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Infertilidade Testemunhos Testemunhos Perda Precoce

Estamos a tentar engravidar há 7 anos. Um ano depois de tentarmos naturalmente, sem sucesso, começamos a ser acompanhados em PMA no CMIN, e assim foi durante 5 anos.

O diagnóstico era apenas que eu não ovulava. Começamos por coito programado, passámos para Inseminação e duas FIV sem sucesso. Os médicos apenas encolhiam os ombros, diziam que não percebiam o que se passava e à minha pergunta sobre se existia um exame para explicar as falhas de implantação, foi-me dito que não, que a explicação era que os meus óvulos não tinham qualidade.

Entretanto emigramos, mas o desejo de ter filhos não esmoreceu e, no meio de tudo, tive a sorte de encontrar uma equipa médica fantástica que fez todos os exames possíveis para detetar o motivo. E assim foi, após uma esteroscopia, foi-me detetada uma endometrite crónica que, segundo o que investiguei, poderia explicar as falhas de implantação.

Após tratamento e resolução, fiz mais uma FIV e o primeiro positivo chegou no dia 16 de Novembro de 2022. Infelizmente na primeira ecografia começaram os pesadelos pois não conseguiam ver os batimentos cardíacos. No entanto, como o feto era pequeno, poderia ser normal. Disseram para regressar ao fim de uma semana e nessa segunda eco as desconfianças confirmaram-se e o nosso mundo despenhou-se. Fui do céu ao inferno no espaço de um mês. Como foi aborto retido tive que tomar medicação para o sangramento ocorrer.

Foi um Natal muito triste pois já me tinha imaginado a contar a minha avó  e à minha enteada, que tanto quer um irmãozinho. Teria sido triste em qualquer altura do ano, mas nesta altura tem um peso ainda maior.

Neste momento, a minha cabeça está recuperada, mas quando estou sozinha só me apetece chorar, parece que o meu coração vai rebentar. 

Por um lado, fiquei feliz por ter tido uma explicação para a minha infertilidade, mas este acontecimento cravou uma faca no meu coração.

Não vou parar de tentar mas o medo só aumentou e às vezes chego a pensar se será saudável para mim.

O que me dá alento é ter um marido que me apoia, assim como os meus pais e uma enteada que me deu, inconscientemente, força para suportar todos estes anos e que é uma filha que tenho no coração.

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Testemunhos Testemunhos Perda Precoce

Hospital muito confuso, em contentores. Tiro senha para ginecologia e obstetrícia e fui para uma grande sala de espera. Chamam-me e vou para lá com pressa, por não saber onde era e com medo de chegar atrasada.

Ainda tive de aguardar algum tempo para entrar, mas entretanto sou chamada à enfermagem e faço todos os procedimentos, e informam-me dos riscos por não ser imune à toxoplasmose. Volto para a pequena sala de espera e poucos minutos depois sou chamada para o gabinete da médica. 

Tirei a parte inferior da roupa e começamos a ecografia, ainda não era a de 1° trimestre, mas sim para ver se estava tudo bem. 

Mal vi o bebé, o primeiro pensamento foi logo de orgulho “o meu bebé cresceu tanto!”. A última vez que o tinha visto tinha sido às 8 semanas e no dia 19 de Outubro, faria as 10 semanas.

No entanto, reparei que a médica ficou muito calada e, mal me apercebi disso, ouço das piores coisas que já ouvi na vida “lamento, mas tenho más notícias para si… O bebé está morto, não tem batimentos cardíacos”. O tempo parou durante uns segundos e fui sentindo um aperto cada vez maior, como se todo o meu mundo estivesse a desabar.. 

A médica chamou uma colega para confirmar o diagnóstico e não teve dúvidas. Enquanto a médica me explica as partes do corpo do bebé e onde o coração deveria estar a bater, sinto as lágrimas a chegar aos meus olhos, mas ao mesmo tempo tento segura-las. Tinha de ser forte ali, quando fosse embora choraria tudo o que teria de chorar. 

Mas, infelizmente, ainda faltava um bom bocado para ir embora… Depois da ecografia, sentei-me com a médica, e explicou-me quais seriam os procedimentos seguintes, que teria de ser internada para que o aborto fosse completo (fiz um aborto retido).

lamento, mas tenho más notícias para si…

Depois de tudo explicado, começou logo o primeiro problema, a médica não conseguia passar a baixa médica, por não ter todos os dados actualizados no centro de saúde, obrigando-me a ter de ir lá para ter uma consulta e atualizar o necessário, para poder fazer o meu luto e ter o meu descanso durante 28 dias. Para além disso, para ser admitida na Obstetrícia no dia seguinte teria ainda de fazer um teste COVID.

Por último, tinha ainda de tomar um comprimido já, para preparar para o dia seguinte, mas como já não comia nada no espaço de 2h, mandaram-me ir comer qualquer coisa e regressar para tomar o comprimido. Assim o fiz. Fui comer umas bolachas de máquina vending mais próxima e voltei para a sala de espera da obstetrícia, rodeada de grávidas e eu a pensar no meu pequenino, que não conseguiu sobreviver, enquanto as mulheres ao meu lado estariam perto de ter um filho/a nos braços. Inveja e tristeza, foi o que senti nesses minutos.

Pouco tempo depois (que a mim me pareceu muito), uma auxiliar vem com o tal comprimido e depois de o ter tomado diz que tenho de fazer o teste COVID, num outro edifício (e eu sem conhecer o espaço visto ser a minha primeira vez lá). Não sei se foi a minha profunda tristeza ou a minha cara de ignorante enquanto ela me explicava o caminho, mas aí uma outra auxiliar disse “eu levo-a lá”. Como estava sozinha, perguntou-me várias vezes se tinha alguém para me levar embora, se precisava de alguma coisa e tentou animar-me durante o caminho todo, mas sem sucesso. Eu só lhe dizia “eu só quero ir embora”. 

Quando chegamos ao local, ela fez questão em aguardar por mim, caso eu precisasse dela. 

O médico que me fez o teste foi pouco afável, mas profissional. Depois de terminado, lá estava a auxiliar à minha espera e perguntou-me se precisava de alguma coisa enquanto voltávamos para o local inicial. Disse -lhe que a médica não conseguia passar a baixa a partir do próprio dia por não ter os dados, mas que em princípio não precisava de uma justificação de falta ao trabalho porque no dia seguinte ma passaria no internamento. A auxiliar disse-me que poderia precisar e pediu me para aguardar no exterior e que iria pedir uma justificação num instante para que eu pudesse ir embora. Foi extremamente rápida e em pouco tempo já estava a caminho do meu carro, para poder ligar ao meu namorado e a minha mãe e dar-lhes a notícia. Não sei o nome dela, mas ela foi a melhor profissional que me atendeu no hospital da cidade, sítio que nunca irei querer voltar para o resto da minha vida.

Finalmente saí das instalações e liguei primeiro a minha mãe, onde só conseguia dizer “o bebé está morto! Morreu!” no meio de tanto choro e soluço. Pouco mais consegui dizer e liguei depois ao meu namorado. Pouco mais lhe consegui dizer também, mas ele apenas me disse, muito prontamente: “onde estás? Fica aí, vou ter contigo”.

Enquanto aguardava por ele no carro, só pensei em me conter durante uns minutos, só para poder informar no trabalho que já não iria trabalhar no próximo mês, a partir do dia em questão e o motivo. Liguei a uma das minhas supervisoras, disse lhe que iria ser extremamente breve por não saber se conseguia aguentar mais tempo ao telefone e expliquei lhe tudo muito resumido, mas com tudo o que precisava de saber. Garanti-lhe que não precisava que alguém fosse ter comigo, o meu namorado já estava a caminho.

De casa até ao parque de estacionamento onde estava, ainda são uns 10/15 minutos, mas acho que ele fez isso em metade do tempo, porque pouco depois de ter acabado a chamada ele apareceu. Só me lembro de chorar abraçada a ele para libertar algum do peso que tinha em cima.

Ele, sendo a melhor pessoa do mundo para mim, só me dizia, “vamos conseguir. Nós somos fortes. Vamos ter lindos filhos. Vamos ultrapassar isto.” Nunca duvidei disso.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez Testemunhos Perda Tardia

Há muito que quero partilhar convosco a minha “história”. mas a verdade é que ainda não tinha conseguido reunir as forças suficientes e, por outro lado, não queria que fosse apenas um “despejar da minha revolta”. Queria que, de alguma forma passasse uma imagem de esperança a todas vocês.

Provavelmente vou chocar algumas mamãs desse lado mas…terei de ser sincera convosco…Ser mãe nunca foi (durante quase toda a minha vida) um sonho! A minha história de vida (e que não vale a pena falar agora dela) não me permitia fazer do ser mãe um sonho.

Levei muitos anos a “mentalizar-me” porque, no fundo, também não me via sem filhos… Aliás, há mais de 10 anos que sabia que se conseguisse engravidar, iria ser um menino e que se iria chamar Miguel. Não me perguntem onde fui buscar esta certeza mas eu sabia, não sei como…

Finalmente ganhei coragem e, passado 1 ano e 2 meses de tentativas e com uns simples sintomas que poderia indicar uma gravidez, lá fiz o único teste de gravidez da minha vida e que mostrou um “GRÁVIDA 3+”. Foi um misto de felicidade, de preocupação, de medo mas… acima de tudo um “consegui”, um “fui capaz”!

Seguiram-se os passos normais, as consultas normais, as ecografias…fiz tudo como “manda a lei”, tanto no serviço nacional de saúde como nos intervalos das consultas no público, com a minha obstetra.

Às 6 semanas tive um “sustozinho” de uma perda de sangue e fui às urgências mas fiz uma medicação e tudo evoluiu de forma positiva. Também foi nesta consulta que ouvi, pela 1ª vez, e sem estar a contar com isso, o coração do bebé. Foi lindo!

Por volta das 15 semanas tive a confirmação que iria ser um menino, o meu Miguel.

Andando com a história para a frente e a 2 dias de fazer a ecografia do 2 trimestre fui às urgências pois, pela 3ª ou 4ª vez durante a gravidez, tinha umas dores de cabeça muito fortes.

Ali, naquela sala pequena, o mundo desabou! A partir daí, dessas palavras, foi como se entrásse em “piloto automático”, como se ficasse anestesiada, como se deixasse de estar lá (mas também não vos sei dizer onde andaria)…

Só fui porque uma amiga minha enfermeira e o meu namorado me pediram quase por favor só para ir ver. Para mim não passavam das minhas enxaquecas e que teria de as aguentar, uma vez que a medicação que faço em S.O.S para elas, não deve ser feita durante a gravidez.

Sempre ouvi dizer que na gravidez não era possível ter enxaquecas mas, a verdade, é que não estava a conseguir concordar com essa afirmação.

Entrei nas urgências dia 01 de Agosto (a 1 dia de fazer 21 semanas) a pensar que me iriam dar uma medicação qualquer na veia e que iria para casa passadas uma ou duas horas…só quenão!

Realmente fizeram-me essa medicação, o que me fez passar a dor de cabeça mas a tensão estava um pouco elevada e estava a perder proteína na urina. Teria de ficar para o dia seguinte. Esse ter de ficar manteve-se até dia 04 de agosto, altura em que fui transferida para a maternidade Bissaya Barreto em Coimbra.

Só posso dizer que foram dias de muito medo, por não saber o que se passava comigo, nem com o meu bebé. Muito medo de pensar sequer que o poderia vir a perder. Era tão pequenino, tão calminho, tão bem comportado, não me fez um único enjoo…se não fosse o crescer da barriga, nem parecia grávida. Como é que agora conseguiria imaginar não o poder fazer viver?!

Estive sempre rodeada de profissionais humanos, tanto médicos, como enfermeiros, como assistentes operacionais, devo-lhes muito mas…a minha saúde continuava a deteriorar-se. Numa semana inchei de tal maneira que aumentei 9kg de peso. A proteína que perdia na urina era cada vez mais, o fígado estava mal, os rins estavam mal, a hemoglobina muito baixa, as plaquetas muito baixas e a tensão sempre alta, principalmente a baixa…mas, sentia-me bem, acreditam?! Embora, cada vez mais sem esperança num final que considerasse feliz…

Dia 08 de Agosto fui chamada a uma sala, juntamente com o meu namorado, onde estava o diretor do serviço, o diretor do hospital, a equipa de enfermeiros desse turno e foi-nos transmitido que o bebé era pequeno para o que seria de esperar, que a minha placenta não estava a alimentá-lo convenientemente, que os meus órgãos estavam a entrar em falência e que teriam de interromper a gravidez.

Ali, naquela sala pequena, o mundo desabou! A partir daí, dessas palavras, foi como se entrásse em “piloto automático”, como se ficasse anestesiada, como se deixasse de estar lá (mas também não vos sei dizer onde andaria)… Era uma decisão que só eu e o meu namorado poderíamos tomar mas…não havia mais nenhuma! Por isso, e até hoje, não percebemos o porquê de ter de fazer um pedido à comissão de ética do hospital a pedir essa interrupção.

Percebo que será uma maneira dos profissionais se salvaguardarem, mas…será que eles saberão o que significa para uma mãe, para uns pais fazer um pedido para que matem o filho?!

Ainda hoje, passados 4 meses, se me pedem para assinar qualquer documento, eu viajo instantaneamente para aquela sala, para o assinar daquela folha branca! A única coisa que de alguma forma me alivia um pouco a dor, é que os médicos sempre disseram que se eu ficasse em risco de vida, eles iriam intervir mesmo sem o parecer dessa comissão de ética e…foi mesmo isso que aconteceu!

Às 22 semanas e 1 dia (dia 10 de Agosto) nasceu o meu Miguel, de parto normal e sem direito a epidural, uma vez que o valor das minhas plaquetas não me permitiram levar…

Tive dores, induzir o parto foi horrível, as contrações não são fáceis e o expulsar a placenta também não foi (tive de ir ao bloco para conseguirem) mas o que mais me doía e dói, até hoje, é a alma! Tudo, todos os sonhos acabaram ali e tenho muitas saudades das coisas que nem nunca vivi, não sei se me conseguem entender…

Escolhi (e uma vez que moramos a muitos quilómetros da maternidade e o meu companheiro estava a acabar de chegar a casa depois de ter estado comigo) passar pelo parto sem a presença dele, escolhi poupá-lo a isso. Não o deveria ter feito! O pai precisa estar connosco para conseguir perceber melhor por tudo o que passámos. Se me posso arrepender de alguma coisa, é do ter poupado a isso sem sequer lhe perguntar qual era a decisão dele.

Também escolhi não conhecer o meu Miguel…ainda não sei se fiz bem já que em quase todos os vossos testemunhos vocês escolhem ver os vossos bebés mas…a verdade é que não tive coragem. Foi o que me fez mais sentido na altura, sabendo que só teria essa oportunidade e que me poderia arrepender mais tarde…(e ainda não me arrependi).

Passado todo este tempo ainda não temos resultados dos exames feitos ao bebé e placenta, nem de análises super específicas feitas a mim (e só terei nova consulta em Fevereiro!) que me expliquem o porquê, precisava disso para me aliviar, de alguma forma…o diagnóstico foi que tive pré-eclâmpsia com síndrome de HELLP mas não percebem o porquê. Até porque, ao que parece, a pré-eclâmpsia está descrita nos manuais que pode acontecer a partir das 20 semanas mas nunca acontece, é só mais no final da gravidez e eu…comecei antes das 19 semanas, até! Todos são de opinião que tive algo muito grave mas…não o conseguem explicar! Provavelmente terei alguma doença autoimune mas não sabem com certeza e muito menos qual! Ainda pensaram que poderia ser hipertensa ou diabética antes da gravidez e não saber mas…isso já está posto de parte.

Será que alguma vez conseguirão descobrir? Não sei. Será que poderei voltar a tentar?

Não sei. Será que ainda está guardado algo bom para mim? Também não sei, mas gosto de pensar (e agora consigo finalmente fazê-lo) que foi o melhor para mim mas, e acima de tudo, para o meu Miguel. Ele está bem e eu também terei de ficar para ele estar feliz, acredito nisso!

Se é fácil? Não! É a pior coisa do mundo! Nenhuma mãe devia passar por isto mas, com muita força de vontade e ajuda psicológica, posso dizer-vos que é possível ter esperança num futuro mais bonito para nós.

Mesmo com frases do tipo “sabes, também já não és nova”- fiz agora 40 anos…; “foi melhor agora que mais para a frente”- às 22 semanas +1dia dói menos?! É perder um filho; “Não podes estar assim”- quem disse? Eu estou como quero e consigo!; “Não chores!” – porquê? Tenho mais é de chorar, deitar tudo cá para fora!; “Sabes? É o teu corpo que não dá!”-esta foi a mais dura porque até agora tudo indica que foi mesmo o meu corpo que foi fraco, mas precisava que me dissessem isso? Ninguém precisa!

Nós somos mais fortes, sabemos que, no fundo, as pessoas não sabem o que dizer e, quando dizem, só dizem disparates! Coitadas é delas!

Estamos numa época do ano que julgo ser ainda mais desafiante para todas nós (e o meu Miguel tinha data prevista de nascimento para dia 11 deste mês de Dezembro e seria o seu 1º Natal) mas nós somos fortes, somos guerreiras e vamos conseguir lidar com tudo isto com mais leveza, já que esquecer nunca o vamos conseguir (e acho que nem queremos).

Desejo que também vos seja possível acreditar e dou um grande beijinho no vosso coração. Estou aqui e disponível para falar convosco, em particular, se sentirem que vos posso ajudar com alguma coisa.

Mamã da Estrelinha Miguel

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Testemunhos Testemunhos Perda Tardia

4 de Abril de 2018, 38 semanas, 4 dias. O dia estava cinzento e era dia de um dos últimos CTG’s. O pai pressentia e só dizia “leva a tua mala e a do bebé”, e eu sempre dizia que não era o dia.

Facto é, que, nos últimos dias, eu já não o sentia com a mesma força e movimentos, mas normalizei por estar mesmo no fim e ter pouco espaço.
Inicio do CTG, depois de ter contado que não sentia tantos movimentos, deram-me prioridade e logo fomos atendidos. Após uns minutos, percebi na cara de todos e na quantidade de médicos e enfermeiros que vierem ver, que algo não estava bem. Deram-me um chupa e as expressões mantinham: os batimentos cardíacos estavam realmente muito fracos, tive medo, muito medo. Fiquei internada para vigilância e, se os batimentos estabilizassem, iríamos iniciar o trabalho de parto. Era naquele dia que ele ia nascer: o pai tinha razão.

Recordo-me de perguntar o que ia acontecer a seguir. Responderam que primeiro vigilância e logo após indução. Não queria nada e pedi que não me fizessem cesariana, não por medo, mas porque queria muito senti-lo nascer (mais tarde culpei-me muito, mas hoje em dia, está resolvido dentro de mim).

Ficamos em vigia até ao momento que paro de ouvir o CTG, chamo para me ajudarem. Vem um enfermeiro e encontra batimentos. 5 minutos depois e acontece igual…vem mais um enfermeiro e mais um e mais um, até que o pesadelo começa; não conseguiam encontrar batimentos, sem ninguém perceber muito bem o que se estava a passar pois a gravidez foi sempre super normal e tranquila e vigiada.

Tinha a equipa médica toda à minha volta, sentia nas caras deles e na expressão corporal que não estava bem. Ouvi para prepararem cesariana, naquele momento eu só queria que tudo acabasse bem e com ele nos meus braços. Vamos ao ecógrafo e ouvi alguém dizer “nada de batimentos”, o meu mundo desabou, parecia uma filme de terror. Todos corriam de um lado pra outro e vamos para uma cesariana de urgência. Não havia tempo para mais nada. Eu só tinha que me deixar ser anestesiada, e o que eu resisti porque me faltava o ar…até que me disseram ao ouvido “pensa em coisas bonitas”. Consegui e deixei-me ir… a partir daqui eu não sei de absolutamente mais nada.

demorou algum tempo a sair do fundo, mas o caminho faz se caminhando… 

Acordo sozinha, numa sala fria e cinzenta, olho em volta e nada, sozinha… Ao longe vejo chegar a mesma pessoa que me disse “pensa em coisas bonitas” com os olhos cheios de lágrimas. Eu só queria ouvir “está tudo bem”, mas não estava. Em loop pergunto “o meu menino?” e as lágrimas caem-lhe no rosto, abana a cabeça e percebi o que tinha acontecido (ela não podia dar-me aquela informação, mas também não podia deixar sem saber, era desumano). Naquele momento deixei-me ir e entreguei-me à dor e “bebedeira” que a anestesia me causou… horas no recobro e uma equipa brutal e espetacular que cuidou de mim até me “arranjarem” uma cama sem ser na maternidade. Felizmente tiveram esse cuidado comigo.  

Deixaram-me receber visitas, e eis quando chegam as médicas que queriam a todo o custo explicar me o que aconteceu. Eu naquele momento não queria saber de nada, pois estava demasiado fraca. Parecia que queriam “desculpar” o sucedido, mas não havia nada para explicar, foi assim que ele escolheu…

E o motivo foi um nó verdadeiro no cordão. Aí eu entendi o porquê da falta de movimentos dele. Chorei, chorei, chorei até não ter mais forças. Já na enfermaria acordei e aí a culpa, a raiva, a revolta, e o “porquê a mim?” deram conta de mim… foram meses difíceis de não conseguir enfrentar pessoas, grávidas, familiares a pedirem que colocasse o hospital em tribunal e não me recordo de alguém me perguntar o que eu precisava.

As pessoas são cruéis, não fazem por mal mas para se proteger, mas dói ouvir “és muito nova, fazes outro”, “é porque não tinha que ser”, “podia vir com problemas, foi melhor assim”, ou “é a vida”. Felizmente, hoje em dia eu troquei o “porquê” por “para quê” e estou-lhe muito grata por tudo o que passei/passámos. Foi uma aprendizagem brutal, demorou algum tempo a sair do fundo, mas o caminho faz-se caminhando… 

Ao Amor, será sempre a mensagem.

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Gravidez pós-perda Testemunhos arco-íris

Tenho 2 filhos e são ambos bebés arco-íris!

A situação mais difícil foi a minha segunda perda em 2020, às 17 semanas, depois de uma 1ª eco normal e um teste Harmony sem problemas.

Em 2021 voltei a engravidar porque não havia motivo aparente nem doenças diagnosticadas (às vezes preferia que tivesse havido…) mas às 9 semanas o sonho acabou .

Posso dizer que só tenho neste momento um bebé de 2 meses no colo porque o médico que encontrei se mostrou otimista desde a primeira consulta, caso contrário teríamos desistido.

Esta gravidez foi uma montanha russa de sentimentos, sendo o medo o principal. Por exemplo, só contámos a novidade quando já não era possível esconder. Com apoio psicológico, a determinada altura percebi que não era justo para nenhum de nós, bebé incluído, fazer de conta que não estava a acontecer nada. Era uma vida nova e merecia ser celebrada como tal!

Mesmo assim, agora que passou, arrependo-me de não ter tirado mais fotos, guardado mais lembranças… O mais provável é ter sido a minha última gravidez e ficou uma grande nostalgia. 

Apesar de tudo é uma história com final feliz!

Desejo todo o amor e compaixão a quem esteja a passar ou tenha passado pelo mesmo.

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Gravidez pós-perda Testemunhos Testemunhos arco-íris Testemunhos Perda Precoce

Estive grávida 5 vezes. Na primeira gravidez (2012,) o sonho durou apenas às 7 semanas. A segunda gravidez teve sucesso. Embora tenha tido ameaça de aborto com perdas de sangue às 6 semanas, com repouso e progesterona, chegamos às 41 semanas. Nasceu então a minha bebé arco- íris a 7 de janeiro de 2014.

A terceira gravidez (2019) tive um aborto espontâneo às 10 semanas. O choque foi ainda maior do que da primeira perda. Primeiro, porque sempre pensei que era só fazer a medicação e ia correr tudo bem, nunca pensei que ia correr mal. E depois também porque já tinha dito à minha filha que carregava um bebé na minha barriga.

Foi um turbilhão de emoções enorme. Saí do hospital sem qualquer apoio. O meu ginecologista, na revisão, passadas 5 semanas, só me soube dizer que podia tentar de novo, quando o que eu esperava ouvir era “vamos fazer exames” porque o meu coração me dizia que algo se passava. Perdia sempre sangue às 6 semanas e era sempre com o mesma intensidade. Mas, como não ouvi isso, saí porta fora sem tão pouco dizer que era isso que eu pretendia.

Na consulta da médica de família o discurso foi: “ainda bem que o seu corpo eliminou, é sinal que está a fazer bem o trabalho dele, porque quando há estas perdas é porque há um defeito do óvulo ou do embrião.” Eu aí ainda disse que na gravidez anterior tinha perdido sangue com as mesmas semanas, nasceu e é perfeita e saudável e que o melhor era vermos porque tinha de haver uma justificação”. Não mandou fazer nada porque, segundo o protocolo, só se investiga após a 3ª perda consecutiva.

Fiz uma pausa. Uma colega recomendou falar com uma pessoa que talvez me ajudasse a encontrar um médico que investigasse e assim foi. Arranjei uma consulta no Porto e o tal médico disse que apenas em 5% dos casos se descobrem as causas. Fizemos o cariótipo do casal, estava tudo ok, eu fiz mais análises que estavam todas dentro do normal. Então o médico recomendou que, numa futura gravidez, fizesse aspirina, assim como progesterona e foi descoberto que tenho o útero bicórneo.

Uma vez que as análises estavam todas ok e o Porto fica longe de Viseu, onde vivo, comecei de novo a sondar as pessoas; quem as acompanhou, etc., pois queria tentar um médico por cá, que concordasse com o que o do Porto me mandou fazer e aceitasse acompanhar-me numa futura gravidez. Uma senhora, minha conhecida, recomendou-me o seu médico e, pelo relato dela, a minha intuição disse “marca consulta”. Fui a essa consulta, o médico concordou com a recomendação do médico do Porto e teve interesse em ver os exames todos desde que quis ser mãe. Olhou para eles como nenhum outro tinha olhado. Os que não tinha comigo enviei depois.

Finalmente, em finais de 2020, senti-me preparada para tentar de novo mas desta vez com muito receio. No início de 2021 descubro a minha quarta gravidez. Mal descubro que estou grávida, uma colega fica contaminada com covid-19. Eu vim logo para casa por prevenção, mas passado 10 dias os sintomas aparecem e testo positivo. Passadas 2 semanas tenho aborto espontâneo…

Na consulta após o aborto, o médico disse que, apesar eu ter antecedentes, quer acreditar que este aborto esteja relacionado com a covid. A sugestão que me deu foi fazer mais um par de análises e, se tudo estiver bem, tentar novamente sabendo que corro o risco de ter novo aborto espontâneo ou, então, avançar para a correção do útero. Aí, teria de aguardar mais tempo, mas que a escolha seria minha. Ele faria o que eu optasse.

Ele disse que se eu não tivesse uma gravidez com sucesso, ou este aborto não tivesse coincidido com o facto de eu ter estado infetada com covid -9, nem me dava a escolher – a opção seria avançar para a correção. Mais uma vez sigo a minha intuição, que me dizia “faz as análises e acredita”, e assim foi. Fiz mais exames a nível particular; sempre, pois nunca tive apoio a nível do SNS. Mal envio o resultado por e-mail, o médico responde: finalmente encontramos o que tanto procuramos, a “causa”. Tenho uma trombofilia. A minha é défice de proteína S.

Marquei então consulta para entender um pouco melhor do que se tratava, e então o médico disse logo que mal engravidasse teria de fazer injeções lovenox, às quais dei o nome “piquinhas de amor”.

Em Outubro de 2021, descubro que estou grávida e iniciei logo as injeções. Tive uma gravidez maravilhosa, com as coisas normais de qualquer gravidez.

No final começou a reduzir o líquido e o meu médico decidiu, muito bem, provocar o parto. Digo muito bem porque depois me disseram que a placenta tinha um hematoma. Os outros médicos sempre disseram que estava tudo ok, enquanto o meu (anjo na terra) dizia “vou apertar a vigilância, vamos ver se aguentamos até as 37 semanas”.

Aguentamos e sinto que a minha filha esta cá graças a ele e à minha insistência.

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Em 2009 nasceu a minha primeira filha. Depois disso tive três perdas. Uma história como tantas outras. Porém única, é a minha.

Quando era adolescente dizia que a pior notícia que eu poderia receber na vida era saber que não poderia ter filhos. Felizmente, quando senti o chamamento da maternidade pela primeira vez, tudo correu bem; com alguns percalços durante a gravidez, mas nada que abalasse verdadeiramente o meu estado de graça.

A 16 de Fevereiro de 2009 nasceu a Sofia! Que momento tão feliz!
Ainda no bloco de partos, logo depois da Sofia nascer, já estávamos a combinar o nosso segundo filho! Prevíamos dar um/a irmão/ã à Sofia quando ela tivesse dois anos. Tudo tão perfeito.

Passados esses dois anos, a crise de 2011 assombrou verdadeiramente os nossos sonhos. Estávamos os dois desempregados e ter outro/a filho/a nesse momento não era de todo sustentável. Sonho adiado.

Em 2013 consegui finalmente trabalho depois de um longo período de desemprego, num colégio privado. Precisava muito de trabalhar, tanto pela necessidade financeira, como pela valorização enquanto pessoa útil e profissionalmente ativa. Sou uma pessoa que precisa de ter um emprego fora de casa e ser professora faz-me tão feliz! O trabalho a contrato e a necessidade de manter o emprego adiaram novamente o sonho de voltar a ser mãe – não podia correr o risco de não me renovarem o contrato.

Sem dar conta, já estava com 39 anos. O tempo voa! Tudo o resto passou para segundo plano… o desejo de ter outro/a filho/a era superior a tudo. Era um sonho nosso, inicialmente a dois, a três logo que a Sofia começou a pedir um/a irmão/ã por volta dos 3 anos de idade. Era este o momento. Decidimos tentar.

Demorou cerca de oito meses. Desconfiava que poderia estar grávida, mas isso era tão importante para mim que decidi deixar o teste para um dia especial, o dia do meu aniversário: 40 anos. Deu positivo! Felicidade transbordante. Queríamos muito contar à Sofia, mas decidi esperar, exatamente pelo conhecimento de situações de perda gestacional das quais tinha conhecimento, longe de pensar que seria essa a minha situação.

25 de Julho de 2016, uma ligeira perda de sangue. Nos dias seguintes a hemorragia aumentou e, depois de observada no hospital, a pior das notícias, o bebé não tinha batimentos. O meu mundo ruiu… Tive que tirar o meu bebé de dentro de mim, não havia qualquer milagre que lhe devolvesse a vida.

Provocaram-me o parto e passei por um longo processo de expulsão do meu bebé, doloroso fisicamente, destruidor emocionalmente. Expeli o meu bebé inteiro. Vi-o naquela aparadeira… Tão difícil passar por isto. Tão horrível. E mais difícil ainda porque todo este processo acontece na maternidade, ao lado de parturientes que acabaram de ter os seus bebés, a ouvir choros dia e noite. Temos que lidar com a nossa tristeza ao lado da alegria dos outros. É tão bom ver pessoas felizes! Mas nesta situação aumenta exponencialmente a nossa dor. Chorei. Chorei muito. Durante muitos dias. Senti-me culpada. Procurei justificação nos meus atos para o sucedido. Seria a medicação para a enxaqueca, seria o saltinho que dei no passadiço, seria pegar na bacia cheia de roupa para estender? Um sentimento desesperante.

Temos que lidar com a nossa tristeza ao lado da alegria dos outros.

Passado algum tempo, recebi o resultado das análises. O meu bebé estava com malformações e foi essa a causa do abortamento. Não tinha sido culpa minha. E as frases repetiram-se “Foi melhor assim.”, “A natureza sabe o que faz.”, “Isto acontece muitas vezes, é mais frequente do que imagina.”. Uma tristeza imensa e um vazio escondido tomavam conta de mim. Mas estava tudo bem fisicamente e podia tentar novamente. Decidimos tentar acreditando que desta vez ia correr tudo bem.

Em Novembro de 2016 voltei a engravidar. Uma felicidade contida e um medo incontrolável de ver sangue cada vez que ia à casa de banho. Tentei ser o mais positiva possível, acreditar, eu queria tanto o meu bebé! Até que, em Dezembro, na semana antes do Natal, acontece o que eu tanto temia: perda de sangue.

Na ecografia não dava para ter a certeza se estava em processo de abortamento, o embrião ainda era muito pequenino, e nesta fase nem sempre se consegue detetar os batimentos cardíacos. Teria que esperar e ver o que acontecia com o meu corpo. Dias terríveis se seguiram. A hemorragia aumentou e fui percebendo o que estava a acontecer. No dia em que abortei espontaneamente em casa, a Sofia falava constantemente que queria um/a irmão/ã, perguntava-me porque é que eu não tinha um bebé, dizia-me que eu não tinha um bebé porque não queria. Mais um dia terrível, insuportável. Duas dores simultâneas: perder o meu bebé e ser pressionada pela Sofia, que não sabia o que se estava a passar.

Tantos momentos de tristeza profunda, choro, noites sem dormir. E o silêncio. Um silêncio que me dilacerava, mas evitava falar deste assunto. Não por vergonha, que nunca a senti, não sou menos mulher, menos mãe, nem menos ser humano por isto que me aconteceu. Silêncio para proteger a Sofia, queria preservá-la deste sofrimento atroz, silêncio para não impressionar os outros negativamente, o facto de me ter acontecido não devia influenciar o seu estado, silêncio por sentir falta de abertura para me expressar e poder desabafar. Tive algumas pessoas comigo nestes momentos, mas eu sentia que não tinha o direito de incomodá-las com o que eu sentia.

O tempo passou. Decidimos tentar novamente. Queremos tanto um bebé!

Desta vez demorou mais tempo a engravidar, quase um ano. Neste período de tempo vivi sufocada pelo desejo de ser novamente mãe, passei a conhecer o meu corpo e todos e quaisquer sintomas, sabia o meu período fértil, contava os dias do meu ciclo menstrual, estava obcecada por algo que deveria ser natural, mas o meu relógio biológico exercia uma pressão incontrolável sobre mim.

Em Dezembro de 2017 percebi que estava grávida, fiz o teste e deu positivo. Felicidade contida e uma grande esperança de que à terceira é de vez, vai correr tudo bem. Mas não correu. Em Janeiro, numa consulta, soubemos que o bebé tinha parado de desenvolver às 8 semanas, não havia qualquer hipótese de esta gravidez progredir. Mais uma semana de espera. Tão difícil viver com um bebé morto dentro de mim…Mais uma vez tive que ir tirá-lo ao hospital. Desta vez a maternidade estava cheia. Colocaram-me neste processo de abortamento num quarto dentro do bloco de partos, resguardada. Sozinha… tão sozinha… e a ouvir e a ver recém-nascidos… A dor foi tão grande.

As noites e as viagens de carro eram a chorar. Cheguei a ter de encostar o carro para chorar. A pressão da Sofia para ter um/a irmão/ã aumentava, culpava-me de não querer ter um bebé, de não acreditar que conseguia ter um… Não suportava mais este sofrimento escondido. Tive que lhe contar o que se passou. Queria resguardá-la desta dor mas era insuportável. Chorámos as duas. Sofreu e percebeu que afinal eu não tinha culpa. Como eu queria ter evitado isto…

Tenho muitos irmãos e sei como é maravilhoso ter irmãos. Uma das maiores tristezas que carrego é não ter conseguido dar um/a irmão/ã à Sofia. Sonhei que crescessem juntos e construíssem uma relação forte e cúmplice. Não consegui dar-lhe o maior presente que uma criança pode ter…

Em Março de 2020 com o início da pandemia pensei “Não é uma boa altura para ter bebés, se calhar é melhor voltar a tomar a pílula” mas logo de seguida pensei “mais de um ano sem pílula e não engravidei, não vai ser agora que vai acontecer.” Não pensei mais no assunto. Em Abril de 2020, com 43 anos, percebi que estava grávida. Tive muito medo de uma nova perda e da pandemia que estava no início e era por si só assustadora.

Felizmente correu tudo muito bem. A minha bebé arco-íris nasceu em Janeiro de 2021, tinha eu 44, é saudável e super bem desenvolvida. Está quase a completar 2 anos de traquinices e muito amor.

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Não tenho filhos e já pensava não ser possível, pela minha idade!

No mês de Setembro de 2022 comecei a sentir algumas dores no peito, sobretudo quando me levantava de manhã e sentia o peito maior. O período devia ter vindo no final do mês de Setembro, mas não veio. Não quis começar a sonhar, pois já não era o primeiro grande atraso; era apenas um atraso e nada mais. Tinha acabado de fazer 44 anos e já quase não acreditava ser possível uma gravidez.

Entretanto marquei uma consulta com uma nova ginecologista (Dra. RR) para ter uma segunda opinião sobre um exame que a minha ginecologista (Dra. MJA) me tinha indicado fazer (após inúmeros exames feitos para perceber se o que tinha era um quisto ou outra coisa).

No dia 3 de Outubro, fui à tal consulta. Após analisar os exames que levei, a médica fez uma ecografia e viu duas bolsas com uma forma irregular, um tamanho aproximado uma de 5 semanas e outra de 6 semanas, mas sem nada lá dentro. Pensou logo que poderia ser uma gravidez gemelar, o que a deixou preocupada pois não via nada lá dentro. Não sei se fiquei contente ou preocupada. Fui de imediato fazer uma análise de sangue para confirmar se era ou não gravidez. Se fosse, teria de ser vigiada semana a semana, estando já avisada que em caso de hemorragia devia ir de imediato à maternidade. Se não fosse gravidez, aí poderia fazer o dito exame que a outra médica tinha indicado.

A análise que a médica me mandou fazer foi a análise B-HCG total que detetaria logo caso se tratasse de gravidez. Mas o laboratório fez a análise B-HCG Livre…  Só mais tarde percebi as implicações!

Entretanto a médica pediu-me que a avisasse assim que chegasse o resultado… as horas passavam e nada… foram quase 48h intermináveis.

Recebo o resultado e ficamos descansadas… Não estava grávida! Se estivesse já sabia que ia correr mal.

Entretanto o período continuava sem vir…as dores no peito continuavam… o peito maior…mas a análise tinha “dito” que não estava grávida. A médica receita-me um remédio para fazer vir o período. Tinha de tomar durante 10 dias.

Durante a noite de 16 para 17 de Outubro tive algumas dores do lado esquerdo da barriga, abaixo do umbigo. Com os meus habituais problemas de intestinos (Cólon irritável) pensei que poderia ser algo que tivesse comido ou o período para vir, apesar da dor ser diferente do normal. Não aguentei a dor e tomei um buscopan.

No dia 17 de Outubro, último dia do dito medicamento, acordo bem-disposta, sem a dor da noite anterior, visto-me para ir trabalhar e vou para mais uma semana de trabalho. Na dúvida levei o buscopan, não fosse a dor voltar!

Ao chegar ao trabalho, passado um pouco, começo a sentir cólicas. Nada de novo considerando os meus habituais problemas de intestinos. Uma corrida à casa de banho, suores frios, testa toda molhada, palidez e uma forte dor do lado esquerdo da barriga abaixo do umbigo. Já não era normal! Não conseguia sequer pensar.

Tomei buscopan na esperança de um milagre. Enviei mensagem à médica e liguei ao meu marido para me ir buscar. Tinha de ir às urgências. Não aguentava! Entretanto a médica liga-me e diz para ir ter com ela à consulta na Casa de Saúde.

Quando me começa a examinar, pensei…“Cá para mim são mesmo problemas de intestinos e a Dra. R. vai se rir e mandar-me embora para ser vista por outra médica!”

Mantive-me calma. Quer dizer, não podia abrir a boca senão desabava, de tão nervosa que estava

De repente liga o som do ecógrafo e por segundos e ouço um barulho estranho…a cara da médica não era boa! Pede desculpa, mas informa-me que ia ter de chamar um colega para confirmar algo que ela estaria a ver. Aqui já começo a achar estranho…algo se passava!

Chega o colega e com ele o veredito final…estava com uma gravidez ectópica na trompa esquerda… 6 semanas e 6 dias, com batimento cardíaco!!!!

Voltando à análise que a médica tinha mandado fazer…se o laboratório tivesse feito a B-HCG total que foi pedida, já tinha dado resultado positivo pois nessa altura já estaria grávida de 3 semanas!

Mantive-me calma. Quer dizer, não podia abrir a boca senão desabava, de tão nervosa que estava! O meu marido entrou na consulta para a médica explicar tudo aos dois!

De lá fui direta para a maternidade, com uma carta da médica, sem poder parar em casa para levar roupa. Tinha de ser operada porque corria risco de vida se a trompa rebentasse. Já tinha sangue, ou outro líquido qualquer de algo que tinha rebentado no útero ou ovários, já nem sei!

Já na urgência da maternidade, não consegui ligar à minha mãe. Pedi ao meu marido para lhe contar.

Quando entrei para a triagem estava lá a minha outra ginecologista à minha espera. Foi a minha salvação, uma cara conhecida naquele momento! Tinha-lhe enviado uma mensagem a informar o que se estava a passar. Como era dia de estar lá, ela foi ter comigo à urgência. Facilitou bastante porque já me conhecia, conhecia o meu historial e foi tratando de tudo com a médica da urgência. Quando sai da sala e me diz “Vai correr tudo bem”, desabei…Foram muitas horas a controlar e manter a calma…

Da triagem, após mais exames, fui direta para o internamento e lá fiquei.

A auxiliar que me leva ao quarto deseja-me as maiores felicidades! (Não terá visto a cor dos meus olhos????)…

Naquele dia não tinham equipa para uma laparoscopia. Mas fiquei preparada caso tivesse de descer de urgência para o bloco (aí teria de ser operação de “barriga aberta”).

No dia 18 de manhã preparam-me para a cirurgia e lá vou eu…

No dia 18 de Outubro acordei grávida de 7 semanas e deitei-me apenas com 4 furos na barriga e cheia de pensos!

No meio deste pesadelo encontrei duas médicas maravilhosas a quem não tenho palavras para agradecer o apoio (Dra. MJA e a Dra. RR)… um marido preocupado que desde que vim para casa não me deixa mexer uma palha…

Hoje faz 10 dias que o que pensei ser crise de intestinos era afinal uma gravidez ectópica…

Contínuo de baixa, na esperança que este desconforto físico passe rápido e me deixei voltar à normalidade! Uma nova normalidade…O psicológico lá chegará.

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Testemunhos Testemunhos Perda Tardia

Por volta dos 29 chegou o desejo de ser mãe. Fiz consulta na ginecologista e check up e como estava tudo bem avancei. Passados dois anos não estava a conseguir (devido ao síndrome SOP). A ginecologista decidiu avançar com um indutor de ovulação, sem estar muito esperançosa que engravidasse logo no 1º ciclo.

O que é certo é que comecei a ter os sintomas típicos de gravidez: sensibilidade mamária e atraso menstrual. Resolvi fazer um teste: e tive o meu positivo!

Naquele momento tremia e chorei de felicidade. Marquei consulta na ginecologista e ouço: está grávida e bem grávida. São gémeos.

Foi um misto de emoções uma vez que o meu companheiro estava em isolamento devido à covid, e não pôde ir comigo à consulta. Ambos sabíamos que havia essa probabilidade e até tínhamos brincado com isso. E estávamos muito felizes.

A gravidez decorreu normalmente até às 21 semanas, dia em que comecei a ter cólicas, que se vieram a intensificar e comecei também a perder sangue. Fui direta para o hospital, mas com a esperança que não ia ser nada grave. A médica começa a fazer a ecografia e diz que eles vão nascer, uma vez que entrei em trabalho de parto prematuro e um já estava fora do útero e que o prognóstico era reservado.

Fica a eterna saudade e grata por me terem escolhido para vossa mãe.

O meu sonho começou a acabar ali naquele momento e virou pesadelo. Fui internada e diagnosticaram uma infecção (e que provocou o parto prematuro). Começaram logo a dar me antibióticos e diziam que tudo tinha de processar naturalmente e sempre com o discurso de prognóstico reservado. Tinha muitas dores, de chegar ao ponto de enfermeira me propor anestesia epidural para ajudar. Sempre que iam lá as médicas diziam que estava cada vez pior (basicamente diziam que não havia nada a fazer, para evitar que nascessem). Estive assim dois dias, com contrações dolorosas e com uma tristeza de quem já sabia o desfecho. Chorava, chorava muito.

Já só dizia ao meu companheiro que íamos perder os nossos meninos. Ele também estava triste, mas manteve-se firme para me apoiar. Dizia que eu não tinha culpa…

Entretanto nasceram o meu Duarte e Tomás e tornaram-se os meus anjinhos…Doeu tanto perder-vos. Ainda dói e ficou um vazio muito grande. Tinha começado a sentir-vos na minha barriga há pouco tempo e Deus quis levar-vos de mim.  Fica a eterna saudade e grata por me terem escolhido para vossa mãe.

A todas as mães de anjo, muita força.

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No dia 11 de Novembro de 2021 descobri que a minha vida ia mudar por completo, chegou o tão sonhado positivo. Pais de primeira viagem fomos à médica de família que nos marcou as consultas no público, como pensei que estava tudo bem fiz a minha vida normal até à consulta no público (a minha irmã já tinha sido seguida dessa forma e tudo correu bem).

No dia 20 de Dezembro 2021 ansiosos pela ecografia para ver o nosso bebé e a médica quando faz a ecografia muito fria diz “não existe bebé, nunca fez nenhuma ecografia? ” e eu respondo que não e ela diz “não sabe que tem que ir ao privado antes desta consulta”. Eu sem chão e ela manda-me embora para as urgências para ir tomar comprimidos para expulsar o saco gestacional sem explicações. Fui para os urgências sem saber o que se passava, só chorava e aí foi-me explicado que era uma gravidez anembrionária. Nunca tinha ouvido falar em tal coisa.

Fiz a expulsão em casa e foi terrível. Estava cheia de dores físicas e psicológicas (fazia anos dia 21 de Dezembro onde tinha planeado contar a todos da gravidez). Os médicos disseram que a probabilidade de ter repetição de anembrionária era muito baixa e que a probabilidade de aborto era a normal. Contudo, diziam eles muito raro acontecer duas vezes seguidas.


Decidimos voltar a tentar e, no dia 22 de Maio, descubro que estou novamente grávida. O medo era imenso, marquei logo com uma ginecologista no privado, fazia ecografia de 15 em 15 dias. Não contámos a ninguém porque o medo de correr mal era imenso. A barriga começava a aparecer e eu sempre a dizer que estava a ficar gordinha. A médica sempre a dizer que estava tudo bem. Fiz a última ecografia o bebé tinha 11s4d a médica fez as medições todas e disse que estava tudo bem. Pela consulta no público o bebé estaria com 13s2d. Lá fomos nós dia 25 de Julho todos contentes porque eu tinha visto o bebé e convenci o meu marido que estava tudo bem.


Entramos, a médica coloca o ecógrafo e eu não ouvi o coração do bebé e ela diz “papás infelizmente o bebé parou”. Eu gritei que não podia estar a acontecer de novo, eu tinha visto o bebé uns dias antes. E ela diz “parou com 12s, tem um aborto retido e precisa ir para as urgências para retirar”. Fico sem chão novamente e aí entro nas urgências a chorar compulsivamente. Dão-me um comprimido e mandam-me voltar 2 dias depois para ser internada.
Foram os dias mais longos da minha vida, saber que o meu bebé estava morto e eu sem poder fazer nada.

Fui internada colocaram os comprimidos vaginais para a expulsão e fiquei sozinha entre 4 paredes cheia de dores e sempre a ouvir corações dos outros bebés que estavam ali para nascer. Senti a bolsa a rebentar passadas umas 7h. Chamei a enfermeira e passado alguns minutos sinto o bebé a sair e eu sem um enfermeiro ou médico para me ajudar.

Tão pequenino, mas era o meu bebé.

Chamei novamente e lá o levaram para fazer os testes necessários, nunca me vou esquecer dele: o meu menino mais lindo.
Vai estar para sempre no meu coração.