era pequeno, poderia ser normal. Disseram para regressar ao fim de uma semana e nessa segunda eco as desconfianças confirmaram-se e o nosso mundo despenhou-se. Fui do céu ao inferno no espaço de um mês. Como foi aborto retido tive que tomar medicação para o sangramento ocorrer.
Foi um Natal muito triste pois já me tinha imaginado a contar a minha avó e à minha enteada, que tanto quer um irmãozinho. Teria sido triste em qualquer altura do ano, mas nesta altura tem um peso ainda maior.
Neste momento, a minha cabeça está recuperada, mas quando estou sozinha só me apetece chorar, parece que o meu coração vai rebentar.
Por um lado, fiquei feliz por ter tido uma explicação para a minha infertilidade, mas este acontecimento cravou uma faca no meu coração.
Não vou parar de tentar mas o medo só aumentou e às vezes chego a pensar se será saudável para mim.
O que me dá alento é ter um marido que me apoia, assim como os meus pais e uma enteada que me deu, inconscientemente, força para suportar todos estes anos e que é uma filha que tenho no coração.
Hospital muito confuso, em contentores. Tiro senha para ginecologia e obstetrícia e fui para uma grande sala de espera. Chamam-me e vou para lá com pressa, por não saber onde era e com medo de chegar atrasada.
Ainda tive de aguardar algum tempo para entrar, mas entretanto sou chamada à enfermagem e faço todos os procedimentos, e informam-me dos riscos por não ser imune à toxoplasmose. Volto para a pequena sala de espera e poucos minutos depois sou chamada para o gabinete da médica.
Tirei a parte inferior da roupa e começamos a ecografia, ainda não era a de 1° trimestre, mas sim para ver se estava tudo bem.
Mal vi o bebé, o primeiro pensamento foi logo de orgulho “o meu bebé cresceu tanto!”. A última vez que o tinha visto tinha sido às 8 semanas e no dia 19 de Outubro, faria as 10 semanas.
No entanto, reparei que a médica ficou muito calada e, mal me apercebi disso, ouço das piores coisas que já ouvi na vida “lamento, mas tenho más notícias para si… O bebé está morto, não tem batimentos cardíacos”. O tempo parou durante uns segundos e fui sentindo um aperto cada vez maior, como se todo o meu mundo estivesse a desabar..
A médica chamou uma colega para confirmar o diagnóstico e não teve dúvidas. Enquanto a médica me explica as partes do corpo do bebé e onde o coração deveria estar a bater, sinto as lágrimas a chegar aos meus olhos, mas ao mesmo tempo tento segura-las. Tinha de ser forte ali, quando fosse embora choraria tudo o que teria de chorar.
Mas, infelizmente, ainda faltava um bom bocado para ir embora… Depois da ecografia, sentei-me com a médica, e explicou-me quais seriam os procedimentos seguintes, que teria de ser internada para que o aborto fosse completo (fiz um aborto retido).
lamento, mas tenho más notícias para si…
Depois de tudo explicado, começou logo o primeiro problema, a médica não conseguia passar a baixa médica, por não ter todos os dados actualizados no centro de saúde, obrigando-me a ter de ir lá para ter uma consulta e atualizar o necessário, para poder fazer o meu luto e ter o meu descanso durante 28 dias. Para além disso, para ser admitida na Obstetrícia no dia seguinte teria ainda de fazer um teste COVID.
Por último, tinha ainda de tomar um comprimido já, para preparar para o dia seguinte, mas como já não comia nada no espaço de 2h, mandaram-me ir comer qualquer coisa e regressar para tomar o comprimido. Assim o fiz. Fui comer umas bolachas de máquina vending mais próxima e voltei para a sala de espera da obstetrícia, rodeada de grávidas e eu a pensar no meu pequenino, que não conseguiu sobreviver, enquanto as mulheres ao meu lado estariam perto de ter um filho/a nos braços. Inveja e tristeza, foi o que senti nesses minutos.
Pouco tempo depois (que a mim me pareceu muito), uma auxiliar vem com o tal comprimido e depois de o ter tomado diz que tenho de fazer o teste COVID, num outro edifício (e eu sem conhecer o espaço visto ser a minha primeira vez lá). Não sei se foi a minha profunda tristeza ou a minha cara de ignorante enquanto ela me explicava o caminho, mas aí uma outra auxiliar disse “eu levo-a lá”. Como estava sozinha, perguntou-me várias vezes se tinha alguém para me levar embora, se precisava de alguma coisa e tentou animar-me durante o caminho todo, mas sem sucesso. Eu só lhe dizia “eu só quero ir embora”.
Quando chegamos ao local, ela fez questão em aguardar por mim, caso eu precisasse dela.
O médico que me fez o teste foi pouco afável, mas profissional. Depois de terminado, lá estava a auxiliar à minha espera e perguntou-me se precisava de alguma coisa enquanto voltávamos para o local inicial. Disse -lhe que a médica não conseguia passar a baixa a partir do próprio dia por não ter os dados, mas que em princípio não precisava de uma justificação de falta ao trabalho porque no dia seguinte ma passaria no internamento. A auxiliar disse-me que poderia precisar e pediu me para aguardar no exterior e que iria pedir uma justificação num instante para que eu pudesse ir embora. Foi extremamente rápida e em pouco tempo já estava a caminho do meu carro, para poder ligar ao meu namorado e a minha mãe e dar-lhes a notícia. Não sei o nome dela, mas ela foi a melhor profissional que me atendeu no hospital da cidade, sítio que nunca irei querer voltar para o resto da minha vida.
Finalmente saí das instalações e liguei primeiro a minha mãe, onde só conseguia dizer “o bebé está morto! Morreu!” no meio de tanto choro e soluço. Pouco mais consegui dizer e liguei depois ao meu namorado. Pouco mais lhe consegui dizer também, mas ele apenas me disse, muito prontamente: “onde estás? Fica aí, vou ter contigo”.
Enquanto aguardava por ele no carro, só pensei em me conter durante uns minutos, só para poder informar no trabalho que já não iria trabalhar no próximo mês, a partir do dia em questão e o motivo. Liguei a uma das minhas supervisoras, disse lhe que iria ser extremamente breve por não saber se conseguia aguentar mais tempo ao telefone e expliquei lhe tudo muito resumido, mas com tudo o que precisava de saber. Garanti-lhe que não precisava que alguém fosse ter comigo, o meu namorado já estava a caminho.
De casa até ao parque de estacionamento onde estava, ainda são uns 10/15 minutos, mas acho que ele fez isso em metade do tempo, porque pouco depois de ter acabado a chamada ele apareceu. Só me lembro de chorar abraçada a ele para libertar algum do peso que tinha em cima.
Ele, sendo a melhor pessoa do mundo para mim, só me dizia, “vamos conseguir. Nós somos fortes. Vamos ter lindos filhos. Vamos ultrapassar isto.” Nunca duvidei disso.
Meu presente de Natal: no dia 24/12 aproveitámos ao máximo o barrigão. Eu estava com 39+2, às 15h comecei a sentir cólicas e, como eu tinha uma enfermeira me acompanhando, comecei a falar com ela e a monitorizar. Quando foram 20h ,comecei sentir as contrações.
Eu estava bem indecisa entre cesariana e parto normal, mas eu queria ter essa experiência, e deixar o meu filho escolher o seu dia! Então resolvi esperar e foi como Deus permitiu para ser, ele escolheu o dia dele!
Das 20h do dia 24/12 aguentei até 00h para sair de casa do dia 25/12, como qualquer mãe em trabalho de parto, você aguenta o máximo em casa e vai monitorizando para chegar ganhando na maternidade.
Eu cheguei na maternidade Brigida com 7cm de dilatação, às 00:50 mais ou menos. Chegando lá, foram super rápidos no atendimento, a médica na triagem não conseguiu ouvir a coração do Mateus com muita força, por isso eu fui encaminhada com urgência para uma cesariana de emergência. Colocaram-me numa cadeira de rodas e, sem eu poder dizer nada ao meu esposo, só balancei a cabeça, e com vontade de chorar me mantive firme.
Depois de alguns minutos, eu já estava na sala de cirurgia a aplicar a anestesia e o Rodrigo chegou minutos depois.
Em coisa de segundos tiraram o Mateus. Eu não pude vê-lo e nem se quer ouvir seu choro. Só me falaram que ele nasceu muito verde e correram com ele.
E todos me perguntam o que aconteceu com ele? Eu não vi postando nada do nascimento dele? Ele já nasceu?
Para todos que perguntam: foi tudo muito rápido, foram 3 dias do meu filho lutando pela vida, 3 dias clamando pela misericórdia de Deus sobre a vida dele, para que deixasse ele permanecer aqui nessa terra comigo.
E o que foi que aconteceu?
Mateus, quando foi nascer, dias ou horas antes (o médico não sabe dizer desde quando) ele acabou por fazer cocó dentro da barriga e lá dentro acabou broncoaspirando o cocó, que se chama mecônio, e assim que saiu de mim os médicos correram aspirar ele e fazer todos os cuidados.
E porque aconteceu? Não tem explicação, é a natureza do bebé, não tem como impedir de algo assim acontecer, não tem explicação.
Desde então, eu não vi os olhos do meu filho, nem o choro dele, apenas vi ele na UTI todo entubado, com muitas drogas e dormindo, e à base de oxigénio 100%.
Esse líquido foi para o pulmão e como ele não consegue sem o pulmão mandar oxigénio ao restante dos outros órgãos, tudo foi enfraquecendo, o rim, o coração…
Mateus dos Santos – Mateus significa “presente de Deus”. Meu milagre, nasceu 25/12/ 2022 às 1:43 pesando 3.285kg 51cm.
Vocês sabem o que é um milagre?
No primeiro dia na UTI, a médica deu-lhe 24h de vida, disse que só um milagre para ele ficar. Eu, operada com 7 camadas de pele cortada, chorava muito, chorava e como chorava! Pediamos a Deus um milagre naquela UTI, eu e o Rodrigo.
Voltamos no outro dia na UTI e a médica disse “se vocês acreditam em milagre dessa noite ele foi um milagre”.
No dia seguinte ele precisou de uma máquina de diálise, pois o rim estava a parar, precisou de transfusão de sangue. Todo esse cuidado ele teve na maternidade, graças a Deus, Ele colocou anjos no nosso caminho que nos ajudaram nesses 3 dias.
Ele foi um milagre nesses 3 dias lutando! Eu orei tanto, clamei tanto, mas tanto… E eu me perguntava “por que Jesus, porquê com a Carla e com o Rodrigo?”
E não sabemos o porquê disso tudo, talvez a gente nem saiba, mas isso tudo dói tanto…Eu não desejo para ninguém isso que estamos passando, mas me pergunto ainda o porquê.
Me preparei tanto nesses 9 meses, fiz tudo o que deveria ser feito, foi maravilhoso gestar ele, sentir ele.
Nesses 3 dias eu achei que sabia o que era o amor, mas não… Eu não sabia o que era o amor, como é grande o amor de uma mãe e um pai por um filho, nosso filho nos mostrou a fé pois clamamos tanto a Deus, com todas as nossas forças, eu já não sabia como orar.. eu só pedia por fôlego de vida!
Ele nos mostrou a união, tanto a minha família e amigos, quantas pessoas que eu nem conheço, oraram e levantaram um clamor a ele.
Mas dia 28/12, ele descansou!
A médica pediu para eu e o amor e a família se despedir dele. Eu em nenhum momento orei para Deus levar ele, a minha oração era fôlego de vida senhor, assim como ressuscitou Lázaro no 3° dia ,faz com o meu filho também.
E no meio da tarde as enfermeiras já estavam a reanimá-lo manualmente e estava tudo caindo aos poucos… batimentos, saturação, tudo, tudo baixando.
Então resolvi entrar na UTI e orar para que Deus fizesse a vontade dele e não a minha. Eu não queria meu pequeno sofrendo, eu disse a Deus que eu não entendo os planos dele e nem sei se vou entender. E às 18:50 ele descansou.
Como dói, como dói, meu coração está despedaçado! Eu acredito em propósitos, mas eu não entendo hoje!
Mas meu filho é um milagre, Mateus veio para mudar e mostrar o que é o AMOR. Ele escolheu nascer com Jesus, seu nome significa presente de Deus e depois de 3 dias se foi.
Ele escolheu o melhor ventre para morar, escolheu a melhor família para ter com ele e escolheu os melhores pais, eu e o amor vamos para sempre amar esse menino e para sempre levar ele em nossos corações e memórias e lembranças. Não poderia ter escolhido pais melhores a ele, foi rápido mas tão intenso com tanto amor.
O nosso milagre nos deixou! Agora só ficou a dor e a saudade, e como dói! Nada está no nosso controle!
Quando vamos conseguir parar de chorar eu não sei, quando vai parar de doer eu também não sei (acho que nunca vai parar de doer). Pois nós tínhamos tantos planos com você, seu quarto está lindo! A mamãe está cheia de leite que era para te alimentar.
Durmo e acordo chorando, acordo pensando que estou em um sonho e vou poder te buscar na maternidade, acordo com uma dor absurda e vontade de te ter em meus braços. Vontade de ir até a você e ficar com você, vontade de te pedir de volta! Mas não tem o que eu faça, pois não vou te ter de novo aqui.
E o seu pai? A mamãe já amava o seu pai, mas agora eu o amo muito, mas muito mais, a vontade é de me invadir para dentro dele e ficar ali escondida e quietinha, eu quero seu pai comigo o tempo todo, não quero ficar longe dele.
O seu pai é um homem incrível, ele tem sido tão forte tem cuidado tão bem da mamãe. E assim como dói na mamãe dói nele, as vezes que eu tive medo de entrar na UTI ele com muita dor e aperto no coração entrava para te visitar, pois você só tinha a nós! Meu amor eu te amo tanto.
Dia 29/12 foi o dia mais triste de toda a minha vida em ver o seu pai carregando o seu caixão, e ter que enterrarmos o nosso filho, meu Deus como dói!
Meu filho era lindo, os olhos puxadinhos e pequenos igual o da mamãe, boca da mamãe, beiçodinho igual e nariz do papai, tudo perfeito, Deus fez perfeito do jeito que eu pedi a Ele.
Agradecemos a todos que oraram junto com a gente, e a todos que estão com a gente! Não sabíamos o quanto as pessoas nos amam e o quanto amam o Mateus!
Há muito que quero partilhar convosco a minha “história”. mas a verdade é que ainda não tinha conseguido reunir as forças suficientes e, por outro lado, não queria que fosse apenas um “despejar da minha revolta”. Queria que, de alguma forma passasse uma imagem de esperança a todas vocês.
Provavelmente vou chocar algumas mamãs desse lado mas…terei de ser sincera convosco…Ser mãe nunca foi (durante quase toda a minha vida) um sonho! A minha história de vida (e que não vale a pena falar agora dela) não me permitia fazer do ser mãe um sonho.
Levei muitos anos a “mentalizar-me” porque, no fundo, também não me via sem filhos… Aliás, há mais de 10 anos que sabia que se conseguisse engravidar, iria ser um menino e que se iria chamar Miguel. Não me perguntem onde fui buscar esta certeza mas eu sabia, não sei como…
Finalmente ganhei coragem e, passado 1 ano e 2 meses de tentativas e com uns simples sintomas que poderia indicar uma gravidez, lá fiz o único teste de gravidez da minha vida e que mostrou um “GRÁVIDA 3+”. Foi um misto de felicidade, de preocupação, de medo mas… acima de tudo um “consegui”, um “fui capaz”!
Seguiram-se os passos normais, as consultas normais, as ecografias…fiz tudo como “manda a lei”, tanto no serviço nacional de saúde como nos intervalos das consultas no público, com a minha obstetra.
Às 6 semanas tive um “sustozinho” de uma perda de sangue e fui às urgências mas fiz uma medicação e tudo evoluiu de forma positiva. Também foi nesta consulta que ouvi, pela 1ª vez, e sem estar a contar com isso, o coração do bebé. Foi lindo!
Por volta das 15 semanas tive a confirmação que iria ser um menino, o meu Miguel.
Andando com a história para a frente e a 2 dias de fazer a ecografia do 2 trimestre fui às urgências pois, pela 3ª ou 4ª vez durante a gravidez, tinha umas dores de cabeça muito fortes.
Ali, naquela sala pequena, o mundo desabou! A partir daí, dessas palavras, foi como se entrásse em “piloto automático”, como se ficasse anestesiada, como se deixasse de estar lá (mas também não vos sei dizer onde andaria)…
Só fui porque uma amiga minha enfermeira e o meu namorado me pediram quase por favor só para ir ver. Para mim não passavam das minhas enxaquecas e que teria de as aguentar, uma vez que a medicação que faço em S.O.S para elas, não deve ser feita durante a gravidez.
Sempre ouvi dizer que na gravidez não era possível ter enxaquecas mas, a verdade, é que não estava a conseguir concordar com essa afirmação.
Entrei nas urgências dia 01 de Agosto (a 1 dia de fazer 21 semanas) a pensar que me iriam dar uma medicação qualquer na veia e que iria para casa passadas uma ou duas horas…só quenão!
Realmente fizeram-me essa medicação, o que me fez passar a dor de cabeça mas a tensão estava um pouco elevada e estava a perder proteína na urina. Teria de ficar para o dia seguinte. Esse ter de ficar manteve-se até dia 04 de agosto, altura em que fui transferida para a maternidade Bissaya Barreto em Coimbra.
Só posso dizer que foram dias de muito medo, por não saber o que se passava comigo, nem com o meu bebé. Muito medo de pensar sequer que o poderia vir a perder. Era tão pequenino, tão calminho, tão bem comportado, não me fez um único enjoo…se não fosse o crescer da barriga, nem parecia grávida. Como é que agora conseguiria imaginar não o poder fazer viver?!
Estive sempre rodeada de profissionais humanos, tanto médicos, como enfermeiros, como assistentes operacionais, devo-lhes muito mas…a minha saúde continuava a deteriorar-se. Numa semana inchei de tal maneira que aumentei 9kg de peso. A proteína que perdia na urina era cada vez mais, o fígado estava mal, os rins estavam mal, a hemoglobina muito baixa, as plaquetas muito baixas e a tensão sempre alta, principalmente a baixa…mas, sentia-me bem, acreditam?! Embora, cada vez mais sem esperança num final que considerasse feliz…
Dia 08 de Agosto fui chamada a uma sala, juntamente com o meu namorado, onde estava o diretor do serviço, o diretor do hospital, a equipa de enfermeiros desse turno e foi-nos transmitido que o bebé era pequeno para o que seria de esperar, que a minha placenta não estava a alimentá-lo convenientemente, que os meus órgãos estavam a entrar em falência e que teriam de interromper a gravidez.
Ali, naquela sala pequena, o mundo desabou! A partir daí, dessas palavras, foi como se entrásse em “piloto automático”, como se ficasse anestesiada, como se deixasse de estar lá (mas também não vos sei dizer onde andaria)… Era uma decisão que só eu e o meu namorado poderíamos tomar mas…não havia mais nenhuma! Por isso, e até hoje, não percebemos o porquê de ter de fazer um pedido à comissão de ética do hospital a pedir essa interrupção.
Percebo que será uma maneira dos profissionais se salvaguardarem, mas…será que eles saberão o que significa para uma mãe, para uns pais fazer um pedido para que matem o filho?!
Ainda hoje, passados 4 meses, se me pedem para assinar qualquer documento, eu viajo instantaneamente para aquela sala, para o assinar daquela folha branca! A única coisa que de alguma forma me alivia um pouco a dor, é que os médicos sempre disseram que se eu ficasse em risco de vida, eles iriam intervir mesmo sem o parecer dessa comissão de ética e…foi mesmo isso que aconteceu!
Às 22 semanas e 1 dia (dia 10 de Agosto) nasceu o meu Miguel, de parto normal e sem direito a epidural, uma vez que o valor das minhas plaquetas não me permitiram levar…
Tive dores, induzir o parto foi horrível, as contrações não são fáceis e o expulsar a placenta também não foi (tive de ir ao bloco para conseguirem) mas o que mais me doía e dói, até hoje, é a alma! Tudo, todos os sonhos acabaram ali e tenho muitas saudades das coisas que nem nunca vivi, não sei se me conseguem entender…
Escolhi (e uma vez que moramos a muitos quilómetros da maternidade e o meu companheiro estava a acabar de chegar a casa depois de ter estado comigo) passar pelo parto sem a presença dele, escolhi poupá-lo a isso. Não o deveria ter feito! O pai precisa estar connosco para conseguir perceber melhor por tudo o que passámos. Se me posso arrepender de alguma coisa, é do ter poupado a isso sem sequer lhe perguntar qual era a decisão dele.
Também escolhi não conhecer o meu Miguel…ainda não sei se fiz bem já que em quase todos os vossos testemunhos vocês escolhem ver os vossos bebés mas…a verdade é que não tive coragem. Foi o que me fez mais sentido na altura, sabendo que só teria essa oportunidade e que me poderia arrepender mais tarde…(e ainda não me arrependi).
Passado todo este tempo ainda não temos resultados dos exames feitos ao bebé e placenta, nem de análises super específicas feitas a mim (e só terei nova consulta em Fevereiro!) que me expliquem o porquê, precisava disso para me aliviar, de alguma forma…o diagnóstico foi que tive pré-eclâmpsia com síndrome de HELLP mas não percebem o porquê. Até porque, ao que parece, a pré-eclâmpsia está descrita nos manuais que pode acontecer a partir das 20 semanas mas nunca acontece, é só mais no final da gravidez e eu…comecei antes das 19 semanas, até! Todos são de opinião que tive algo muito grave mas…não o conseguem explicar! Provavelmente terei alguma doença autoimune mas não sabem com certeza e muito menos qual! Ainda pensaram que poderia ser hipertensa ou diabética antes da gravidez e não saber mas…isso já está posto de parte.
Será que alguma vez conseguirão descobrir? Não sei. Será que poderei voltar a tentar?
Não sei. Será que ainda está guardado algo bom para mim? Também não sei, mas gosto de pensar (e agora consigo finalmente fazê-lo) que foi o melhor para mim mas, e acima de tudo, para o meu Miguel. Ele está bem e eu também terei de ficar para ele estar feliz, acredito nisso!
Se é fácil? Não! É a pior coisa do mundo! Nenhuma mãe devia passar por isto mas, com muita força de vontade e ajuda psicológica, posso dizer-vos que é possível ter esperança num futuro mais bonito para nós.
Mesmo com frases do tipo “sabes, também já não és nova”- fiz agora 40 anos…; “foi melhor agora que mais para a frente”- às 22 semanas +1dia dói menos?! É perder um filho; “Não podes estar assim”- quem disse? Eu estou como quero e consigo!; “Não chores!” – porquê? Tenho mais é de chorar, deitar tudo cá para fora!; “Sabes? É o teu corpo que não dá!”-esta foi a mais dura porque até agora tudo indica que foi mesmo o meu corpo que foi fraco, mas precisava que me dissessem isso? Ninguém precisa!
Nós somos mais fortes, sabemos que, no fundo, as pessoas não sabem o que dizer e, quando dizem, só dizem disparates! Coitadas é delas!
Estamos numa época do ano que julgo ser ainda mais desafiante para todas nós (e o meu Miguel tinha data prevista de nascimento para dia 11 deste mês de Dezembro e seria o seu 1º Natal) mas nós somos fortes, somos guerreiras e vamos conseguir lidar com tudo isto com mais leveza, já que esquecer nunca o vamos conseguir (e acho que nem queremos).
Desejo que também vos seja possível acreditar e dou um grande beijinho no vosso coração. Estou aqui e disponível para falar convosco, em particular, se sentirem que vos posso ajudar com alguma coisa.
Foi no dia 30 de Novembro de 2020 em que descobrimos que o Gabriel crescia dentro de mim. Após duas perdas gestacionais e tentativas falhadas, o Gabriel vinha a caminho.
O nosso amor tinha triplicado; seria o pensamento que à terceira é de vez e que desta vez iremos ver nascer, e crescer, o nosso 3º filho.
Durante 41 semanas fui seguida no hospital como gravidez de risco, sempre com medos e receios.
As semanas e meses foram passando. Nas consultas e ecografias diziam-me sempre que estava tudo bem e nós íamos ficando cada vez mais tranquilos e desejosos de conhecer o nosso filho. Devido à Covid, o pai nunca pôde assistir às ecografias realizadas no hospital, só pôde assistir às ecos 4D que fizemos e onde soubemos que o nosso bebé seria um menino.
Ficámos tão, mas tão felizes que escolhemos logo o nome de Gabriel.
O nosso Gabriel nasceu no dia 16 de Agosto de 2021 às 22:08 após 22 longas horas em trabalho de parto com a bolsa rebentada. Nasceu de uma cesariana de urgência, exigida por mim, por não aguentar mais o longo e difícil trabalho de parto.
O nosso Gabriel nasceu com 3.890kg e 52cm, um bebé grande, lindo aparente saudável até que, quase duas horas após ele nascer, o pai estava a brincar com ele e viu que a respiração do Gabriel não estava normal. A pediatra pediu ao meu marido para sair para observar o nosso filho e foi aí que detectaram que algo não estava mesmo bem, que o Gabriel iria precisar de oxigénio. Entretanto eu cheguei do recobro e já não pude ver o meu filho. Apenas a pediatra e o meu marido me esperavam. A pediatra deu-me a notícia que o Gabriel teria de ficar a oxigénio e que se não recuperasse, teria de ser transferido para Lisboa para ter outro tipo de ajuda respiratória, que eles não tinham no hospital. A pior notícia que ela nos deu assim, sem rodeios, seria que as próximas horas seriam decisivas para o Gabriel .
Ficamos ali sem chão. O que ansiávamos há 41 semanas, este momento de estarmos juntinhos finalmente com o Gabriel nos braços, tornou-se o início de um caminho de separação por vários dias.
Ficámos os 3 sozinhos, um em cada lugar; o nosso filho lutando sozinho pela vida numa incubadora de hospital, o pai teve de regressar a casa sozinho e eu sozinha, no quarto de hospital, sem poder ter o Gabriel comigo .
Ainda nessa madrugada, recebi a notícia que o nosso filho iria ser transferido para Lisboa, e onde o pai recebeu o diagnóstico do Gabriel: nasceu com uma Cardiopatia Congénita complexa e rara, ou seja, com varias malformações no seu coraçãozinho lindo e cheio de amor .
O Gabriel nasceu com uma TGA- Transposição das Grandes Artérias; coartação da artéria aorta, uma displasia na válvula tricúspide e uma CA -comunicação entre aurículas. Após o diagnóstico, o nosso filho foi transferido para o Hospital Santa Cruz, onde foi feito uma CV através de cateterismo.
Estive separada do meu filho quase 3 dias porque, como foi cesariana, tive de ficar no hospital em Santarém e o meu filho em Santa Cruz. Passei 3 dias sem saber se o conseguiria ver antes do Gabriel ser operado. Foi o pai quem esteve com o Gabriel esses 3 dias, mas só de dia, porque de noite não podíamos permanecer junto do nosso filho.
O estado clínico do Gabriel era bastante reservado e requeria muitos cuidados. O Gabriel precisava de ser operado o mais rapidamente possível, mas uma septicemia o impedia. Foi uma semana de luta contra a septicemia, nós nem lhe podíamos tocar sequer…era imensamente duro não o poder fazer, mas sabíamos que era para o bem do nosso filho.
O Gabriel foi operado à coartação da aorta ao final de uma semana de ter nascido. Três semanas depois foi operado para colocar um banding na artéria pulmonar, porque o pulmão esquerdo estava a ficar demasiado afetado e irrigado de sangue.
Após isto tudo, o nosso filho ainda tinha que passar por outra cirurgia, “grande cirurgia”, a troca das grandes artérias, a válvula tricúspide e o encerramento da CA e CV, mas o Gabriel precisava de estar bem para esta operação.
Entre estas duas cirurgias, o nosso filho teve um episódio de convulsões derivado a ter líquido entre o cérebro e o crânio, por causa do longo trabalho de parto – as horas sem oxigénio suficiente- mas conseguiu reverter a situação e recuperar bem, sem quase nenhuma sequela. Após a segunda cirurgia, contraiu uma infeção, chamada uma endocardite – uma infecção nas paredes do coração e seis semanas de antibióticos se seguiram até à grande cirurgia.
Como mãe, esperei 28 dias para o pegar ao colo, e ter o meu filho em meus braços, e o pai quase 2 meses para poder pegar no colo o nosso filho. Mas tudo isso ultrapassamos, pois o que mais desejávamos era que o nosso filho ficasse bem e viesses para casa connosco .
Nem sempre o nosso filho esteve muito mal… o Gabriel era um valente, um lutador, foi sempre surpreendendo tudo e todos, dando a volta por cima – ele sorria, fazia cara de sério, poucas vezes chorava, aliás só chorava quando tinha a fralda suja ou quando tinha cólicas.
O nosso filho lutou imenso – uma semana antes da grande cirurgia à artéria aorta. Teve de lhe ser feito um cateterismo de urgência na quinta-feira antes da grande cirurgia, que correu muito bem . O nosso filho foi operado dia 26 de Outubro de 2021: a grande cirurgia, o que faltava para recuperar e vir para casa .
Foram 8 longas horas, as mais longas de sempre, que acabaram da pior forma, o nosso filho lutou com tudo, com todos os seus recursos, para sair do bloco bem. Lutou para vir para juntinho de nós fisicamente, mas algo não deixou. A cirurgia, em si, correu bem mas recebemos a pior notícia, a notícia que nenhum de nós queria ouvir ou acreditar, aliás nenhuns pais deveriam ouvir: que o nosso filho partiu para onde nunca mais o podemos ver, ouvir, sentir (não fisicamente porque o nosso filho vive em nós), enquanto sobrevivermos a esta dor imensa.
Temos e sentimos um orgulho imenso no nosso filho. Amamos-te imenso, filho. O nosso nenuco bochechinhas de sorriso lindo e coração cheio de amor.
Hoje vou contar-vos a história da minha vida (a minha Íris). A Íris é o meu bebé arco-íris, depois de um aborto espontâneo e de uma gravidez anembrionária.
Dia 14/04/2022 veio o resultado positivo. Quando olhei para o teste nem queria acreditar, mas lá estava “grávida 1-2 semanas”. A alegria misturava-se com o medo mas algo me dizia que era desta, que o meu bebé tinha vindo para ficar.
No dia 23/05 fiz a primeira ecografia, no privado. Enquanto me sentava na marquesa, rezava para que o meu bebé estivesse ali. Assim que ligou o monitor ali estava ele, o pequeno ser que iria mudar a minha vida para sempre. Quando ouvi o coração bater eu e o pai chorámos, chorámos muito. Ali estava o som mais perfeito do universo, o coração do nosso bebé.
Tínhamos decidido que só queríamos saber o sexo no dia do parto porque era indiferente, o importante é que ele estava ali a crescer forte. As semanas foram passando, a barriga ficava gigante a olhos vistos, e a cada ecografia, lá estava o nosso baby a crescer. A ecografia morfológica estava perfeita; o nosso sonho tornado realidade. Dia 18/08, fui com a minha sogra fazer uma ecografia 4D e tinha informado que não queria saber o sexo mas, assim que ligaram o monitor, a primeira coisa que se viu foi que era uma menina. Estava ali e era impossível não perceber o que era e, nesse dia, soube que a minha Íris estava a caminho.
Dia 29/08 fui jantar fora com o meu marido e um casal amigo. Depois das entradas, levantei-me para ir à casa de banho e senti um pouco de líquido, mas como a Íris estava alojada em cima da minha bexiga pensei que fosse um pequeno “descuido”. Quando cheguei à casa de banho, a mesma estava ocupada e então começou a sair um jorro de água pelas pernas abaixo. Eu estava de vestido e lembro-me de ter entrado na casa de banho dos homens, que estava vazia, em pânico. Peguei no telemóvel e liguei ao meu marido que veio logo ter comigo, disse-lhe que a bolsa de água tinha rebentado, ele disse que era impossível, mas chamou o INEM,.
Chegamos ao CMIN e eu já só chorava. Estava naquele dia com 23 semanas e 4 dias.
A médica de urgência fez uma coleta do líquido e confirmou que era líquido amniótico. Fizeram uma eco e o coração da minha filha batia e ela mexia-se normalmente. Passámos essa noite no núcleo de partos para ver se eu iria entrar em trabalho de parto, mas os médicos tinham explicado que o limite da viabilidade eram as 24 semanas e que dificilmente a Íris sobreviveria se nascesse naquele momento. Rezei e pedi ao universo para que a minha menina se mantivesse dentro de mim, para eu a proteger e para que ela pudesse crescer mais um pouco. Consegui manter a gravidez durante mais algum tempo, estava tudo a correr dentro do previsto, mas a 11 de Setembro (com 25 semanas e 3 dias), a Íris decidiu nascer.
Disseram-me depois do parto que ela decidiu viver, pois a bolsa estava com uma infeção que tinha passado para ela e para mim, se ela não tivesse nascido naquele dia provavelmente não tinha sobrevivido.
No dia 11/09 às 16:43, nasceu a minha vida, de uma cesariana de urgência caótica, a Íris nasceu com 31 cm e 620gramas, pequenina em tamanho, mas enorme em força.
Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito meu amor
Os primeiros 15 dias foram muito complicados, ali estava ela numa incubadora, com ventilador e cheia de fios e medicação que a mantinham perto de mim, perto de nós… Com 15 dias a minha vida teve uma infeção no intestino e os médicos disseram que a probabilidade de ter de ser operada era grande e eu, lavada em lágrimas, mais uma vez implorei a Deus e ao universo que protegesse a minha filha.O antibiótico começou a fazer efeito, a Íris melhorava a olhos vistos, ganhava peso, era super ativa e reagia ao toque e à fala, principalmente ao meu.
Todos os dias chegava à beira dela e dizia “Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito meu amor” e ela, invariavelmente, sorria e apertava a minha mão, com aquela mãozinha dela perfeita.
A Íris foi aumentando a quantidade de leite materno que tomava pela sonda e eu de 3 em 3 horas tirava leite para ela. Conseguia sempre tirar cerca de 100ml, às vezes mais.
A 11/10, dia em que a minha vida fez um mês, já estava com 11 ml de leite, sem alimentação parentética, sem soro, só o leite da mãe e com mais de 800 gramas de peso. Nesse dia, chegamos lá eu e o pai, eu disse-lhe o bom dia dela, falamos com a médica que nos disse que a Íris estava a progredir muito bem, tinham feito análises, ecografia e raio x e tudo estava bem, incluindo o pulmão dela que sempre foi o calcanhar de Aquiles da minha menina. Estava a progredir favoravelmente,
Por volta das 13:00, a Íris, do nada, começou a fazer baixas saturações de oxigénio… as máquinas começaram a apitar, a médica chegou perto dela e mudou-a de posição para ver se ela melhorava, mudaram o tipo de ventilação mas nada fazia com que a saturação subisse, eu e o pai ali a olhar para ela, que continuava rosada e a mexer-se como se não se passasse nada… a médica pediu para mudarem o oxímetro, pois devia estar avariado porque os valores do monitor não correspondiam à cor nem à atividade da minha filha. A enfermeira mandou sair os pais todos e, mais uma vez, fiquei eu e o meu marido a pedir a Deus que protegesse a minha menina, que não permitisse que nada de mal lhe acontecesse, que não me tirasse o meu milagre.
Os minutos foram passando e ninguém nos vinha chamar nem dar notícias e, a cada pessoa que eu via a passar, o meu coração ia ficando mais apertado.
Às 14:10 tive uma crise de choro, a pior que tinha tido desde que a minha filha nasceu. Às 14:20, a diretora do serviço de neonatologia entrou na sala onde aguardávamos, fechou a porta e disse as piores palavras que qualquer mãe ou pai podem ouvir “a equipa fez de tudo mas a Íris não resistiu”
Eu beijei-a, abracei-a, cheirei-a, e disse-lhe o quanto a amava
O meu mundo desabou, não queria acreditar. Como podia ser, se ela estava tão bem? Se estava a progredir… tinham acabado de me dizer isso e agora não a tinham conseguido salvar? Nada fazia sentido. Pedi para ver a minha filha, a nossa filha e levaram-nos até ela. Ao caminhar pelo corredor, estupidamente, tinha a esperança que ia chegar lá e eles se tinham enganado, que não era a minha Íris… quando entrei na sala e vi a minha vida deitada dentro da incubadora, imóvel e todas as máquinas desligadas, o meu coração parou e caí de joelhos ali em frente, sem forças e sem vontade para continuar.
A minha vida estava ali, os meus sonhos estavam ali como é que de repente fico sem ela? O meu marido (a minha rocha, o meu porto de abrigo) tirou-a da incubadora para o colo dele e depois colocou-a no meu colo. Eu beijei-a, abracei-a, cheirei-a, e disse-lhe o quanto a amava, o orgulho que tinha nela e que ela era a bebé mais perfeita do mundo. Agora sem todos aqueles tubos e fios, eu e o pai pudemos ver claramente que ela era a cara do pai, mas tinha as minhas bochechas. Ficámos ali, junto dela o tempo que quisemos a abraçá-la e a dar-lhe beijos. As minhas irmãs e um dos meus irmãos puderam vir também para se despedir dela. Foi a primeira vez que a viram fisicamente, foi um golpe duro para eles, mas todos dizem que conseguiram assim ver a perfeição que era a minha filha.
A dor é gigante, avassaladora, mas o amor é invisível e está sempre connosco e a Íris é isso, é amor. Está sempre comigo a cada segundo do dia. Peço-lhe todos os dias para me ajudar a vencer aquele dia. Todos os dias continuo a acordar e a dizer: Bom dia vida, mais um dia para vencermos? A mãe ama-te muito, meu amor”
4 de Abril de 2018, 38 semanas, 4 dias. O dia estava cinzento e era dia de um dos últimos CTG’s. O pai pressentia e só dizia “leva a tua mala e a do bebé”, e eu sempre dizia que não era o dia.
Facto é, que, nos últimos dias, eu já não o sentia com a mesma força e movimentos, mas normalizei por estar mesmo no fim e ter pouco espaço. Inicio do CTG, depois de ter contado que não sentia tantos movimentos, deram-me prioridade e logo fomos atendidos. Após uns minutos, percebi na cara de todos e na quantidade de médicos e enfermeiros que vierem ver, que algo não estava bem. Deram-me um chupa e as expressões mantinham: os batimentos cardíacos estavam realmente muito fracos, tive medo, muito medo. Fiquei internada para vigilância e, se os batimentos estabilizassem, iríamos iniciar o trabalho de parto. Era naquele dia que ele ia nascer: o pai tinha razão.
Recordo-me de perguntar o que ia acontecer a seguir. Responderam que primeiro vigilância e logo após indução. Não queria nada e pedi que não me fizessem cesariana, não por medo, mas porque queria muito senti-lo nascer (mais tarde culpei-me muito, mas hoje em dia, está resolvido dentro de mim).
Ficamos em vigia até ao momento que paro de ouvir o CTG, chamo para me ajudarem. Vem um enfermeiro e encontra batimentos. 5 minutos depois e acontece igual…vem mais um enfermeiro e mais um e mais um, até que o pesadelo começa; não conseguiam encontrar batimentos, sem ninguém perceber muito bem o que se estava a passar pois a gravidez foi sempre super normal e tranquila e vigiada.
Tinha a equipa médica toda à minha volta, sentia nas caras deles e na expressão corporal que não estava bem. Ouvi para prepararem cesariana, naquele momento eu só queria que tudo acabasse bem e com ele nos meus braços. Vamos ao ecógrafo e ouvi alguém dizer “nada de batimentos”, o meu mundo desabou, parecia uma filme de terror. Todos corriam de um lado pra outro e vamos para uma cesariana de urgência. Não havia tempo para mais nada. Eu só tinha que me deixar ser anestesiada, e o que eu resisti porque me faltava o ar…até que me disseram ao ouvido “pensa em coisas bonitas”. Consegui e deixei-me ir… a partir daqui eu não sei de absolutamente mais nada.
demorou algum tempo a sair do fundo, mas o caminho faz se caminhando…
Acordo sozinha, numa sala fria e cinzenta, olho em volta e nada, sozinha… Ao longe vejo chegar a mesma pessoa que me disse “pensa em coisas bonitas” com os olhos cheios de lágrimas. Eu só queria ouvir “está tudo bem”, mas não estava. Em loop pergunto “o meu menino?” e as lágrimas caem-lhe no rosto, abana a cabeça e percebi o que tinha acontecido (ela não podia dar-me aquela informação, mas também não podia deixar sem saber, era desumano). Naquele momento deixei-me ir e entreguei-me à dor e “bebedeira” que a anestesia me causou… horas no recobro e uma equipa brutal e espetacular que cuidou de mim até me “arranjarem” uma cama sem ser na maternidade. Felizmente tiveram esse cuidado comigo.
Deixaram-me receber visitas, e eis quando chegam as médicas que queriam a todo o custo explicar me o que aconteceu. Eu naquele momento não queria saber de nada, pois estava demasiado fraca. Parecia que queriam “desculpar” o sucedido, mas não havia nada para explicar, foi assim que ele escolheu…
E o motivo foi um nó verdadeiro no cordão. Aí eu entendi o porquê da falta de movimentos dele. Chorei, chorei, chorei até não ter mais forças. Já na enfermaria acordei e aí a culpa, a raiva, a revolta, e o “porquê a mim?” deram conta de mim… foram meses difíceis de não conseguir enfrentar pessoas, grávidas, familiares a pedirem que colocasse o hospital em tribunal e não me recordo de alguém me perguntar o que eu precisava.
As pessoas são cruéis, não fazem por mal mas para se proteger, mas dói ouvir “és muito nova, fazes outro”, “é porque não tinha que ser”, “podia vir com problemas, foi melhor assim”, ou “é a vida”. Felizmente, hoje em dia eu troquei o “porquê” por “para quê” e estou-lhe muito grata por tudo o que passei/passámos. Foi uma aprendizagem brutal, demorou algum tempo a sair do fundo, mas o caminho faz-se caminhando…