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Perda precoce Testemunhos

Olá

O meu nome é Carina e sou mãe de um lindo rapaz de 4 anos. Na sua gravidez surgiram alguns contratempos, mas nada de sério, pois, embora pequenino, nasceu saudável por cesariana de urgência. 

Passados dois anos e meio, fomos surpreendidos por uma nova gestação. Depois do choque inicial veio uma grande felicidade, no entanto acabou demasiado rápido… resultando num aborto espontâneo.

Como casal decidimos esperar pelos três anos do rapaz para voltarmos a tentar e assim foi. Ao fim de alguns meses fomos presenteados com um novo resultado positivo! Repleto de felicidade, mas também algum receio de uma nova perda gestacional, aliado ao Covid-19. O dia de Páscoa chegou e com ele também a neblina de um novo aborto espontâneo.

Estávamos desgastados e com o coração partido. Porém, após conversar com algumas mães que passaram por situações semelhantes, não desistimos e decidimos continuar. 

Poucos meses se passaram e obtivemos um novo positivo… que grande felicidade! “À terceira é de vez” pensámos. Marquei consulta de obstetrícia o mais rápido possível, realizámos ecografia e vimos um saco gestacional, ainda sem embrião por ser muito cedo. Admito, chorei muito nesse dia por tudo o que podia correr mal, mas acalmei e começámos a pensar como uma família de quatro. 

Dia 23 de Agosto tive novo sangramento, e devido ao Covid-19, dirigi-me novamente sozinha para o Hospital, a pensar que era mais um aborto. 

(…) no entanto eu estava feliz e segura “ia dar tudo certo”.

O médico fez um exame exaustivo e detetou hemorragia interna. Tratava-se de uma gravidez ectópica na trompa esquerda. Tinha ignorado todos os sinais que o meu corpo me deu até este dia… o mau estar e as dores constantes. O médico explicou-me que o saco que a Obstetra vira anteriormente, era uma vesícula falsa, algo bastante comum numa gravidez ectópica. Aliado a isto, o facto de a primeira ecografia ter sido realizada precocemente, também dificultou a deteção da GE. 

Dado que estava com hemorragia, encaminharam-me de urgência para o bloco operatório e removeram-me a trompa e o embrião, que já tanto amava. O internamento foi uma tortura, os bebés choravam e com eles chorava eu por ter o meu colo vazio. Senti-me mutilada, com corpo defeituoso, e desanimada com receio de nunca mais conseguir vir a ser mãe. Emocionalmente foi a pior das perdas e, enquanto casal, estávamos destroçados. A Obstetra tranquilizou-me, dizendo que, mesmo apenas com uma trompa, havia grande probabilidade de voltar a engravidar e assim foi… Sem “treinos a sério” veio o novo positivo. 

Os olhos do meu marido encheram-se de lágrimas, mas não por felicidade e sim receio de voltarmos a passar por tudo, no entanto eu estava feliz e segura “ia dar tudo certo”.

Estou grávida de 19 semanas da minha menina arco-íris forte e bem mexida. É um dia de cada vez, mas cada pontapé é uma vitória. 

Se o vosso desejo é de serem mães e pais, não desistam! Lutem, sigam o vosso coração, sigam as recomendações médicas e, por favor, não ignorem os sinais que o vosso corpo vos dá.

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O meu nome é Filipa, tenho 36 anos, desde que me lembro sempre quis ser mãe, e sou mãe de 3 filhos, duas estrelas no universo e um terror dos sete mares em terra, há 17 meses.

Esta minha história começa em 2015, deixei de tomar a pílula e começamos a tentar engravidar!

Setembro de 2015, grávidos…que explosão de felicidade, de medo, não acreditámos! Segue tudo bem, tudo tranquilo, tirando os meus enjoos terríveis, as náuseas constantes, não conseguia comer… mas com o bebé tudo bem!! Ecografias normais, tudo tranquilo… 12 semanas, uns dias antes da ecografia fiz a recolha de sangue para o bioquímico, para no dia da eco já termos os resultados! (mas que resultados são estes pah?? Vai estar tudo ok…e aquilo também é só uma probabilidade…).

Fazemos a eco, há qualquer problema com umas medições…mas nada a temer! No final, cruzamento de dados e uma probabilidade de 1/129 para trissomia 21. Fiquei dormente… a médica apaziguou-nos, que era uma mera probabilidade e que estava tudo bem com o baby, e falou da possibilidade da amniocentese e de uma análise (Harmony), não comparticipada, mas que os resultados eram fiáveis e não era evasiva! Bora lá….não vai ser nada, lá fomos fazer a análise.

Durante as duas semanas de espera, uma eternidade, não se falou cá em casa de nada! Mas a notícia chegou… chegada a casa de trabalhar, estava lá a minha cunhada (enfermeira na obstetrícia, no hospital) com um pai desfeito e eu a perceber tudo sem uma única palavra… ela deixou o relatório, e foi embora e eu não chorei…fiquei ali… dormente!

Primeiro teste neste hospital de um Harmony com 99,9% de probabilidade de um bebé rapazola, com trissomia 21. Nova consulta, nova apresentação de possibilidades, continuar com a gravidez, fazer amniocentese, e caso quiséssemos interromper teria mesmo que avançar para o exame!

INTERROMPER???? Quem?? Toda a minha vida disse que NUNCA ia interromper uma gravidez por saber que o meu filho tinha uma deficiência… mas, e agora? O que é que eu quero fazer? A decisão do meu companheiro estava tomada, interromper, eu… não sabia de nada, nem quem era, nem que crenças tinha, nem que ideais eram os meus… estava completamente perdida num universo escuro!

Avançamos para o exame, sabíamos qual era o resultado, mas eu fiquei de repouso absoluto nos dias indicados, o meu companheiro ficou em casa, não me mexi para nada… a esperança lá escondidinha a fazer das suas!!

Mais duas semanas de espera pelo resultado, nesses dias muito chorei, não dormi, não queria tocar na minha barriga, não queria sentir nada, não queria ser… parecia que estava a assistir a um filme… discutimos este mundo e o outro, berrámos um com o outro… e no fim eu tomei a minha decisão: interromper a gravidez!

Que passo, que abalo naquilo em que eu sempre acreditei, que murro no meu ser… mas esta era a minha decisão, com um medo terrível de um arrependimento futuro e vítima, acho que posso dizer vítima, do julgamento das minhas pessoas, claro que não todas, mas naquele momento ficou a ferida de quem julgou, de quem tentou por tudo que não o fizesse, de me darem estas e aquelas provas de que podia correr bem…

Nova consulta, decisão tomada e verbalizada à médica. Não consigo explicar a leveza que senti, aquele peso de uma decisão tão difícil saiu-me de cima, este peso tinha-se sobreposto à tristeza da perda iminente do meu filho! Estava ali mesmo o Natal, e a passagem de ano… passei o Natal a saber que ia perder o meu filho, só pedia para ele não se mexer, para eu não o sentir, dia 30 de Dezembro dei entrada no hospital para a interrupção, foi fisicamente muito doloroso, um parto… o meu filho nasceu, já sem vida às 22h15m. Dia 31 tive alta (graças à médica que me estava a acompanhar no internamento)… Eu continuava dormente…parecia que não me tinha acontecido a mim… dormente!!

Claro que chorei muito, estava devastada, mas…não há explicação, estava bem… até que em meados de Março a minha cunhada engravida do meu sobrinho que amo com todo o meu coração, e o meu mundo desabou na minha cabeça, chorei dias seguidos, a fio sem conseguir parar, não entendia o porquê…era uma revolta tão grande dentro de mim! E aí… acompanhamento psicológico (e o que custou dar o passo) e tão bom, tão bem que me fez… e tão grata que estou a quem me acompanhou, e acompanha, e a quem me deu a dica de “se calhar devias falar com alguém…”, nunca vou esquecer.

Engravidar outra vez, aos poucos fomos pensando nisso com medos gigantes, uma ansiedade todos os meses… outro Setembro, de 2017 – grávida! Que medo… não dissemos a ninguém quase, no meu trabalho ninguém sabia (e agora penso…porquê? depois tive que contar a toda a gente à mesma…).

Tive uma perda de sangue perto das 8 semanas, hospital a correr, a chorar baba e ranho… a notícia “este embrião não parece nada ter 8 semanas, só dá umas 6 semanas, vá para casa e vamos aguardar, daqui a umas semanas vemos a evolução”, passados uns dias voltei às urgências “parece-me uma gravidez não evolutiva, o embrião não está a evoluir, vá para casa e se tiver uma perda muito significativa de sangue volte cá”… aterrorizada, mas com aquela esperança… um dia a chegar ao meu trabalho tenho uma perda gigante, urgências: “Quer ficar cá e fazemos a indução medicamentosa para a expulsão ou quer aguardar em casa? A minha ex-mulher também teve 4 abortos e agora temos 2 filhos…”.

Eu quis ficar,  desta vez fiquei sozinha, uma noite, não expulsei tudo no hospital, só em casa o maior, o meu filho, também era rapaz, soubemos depois dos testes genéticos que fizeram! Fiquei em casa o mês todo de baixa, a recompor-me, ou vá… a tentar…

Fizemos testes genéticos… Nada…”foi mesmo má sorte, nunca vimos o euro milhões calhar duas vezes à mesma pessoa pois não?”… O quê??como? Isto foi o euro milhões?? Tá bom…

Tenho os meus 3 filhos comigo, sempre, e tenho-os para toda a vida

E o tempo foi passando e sem fazermos contas à vida, sem pensarmos no timing de engravidar outra vez…em Setembro de 2019 nasceu o nosso JL!!

Sei que estava bem psicologicamente e fisicamente para avançarmos com esta gravidez, com os medos normais de uma gravidez, mas sem medos extrapolados ou irreais… fomos andando, com sustos, mas foi tudo correndo normalmente! Claro que pensava que poderia correr algo mal, mas quem não pensa? Estava bem… e estou bem! Tenho os meus 3 filhos comigo, sempre, e tenho-os para toda a vida, e aprendi tanto, e cresci ainda mais para os amar “até ao infinito e mais além”…

Nunca me arrependi da minha decisão, estou em paz com tudo o que passou e aprendi a acolher em mim a minha dor, como acolho a minha felicidade…

Beijinhos do tamanho do mundo, cheios de esperança e amor!!

Filipa

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Eu e o meu marido planeámos ser papás e, por isso, ter um filho é um grande desejo dos 2 e um grande sonho que temos.  

Um projeto de vida para a vida, talvez o maior das nossas vidas. 10 dias antes de fazer 30 anos, tive o meu positivo. 13 Outubro 2020 foi quando descobri que estava grávida (3+). Aahhh que felicidade tão grande, que sentimentos me invadiram tão bons.

❤

Admito que também fiquei com aquele nervoso miudinho e ansiosa para ir a uma consulta para perceber se estava tudo bem. Consegui consulta logo no dia a seguir ao meu aniversário, 24 Outubro. Fiquei a perceber que estava tudo bem, mas que tinha menos uma semana que a que eu achava que teria. Explicação do médico: talvez por uma ovulação tardia. Um médico de poucas palavras e que apenas me mandou esperar e fazer caminhadas, também referindo: “das duas uma, ou ovulação tardia ou o feto não evoluiu”. 

E sabem quando nós mulheres ficamos desconfiadas e com um mau feeling?? O Dr. Google foi o meu aliado e eu li e reli montes de informação sobre estas questões. 

Voltei a ter outra consulta 10 dias depois e nessa consulta eu já consegui ver mais claramente o coraçãozinho a bater, porém não ouvi e não se via linha cardíaca. Fiquei um pouco apreensiva e fiz novamente muitas perguntas ao médico, sobre se isso seria normal, o qual me respondeu que sim para não ficar ansiosa e mais uma vez que tínhamos que esperar.

Claro que guardar este segredo só para nós é impossível, e decidimos contar apenas aos nossos pais e irmãos e também a um grupo de amigos muito restrito e mesmo muito próximo. Estava tão feliz, apesar dos enjoos, das dores nas mamas, e da barriga inchada que já não cabia nas calças. Impossível não criar expectativas e não sonhar e planear a nossa vida a partir daquele momento. É aquela sensação de que o maior milagre desta vida aconteceu e a partir do momento que temos o positivo estabelecem-se de imediato laços muito fortes.

Até que passado uns 10 dias, a um domingo à noite num momento em que vou à casa de banho, tive uma perda de sangue. Como tenho uma amiga que já tinha passado por uma perda gestacional, liguei-lhe de imediato a pedir opinião do que havia de fazer. Decidimos ir ao hospital e ela aconselhou-me a isso mesmo.

Passou-me muita coisa pela cabeça, mas nunca pensei ouvir o que ouvi: “lamento, mas não há batimentos cardíacos”…. o meu mundo desabou!!

Estava ali sozinha com a médica e enfermeira, o meu marido não pôde entrar. Fiquei apavorada, atordoada, deixei de ouvir por uns segundos, deixei de ver… Apenas consegui dizer: “mas não há nada a fazer!?!” e desatei a chorar sem conseguir parar.

Vai ser sempre a minha primeira gravidez, o meu primeiro bebé, independentemente das semanas que tinha.

Revivendo agora esse momento, sei que foi uma pergunta sem nexo, mas foi o que me saiu porque eu não queria acreditar no que estava a ouvir.
Quando me consegui acalmar, com o apoio da médica e da enfermeira, percebi que tinha sofrido um aborto espontâneo retido.

Esperei uma semana para ver se o meu corpo expulsava naturalmente, mas não aconteceu. Tive de fazer em casa o protocolo com medicação, e aí sim, foi o pior dia da minha vida em 30 anos!!!

Que sofrimento terrível, que dores, que agonia. Sentia-me vazia… Impotente.

Tive o meu marido sempre do meu lado, e graças a ele também tenho tido forças para superar esta perda. Apesar dele viver esta dor de outra forma, eu sei que ele também a tem sofrido, porque esta perda é a dois.

13 Novembro 2020 vai ficar gravado para sempre na minha memória e no meu coração. O meu feijãozinho, como a minha sogra dizia, a minha sementinha, como a minha mãe lhe chamava, e todas as dicas que a minha mana me dava, e o meu bebé como eu já imaginava…

Não sei se era rapaz se era rapariga, mas isso para nós também não era o principal, porque para nós tanto fazia, apenas queríamos que viesse com saúde e perfeitinho. 

Numa caixinha guardo as recordações que me levam e levarão sempre a esta gravidez.

Vai ser sempre a minha primeira gravidez, o meu primeiro bebé, independentemente das semanas que tinha.

Digam o que disserem, pois ouvi muitas coisas como “ah isso ainda não era nada”…

Era era, era tudo ❤

Aos poucos a dor vai ficando menor, não se apaga nunca, mas vai-se transformando em força, fé e esperança para o próximo que há-de vir.

É preciso muita coragem, porque o medo, esse é impossível de apagar, mas o nosso amor é mais forte e acreditamos que vai vencer todos os receios.
Apesar de saber que estas situações acontecem e de ter amigas muito próximas que passaram pelo mesmo, quando estava grávida eu só queria acreditar que ia correr tudo bem, tentei andar o mais calma possível, desfrutar ao máximo das coisas boas que temos diariamente, aproveitar os momentos em família e todas as pessoas que sabiam davam-me muita força e diziam que não podia pensar negativo.

São sem dúvida a minha força para conseguir ultrapassar esta dor, os meus pais, sogros, mana, amigos e amigas (que sabem bem quem são) e o meu marido que faz-me pensar positivo e dá-me muita coragem diariamente.

Também algumas pessoas que partilharam comigo as suas histórias e me deram muita inspiração e coragem para seguir em frente e não me deixar avassalar pela dor. O que mais me custou nos dias mais tristes e mais duros, foi querer ler informação sobre perda gestacional e não encontrar nada de especial, queria um livro, algo fidedigno e não encontrei. Depois em pesquisas no instagram e facebook lá fui encontrando alguns grupos privados e algumas páginas onde falavam destas situações.

“A esperança começa onde acaba a certeza”

No meu caso, eu tinha necessidade de falar sobre o que me aconteceu, de partilhar a minha história com outras pessoas e perceber se havia alguém que já tivesse passado pelo mesmo. Passei uma semana em casa, fiz imensas pesquisas sobre o assunto, falei com as minhas amigas e família sobre tudo o que estava a sentir, mas depois tive de começar a distrai-me com outras coisas e o que me foi ajudando foi fazer caminhadas, ouvir música, fazer exercício, estar sozinha na natureza e interiorizar o que me tinha acontecido, foi muitas vezes chorar sozinha durante as caminhadas, às vezes até falar sozinha internamente.

Nesta fase encontrava-me em teletrabalho, mas depois quando regressei ao trabalho presencial, lembro-me de quando voltava a casa chorava a conduzir e a ouvir alguma música que passasse no rádio, porque era nesses momentos que eu me ia mais abaixo.

O que me dá forças é saber que fiquei bem de saúde, que estou bem de saúde, que tenho trabalho, que tenho uma casa, que tenho uma família unida e feliz, que tenho projetos e sonhos a concretizar e é nisso que eu me agarro todos os dias. São as coisas mais simples que me dão alegria.

O nosso ano 2020 acabou com a frase: “a esperança começa onde acaba a certeza”. De facto há coisas nesta vida que nós não controlamos, há acontecimentos que não percebemos o porquê de acontecerem. Mas eu acredito que mais cedo ou mais tarde havemos de ter a nossa recompensa. ❤


Desejo muita força, fé, união a todas as mulheres que tenham passado pelo mesmo ou que estejam a passar! Passo a passo vamos conseguir! “tu és a estrela que guia o meu coração”.

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A minha Maria

Dei à luz no dia 16/6 as 8h58, com 1,640 e 47 cm, uma menina verdadeiramente lindíssima!! 🥰

A nossa menina nasceu muito antes do tempo, prematura (31 semanas), mas quis o Destino que a sua vida fosse curta mas cheia de amor e carinho nosso.

Nasceu a precisar de ajuda para respirar e derivado a uma evolução de estado muito grave, surgiram muitas complicações a nível cerebral tendo futuramente, se sobrevivesse, ficado com muitas sequelas.

Como estava somente ligada à Vida pelo suporte básico de vida, em conjunto equipa médica e nós pais, decidirmos o que viria a ser uma das maiores decisões da vida de um Pai e de uma Mãe…

Com todo o carinho, todo o amor, a nossa menina foi respirando sem a ajuda e deu o último suspiro, no colinho da mãe dia 19, pelas 18h07…

Durante todo este dia fizemos tudo o que podíamos fazer com um filho, cuidámos, tratámos da sua higiene, demos muitos carinhos, beijinhos, cantámos, embalamo-la,contamos histórias e ela sempre em paz…

Será lembrada com muito carinho e sobretudo muita luz. O último suspiro vai ser lembrado como sendo nos meus braços, mas porque foi, com a maior intimidade, conforto e amor que uma mãe pode dar.
A nossa história sempre foi e será de Amor e sempre será de um Amor Infinito visto por um Olhar de Esperança, que não vivido na sua Plenitude, foi vivido com muita Fé, Carinho e Amor mútuos.

Nunca percam a Esperança e a Fé. Sabemos que os dias vão ficar menos luminosos, a dor é grande e os sentimentos de um luto, mas como sempre, um dia de cada vez.

Os nossos Bebés-Anjo não se medem aos palmos, mas na Grandiosidade do coração e do Amor que nos envolve. São feitos de uma Imensa Luz, quanta o tamanho do Céu, e essa é a Luz que continuará a brilhar nos corações dos Papás-Anjo.As Mamãs e os Papás-Anjo não estão sozinhos, “Estamos juntos” ❤

Filipa

@filipa_silva_lopes

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Em maio de 2020, tivemos a melhor notícia que podíamos ter tido e que esperávamos há 2 anos, estava grávida do nosso primeiro filho! Foi um choque porque parte de mim já não acreditava que seria possível, mas foi o choque mais bonito da minha vida. Sempre quisemos ter um menino, e logo na primeira ecografia pude dar essa notícia ao meu marido, que por causa da pandemia esperava ansiosamente no carro, foi uma alegria!!

Foram nove meses de magia, apesar de não podermos partilhar como gostaríamos por causa da pandemia, mas ver a minha barriga a crescer foi lindo, começar a sentir o nosso menino dentro de mim foi e será sempre das melhores sensações do mundo. Decidimos que o nosso menino se iria chamar Rafael.

Foi uma gravidez saudável, todas as análises e ecografias dentro dos valores normais e o Rafael a crescer cheio de saúde. Em nenhum momento da gravidez me senti nervosa,  como muitas meninas partilhavam comigo, estive sempre tranquila e a espera do meu bebé.

Às 38 semanas e meia, mais precisamente na noite de dia 13 de Janeiro de 2021, tinha consulta no dia seguinte, sinto que estava a perder líquido…tinha uma rutura pequena na bolsa. Estive sempre calma e a ser acompanhada pelo meu médico que me transmitiu sempre tranquilidade, tinha que esperar o início do trabalho de parto. O bebé estava bem, estava tudo bem.


Fizemos o teste do covid no dia seguinte de manhã,  e assim que o resultado veio, negativo, fomos para a maternidade.

Uma equipa espetacular! Estávamos quase a conhecer o nosso Rafael.
Estive sempre bem, até que, tendo em conta as horas que já tinham passado, decidimos iniciar medicação para provocar as contrações. Na noite de 14 para 15 as contrações começaram em grande, são realmente dores muito fortes e, por já não aguentar e ter que descansar decidi levar a primeira dose de epidural. Conseguimos dormir, o Rafael sempre bem (sempre ligada ao CTG). 

No dia 15 de manhã comecei a fazer dilatação de uma forma rápida e às 14h já tinha os 10cm, já estava a iniciar a fase de expulsão, muitas dores, insuportáveis, pedi mais uma dose de epidural e fomos para o bloco de partos.

Com a ajuda do médico porque não sentia as contrações, começámos a fazer força. Ele dizia que eu estava a portar me bem, eu estava a fazer toda a força que podia, queria ver o meu bebé o quanto antes. Comecei a ficar muito cansada, e o médico aconselhou a usar ventosas para me ajudar, e assim foi.

Comecei a sentir que a força que eu fazia era inútil e que a ventosa não estava a resultar, nunca mais via o meu bebé..! Ate que 40m depois senti um alívio enorme, uma sensação inexplicável, o Rafael tinha nascido. Senti uma coisa quente com um cheiro maravilhoso, meio doce em cima da minha barriga, eu tinha os olhos fechados, abri, era ele em cima da minha barriga.

Imediatamente percebi que algo não estava bem, as enfermeiras tiraram-no e começaram a limpá-lo, não percebi o que faziam porque elas estavam todas à volta dele. Estava cansada, mas ao mesmo tempo queria que fizessem no contacto pele a pele e nunca mais, foram segundos, mas algo se passava.

Elas encostaram  a cabecinha do meu menino a mim e disseram “mãe da um beijinho ao Rafael para nós podermos tratar dele,  o pai pode vir connosco”.

O meu marido deu-me um beijo e foi, eu comecei a chorar porque não estava a perceber o que estava a acontecer. 

O médico aguardou que a placenta saísse, ajudou um pouco, deu-me poucos pontos, tinha feito uma laceração de 1° grau, fui para o quarto na maca mas, no caminho, a enfermeira perguntou se eu queria ver o meu menino. Eu disse que sim!

Passei por uma incubadora e lá estava ele, quietinho com muito cabelo preto, e o meu marido ao lado.

Estamos juntos a tentar viver com o que aconteceu, aos poucos vamos conseguir.

Fui para o quarto e passado duas horas deixaram-me ir vê-lo, fui pelo meu pé.

Quando cheguei lá o meu coração estava do tamanho de um grão de areia, apertado. E ainda ficou mais, o Rafael estava com os olhos semi abertos, a emitir som como que se estivesse a gemer, a sofrer. Pus os braços dentro da incubadora e toquei-lhe nos bracinhos, nas bochechas…era pouco, eu queria mais, e aquele som eram facadas no meu peito.

A enfermeira e a médica disseram que ele estava com os sinais vitais bem, e que teríamos que aguardar para ver o que ia acontecer, já tinham mudado a fralda o que era bom, tinha feito as necessidades e isso era bom sinal. Mas a mim não me tiravam da ideia que estava tudo mal…

Fomos para o quarto, eu e o meu marido. Estava de rastos, sentia que o meu mundo tinha desabado.

O meu marido foi lá vê-lo mais vezes enquanto eu tentava descansar. Eu queria ir, mas ao mesmo tempo custava-me tanto vê-lo assim que não tinha coragem.

A médica veio ao quarto explicar o que tinha acontecido, tinha havido uma hemorragia cerebral e as próximas horas eram importantes para perceber quais as sequelas.

Eu estava completamente vazia e sem reação, o meu marido estava confiante, dizia me que ele já não gemia, que já se mexia como um bebé normal. 

Inevitavelmente, criei uma esperança de que ele tivesse razão. 
As 3h da manhã a médica foi lá ao quarto pedir que o pai fosse ver o Rafael, eu acho que meu coração parou naquele momento. A hemorragia não parava…

Quando o meu marido veio eu percebi que algo estava muito mal, fui vê-lo, estava novamente quietinho, com os olhos fechados. Não consegui tocar-lhe, não fui capaz, fiquei lá pouco mais de 5m, não consegui estar ali sem poder dar colo, dar beijos e amor ao meu menino. É certo que não pedi para o fazer, não tinha palavras, não conseguia pensar, nada.

Fomos para o quarto, e eu deitei-me. E fiquei à espera que alguém entrasse no quarto a qualquer altura…

As 6h da manhã entrou a médica e deu-nos a pior notícia do mundo, a que ninguém merece, a que dói mais, aquela que não é suposto. O nosso bebé tinha partido. 
Foram minutos, horas, dias de uma dor inexplicável. Tudo parou.. Uma das vezes que saímos do quarto para eu ir fumar, as auxiliares tiraram o berço do quarto. Estava lá o ovo, a mala..

Sair da maternidade sem o nosso bebé é horrível.

Já passou quase um mês e meio. Dói muito, custa muito! Estamos juntos a tentar viver com o que aconteceu, aos poucos vamos conseguir. Nunca vai deixar de doer, nunca me vou esquecer. Mas tenho esperança que um dia consiga lembrar-me do meu menino com um sorriso.

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Olá, eu sou a M.

Deveria ter nascido algures pelo solstício de verão de 2017 mas acabei por “nascer” muito antes, em dezembro de 2016.

E porque é que sou eu que vos trago este testemunho?

Porque a minha mãe não quer que eu desapareça.

Porque eu, mesmo que por pouco tempo, existi. Era um corpo muito pequenino, como se quer no primeiro trimestre de uma gravidez, mas era também todo um mundo de sonhos e planos, um amor muito grande que não cabia no coração.

Há pormenores que não vos poderei contar para proteger o meu pai… mas toda a minha curta vida foi uma confusão. Na alegria de saber que eu existia, os meus pais contaram a boa nova a pessoas da sua extrema confiança que, supostamente, iriam manter com os meus pais o segredo até que fosse “seguro”. Nada mais errado. Duas pessoas depressa se tornaram muitas mais, que rapidamente encheram de ansiedade a minha mãe, por entre telefonemas e presentes, por entre dicas e avisos de dedo em riste.

Por infortúnio, a nossa médica não estava disponível nessa altura e fomos vistos por um ser sem qualquer réstia de empatia desde o primeiro momento. Mas, da segunda vez que nos vimos, talvez tenha doído mais a indiferença daquele ser do que o desabamento que veio sobre nós: “Então, não se admire! Isto é perfeitamente normal!”. Foi este o único comentário à incredulidade da minha mãe perante outro seco “Não encontro batimento, isto não deve dar em nada”. “Isto”.

O diagnóstico foi confirmado por outros médicos e o parto foi induzido. Duas vezes. Muitos dias em que a minha mãe teve de ir trabalhar como se nada fosse enquanto esperava o triste fim de um capítulo.

Acabei por ter de ser arrancada do corpo da minha mãe por ela mesma; eu era pequena mas teimava em ficar onde estava. O meu destino? Talvez seja melhor que não vos conte. Ninguém quer saber de um bebé no primeiro trimestre. É um “isto”.

A minha mãe sabia tudo o que há para saber sobre o assunto, do ponto de vista de um leigo. Sabia não ter culpa, mas sente-a ainda. Sabia ser algo comum, mas sente ainda que a sua dor é exclusiva e incompreendida.

E, mesmo por entre os escombros de tal desabamento, não faltaram vozes que gritavam barbaridades como “Daqui a pouco fazes outro”, “Isso passa” ou “Assim foi melhor”. Ninguém quer saber de um bebé no primeiro trimestre. E por isso ninguém reconhece que o luto é necessário.

E perguntam vocês no meio disto tudo “Mas como é que sabiam que era uma menina?”. Não sabíamos, nem interessa. A minha mãe nunca teve preferência e hoje está muito feliz com o meu irmão, mas era o que lhe dizia o instinto. Para ela, a memória de mim tinha de ter um nome, e continua a ter. Porque eu não tenho uma lápide mas tenho uma história. Sou a M.

Hoje tenho um irmão e tomo conta dele aqui ao longe. Sei que ele terá um futuro melhor do que o meu e está tudo bem, porque eu ajudei a prepará-lo- Mas hoje a minha mãe sofre ainda. Dói-lhe a minha ausência, mas dói ainda mais que a sua dor seja indiferente a quem deveria estar presente. Dói-lhe que ninguém queira saber dos bebés que não nasceram. Dói-lhe que não seja permitido o luto a tantas mães por aí.

A todas as mães que sofrem em silêncio: saibam que não estão sozinhas. Saibam que merecem sentir aquilo que acharem que faz sentido para vocês. À minha mãe não lhe foi permitido, mas ela espera conseguir que outras pessoas tenham uma experiência melhor. E espera um dia conseguir que a dor passe.

Porque a única certeza que temos no meio disto tudo é que uma perda como esta é para sempre. Mesmo que em corpo eu fosse muito pequena. Mesmo que

Eu tenha sido apenas um sonho enorme. Eu perdi a minha mãe como ela me perdeu a mim, mas ambas fazemos ainda parte uma da outra e queremos criar memórias bonitas. E não estamos sozinhas nesta luta, somos tantas…

Que nos encontremos todos um dia.

M.