Foram 6 meses e meio a gerar a Flor que faltava no meu jardim e a coisa mais linda que pude ter.
Desde o início, eu sabia que não ia ser fácil; desde a primeira consulta da pré-natal, até a aceitação do lupus, adquirir a hipertensão gestacional e os risco que íamos enfrentar. Mas quando vieram todos os risco, eu pude entender mais ainda a nossa situação. Fi um longo período para dizer À minha cabeça que “ela não iria aguentar!”…
Mas o nosso instinto de mãe fala mais alto. O nosso egoísmo em dizer: “eu quero você comigo”. O decorrer de todos os dias, entre fazer USG, medicação de anticoagulantes, controlo da pressãoi e pré-eclâmpsia foi bem complicado, até chegar o momento que precisei de ficar internada.
Foi aí que, no dia 05/07 começaríamos mais uma luta. O internamento foram os 15 dias mais longos das nossas vidas. Depois a desospitalização, achava que tudo iria se normalizar, afinal, estava a reagir bem.
Dia 27/07 (até o momento doloroso) – 2ª internamento e o dia que iríamos construir nossa maior história: primeiro pico da pré-eclampsia (dia 01/08), dilatação da barriga, pressão 20×11 e inchaços anormais. No dia seguinte (02/08), o aviso que meu corpo já não aguentava mais. A médica disse: “vai para a UTI”, ali eu já sabia, lá era onde só seria nós duas e a proteção divina, seria aa indução do parto. Dizer o adeus, ou melhor, o até breve…
E no dia 03/08, com apenas 481g, seu (re)nascimento- tão linda e a perfeição de um bebé. Você não tinha resistido e eu sei que ali seria o nosso adeus, mas não um adeus de despedida, apenas precisou ser amada e ensinar a mamãe o que era um amor incondicional.
Meus longos dias na UTI, dopada e sedada, me fizeram entender que fui uma mãe leoa. Ter lutado por você foi tão gratificante e ver que aquela mãe só não queria tver-te sofrer (mas não sofreu, era tão linda, mesmo tão pequena).
Filha, só quero te dizer que: Foi uma honra te gerar… por termos conseguido juntas “Não foi fácil!”.
Estive grávida 5 vezes. Na primeira gravidez (2012,) o sonho durou apenas às 7 semanas. A segunda gravidez teve sucesso. Embora tenha tido ameaça de aborto com perdas de sangue às 6 semanas, com repouso e progesterona, chegamos às 41 semanas. Nasceu então a minha bebé arco- íris a 7 de janeiro de 2014.
A terceira gravidez (2019) tive um aborto espontâneo às 10 semanas. O choque foi ainda maior do que da primeira perda. Primeiro, porque sempre pensei que era só fazer a medicação e ia correr tudo bem, nunca pensei que ia correr mal. E depois também porque já tinha dito à minha filha que carregava um bebé na minha barriga.
Foi um turbilhão de emoções enorme. Saí do hospital sem qualquer apoio. O meu ginecologista, na revisão, passadas 5 semanas, só me soube dizer que podia tentar de novo, quando o que eu esperava ouvir era “vamos fazer exames” porque o meu coração me dizia que algo se passava. Perdia sempre sangue às 6 semanas e era sempre com o mesma intensidade. Mas, como não ouvi isso, saí porta fora sem tão pouco dizer que era isso que eu pretendia.
Na consulta da médica de família o discurso foi: “ainda bem que o seu corpo eliminou, é sinal que está a fazer bem o trabalho dele, porque quando há estas perdas é porque há um defeito do óvulo ou do embrião.” Eu aí ainda disse que na gravidez anterior tinha perdido sangue com as mesmas semanas, nasceu e é perfeita e saudável e que o melhor era vermos porque tinha de haver uma justificação”. Não mandou fazer nada porque, segundo o protocolo, só se investiga após a 3ª perda consecutiva.
Fiz uma pausa. Uma colega recomendou falar com uma pessoa que talvez me ajudasse a encontrar um médico que investigasse e assim foi. Arranjei uma consulta no Porto e o tal médico disse que apenas em 5% dos casos se descobrem as causas. Fizemos o cariótipo do casal, estava tudo ok, eu fiz mais análises que estavam todas dentro do normal. Então o médico recomendou que, numa futura gravidez, fizesse aspirina, assim como progesterona e foi descoberto que tenho o útero bicórneo.
Uma vez que as análises estavam todas ok e o Porto fica longe de Viseu, onde vivo, comecei de novo a sondar as pessoas; quem as acompanhou, etc., pois queria tentar um médico por cá, que concordasse com o que o do Porto me mandou fazer e aceitasse acompanhar-me numa futura gravidez. Uma senhora, minha conhecida, recomendou-me o seu médico e, pelo relato dela, a minha intuição disse “marca consulta”. Fui a essa consulta, o médico concordou com a recomendação do médico do Porto e teve interesse em ver os exames todos desde que quis ser mãe. Olhou para eles como nenhum outro tinha olhado. Os que não tinha comigo enviei depois.
Finalmente, em finais de 2020, senti-me preparada para tentar de novo mas desta vez com muito receio. No início de 2021 descubro a minha quarta gravidez. Mal descubro que estou grávida, uma colega fica contaminada com covid-19. Eu vim logo para casa por prevenção, mas passado 10 dias os sintomas aparecem e testo positivo. Passadas 2 semanas tenho aborto espontâneo…
Na consulta após o aborto, o médico disse que, apesar eu ter antecedentes, quer acreditar que este aborto esteja relacionado com a covid. A sugestão que me deu foi fazer mais um par de análises e, se tudo estiver bem, tentar novamente sabendo que corro o risco de ter novo aborto espontâneo ou, então, avançar para a correção do útero. Aí, teria de aguardar mais tempo, mas que a escolha seria minha. Ele faria o que eu optasse.
Ele disse que se eu não tivesse uma gravidez com sucesso, ou este aborto não tivesse coincidido com o facto de eu ter estado infetada com covid -9, nem me dava a escolher – a opção seria avançar para a correção. Mais uma vez sigo a minha intuição, que me dizia “faz as análises e acredita”, e assim foi. Fiz mais exames a nível particular; sempre, pois nunca tive apoio a nível do SNS. Mal envio o resultado por e-mail, o médico responde: finalmente encontramos o que tanto procuramos, a “causa”. Tenho uma trombofilia. A minha é défice de proteína S.
Marquei então consulta para entender um pouco melhor do que se tratava, e então o médico disse logo que mal engravidasse teria de fazer injeções lovenox, às quais dei o nome “piquinhas de amor”.
Em Outubro de 2021, descubro que estou grávida e iniciei logo as injeções. Tive uma gravidez maravilhosa, com as coisas normais de qualquer gravidez.
No final começou a reduzir o líquido e o meu médico decidiu, muito bem, provocar o parto. Digo muito bem porque depois me disseram que a placenta tinha um hematoma. Os outros médicos sempre disseram que estava tudo ok, enquanto o meu (anjo na terra) dizia “vou apertar a vigilância, vamos ver se aguentamos até as 37 semanas”.
Aguentamos e sinto que a minha filha esta cá graças a ele e à minha insistência.
Será este o princípio? Hoje faz nove meses que nasceu uma criança em silêncio. Hoje faz nove meses que dei à luz uma criança que tinha perdido a vitalidade dois dias antes.
Durante a minha gravidez, eu vivi uma experiência de muita alegria e também de muita angústia, porque foi a minha primeira criança, a minha primeira filha e a gravidez foi a coisa mais bela que me passou pelo corpo. Eu vivi uma experiência de uma sincera felicidade. As hormonas ajudavam a essa expansão: tudo era vida quando o corpo tem vida… vida dentro da vida. É um momento absolutamente mágico.
A certa altura eu comecei a deparar-me com as minhas próprias histórias interiores, com as minhas próprias angústias, e dei conta que eu não seria perfeita enquanto mãe. Quando somos pais e quando percebemos nitidamente que não vamos conseguir ser irrepreensíveis, começamos a perceber as limitações do nosso ser emocional, enquanto mãe ou pai, vamos percebendo cada vez melhor aquilo que é possível fazer. Não é possível fazer mais do que aquilo que foi feito, porque partimos do pressuposto que a pessoa fez da forma que achava certa naquela altura específica, naquele enquadramento, naquele cenário, naquele padrão emocional.
E foi um longo caminho, o crescimento desta criança, de compressão da minha própria infância. Eu cresci muito durante os seis meses da minha gestação e nestes nove meses seguintes ao parto.
As condições, por ter sido descoberta uma síndrome rara na criança, e os caminhos de uma não interrupção, seriam catastróficos e fizeram com que esta criança nascesse sem vida.
Então ao terceiro dia, depois de interrompermos a vida, ela nasceu.
Todos os elementos da família fazem história na família. Todos aqueles que vieram à vida sem vida, são parte desta história e perante o que eu vivi e o que estudei e que eu sinto, é que uma das coisas mais interessantes a fazer para nosso preenchimento e para o equilíbrio da família, é nós inserirmos com um nome estes seres. Sabermos que posição é que eles ocuparam na nossa família. Inserir esta criança, percebendo a posição de cada filho na família. Porque se temos dois filhos e perdemos um ou outro, o segundo pode ser na verdade o terceiro, e isso muda tudo no potencial desse filho, ou o primeiro que se achava o primeiro é na verdade o segundo.
Então, já que se abriu esse vazio, que se preencha esse espaço de amor,
O mais importante em última análise, é poder celebrar cada ser, que veio à luz em certo momento. É dar-lhe um nome, é introduzi-lo na família de forma invisível, evidentemente, mas é ter um contacto com esta vida, percebendo qual foi o propósito, aceitar aquela história, celebrando da melhor forma possível aquilo que nos foi dado por esta criança que nos fez crescer, que nos fez ampliar a percepção, e que, pela dor, nos fez expandir a consciência. Porque como diria a Simone Weil, e Simone é o nome da minha filha, é preciso um espaço vazio, para entrar a força do invisível.
Então, já que se abriu esse vazio, que se preencha esse espaço de amor, pelo que é invisível, pelo visível, e que o nosso coração possa beber das nossas historias por inteiro. Sem serem apenas perdas vazias de significado mas serem processos transitórios de muito amor, vitalidade, de total compreensão.
Para terminar, existiram coisas que eu fui fazendo, depois do parto além de descansar, aceitar o arrombo hormonal que precisa de ser respeitado, o arrombo emocional que precisa de ser ouvido, choro que precisa de correr, grito que precisa de sair. Eu escrevia, escrevia muito, para ela, para a Simone, fiz uma espécie de caderninho secreto de diálogos de uma para uma e meditava. E falei muito pouco com as pessoas à minha volta porque eu sentia que as pessoas não tinham condições psíquicas para falarem sobre a morte e sobre a beleza daquela minha experiência. Talvez devesse ter falado mais e partilhado mais o que é uma experiência absolutamente milagrosa de dar a luz, mesmo que tenha sido em silêncio. E talvez por isso faça este pequeno texto, para que fique para a eternidade e para mim própria, enquanto ainda tenho 33 anos, que foi um ano de ressurreição. Então escrevam uma carta para esse filho, deem-lhe um nome, e introduzam-no na vossa Grade Familiar de forma silenciosa, apenas para inscreverem essa criança no vosso ser. E não deixemos que essas histórias sejam segredos ou tabus.
Então trabalhemos para a verdade, para o amor e para a luz e continuemos esta longa caminhada.
Nove meses foi o tempo que eu demorei a perceber exatamente que era nesta história que eu tinha que agarrar, para conseguir comunicar com estas pessoas feridas do passado. Eu queria, no fundo, abraçar todas as mães e pais, que perderam estes bebés tão maravilhosos, queria dizer que amo muito estas criancinhas que não puderam vir à vida, mas que acima de tudo, quem nasce somos nós. Porque somos nós que nascemos quando damos à luz um filho. É o filho que nos vem mostrar quais as feridas que ainda estão por sarar.
Um beijo a todas estas mães, a estes pais, a estes avós, a estes irmãos, a estes tios e estes primos e aos amigos, que estão sempre lá para nos acolher. A estas crianças eu entrego-lhes o meu sorriso cúmplice e o meu brilho.
Em 2009 nasceu a minha primeira filha. Depois disso tive três perdas. Uma história como tantas outras. Porém única, é a minha.
Quando era adolescente dizia que a pior notícia que eu poderia receber na vida era saber que não poderia ter filhos. Felizmente, quando senti o chamamento da maternidade pela primeira vez, tudo correu bem; com alguns percalços durante a gravidez, mas nada que abalasse verdadeiramente o meu estado de graça.
A 16 de Fevereiro de 2009 nasceu a Sofia! Que momento tão feliz! Ainda no bloco de partos, logo depois da Sofia nascer, já estávamos a combinar o nosso segundo filho! Prevíamos dar um/a irmão/ã à Sofia quando ela tivesse dois anos. Tudo tão perfeito.
Passados esses dois anos, a crise de 2011 assombrou verdadeiramente os nossos sonhos. Estávamos os dois desempregados e ter outro/a filho/a nesse momento não era de todo sustentável. Sonho adiado.
Em 2013 consegui finalmente trabalho depois de um longo período de desemprego, num colégio privado. Precisava muito de trabalhar, tanto pela necessidade financeira, como pela valorização enquanto pessoa útil e profissionalmente ativa. Sou uma pessoa que precisa de ter um emprego fora de casa e ser professora faz-me tão feliz! O trabalho a contrato e a necessidade de manter o emprego adiaram novamente o sonho de voltar a ser mãe – não podia correr o risco de não me renovarem o contrato.
Sem dar conta, já estava com 39 anos. O tempo voa! Tudo o resto passou para segundo plano… o desejo de ter outro/a filho/a era superior a tudo. Era um sonho nosso, inicialmente a dois, a três logo que a Sofia começou a pedir um/a irmão/ã por volta dos 3 anos de idade. Era este o momento. Decidimos tentar.
Demorou cerca de oito meses. Desconfiava que poderia estar grávida, mas isso era tão importante para mim que decidi deixar o teste para um dia especial, o dia do meu aniversário: 40 anos. Deu positivo! Felicidade transbordante. Queríamos muito contar à Sofia, mas decidi esperar, exatamente pelo conhecimento de situações de perda gestacional das quais tinha conhecimento, longe de pensar que seria essa a minha situação.
25 de Julho de 2016, uma ligeira perda de sangue. Nos dias seguintes a hemorragia aumentou e, depois de observada no hospital, a pior das notícias, o bebé não tinha batimentos. O meu mundo ruiu… Tive que tirar o meu bebé de dentro de mim, não havia qualquer milagre que lhe devolvesse a vida.
Provocaram-me o parto e passei por um longo processo de expulsão do meu bebé, doloroso fisicamente, destruidor emocionalmente. Expeli o meu bebé inteiro. Vi-o naquela aparadeira… Tão difícil passar por isto. Tão horrível. E mais difícil ainda porque todo este processo acontece na maternidade, ao lado de parturientes que acabaram de ter os seus bebés, a ouvir choros dia e noite. Temos que lidar com a nossa tristeza ao lado da alegria dos outros. É tão bom ver pessoas felizes! Mas nesta situação aumenta exponencialmente a nossa dor. Chorei. Chorei muito. Durante muitos dias. Senti-me culpada. Procurei justificação nos meus atos para o sucedido. Seria a medicação para a enxaqueca, seria o saltinho que dei no passadiço, seria pegar na bacia cheia de roupa para estender? Um sentimento desesperante.
Temos que lidar com a nossa tristeza ao lado da alegria dos outros.
Passado algum tempo, recebi o resultado das análises. O meu bebé estava com malformações e foi essa a causa do abortamento. Não tinha sido culpa minha. E as frases repetiram-se “Foi melhor assim.”, “A natureza sabe o que faz.”, “Isto acontece muitas vezes, é mais frequente do que imagina.”. Uma tristeza imensa e um vazio escondido tomavam conta de mim. Mas estava tudo bem fisicamente e podia tentar novamente. Decidimos tentar acreditando que desta vez ia correr tudo bem.
Em Novembro de 2016 voltei a engravidar. Uma felicidade contida e um medo incontrolável de ver sangue cada vez que ia à casa de banho. Tentei ser o mais positiva possível, acreditar, eu queria tanto o meu bebé! Até que, em Dezembro, na semana antes do Natal, acontece o que eu tanto temia: perda de sangue.
Na ecografia não dava para ter a certeza se estava em processo de abortamento, o embrião ainda era muito pequenino, e nesta fase nem sempre se consegue detetar os batimentos cardíacos. Teria que esperar e ver o que acontecia com o meu corpo. Dias terríveis se seguiram. A hemorragia aumentou e fui percebendo o que estava a acontecer. No dia em que abortei espontaneamente em casa, a Sofia falava constantemente que queria um/a irmão/ã, perguntava-me porque é que eu não tinha um bebé, dizia-me que eu não tinha um bebé porque não queria. Mais um dia terrível, insuportável. Duas dores simultâneas: perder o meu bebé e ser pressionada pela Sofia, que não sabia o que se estava a passar.
Tantos momentos de tristeza profunda, choro, noites sem dormir. E o silêncio. Um silêncio que me dilacerava, mas evitava falar deste assunto. Não por vergonha, que nunca a senti, não sou menos mulher, menos mãe, nem menos ser humano por isto que me aconteceu. Silêncio para proteger a Sofia, queria preservá-la deste sofrimento atroz, silêncio para não impressionar os outros negativamente, o facto de me ter acontecido não devia influenciar o seu estado, silêncio por sentir falta de abertura para me expressar e poder desabafar. Tive algumas pessoas comigo nestes momentos, mas eu sentia que não tinha o direito de incomodá-las com o que eu sentia.
O tempo passou. Decidimos tentar novamente. Queremos tanto um bebé!
Desta vez demorou mais tempo a engravidar, quase um ano. Neste período de tempo vivi sufocada pelo desejo de ser novamente mãe, passei a conhecer o meu corpo e todos e quaisquer sintomas, sabia o meu período fértil, contava os dias do meu ciclo menstrual, estava obcecada por algo que deveria ser natural, mas o meu relógio biológico exercia uma pressão incontrolável sobre mim.
Em Dezembro de 2017 percebi que estava grávida, fiz o teste e deu positivo. Felicidade contida e uma grande esperança de que à terceira é de vez, vai correr tudo bem. Mas não correu. Em Janeiro, numa consulta, soubemos que o bebé tinha parado de desenvolver às 8 semanas, não havia qualquer hipótese de esta gravidez progredir. Mais uma semana de espera. Tão difícil viver com um bebé morto dentro de mim…Mais uma vez tive que ir tirá-lo ao hospital. Desta vez a maternidade estava cheia. Colocaram-me neste processo de abortamento num quarto dentro do bloco de partos, resguardada. Sozinha… tão sozinha… e a ouvir e a ver recém-nascidos… A dor foi tão grande.
As noites e as viagens de carro eram a chorar. Cheguei a ter de encostar o carro para chorar. A pressão da Sofia para ter um/a irmão/ã aumentava, culpava-me de não querer ter um bebé, de não acreditar que conseguia ter um… Não suportava mais este sofrimento escondido. Tive que lhe contar o que se passou. Queria resguardá-la desta dor mas era insuportável. Chorámos as duas. Sofreu e percebeu que afinal eu não tinha culpa. Como eu queria ter evitado isto…
Tenho muitos irmãos e sei como é maravilhoso ter irmãos. Uma das maiores tristezas que carrego é não ter conseguido dar um/a irmão/ã à Sofia. Sonhei que crescessem juntos e construíssem uma relação forte e cúmplice. Não consegui dar-lhe o maior presente que uma criança pode ter…
Em Março de 2020 com o início da pandemia pensei “Não é uma boa altura para ter bebés, se calhar é melhor voltar a tomar a pílula” mas logo de seguida pensei “mais de um ano sem pílula e não engravidei, não vai ser agora que vai acontecer.” Não pensei mais no assunto. Em Abril de 2020, com 43 anos, percebi que estava grávida. Tive muito medo de uma nova perda e da pandemia que estava no início e era por si só assustadora.
Felizmente correu tudo muito bem. A minha bebé arco-íris nasceu em Janeiro de 2021, tinha eu 44, é saudável e super bem desenvolvida. Está quase a completar 2 anos de traquinices e muito amor.
Não tenho filhos e já pensava não ser possível, pela minha idade!
No mês de Setembro de 2022 comecei a sentir algumas dores no peito, sobretudo quando me levantava de manhã e sentia o peito maior. O período devia ter vindo no final do mês de Setembro, mas não veio. Não quis começar a sonhar, pois já não era o primeiro grande atraso; era apenas um atraso e nada mais. Tinha acabado de fazer 44 anos e já quase não acreditava ser possível uma gravidez.
Entretanto marquei uma consulta com uma nova ginecologista (Dra. RR) para ter uma segunda opinião sobre um exame que a minha ginecologista (Dra. MJA) me tinha indicado fazer (após inúmeros exames feitos para perceber se o que tinha era um quisto ou outra coisa).
No dia 3 de Outubro, fui à tal consulta. Após analisar os exames que levei, a médica fez uma ecografia e viu duas bolsas com uma forma irregular, um tamanho aproximado uma de 5 semanas e outra de 6 semanas, mas sem nada lá dentro. Pensou logo que poderia ser uma gravidez gemelar, o que a deixou preocupada pois não via nada lá dentro. Não sei se fiquei contente ou preocupada. Fui de imediato fazer uma análise de sangue para confirmar se era ou não gravidez. Se fosse, teria de ser vigiada semana a semana, estando já avisada que em caso de hemorragia devia ir de imediato à maternidade. Se não fosse gravidez, aí poderia fazer o dito exame que a outra médica tinha indicado.
A análise que a médica me mandou fazer foi a análise B-HCG total que detetaria logo caso se tratasse de gravidez. Mas o laboratório fez a análise B-HCG Livre… Só mais tarde percebi as implicações!
Entretanto a médica pediu-me que a avisasse assim que chegasse o resultado… as horas passavam e nada… foram quase 48h intermináveis.
Recebo o resultado e ficamos descansadas… Não estava grávida! Se estivesse já sabia que ia correr mal.
Entretanto o período continuava sem vir…as dores no peito continuavam… o peito maior…mas a análise tinha “dito” que não estava grávida. A médica receita-me um remédio para fazer vir o período. Tinha de tomar durante 10 dias.
Durante a noite de 16 para 17 de Outubro tive algumas dores do lado esquerdo da barriga, abaixo do umbigo. Com os meus habituais problemas de intestinos (Cólon irritável) pensei que poderia ser algo que tivesse comido ou o período para vir, apesar da dor ser diferente do normal. Não aguentei a dor e tomei um buscopan.
No dia 17 de Outubro, último dia do dito medicamento, acordo bem-disposta, sem a dor da noite anterior, visto-me para ir trabalhar e vou para mais uma semana de trabalho. Na dúvida levei o buscopan, não fosse a dor voltar!
Ao chegar ao trabalho, passado um pouco, começo a sentir cólicas. Nada de novo considerando os meus habituais problemas de intestinos. Uma corrida à casa de banho, suores frios, testa toda molhada, palidez e uma forte dor do lado esquerdo da barriga abaixo do umbigo. Já não era normal! Não conseguia sequer pensar.
Tomei buscopan na esperança de um milagre. Enviei mensagem à médica e liguei ao meu marido para me ir buscar. Tinha de ir às urgências. Não aguentava! Entretanto a médica liga-me e diz para ir ter com ela à consulta na Casa de Saúde.
Quando me começa a examinar, pensei…“Cá para mim são mesmo problemas de intestinos e a Dra. R. vai se rir e mandar-me embora para ser vista por outra médica!”
Mantive-me calma. Quer dizer, não podia abrir a boca senão desabava, de tão nervosa que estava
De repente liga o som do ecógrafo e por segundos e ouço um barulho estranho…a cara da médica não era boa! Pede desculpa, mas informa-me que ia ter de chamar um colega para confirmar algo que ela estaria a ver. Aqui já começo a achar estranho…algo se passava!
Chega o colega e com ele o veredito final…estava com uma gravidez ectópica na trompa esquerda… 6 semanas e 6 dias, com batimento cardíaco!!!!
Voltando à análise que a médica tinha mandado fazer…se o laboratório tivesse feito a B-HCG total que foi pedida, já tinha dado resultado positivo pois nessa altura já estaria grávida de 3 semanas!
Mantive-me calma. Quer dizer, não podia abrir a boca senão desabava, de tão nervosa que estava! O meu marido entrou na consulta para a médica explicar tudo aos dois!
De lá fui direta para a maternidade, com uma carta da médica, sem poder parar em casa para levar roupa. Tinha de ser operada porque corria risco de vida se a trompa rebentasse. Já tinha sangue, ou outro líquido qualquer de algo que tinha rebentado no útero ou ovários, já nem sei!
Já na urgência da maternidade, não consegui ligar à minha mãe. Pedi ao meu marido para lhe contar.
Quando entrei para a triagem estava lá a minha outra ginecologista à minha espera. Foi a minha salvação, uma cara conhecida naquele momento! Tinha-lhe enviado uma mensagem a informar o que se estava a passar. Como era dia de estar lá, ela foi ter comigo à urgência. Facilitou bastante porque já me conhecia, conhecia o meu historial e foi tratando de tudo com a médica da urgência. Quando sai da sala e me diz “Vai correr tudo bem”, desabei…Foram muitas horas a controlar e manter a calma…
Da triagem, após mais exames, fui direta para o internamento e lá fiquei.
A auxiliar que me leva ao quarto deseja-me as maiores felicidades! (Não terá visto a cor dos meus olhos????)…
Naquele dia não tinham equipa para uma laparoscopia. Mas fiquei preparada caso tivesse de descer de urgência para o bloco (aí teria de ser operação de “barriga aberta”).
No dia 18 de manhã preparam-me para a cirurgia e lá vou eu…
No dia 18 de Outubro acordei grávida de 7 semanas e deitei-me apenas com 4 furos na barriga e cheia de pensos!
No meio deste pesadelo encontrei duas médicas maravilhosas a quem não tenho palavras para agradecer o apoio (Dra. MJA e a Dra. RR)… um marido preocupado que desde que vim para casa não me deixa mexer uma palha…
Hoje faz 10 dias que o que pensei ser crise de intestinos era afinal uma gravidez ectópica…
Contínuo de baixa, na esperança que este desconforto físico passe rápido e me deixei voltar à normalidade! Uma nova normalidade…O psicológico lá chegará.
Por volta dos 29 chegou o desejo de ser mãe. Fiz consulta na ginecologista e check up e como estava tudo bem avancei. Passados dois anos não estava a conseguir (devido ao síndrome SOP). A ginecologista decidiu avançar com um indutor de ovulação, sem estar muito esperançosa que engravidasse logo no 1º ciclo.
O que é certo é que comecei a ter os sintomas típicos de gravidez: sensibilidade mamária e atraso menstrual. Resolvi fazer um teste: e tive o meu positivo!
Naquele momento tremia e chorei de felicidade. Marquei consulta na ginecologista e ouço: está grávida e bem grávida. São gémeos.
Foi um misto de emoções uma vez que o meu companheiro estava em isolamento devido à covid, e não pôde ir comigo à consulta. Ambos sabíamos que havia essa probabilidade e até tínhamos brincado com isso. E estávamos muito felizes.
A gravidez decorreu normalmente até às 21 semanas, dia em que comecei a ter cólicas, que se vieram a intensificar e comecei também a perder sangue. Fui direta para o hospital, mas com a esperança que não ia ser nada grave. A médica começa a fazer a ecografia e diz que eles vão nascer, uma vez que entrei em trabalho de parto prematuro e um já estava fora do útero e que o prognóstico era reservado.
Fica a eterna saudade e grata por me terem escolhido para vossa mãe.
O meu sonho começou a acabar ali naquele momento e virou pesadelo. Fui internada e diagnosticaram uma infecção (e que provocou o parto prematuro). Começaram logo a dar me antibióticos e diziam que tudo tinha de processar naturalmente e sempre com o discurso de prognóstico reservado. Tinha muitas dores, de chegar ao ponto de enfermeira me propor anestesia epidural para ajudar. Sempre que iam lá as médicas diziam que estava cada vez pior (basicamente diziam que não havia nada a fazer, para evitar que nascessem). Estive assim dois dias, com contrações dolorosas e com uma tristeza de quem já sabia o desfecho. Chorava, chorava muito.
Já só dizia ao meu companheiro que íamos perder os nossos meninos. Ele também estava triste, mas manteve-se firme para me apoiar. Dizia que eu não tinha culpa…
Entretanto nasceram o meu Duarte e Tomás e tornaram-se os meus anjinhos…Doeu tanto perder-vos. Ainda dói e ficou um vazio muito grande. Tinha começado a sentir-vos na minha barriga há pouco tempo e Deus quis levar-vos de mim. Fica a eterna saudade e grata por me terem escolhido para vossa mãe.
No dia 11 de Novembro de 2021 descobri que a minha vida ia mudar por completo, chegou o tão sonhado positivo. Pais de primeira viagem fomos à médica de família que nos marcou as consultas no público, como pensei que estava tudo bem fiz a minha vida normal até à consulta no público (a minha irmã já tinha sido seguida dessa forma e tudo correu bem).
No dia 20 de Dezembro 2021 ansiosos pela ecografia para ver o nosso bebé e a médica quando faz a ecografia muito fria diz “não existe bebé, nunca fez nenhuma ecografia? ” e eu respondo que não e ela diz “não sabe que tem que ir ao privado antes desta consulta”. Eu sem chão e ela manda-me embora para as urgências para ir tomar comprimidos para expulsar o saco gestacional sem explicações. Fui para os urgências sem saber o que se passava, só chorava e aí foi-me explicado que era uma gravidez anembrionária. Nunca tinha ouvido falar em tal coisa.
Fiz a expulsão em casa e foi terrível. Estava cheia de dores físicas e psicológicas (fazia anos dia 21 de Dezembro onde tinha planeado contar a todos da gravidez). Os médicos disseram que a probabilidade de ter repetição de anembrionária era muito baixa e que a probabilidade de aborto era a normal. Contudo, diziam eles muito raro acontecer duas vezes seguidas.
Decidimos voltar a tentar e, no dia 22 de Maio, descubro que estou novamente grávida. O medo era imenso, marquei logo com uma ginecologista no privado, fazia ecografia de 15 em 15 dias. Não contámos a ninguém porque o medo de correr mal era imenso. A barriga começava a aparecer e eu sempre a dizer que estava a ficar gordinha. A médica sempre a dizer que estava tudo bem. Fiz a última ecografia o bebé tinha 11s4d a médica fez as medições todas e disse que estava tudo bem. Pela consulta no público o bebé estaria com 13s2d. Lá fomos nós dia 25 de Julho todos contentes porque eu tinha visto o bebé e convenci o meu marido que estava tudo bem.
Entramos, a médica coloca o ecógrafo e eu não ouvi o coração do bebé e ela diz “papás infelizmente o bebé parou”. Eu gritei que não podia estar a acontecer de novo, eu tinha visto o bebé uns dias antes. E ela diz “parou com 12s, tem um aborto retido e precisa ir para as urgências para retirar”. Fico sem chão novamente e aí entro nas urgências a chorar compulsivamente. Dão-me um comprimido e mandam-me voltar 2 dias depois para ser internada. Foram os dias mais longos da minha vida, saber que o meu bebé estava morto e eu sem poder fazer nada.
Fui internada colocaram os comprimidos vaginais para a expulsão e fiquei sozinha entre 4 paredes cheia de dores e sempre a ouvir corações dos outros bebés que estavam ali para nascer. Senti a bolsa a rebentar passadas umas 7h. Chamei a enfermeira e passado alguns minutos sinto o bebé a sair e eu sem um enfermeiro ou médico para me ajudar.
Tão pequenino, mas era o meu bebé.
Chamei novamente e lá o levaram para fazer os testes necessários, nunca me vou esquecer dele: o meu menino mais lindo. Vai estar para sempre no meu coração.
Hoje, um ano depois do dia mais triste das nossas vidas, abro pela primeira vez, o meu coração para partilhar a minha história, a nossa história.
Hoje, com o coração mais calmo, e depois de aceitar que deixar partir é um ato de amor, venho contar-vos que a perda de um filho é dos momentos mais traumáticos na vida de qualquer família.
Era Agosto e nós íamos fazer a ecografia morfológica, decidi levar a nossa filha para que pudesse ver pela primeira vez o mano/a.
Sempre ouvi dizer que as mães têm um sexto sentido, e caramba… nesse dia fiquei a saber da pior forma possível, que afinal ele existe mesmo.
Pouco tempo antes de entrar no consultório, lembro-me perfeitamente de dizer esta frase “tenho tanto medo que não esteja tudo bem”. E não, não estava. Mal eu sabia que partir daquele dia, iria carregar uma das maiores dores em toda a minha vida.
Entrámos no consultório, entusiasmados. Afinal íamos ser pais de 2, que bênção!
O médico coloca a sonda, e pergunta-nos se já sabemos o sexo do nosso bebé, e nós respondemos que não. Minutos depois, recebemos a notícia que íamos ter mais uma menina, para fazer companhia a este nosso leque familiar de mulheres.
Pouco tempo depois, um silêncio invade a sala. A dada altura, decidimos perguntar se estava tudo bem, ao qual prontamente o médico me diz que não, não está tudo bem. O seu bebé tem um quisto no cérebro, tem de ir imediatamente à maternidade fazer exames mais específicos.
Saímos desalmadamente daquele consultório, lavados em lágrimas, em desespero e completamente sem reação.
Rapidamente as nossas famílias nos prestaram auxílio e vieram ao nosso encontro. Nessa tarde, corremos todos os hospitais possíveis. Estava a ser seguida no hospital particular, e dirigi-me as urgências ao qual rapidamente fui descartada, pois poderia não ser uma gravidez evolutiva. A resposta que me foi dada, era de que se tratava de uma situação muito burocrática. Corri mais 2 hospitais, acabei na Maternidade Alfredo Da Costa, onde com a maior empatia do mundo, me marcaram uma consulta no Diagnóstico Pré-Natal. Um sítio onde tudo começa, e onde acaba para muitos dos bebés.
Era sábado, tinha um fim-de-semana inteiro pela frente…foi horrível. Não estávamos a conseguir aceitar o que se estava a passar, e estávamos aterrorizados a espera que a segunda feira chegasse.
O dia chegou, dirigi-me à Maternidade Alfredo da Costa para a minha primeira consulta, no local onde ninguém quer estar, o diagnóstico pré-natal. Lá eu poderia imaginar que aos 30 anos de idade, iria ter de passar por um processo tão difícil como este.
No dia 15 de Outubro , no dia em que se celebra o dia da consciencialização da perda gestacional, a Benedita veio ao mundo, num parto respeitado e humanizado.
Depois de várias horas em espera lá entrei, e o médico teve perto de 1h a fazer uma ecografia. Realmente viu que existia um problema, mas ainda com muitas dúvidas. Aconselharam-me a fazer a amniocentese, para avaliar e despistar outro tipo de doenças gravas. Nesse mesmo dia fiz o procedimento.
Lembro-me perfeitamente de nesse mesmo dia, me darem um termo de responsabilidade para assinar, caso fosse necessária intervenção médica, ou melhor dizendo uma Interrupção médica da gravidez, tendo em conta o estado avançado em que já me encontrava da gravidez.
Colocarem nas nossas mãos, o destino da vida dos nossos filhos é um peso muito grande. É o peso de uma vida. A vida da minha filha.
Informaram-me que deveria fazer uma ressonância magnética, pois só partir daí se conseguia ver melhor o bebé e problemas internos.
Fui para casa de repouso, e 2 dias depois estava a fazer a ressonância. Disseram-me que teria de aguardar o resultado, e que a maternidade me ligaria para ir novamente a consulta.
3 semanas depois, volto a fazer ecografia e a dúvida do médico persiste apesar da ressonância confirmar que existia um problema.
Informaram-me que teria de aguardar, e fazer um acompanhamento da minha bebé para ver se o problema podia ter um retrocesso. Segundo os médicos era um problema que poderia ir ao lugar com o crescimento fetal.
Na altura fiquei muito revoltada, não aceitava porque tanto tempo, porque me fazerem sofrer tanto. A espera era horrível, e eu sabia que quanto mais tempo passasse, mais doloroso seria para a nossa família.
Durante longos 2 meses entre esperas e exames, lá chegamos ao diagnóstico final.
Nesse dia, deram-nos a pior noticia que se pode dar a qualquer mãe ou pai.
A nossa filha aos 8 meses de gestação, foi diagnosticada com uma má formação do sistema nervoso central, tinha uma síndrome muito rara e que seria totalmente incompatível com a vida humana. Foi devastador.
Disseram-me que uma neura pediatra iria entrar em contacto connosco, para nos explicar o que se estava a passar com a nossa bebé, e assim foi.
Estávamos devastados, íamos a sair da maternidade quando recebemos uma chamada de uma enfermeira, a enfermeira Leonor Gonçalves, que para mim continua a ser um anjo da guarda. A Leonor queria saber como nós estamos, e falar connosco. Assim foi, voltamos para trás, fomos levados para uma sala e lembro-me como se fosse hoje. A Leonor, tocou no meu braço e disse pode chorar, fique a vontade. Foi um dos gestos mais bonitos que podiam ter tido connosco naquele momento doloroso. A ajuda veio ter connosco, sem pedirmos ajuda. Foi bonito e muito importante para nós. Até aos dias de hoje, a Leonor está sempre presente nas nossas vidas.
Realmente são as pessoas que fazem os sítios, e o trabalho daqueles profissionais é tão importante para nós pais que vamos perder os nossos filhos.
Dia 11 de Outubro, vamos }a maternidade iniciar o processo. Nesse dia somos deparados com uma série de questões, e mais uma vez a Leonor estava lá para nos apoiar, ajudar e agilizar todo este processo.
A Leonor ajudou-nos com as questões mais burocráticas, e falou-nos sobre a oportunidade de conhecer a nossa filha, de ficar com as impressões dos pés e das mãos da nossa filha. Nem sequer pensei que isso fosse possível para um bebé que nasce sem vida.
Dois dias depois, seguia-se o meu internamento para iniciar a indução de trabalho de parto.
Nesses 2 longos dias, tivemos que tratar daquilo que mais custa a qualquer pai, enterrar um filho. Tratar do funeral da nossa filha que ainda não tinha nascido, e quem nem o mundo ia conhecer.
Foi completamente devastador, não fui capaz de entrar na agência funerária, assinei os papéis no carro. Mas saímos dali com tudo tratado.
Seguia-se outra fase complicada, comprar uma roupa para a nossa filha. Entrei 3 vezes na mesma loja e não consegui comprar nada. Acabei por ter de pedir ajuda a família para comprar a roupa para a nossa filha.
É muito duro preparar o funeral de alguém ainda em vida.
Dia 13 de Outubro com 31 semanas, fui internada. Cheguei a maternidade, a Enfermeira Leonor já estava a nossa espera. Fomos para uma sala, onde revimos todos os pormenores do que iria acontecer partir dali.
A Leonor generosamente, sentou-me num cadeirão ao lado da janela e disse-me para eu me despedir da minha filha, para lhe poder dizer que me perdoasse, porque o que eu estava a fazer era um ato de amor. A Leonor deu-me tempo, deu-me a mão, fez-me sentir mais calma.
Ensinou-me a exercícios para me sentir mais calma, para saber controlar as dores no trabalho de parto.
Fomos então para a sala de ecografias, onde a médica estava a minha espera, acho que foi o momento mais duro do processo no hospital. Iriam ter de provocar a paragem cardíaca a nossa Filha. Deitei-me, demos a mão os dois e encostamos as nossas cabeças e a médica pediu-nos que não olhássemos para o monitor. Minutos depois, senti-me a perder os sentidos, estava completamente em outra dimensão e só me lembro da Leonor me tirar a máscara e dizer “fique comigo, concentre-se na minha voz”. O procedimento terminou, e estava meio adormecida.
Desci para o internamento, onde fui para uma sala isolada, para não ter qualquer tipo de contacto com as outras grávidas e ouvir os bebés chorar. Acho que isso é de uma enorme empatia que se pode ter com alguém.
Fiz a primeira medicação para indução de parto, e nesse dia nada aconteceu, ao final da noite tentaram outro método de indução, que teria de se dar uma janela de 24h para tentar novo método. No dia seguinte, comecei a ter muitas dores, mas não tinha dilatação ainda, e na noite de 14, as dores começaram a agravar. A todas as enfermeiras da maternidade só posso agradecer todo o carinho que me deram, traziam me medicação, sentaram-se na minha cama e deram-me a mão, limparam as minhas lágrimas imensas vezes.
Na manhã seguinte fui para o banho para atenuar as dores, estavam insuportáveis. Já estava em trabalho de parto desde essa noite. A médica veio avaliar, e já estava pronta para ir para o bloco de partos. Desci, levei epidural e começa o início de tudo, o medo, o fazer nascer.
A enfermeira parteira Cleisa, que até hoje não me esqueço do nome dela disse-me “vamos ao seu ritmo, nasce quando você quiser” e assim foi.
No dia 15 de Outubro , no dia em que se celebra o dia da consciencialização da perda gestacional, a Benedita veio ao mundo, num parto respeitado e humanizado. Não, a Benedita não chorou, mas tudo em mim se desfez por completo.
Levaram a Benedita e aconchegaram-na na mantinha que tinha sido da irmã, a enfermeira regressa com uma caixa de memórias, com a hora do nascimento, o dia, e a impressão dos pezinhos e das mãozinhas.
Chorei muito, foi devastador.
No dia seguinte tive alta logo de manhã e fui para casa descansar, a nossa filha estava ao cuidado da nossa família, mas tínhamos que nos preparar para lhe dar a notícia.
Na manhã seguinte fui buscá-la, sentei-me com ela e expliquei o que aconteceu à mana. Ela reagiu bem, ficou calma apenas nos perguntou se ia continuar a ser só ela na nossa vida e nós respondemos que sim e demos um abraço.
Estivemos 1 semana a espera que liberassem o corpo da Benedita, e o dia do funeral chegou. Decidimos cremar a nossa filha, e lembro-me que ao chegar ao crematório havia uma placa que dizia “Filho de Soraia Carvalho”, foi aí que tudo se tornou ainda mais real.
Demos a mão e entrámos, quando eu vi aquele caixão pequenino, não consegui conter-me e chorei compulsivamente. Foi um ambiente muito pesado, foi muito complicado, mas as nossas famílias estiveram sempre lá para nós.
Aos poucos fui aprendendo a lidar com a nossa dor, a gerir os meus sentimentos. Descobri da pior forma, que o luto é um caminho longo e solitário.
Hoje com o coração mais calmo, fiz as pazes com a vida, porque tal e qual como comecei a nossa história, deixar ir é um ato de amor. E assim foi.
Enquanto mãe, vivi o dia mais feliz da minha vida, e o mais triste também. Mas Hoje, Inicio um novo ciclo, e tu querida Benedita vais sempre fazer parte da história da minha há vida.
Querida Benedita, espero que estejas em paz. Lembro-me de ti todos os dias.
Decidimos parar de tomar a pílula. Estávamos preparados para dar início à aventura da nossa vida.
Fiz um teste de gravidez. Minto. Fiz dois.
Um tradicional que me indicou dois traços bem fortes e um digital que me indicou que estaria grávida há mais de três semanas. Fiquei nervosa, mas feliz.
Há algum tempo que sentia algumas cólicas. Completamente suportáveis e do que já tinha lido, um sintoma comum de uma gravidez inicial.
Para descargo de consciência, vamos marcar consulta o mais rapidamente possível para saber se está tudo bem e podermos respirar de alívio e sermos felizes por inteiro. Consegui consulta dois dias depois. “Não vejo nada no útero. Desconfio que esteja noutra cavidade..” Já tinha lido sobre gravidez ectópica. Naquele momento caiu-me o mundo. Não podia ser. Não me podia estar a acontecer a mim.
Uma mulher saudável, de 29 anos, primeira gravidez. E agora? Fui para a urgência do hospital.
Tinha de ser novamente examinada para perceber a situação e a “solução”. Gravidez tubária. O embrião, o feto, o nosso bebé, a nossa sementinha de 5 semanas e 7 dias tinha-se alojado na minha trompa esquerda. Cresceu e fez com que houvesse uma ruptura. “Coágulos, coágulos. Ela tem a barriga cheia de sangue” Comecei a entrar em pânico. Entrei na urgência por volta das 17:00, às 19:00 estava a vestir uma bata, a assinar um termo de responsabilidade e a saber que ia para cirurgia (pela primeira vez na minha vida), sem saber qual seria o desfecho. Sozinha (Covid).
Deixei de ver e comecei a desfalecer. Que medo avassalador. O meu bebé foi sacrificado por não ser uma gravidez viável sendo ectópica e a minha trompa retirada.
Os meses vão passando, a vida lá fora segue, as pessoas deixam de perguntar como estás e ali estás tu, perdida na tua própria dor a tentar encontrar um porquê que não existe.
Em recuperação, já em casa, abria as redes sociais e era o raro o dia que não dava de caras com o anúncio de uma gravidez. O meu coração ficava do tamanho de uma ervilha. Desde sempre que imaginavamos cenários na nossa cabeça de como iríamos contar à família e amigos. Meses depois uma amiga foi mãe. Chorei, chorei, chorei. Sentia uma angústia… Estava feliz por ela mas também tinha inveja.
Chorava porque não queria estar a sentir aquilo mas não conseguia controlar.
Os meses vão passando, a vida lá fora segue, as pessoas deixam de perguntar como estás e ali estás tu, perdida na tua própria dor a tentar encontrar um porquê que não existe. Dava por mim a pensar que apesar de no sítio errado, o meu filho estava a crescer, saudável e que não era justo. Via mulheres que perdiam os filhos a meio, ou mesmo no fim de uma gestação e perguntava-me se era justo sentir-me assim, com uma gravidez de cinco semanas. Sentia que não me podia comparar. Que a dor seria muito maior e que a minha comparando não era nada.
Mas, agora consigo, com plena lucidez mental, perceber que não se comparam dores. Não há dores maiores ou mais pequenas. Esta dor foi e é a minha. É o meu luto.
Cinco meses depois, após uma salpingectomia unilateral, estou com fé que o universo me vai permitir ser mãe e não me fará passar por tamanha dor novamente. Tenho medo. Mas o sonho de ser mãe é maior.
Tenho 43 anos e uma filha com 21 anos e disse sempre que não queria mais filhos; pelo o parto ter sido complicado e por vários motivos pessoais.
Com os anos, fui sentido de novo essa vontade. Por várias razões, foi-se adiando, até que este verão, a 26 de Agosto, estava de férias, após um grande atraso menstrual – pensando eu que seria mais um atraso ou talvez uma pré-menopausa-, fiz um teste rápido que deu positivo.
Passado estes anos todos, fiquei super feliz! Apressei-me em marcar consulta para fazer avaliação, uma vez que segundo as minhas contas, estaria de 7 semanas.
No dia 06/09 fui à primeira consulta um pouco apreensiva mas feliz, a minha obstetra segue-me desde os 18 anos, é uma excelente profissional em quem confio plenamente. Ao iniciar a eco transvaginal começou por explicar o que via e, de repente, um silêncio. Rapidamente entendi que algo não estaria bem… Disse que tinha dúvidas e não conseguia confirmar se estava tudo bem, teríamos de repetir a eco uma semana depois porque ou não estava de tantas semanas ou a gravidez não estava a evoluir. Fiquei sem chão, pensando e mentalizando-me para o pior. Passei uma semana super angustiada.
No dia 13/09, como combinado, la estávamos nós para repetir a eco. Mantiveram-se as dúvidas mas disse-nos para não ter esperanças porque achava que não estava a evoluir. Agendamos para dia 15/09 eco com colega para segunda opinião e nova avaliação. Mais uma vez fiquei com o coração nas mãos e mentalizei-me para o pior… No dia 15/09 lá estávamos nós, à hora combinada, e confirma-se o que ninguém quer ouvir: não há batimento cardíaco, segue-se o diagnóstico de aborto retido às 6 semanas e 2 dias.
após tantos anos perdi o meu 2° filho. Sentimento de revolta, raiva e a questão mas porquê?
Parecia que estava em piloto automático, dirigimos-nos à receção para efetuar o pagamento e agendar a consulta de avaliação. Ao sair da clínica desabei, estava confirmado, após tantos anos perdi o meu 2° filho. Sentimento de revolta, raiva e a questão porquê ao fim de tantos anos?
Conforme indicações, iríamos aguardar uma semana para ver se o corpo fazia a rejeição. Já estava com algumas cólicas, mas o processo desencadeaou-se na noite de 17/09/2022 para 18/09/2022 com cólicas e perdas de sangue. O pior aconteceu às 7h00 da manhã de dia 19/09/2022, senti cólicas fortes e perdas, fui rapidamente à casa de banho mas não cheguei a tempo… caiu o saco gestacional com o embrião para o meu penso. Fiquei sem chão: estava ali o meu bebé e fiquei sem ele…
Sei que para as pessoas à nossa volta também não é fácil ajudar, uma vez que nós é que passamos físicamente e psicologicamente por este processo todo, mas senti-me desesperada, sem chão. Seguiram-se quase duas semanas completas com perdas de sangue e dores devido às contrações do útero. Sentia-me um caco, sem vontade de fazer nada, e em alguns períodos do dia muito triste e chorosa. No dia 27/09/2022 fui à consulta de avaliação, após eco transvaginal, estava quase tudo “limpo” só faltavam alguns coágulos, o processo tinha decorrido naturalmente, sem medicação e sem curetragem. Sentia-me muito cansada, foi me prescrito ferro e ácido folico para 20 dias com recomendação para descansar e recuperar ao meu ritmo.
Jà decorreram quase 3 semanas após o aborto, começo a sentir-me melhor fisicamente mas psicologicamente tenho alturas de tristeza e muio choro… Encontro-me ainda de baixa, irei retomar a minha atividade dia 17/10 espero estar com forças para regressar à minha vida.
Queria partilhar o meu testemunho porque acho que pode ajudar outras pessoas a passarem pela mesma situação. Acabei por me sentir sozinha nesta bolha de felicidade porque no meu caso, o meu marido e a minha filha, não reagiram muito bem à notícia da gravidez, ficaram os 2 em estado de choque não estavam à espera ao fim de tantos anos,e por opção, não divulgamos que estava grávida até confirmar que estaria tudo bem.
Após o diagnóstico, têm sido incansáveis até porque acho que se sentem impotentes face a este sofrimento, e os homens na minha opinião não demonstram tanto as suas emoções.
Quero dizer que o facto de nos dizerem “ainda bem que foi cedo se fosse mais tarde era pior” ou “não foi é porque não tinha de ser” não ajuda, sei que a intenção é boa, mas para quem está em sofrimento só nos deixa mais um sentimento de tristeza . Por vezes é suficiente uma mão dada, um abraço, “estou aqui se precisares de alguma coisa” ou simplesmente “como estás?”. Cada pessoa tem de viver a dor à sua maneira, e a partir do momento em que há um teste positivo, estamos a gerar o nosso filho, é uma perda e há que fazer o luto.
Perdi o meu segundo filho e vai permanecer em mim para sempre…
Desejo força para todas as pessoas que como eu passem por uma perda. E espero em breve conseguir seguir o meu caminho e voltar à minha vida embora sempre com o coração apertado porque é uma situação muito difícil.
Resta-me agradecer o apoio de todos os nossos próximos que têm sido incansáveis e me têm dado forças para seguir, sem eles seria impossível.
O nascimento seria no mês de abril de 2023, impossível não pensar em datas.
Um beijinho e força a todas.
À minha estrelinha: estarás para sempre no meu coração.