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Hoje, um ano depois do dia mais triste das nossas vidas, abro pela primeira vez, o meu coração para partilhar a minha história, a nossa história. 

Hoje, com o coração mais calmo, e depois de aceitar que deixar partir é um ato de amor, venho contar-vos que a perda de um filho é dos momentos mais traumáticos na vida de qualquer família.

Era Agosto e nós íamos fazer a ecografia morfológica, decidi levar a nossa filha para que pudesse ver pela primeira vez o mano/a. 

Sempre ouvi dizer que as mães têm um sexto sentido, e caramba… nesse dia fiquei a saber da pior forma possível, que afinal ele existe mesmo.

Pouco tempo antes de entrar no consultório, lembro-me perfeitamente de dizer esta frase “tenho tanto medo que não esteja tudo bem”. E não, não estava. Mal eu sabia que partir daquele dia, iria carregar uma das maiores dores em toda a minha vida. 

Entrámos no consultório, entusiasmados. Afinal íamos ser pais de 2, que bênção!

O médico coloca a sonda, e pergunta-nos se já sabemos o sexo do nosso bebé, e nós respondemos que não. Minutos depois, recebemos a notícia que íamos ter mais uma menina, para fazer companhia a este nosso leque familiar de mulheres. 

Pouco tempo depois, um silêncio invade a sala. A dada altura, decidimos perguntar se estava tudo bem, ao qual prontamente o médico me diz que não, não está tudo bem. O seu bebé tem um quisto no cérebro, tem de ir imediatamente à maternidade fazer exames mais específicos. 

Saímos desalmadamente daquele consultório, lavados em lágrimas, em desespero e completamente sem reação. 

Rapidamente as nossas famílias nos prestaram auxílio e vieram ao nosso encontro. Nessa tarde, corremos todos os hospitais possíveis. Estava a ser seguida no hospital particular, e dirigi-me as urgências ao qual rapidamente fui descartada, pois poderia não ser uma gravidez evolutiva. A resposta que me foi dada, era de que se tratava de uma situação muito burocrática. Corri mais 2 hospitais, acabei na Maternidade Alfredo Da Costa, onde com a maior empatia do mundo, me marcaram uma consulta no Diagnóstico Pré-Natal. Um sítio onde tudo começa, e onde acaba para muitos dos bebés. 

Era sábado, tinha um fim-de-semana inteiro pela frente…foi horrível. Não estávamos a conseguir aceitar o que se estava a passar, e estávamos aterrorizados a espera que a segunda feira chegasse. 

O dia chegou, dirigi-me à Maternidade Alfredo da Costa para a minha primeira consulta, no local onde ninguém quer estar, o diagnóstico pré-natal. Lá eu poderia imaginar que aos 30 anos de idade, iria ter de passar por um processo tão difícil como este.

No dia 15 de Outubro , no dia em que se celebra o dia da consciencialização da perda gestacional, a Benedita veio ao mundo, num parto respeitado e humanizado.

Depois de várias horas em espera lá entrei, e o médico teve perto de 1h a fazer uma ecografia. Realmente viu que existia um problema, mas ainda com muitas dúvidas. Aconselharam-me a fazer a amniocentese, para avaliar e despistar outro tipo de doenças gravas. Nesse mesmo dia fiz o procedimento. 

Lembro-me perfeitamente de nesse mesmo dia, me darem um termo de responsabilidade para assinar, caso fosse necessária intervenção médica, ou melhor dizendo uma Interrupção médica da gravidez, tendo em conta o estado avançado em que já me encontrava da gravidez. 

Colocarem nas nossas mãos, o destino da vida dos nossos filhos é um peso muito grande. É o peso de uma vida. A vida da minha filha. 

Informaram-me que deveria fazer uma ressonância magnética, pois só partir daí se conseguia ver melhor o bebé e problemas internos. 

Fui para casa de repouso, e 2 dias depois estava a fazer a ressonância. Disseram-me que teria de aguardar o resultado, e que a maternidade me ligaria para ir novamente a consulta. 

3 semanas depois, volto a fazer ecografia e a dúvida do médico persiste apesar da ressonância confirmar que existia um problema. 

Informaram-me que teria de aguardar, e fazer um acompanhamento da minha bebé para ver se o problema podia ter um retrocesso. Segundo os médicos era um problema que poderia ir ao lugar com o crescimento fetal. 

Na altura fiquei muito revoltada, não aceitava porque tanto tempo, porque me fazerem sofrer tanto. A espera era horrível, e eu sabia que quanto mais tempo passasse, mais doloroso seria para a nossa família. 

Durante longos 2 meses entre esperas e exames, lá chegamos ao diagnóstico final. 

Nesse dia, deram-nos a pior noticia que se pode dar a qualquer mãe ou pai. 

A nossa filha aos 8 meses de gestação, foi diagnosticada com uma má formação do sistema nervoso central, tinha uma síndrome muito rara e que seria totalmente incompatível com a vida humana. Foi devastador.

Disseram-me que uma neura pediatra iria entrar em contacto connosco, para nos explicar o que se estava a passar com a nossa bebé, e assim foi. 

Estávamos devastados, íamos a sair da maternidade quando recebemos uma chamada de uma enfermeira, a enfermeira Leonor Gonçalves, que para mim continua a ser um anjo da guarda. A Leonor queria saber como nós estamos, e falar connosco. Assim foi, voltamos para trás, fomos levados para uma sala e lembro-me como se fosse hoje. A Leonor, tocou no meu braço e disse pode chorar, fique a vontade. Foi um dos gestos mais bonitos que podiam ter tido connosco naquele momento doloroso. A ajuda veio ter connosco, sem pedirmos ajuda. Foi bonito e muito importante para nós. Até aos dias de hoje, a Leonor está sempre presente nas nossas vidas. 

Realmente são as pessoas que fazem os sítios, e o trabalho daqueles profissionais é tão importante para nós pais que vamos perder os nossos filhos. 

Dia 11 de Outubro, vamos }a maternidade iniciar o processo. Nesse dia somos deparados com uma série de questões, e mais uma vez a Leonor estava lá para nos apoiar, ajudar e agilizar todo este processo. 

A Leonor ajudou-nos com as questões mais burocráticas, e falou-nos sobre a oportunidade de conhecer a nossa filha, de ficar com as impressões dos pés e das mãos da nossa filha. Nem sequer pensei que isso fosse possível para um bebé que nasce sem vida.

 Dois dias depois, seguia-se o meu internamento para iniciar a indução de trabalho de parto. 

Nesses 2 longos dias, tivemos que tratar daquilo que mais custa a qualquer pai, enterrar um filho. Tratar do funeral da nossa filha que ainda não tinha nascido, e quem nem o mundo ia conhecer. 

Foi completamente devastador, não fui capaz de entrar na agência funerária, assinei os papéis no carro. Mas saímos dali com tudo tratado. 

Seguia-se outra fase complicada, comprar uma roupa para a nossa filha. Entrei 3 vezes na mesma loja e não consegui comprar nada. Acabei por ter de pedir ajuda a família para comprar a roupa para a nossa filha. 

É muito duro preparar o funeral de alguém ainda em vida. 

Dia 13 de Outubro com 31 semanas, fui internada. Cheguei a maternidade, a Enfermeira Leonor já estava a nossa espera. Fomos para uma sala, onde revimos todos os pormenores do que iria acontecer partir dali. 

A Leonor generosamente, sentou-me num cadeirão ao lado da janela e disse-me para eu me despedir da minha filha, para lhe poder dizer que me perdoasse, porque o que eu estava a fazer era um ato de amor.  A Leonor deu-me tempo, deu-me a mão, fez-me sentir mais calma. 

Ensinou-me a exercícios para me sentir mais calma, para saber controlar as dores no trabalho de parto. 

Fomos então para a sala de ecografias, onde a médica estava a minha espera, acho que foi o momento mais duro do processo no hospital. Iriam ter de provocar a paragem cardíaca a nossa Filha. Deitei-me, demos a mão os dois e encostamos as nossas cabeças e a médica pediu-nos que não olhássemos para o monitor. Minutos depois, senti-me a perder os sentidos, estava completamente em outra dimensão e só me lembro da Leonor me tirar a máscara e dizer “fique comigo, concentre-se na minha voz”. O procedimento terminou, e estava meio adormecida.

Desci para o internamento, onde fui para uma sala isolada, para não ter qualquer tipo de contacto com as outras grávidas e ouvir os bebés chorar. Acho que isso é de uma enorme empatia que se pode ter com alguém. 

Fiz a primeira medicação para indução de parto, e nesse dia nada aconteceu, ao final da noite tentaram outro método de indução, que teria de se dar uma janela de 24h para tentar novo método. No dia seguinte, comecei a ter muitas dores, mas não tinha dilatação ainda, e na noite de 14, as dores começaram a agravar. A todas as enfermeiras da maternidade só posso agradecer todo o carinho que me deram, traziam me medicação, sentaram-se na minha cama e deram-me a mão, limparam as minhas lágrimas imensas vezes. 

Na manhã seguinte fui para o banho para atenuar as dores, estavam insuportáveis. Já estava em trabalho de parto desde essa noite. A médica veio avaliar, e já estava pronta para ir para o bloco de partos. Desci, levei epidural e começa o início de tudo, o medo, o fazer nascer. 

A enfermeira parteira Cleisa, que até hoje não me esqueço do nome dela disse-me “vamos ao seu ritmo, nasce quando você quiser” e assim foi. 

No dia 15 de Outubro , no dia em que se celebra o dia da consciencialização da perda gestacional, a Benedita veio ao mundo, num parto respeitado e humanizado. Não, a Benedita não chorou, mas tudo em mim se desfez por completo. 

Levaram a Benedita e aconchegaram-na na mantinha que tinha sido da irmã, a enfermeira regressa com uma caixa de memórias, com a hora do nascimento, o dia, e a impressão dos pezinhos e das mãozinhas. 

Chorei muito, foi devastador. 

No dia seguinte tive alta logo de manhã e fui para casa descansar, a nossa filha estava ao cuidado da nossa família, mas tínhamos que nos preparar para lhe dar a notícia. 

Na manhã seguinte fui buscá-la, sentei-me com ela e expliquei o que aconteceu à mana. Ela reagiu bem, ficou calma apenas nos perguntou se ia continuar a ser só ela na nossa vida e nós respondemos que sim e demos um abraço. 

Estivemos 1 semana a espera que liberassem o corpo da Benedita, e o dia do funeral chegou. Decidimos cremar a nossa filha, e lembro-me que ao chegar ao crematório havia uma placa que dizia “Filho de Soraia Carvalho”, foi aí que tudo se tornou ainda mais real. 

Demos a mão e entrámos, quando eu vi aquele caixão pequenino, não consegui conter-me e chorei compulsivamente. Foi um ambiente muito pesado, foi muito complicado, mas as nossas famílias estiveram sempre lá para nós. 

Aos poucos fui aprendendo a lidar com a nossa dor, a gerir os meus sentimentos. Descobri da pior forma, que o luto é um caminho longo e solitário. 

Hoje com o coração mais calmo, fiz as pazes com a vida, porque tal e qual como comecei a nossa história, deixar ir é um ato de amor. E assim foi.

Enquanto mãe, vivi o dia mais feliz da minha vida, e o mais triste também. Mas Hoje, Inicio um novo ciclo, e tu querida Benedita vais sempre fazer parte da história da minha há vida. 

Querida Benedita, espero que estejas em paz. Lembro-me de ti todos os dias. 

Com amor, Mãe.

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Faz-me todo o sentido enviar esta mensagem hoje, 18 de Setembro, dia que faz precisamente 2 meses que fiz a intervenção cirúrgica mais difícil da minha vida: a da interrupção seletiva de um dos meus gémeos.


No nosso caso, após a transferência de um embrião, ele dividiu, fomos surpreendidos com o facto do Universo nos dar em dobro o nosso maior desejo, mas, rapidamente, percebemos que esse segundo feto não estava bem: tinha vários problemas. O mundo caiu, foram semanas de ansiedade, porque não era totalmente garantido que o gémeo saudável conseguisse ultrapassar essa intervenção.

Não duvidamos por um momento que era o que tinha que ser feito: foi um ato de amor por ele que não tinha condições fora do útero, mas ainda não compreendemos o porquê de nos ter acontecido.

O nosso bebé surpresa tinha um nome, é o Gonçalo. Não há um dia que não me lembre dele e irei vê-lo para sempre no irmão.

Espero que ele saiba que o que fizemos foi por bem, foi por amor e que nunca o iremos esquecer.

Quero acreditar que um dia ele voltará para nós.

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

No dia 7 de Dezembro fui ao hospital fazer um exame regular do papanicolau e a enfermeira perguntou-me, antes de fazer o exame, se eu poderia estar grávida. Nós tínhamos tentado umas vezes e o meu período não tinha vindo no mês passado, mas eu tinha feito um teste em casa e era negativo. Ela pediu-me para fazer outro teste antes do exame “just in case”. Eu aceitei sabendo que o resultado seria negativo. 15 minutos depois o resultado mostrou ser positivo e eu fiquei em choque.

Era um bebé planeado e desejado mas, sendo a primeira gravidez, há sempre aquele misto de felicidade, medo, expectativa, euforia.

Eu estava grávida de 6 semanas e, até às 21 semanas, nunca houve nada de errado com exames. Apenas queríamos que o bebé fosse saudável e não queríamos saber o sexo do bebé até ao parto. O meu exame dos cromossomas das 12 semanas revelou que eu tinha apenas 1 chance em 9000 em o bebé ter trissomia 21 ou Síndrome de Edwards. No exame de morfologia, em Março, confirmou-se que o nosso bebé era esse caso em 9000.

A 9 de Março de 2021, tive a consulta de morfologia com um scan que revelou que o bebé tinha um  “buraco” no coração e lábio leporino. Levaram-nos para um quarto pequeno, onde só havia um sofá, uma mesinha com lenços de papel, ao que o meu parceiro disse logo “este é o quarto das más notícias” e até ouvir da boca da enfermeira eu não queria acreditar. Pediram-nos para voltar outra vez na sexta 12 de Março para um teste com uma especialista de problemas cardiovasculares de bebés dentro da barriga. Nesse exame, ligaram o som do coração pela primeira vez e, porque o foco da consulta era perceber o que se passava com o coração, não me avisaram que iam ligar o som que eu nunca tinha ouvido. Foi a primeira e última vez que o ouvi. Depois da consulta e outra vez numa sala de más notícias, a médica explicou-nos que o problema com o coração por si só não era raro, mas associado ao lábio leporino, céu da boca rasgado e algo anormal no cérebro, o diagnóstico não era animador.  

Foram-me dadas 3 escolhas:

  • 1) espero mais umas semanas e faço o exame da amniocentese para saber mais sobre este diagnóstico;
  • 2) Levo a gravidez até ao fim e o bebé pode ou não sobreviver ao parto mas se sobreviver, certamente vai ter uma qualidade e esperança de vida muito limitada;
  • 3) termino a gravidez imediatamente com ajuda médica.

Foi a decisão mais rápida e mais difícil que tomei na minha vida. Os dias que se seguiram foram uma espécie de pesadelo. Naquela sexta feira tomei o primeiro comprimido para parar as hormonas da gravidez e no domingo dei entrada no hospital às 4 da tarde. Às 7 da tarde tomei o primeiro comprimido de 5 para provocar o parto e, durante horas, estive numa luta com o meu corpo porque este teimava em dizer à ciência que não era a hora.

A Rita Leonor nasceu as 12h30pm no dia 15 de Março e não sobreviveu ao parto, como era de esperar. Ficamos a saber que tínhamos uma filha e como não tínhamos preparado nada, nem nome, decidimos na hora dar-lhe o nome das nossas avós que já tinham falecido. Felizmente, há gente maravilhosa neste mundo, e as parteiras foram anjos e trouxeram cobertores e roupas que outros anjos tinham tricotado para famílias nesta situação impensável. Eu não queria ver a bebé inicialmente mas ainda bem que tive um momento de clareza e tivemos o nosso tempo para segurar a bebé e estarmos com ela sozinhos. Mostramos-lhe a nossa música favorita, tiramos fotos e dissemos adeus.

De volta a casa de braços vazios, foi tempo de recuperar e esperar pela notícia que o corpo estava preparado para o funeral depois de todos os exames feitos. O funeral foi dia 1 de Abril com apenas o meu parceiro e os pais dele. Seguiram-se meses de espera para o resultado dos exames e a confirmação de que a Rita Leonor tinha a síndrome de Edwards e que não sobreviveria ao parto. Seguiram-se meses de incerteza na relação, um luto tão diferente para mim e o meu parceiro, um abismo que se abriu entre os dois e que só o diálogo e a paciência cimentou a ponte entre os dois e reduziu a distância.

Hoje, ano e meio depois, estou grávida de novo, mas sem a expectativa da primeira vez. Há uma cautela enorme, um quase não querer sequer falar sobre para não “agoirar” ou não me apegar a este sonho de novo.

Esperamos ansiosamente pela ecografia das 20 semanas para podermos respirar sabendo que nada, nunca nada é garantido. 

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Testemunhos Testemunhos Interrupção Médica da Gravidez

O meu nome é Flávia e realizei uma interrupção médica da gravidez a 17 de Novembro de 2017 por uma má formação. 

Foi diagnosticada uma deficiência congénita em ambos os membros superiores, designada por mão torta radial nível 4, ou seja, o grau pior pois os ossos não formaram: os ossos que iriam sustentar os polegares de ambas as mãos simplesmente não existiam.

Às 18 semanas de gravidez, na ecografia que descobri que era um rapaz, também descobri que teria uma deficiência para o resto da vida. Ir ao céu e ao inferno em poucos segundos é bem possível e foi o que vivenciei naquela sala.

Consultamos um dos melhores ortopedista pediátricos que foi muito claro: se nascer, irá passar a vida em cirurgias e nunca poderá ser autónomo.

Naquela altura eu só não queria ser responsável por colocar um filho num mundo tão mal preparado para aceitar pessoas com deficiências e, muito menos, ver sofrimento nos olhos de um filho um dia mais tarde.

Ao pesquisar sobre interrupção médica da gravidez, a única coisa que aparece é procedimentos legais e muito poucas mulheres a falarem realmente o que acontece ou o que sentiram. 

Na altura foi muito doloroso e o hábito de olhar para a barriga parou. O hábito de estar sempre a tocar e tentar perceber onde estava dentro da barriga passou a não se fazer. Os espelhos, de um momento para o outro, tornaram-se objectos dolorosos, tomar banho virou um sofrimento e o trocar de roupa fazia-se sem olhar para baixo. Doeu perceber que os gestos que me traziam felicidade passaram a ser sofrimento. E quando tinha que sair à rua e, aleatóriamente, deparava-me com grávidas e bebés, fazia com que as lágrimas começassem a escorrer do nada, de forma automática. O isolamento era cada vez maior, dentro da minha própria casa. 

Tomar a decisão e assinar aquele papel a dizer que queria interromper a gravidez naquela altura era como se tivesse a assinar um papel para matar o meu filho. E o período de reflexão que é obrigatório foi terrível. Até hoje a pergunta mantém-se: será que foi o certo?! 

Os olhares de pena dos médicos e dos auxiliares, em conjunto com as palavras “muita força” ou “vocês ainda são novos”, eram ouvidos com um misto de compreensão e raiva ao mesmo tempo, se é que isso é possível, mas com um sentimento de gratidão por cada uma das pessoas envolvidas no processo, claro. Os três comprimidos para parar o processo hormonal da gravidez foram tomados e cada um que tomava, naquele consultório, sentia um pontada no coração e uma parte de mim morria ali. Era o início do luto de alguém que estava dentro de mim. 

Até hoje a pergunta mantém-se: será que foi o certo?

O procedimento era ter um parto normal, de forma a possibilitar ter filhos futuramente e, fazendo juz a um parto normal, o meu durou 25 horas com a diferença que o meu filho já nasceu sem vida. Não há nada que doa mais do que ver um filho nascer sem vida e ainda em fase de desenvolvimento. Doeu ver, doeu sentir.

Passar pela dor física e psicológica de provocar um parto a uma mulher que não vai ter o seu filho vivo é das sensações mais dolorosas que se pode passar. Deveria haver um método mais rápido e que não doesse tanto. Chorei, chorei muito, apenas não queria que fosse assim ou não era suposto ser assim.

Na manhã seguinte a ser internada, tive a visita de um médico que deu ordem para me darem um antibiótico para acelerar o processo pois já chegava de sofrer….e acelerou! 

E, sem epidurais nem qualquer outra anestesia, pois só tivemos tempo de chamar a enfermeira, o meu filho nasceu, morto, às 12h45 do dia 17 de Novembro de 2017, no quarto 412 do hospital do SAMS e o pior de tudo foi vê-lo.

Doeu todo o processo, desde a descoberta até sair do hospital sem o meu filho nos braços e dói, até hoje, e acho que irá doer sempre! É um buraco no coração e na alma que nunca mais ficará sarado. Uma mãe nunca deveria perder um filho pois esse acontecimento modifica-te para sempre.

Hoje, passados 5 anos, quando fecho os olhos, é como se tivesse sido ontem e acho que irá perdurar até ao resto da minha vida. Felizmente já tive o meu bebé arco-íris saudável, mas foi uma gravidez vivida com muito medo de ouvir uma notícia terrível. Graças a Deus nasceu um bebé forte e saudável, que já conta com 19 meses e, neste momento, estou à espera de outro menino que ainda está a fermentar na barriga, que já conta com 33 semanas. O incrível, ou talvez não, é que irá nascer exactamente no mês que eu perdi o meu primeiro filho; Novembro. 

E sim, digo a todas as pessoas que sou mãe de três filhos, um deles é um anjo que está no céu a olhar pelos irmãos 

Partilho o meu testemunho porque acho muito importante falar, e aconselho a todas as mulheres que perdem os seus bebés que falem e procurem ajuda – eu não o fiz na altura,por achar que iria conseguir lidar com a situação, e existem feridas que se mantêm abertas até hoje por causa disso. 

Obrigada pela oportunidade de dar o meu testemunho.

Um grande beijo,

Flávia

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O meu Agosto, veio sem gosto.

No dia 2 ia fazer a tão desejada ecografia das 12 semanas. O nervoso miudinho acompanhou-me o dia todo, só queria saber como estava o meu bebé. Por fim, chegaram as 19h e lá entramos nós para a tão aguardada consulta. Começou a ecografia; com as máscaras só vemos a expressão dos olhos e a expressão que o médico fazia era cada vez menos acolhedora.

Comecei, sozinha, a entrar no meu próprio buraco, sem perceber o que se estava a passar. Até que o médico disse, em tom frio, “o vosso bebé tem uma malformação e pode vir a ter algum tipo de trissomia”.

As lágrimas começaram a cair pelo rosto inevitavelmente. O médico, que era pouco conversador, apenas disse que na quinta-feira a seguir, dia 4 de Agosto, queria repetir a ecografia.

Saímos o consultório, estive 1h sem conseguir falar, só chorei, chorei. Não sei como consegui trazer o carro sozinha até casa…foi uma viagem longa. Na quarta-feira ia em trabalho para o Alentejo. Não sei como me aguentei durante esse dia. A cabeça não parava de pensar no pior e com a réstia de esperança de que no dia seguinte o médico fosse dizer “foi um erro, está tudo bem”.

Finalmente chegou a quinta-feira, a repetição da ecografia, e a minha esperança foi por água abaixo: o diagnóstico confirmou-se.

O bebé tinha problemas, a translucência nucal era maior que o normal, ausência da cavidade nasal, o coração não batia normalmente.

Desde a consulta, as conversas giravam em torno do mesmo, e “se o bebé tem realmente um problema?”; ” o que fazemos?”; ” aguentamos ter um bebé especial na nossa vida?”

O pesadelo mantinha-se, fomos encaminhados para uma consulta em Santarém onde nos iriam explicar e fazer a amniocentese.

Foram dias tão, mas tão longos. Dias a pensar em tudo e em nada, dias a chorar, dias a pensar ” porquê a mim?” e ” porquê a nós?”. Chegou o dia da consulta em Santarém, ainda há médicas simpáticas capaz de explicar, acalmar e responder às nossas perguntas de forma tranquila. A amniocentense ficou marcada para dia 25 de Agosto (dia dos meus anos, havia lá pontaria melhor).

Desde a consulta, as conversas giravam em torno do mesmo: e “se o bebé tem realmente um problema?”; ” o que fazemos?”; ” aguentamos ter um bebé especial na nossa vida?”. Todos os cenários estiveram em cima da mesa.

Contamos à nossa família e amigos mais próximos, pois todo o apoio era bem-vindo e nós precisávamos disso mais que nunca. Todos
os dias começaram a ser demasiado angustiantes: o medo de ir à casa de banho, o medo de tudo e um amor a crescer dentro de mim e a ficar cada vez mais forte.

No dia 21 de Agosto, às 8h da manhã quando fui à casa de banho, o medo intensificou-se quando, no papel, encontrei sangue. Voamos para o hospital.

Com 14 semanas e 7 dias fomos de imediato encaminhados para o piso da obstetrícia. A partir daí, fui sozinha, porque o pai não pode acompanhar a mãe nestas situações (ridículo, porque é quando precisamos de mais apoio). Na triagem a enfermeira fez perguntas, mediu a tensão e pediu para esperar pela médica. A médica chamou-me e lá vou eu de novo, sozinha, fazer uma ecografia.

Quando a médica disse, a agarrar-me a mão, “o seu bebé parou”, senti-me a cair ainda mais fundo e a bater no chão. A partir deste momento era seguir as normas, para estes casos, mais uma vez sozinha, sem o
apoio incondicional do pai e do homem mais incrível que podia ter a meu lado.

Saí do consultório, lavada em lágrimas, e na sala de espera tive de dar a pior notícia, ao homem que também ia ser pai. A enfermeira veio ao pé de nós e explicou o que ia acontecer, mas que ele, que também perdera um filho , naquele momento não podia acompanhar. Segui para dentro depois de um abraço bem forte e apertado.

Deitada naquela maca da sala de parto número 5, com enfermeiras e auxiliares incríveis, que explicaram tudo as vezes necessárias,
começamos então o processo: 3 comprimidos vaginais para induzir o parto, soro e sem me levantar durante 1h30. Essa hora foi tão dura, ali deitada, sozinha, com uma fralda quase maior que eu, caramba.

Começou o desconforto dentro de mim, chamei a enfermeira para me
dar a medicação para acalmar aquele desconforto.


Nesse momento e depois de comer uma gelatina, perguntei se já podia ir à casa de banho. Com isto tudo já era 13h30 e parecia que a cada minuto estava com cada vez mais cólicas. Eu, novata nesta situação, não percebi que poderiam ser contrações. Fui à casa de banho, na sanita tinha de meter uma arrastadeira, foi neste momento que tudo aconteceu…demasiado sangue no xixi e um feto a querer sair. Foi duro ver aquilo, chamei de imediato a enfermeira que me levou de volta ao quarto e, juntamente com mais duas enfermeiras, enquanto uma me dava a mão as outras retiravam, aquele que iria ser o meu amor maior.

Desde as 10h30 até às 14h todo um processo doloroso, fisicamente, psicologicamente e emocionalmente. Depois de tudo, fui repetir a ecografia, foi rápido, segundo a médica e estava tudo limpinho. Quando regressei ao quarto, estava o meu maridão à minha espera (antes de tudo começar a enfermeira disse que o podia chamar), e ali esteve ele comigo, toda a tarde até me darem alta, mesmo sem ser permitido, mas eu precisava dele e ele de mim. Tive alta nessa mesma tarde, as 19h, só queria vir para casa.

Neste momento já passaram quase 15 dias, estou de baixa, durante 30 dias. Posso dizer que estes dias têm sido um misto de emoções, dias em que apetece rir e sair, dias em que apetece estar sossegada e a chorar. Já pensei em voltar ao trabalho para ocupar a cabeça, mas não sei se tenho força para tal. Vou ficar, por enquanto, aqui a fazer o meu luto, deste que ia ser o meu amor para a vida toda.

Nestas alturas, vemos quem são os verdadeiros amigos, os amigos que são família e que mesmo quando estamos no chão, eles sentam-se connosco e fazem a festa.

Um Agosto triste, que nunca vou esquecer. Quis o meu anjinho que no dia dos meus anos não passasse pela amniocentese, por isso acelerou o processo e não obrigou os pais a tomar aquela que iria ser a pior decisão.

Vais ser sempre o nosso anjinho bom.

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Hoje foi o dia em que decidi escrever para ti, sobre ti, sobre este amor imenso que deixaste na minha vida e no meu coração.

Fizeste-me feliz, fizeste-me sentir linda, como já não me sentia há muito tempo. Obrigado, meu Amor. Obrigado por estes meses tão intensos, carregados de esperança, de magia e de união!

Faz hoje 5 dias que nos separaram. Pensam eles que foi para sempre mas, para sempre, vai ser a tua presença na minha vida e no meu coração.

A dor de te deixar ir, de ter que escolher deixar-te ir, está a ser o golpe mais duro e a batalha mais cruel que alguma vez enfrentei…

No dia em que soubemos que os resultados eram os que mais temíamos, ficámos sem chão…Contínuo sem chão e com um colo à tua espera, meu Amor!!!

Nunca pensei que a minha alma doesse tanto como no dia em que tive que assinar aquele maldito papel, em que abria mão de ti, de te sentir a crescer dentro do meu ventre cada vez mais…

Sair de uma sala de partos sem alguém nos braços e de coração ainda mais vazio, é a maior dor que alguma vez senti. 

Perdoa-me, se te amo demais e por isso escolhi deixar-te partir, perdoa-me por agora sentir a dor de apenas ouvir e saber que só bate um coração em mim: o meu e não o NOSSO!

Que vazio, que revolta, que raiva, que injustiça, que crueldade imensa, que dor, Meu Filho!

Perdoa-me, porque ainda não consigo fazer as pazes com a vida.

Neste momento, só peço ao universo que me dê forças para seguir em frente e que me ajude a abrir novos caminhos, para que possa seguir um rumo e uma razão de ser.

Agradeço, a cada minuto, a oportunidade que me deram de te poder conhecer, sentir, tocar, pegar na tua mão e ver com os olhos, aquilo que vi com o coração desde o dia em que soube que te carregava dentro do meu ser.

Agradeço-te a Ti, por me teres escolhido como casa, por me teres feito sentir tão feliz e por me teres escolhido, Tua Mãe!

Obrigado meu anjo, obrigado por seres o primeiro a perceber, mesmo antes de mim, que a nossa escolha foi por um amor imenso a Ti.

As poucas pessoas que souberam da tua existência (não porque não queria que soubessem, mas apenas para te proteger) e que agora sabem o que aconteceu, dizem que agora tenho um anjinho no céu… acho que esta afirmação nunca fez tanto sentido. Tenho um anjinho sim, mas não no céu e sim no meu coração, para sempre!

Obrigado meu amor. Obrigado por estes meses tão intensos, carregados de esperança, de magia e de união!

Só eu sei o quanto ansiei por poder gritar e mostrar ao mundo que existias dentro de mim, que na minha barriga crescia mais um amor da minha vida… só eu sei o que senti por não o conseguir fazer, porque a vida, mais uma vez, nos trocou as voltas e pediu que fizéssemos a escolha mais cruel de todas.

Vivi e partilhei neste tempo, cada momento contigo…

Tomara que sintas o orgulho que tenho em ser tua mãe para sempre. O orgulho por ser tua casa e o teu aconchego, tomara que sintas a mesma vaidade que senti cada vez que alguém reparava que a minha barriga estava maior e a importância que sentia por me darem um simples lugar no autocarro. Sabia que nesse momento, todos sabiam que estavas ali, dentro de mim e isso enchia-me o coração de orgulho.

Que feliz que fui em ter sido a tua casa, meu amor, obrigada!

Agora que posso, que nada me impede, agora que te posso proteger para sempre, apetece-me partilhar este nosso momento; breve mas interminável. Este amor só nosso ao mundo para que todos saibam que fui e serei para sempre a tua mãe!

A ti, nosso amor, brilha e não me esqueças nunca!!!

O que resta, fica só para nós…

Amo-te,

Mãe

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Partimos para uma segunda gravidez, na esperança inocente de tudo correr bem outra vez.

Grande felicidade: estava grávida de gémeos!

Tudo a correr lindamente até à ecografia morfológica. Naquele dia, tinha ecografia no público de manhã e ecografia no privado de tarde, calhou assim. Por essa razão, fui sozinha à ecografia da manhã porque o meu marido viria comigo de tarde.

Alguns minutos depois de começar o exame, soube logo, não sei como, mas soube logo que algo não estava bem.

Passaram uns 20 minutos e ganhei coragem de perguntar à médica, que me disse para aguardar até ao final do exame, mas que as notícias não eram boas.

Comecei a tremer, sozinha. Só queria ter o meu marido comigo ali, como é que fui para ali sozinha?

Terminou o exame, e mesmo antes de chamar uma colega para confirmar o diagnóstico, a médica disse-me que se fosse uma gravidez única seria para terminar já.

Amniocentese a cada um dos bebés, opinião de mais dois médicos e dois ecocardiogramas fetais. Um menino com Síndrome de hipoplasia do coração esquerdo e uma menina aparentemente saudável.

Desde as 21 até às 32 o meu bebé cresceu, sentenciado, para dar oportunidade à irmã. E a culpa…

O procedimento de fecticídio selectivo foi mau, muito mau. 3 dias de tentativas, 5 buracos na minha barriga, cada picada horrivelmente dolorosa, uma preocupação gigante da agulha atingir a menina.

Pude pegar ao colo o meu filho, dar-lhe um beijo, despedir-me dele e tirar-lhe uma fotografia.

Quando finalmente a médica encontrou a posição certa para soltar o líquido, o visor da máquina de ecografia ficou bem em frente à minha cara. Vi o coração do meu bebé parar, propositadamente, diante dos meu olhos.

Mais duas semanas passaram até ao trabalho de parto acontecer naturalmente. Primeiro o meu filho e passadas umas horas a minha filha. Graças à enfermeira anjo que me acompanhou, posso dizer que tive um parto tranquilo, humanizado e sem dor. Pude pegar ao colo o meu filho, dar-lhe um beijo, despedir-me dele e tirar-lhe uma fotografia. Tenho as suas cinzas em casa, junto da sua família.

Depois da morte do meu bebé precisava de parar, ficar no escuro, deitada, chorar, mas não pude fazer nada disso. Seguiram-se os dias na neo, acordar de 3 em 3 horas para a alimentar, meses sem dormir, mais um internamento, bronquiolite, covid…

Agora, a fazer um ano desde o nascimento dos meus bebés, sinto que preciso de ajuda. Comecei a ter ataques de pânico e tenho completa consciência que estou traumatizada. Será o meu próximo passo, cuidar de mim.

Amo tanto os meus filhos.

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Quando eu e o meu marido nos juntámos sempre desejamos uma casa com família grande e acolhedora, onde houvesse muito amor e união.

Então, aos 18 anos, começámos a jornada de criar família e saiu o primeiro positivo de amor, mas, o pior aconteceu e, com 8 semanas, vimos tudo a desmoronar. Uma primeira dor incontrolável, mas desistir estava longe de ser possível. Ao que aos 21 finalmente tivemos novamente o positivo, claro com muito medo, mas a esperança era grande.

Apesar de ter sido uma gravidez atribulada, fomos abençoados com uma menina linda em que sempre fomos falando em casa de que um dia mais irmãos viriam quando ela tivesse a sua independência. Passaram 5 anos e o desejo sempre a aumentar e começamos novamente na nossa tentativa de aumentar a família. Em 2020, tivemos o nosso positivo e a alegria transbordava. Já se tinham passado 12 semanas e, de repente, tudo foge do controle novamente, surgiu um corrimento, fui logo de imediato as urgências e foi detetado um aborto retido às 8 semanas em que o corpo iniciava a expulsão.

Novamente vieram as lembranças e aquela dor e agora tendo que explicar a uma criança tudo o que se tinha passado. Dói demais, mas ela ensinou-me a ser positiva e a olhar de outra maneira para toda a situação. Afinal tinha tido um parto maravilhoso e uma estrelinha para nos guardar.

Mas a luta para aumentar família permaneceu, e, em 2021, voltamos ao nosso positivo e todo um medo em volta de todo o processo, mas, com coragem, olhámos em frente. Mas, em pouco tempo, a nossa felicidade terminou, pois, apesar de vir com imensa força para este mundo, tinha ficado na trompa.

Todo o processo de uma gravidez ectópica acrescido, mas, apesar de todos os medos, bastou a dita injeção MTX e novamente terminava aquele positivo tão desejado e agora com o medo da reincidência.

A vida tem sido difícil, mas a luz brilhou e, em 2022, tivemos a alegria de duas riscas no tão esperado teste, com todos os medos das anteriores perdas. Fui logo de imediato fazer a ecografia vaginal para confirmar de que desta vez estaria no útero, e, realmente estava no sítio certo. Menos um medo. Veio então o medo da perda, comprei logo um doppler para ouvir o pequeno coração, o que me acalmou bastante. Fizemos a primeira ecografia e o nosso pequenino mexia bastante e adorava dormir encostadinho à minha placenta bem juntinho a mim.

Estava a crescer bem e a evoluir, uff, apesar de enjoos e de vir logo de repouso para casa. Tudo estava a correr na perfeição e um amor infindável de toda a família para receber o meu pequeno Henrique.

Foi então que fomos fazer a morfológica, às 22 semanas e tudo mudou…foi detetada a meningocele (o tipo mais grave da espinha bífida). Fui logo encaminhada para o Hospital Santa Maria em que tivemos todo o apoio de uma equipa maravilhosa que nos explicou o que passava e que chorou connosco. 

Tivemos de parar o coração do nosso menino e com ele foi uma parte de nós papás. 

Tem sido difícil, mas a esperança mantém-se e temos uma equipa médica que já nos garantiu que não nos vai abandonar. E depois temos uma sociedade toda ela retrógrada que não sabem o que este sofrimento e passa o tempo a questionar se somos bem acompanhados, se tomamos todas as medicações, se não temos a consciência que devemos parar… ninguém sabe o que vai no coração de uns pais que desejam ter filhos independentemente de já termos ou não filhos.

Não esquecemos nenhum filho e nenhum é substituível! Quando olho para o céu, sei que tenho 4 estrelinhas minhas e que têm um pai, mãe, e uma mana que os ama e fala constantemente neles.

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O nosso caminho juntos começou quando, em fevereiro, tive o nosso positivo! Chorei tanto de felicidade! No início deu medo, fiquei extremamente aflita pois queria dar o meu melhor e tudo era novidade. O nosso primeiro bebé, e desde logo o amor da nossa vida! 

Foi um início duro, com muitas náuseas, enjoos, e onde a minha energia vital estava toda dirigida a ti, filho. Não tinha energia para mais nada. 

Com o tempo, as coisas foram melhorando e voltei a ser eu mesma, e tudo corria bem contigo. As semanas foram passando e perto das 18 semanas tive aquela que tantas vezes disse ser “a melhor sensação da vida”: sentir-te pela primeira vez, Manel. O pai tanto tempo passava com a mão na minha barriga para ter um bocadinho daquele elixir da felicidade que tu me davas.

Os momentos contigo foram os melhores de sempre, foste a minha melhor companhia, já tínhamos uma rotina tão boa, tão nossa. As conversas, a música que ouvia contigo antes de dormir, tudo me faz falta. E não entendo…Quero entender o propósito de tudo o que nos aconteceu depois, mas quando penso em ti e em todos os momentos bons fico tão triste e revoltada. E não é suposto, tu foste e és felicidade! Com a notícia da tua chegada fizeste de todos nós à tua volta pessoas felizes, cheios de amor por ti. 

Com  21 semanas e 6 dias fomos fazer a Morfológica. Ainda tremo quando recordo o corredor, a sala e a médica insistentemente a procurar “algo”. No fim, quando me olhou nos olhos e disse “Algumas coisas não estão bem!” , o nosso mundo gelou! Após orientações seguiu-se amniocentese e posteriormente uma ressonância magnética fetal.

Todos os dias neste intervalo de exames foram pesados, muito pesados. Eu e o pai tínhamos o peso do mundo no coração, as noites de pouco ou nenhum descanso e muita ansiedade. Chegou o dia da RM, às 23 semanas, e após o exame a médica falou conosco e o pesadelo confirmou-se.

O nosso menino tinha um problema grave no Sistema Nervoso Central, que lhe iria infligir uma vida de sofrimento, preso no seu próprio corpo e onde estaria limitado em muitas coisas. Chorámos tanto nessa noite…por ti, por nós, pelos nossos sonhos e expectativas completamente destruídos. Tínhamos de tomar a pior decisão da nossa vida, até porque estávamos em contra relógio até às 24 semanas. 

Após falar com a médica que nos acompanhou e após nos ser dirigida mais informação, a nossa decisão foi tomada cheia de dor, mas também cheia de amor… O nosso amor por ti, Manel. Tinhas direito a uma vida plena, onde poderias fazer o que os outros meninos fazem, ter todas as oportunidades e mais algumas, não era justo para nós e não era justo para ti que assim não fosse.

Após assinar aquele maldito papel e ter recebido informação sobre o que iria acontecer depois, eu e o pai descemos daquela maternidade em lágrimas e muita, muita revolta. Chegámos ao carro e continuámos a chorar abraçados por largos minutos e a tentar digerir que teríamos de te dizer adeus, o adeus mais doloroso! Que crueldade!

Chegámos a casa, envolvidos num sentimento de impotência e de uma dor sem fim na alma, mas queríamos despedir-nos de ti enquanto ainda te tínhamos conosco. Enquanto o teu coração ainda batia dentro de mim!  O pai foi tão bom para nós em tudo, acho que sabes isso, ele foi a âncora do maior navio do mundo e esteve sempre lá. Fomos tirar fotos, comprámos as comidinhas que ainda não tinhas “provado” e tentámos dar-te o mimo que merecias. A demora acabou por ser maior que o suposto, e aguardámos uma semana até ser chamada para estar no hospital e dar início ao processo.

O dia 30 de junho chegou, dei entrada na maternidade e esse foi o pior dia desde que me lembro. Nem dores de parto, nem outras dores da vida me doeram como este dia doeu. O meu coração ficou por metade nesse dia, e a metade mais bonita foi a que foi embora!

Apesar de toda a dor, a minha única alegria naquele momento… Ia ver -te. E vi… Estavas tão quentinho no meu peito. O meu menino lindo!

Após internamento a parte mais dolorosa de todas, silêncio… Despedida! Estava na maca, a sala estava numa escuridão refrescante, estava perto da médica o suficiente para ter a minha mão sobre a perna dela, do outro lado a enfermeira. Fechei os olhos e enquanto elas faziam o seu trabalho, do início ao fim estive sempre a murmurar “a mãe ama-te muito, a mãe ama-te muito, a mãe ama-te muito…” Queria que levasses contigo esta certeza Manelinho! 

Neste momento o pai não podia estar conosco, nos momentos seguintes sim. No meio de tudo tivemos sempre conosco pessoas cuidadosas que nunca me deixaram sentir sozinha, médicos, enfermeiras e auxiliares que fizeram o que sabiam e podiam para minimizar o nosso sofrimento. 

Só lhes posso agradecer, sempre! 

O pai esteve connosco até às 22h. E no dia seguinte de manhã já estava lá novamente. E foi no dia seguinte que se iniciou a indução do parto. Dores, tremores, mais dores, frio e mais dores. Foi assim a tarde até que levei epidural, (algo que não seria suposto) por as dores estarem a ser muito fortes. Aliviou muito até ser hora do pai ir embora, já eram quase 23h, ele foi e as dores voltaram. 

Ainda estive algum tempo com dores e contrações cada vez mais insuportáveis, tudo era uma grande novidade para mim, tudo! Voltaram a dar-me medicação e voltei a descansar…Pouco. Eram 03:15 acordei e senti que eras tu…Algo estava diferente… chamei e as enfermeiras confirmaram, ia ver-te filho!

Apesar de toda a dor, a minha única alegria naquele momento…Ia ver -te. E vi… Estavas tão quentinho no meu peito. O meu menino lindo!

O resto, foi o resto… Perceber se estava tudo bem comigo, informações sobre o que se iria passar com o meu corpo, recomendações, alta médica, um colo vazio e um coração cheio de amor por ti. 

Os dias seguintes foram difíceis, ainda são, passou pouco mais de quinze dias. 

As perguntas são muitas, a culpa foi inevitável e ainda o é… Apesar de estarmos a trabalhar nisso! Quero encontrar paz, estar em paz comigo e com os outros. Vamos caminhando e tento todos os dias voltar a sorrir à vida! A nossa família toda tem sido um suporte incrível. Mas este é um processo tão solitário. 

 A ti meu Manelinho só tenho a agradecer. Vieste dar-me e ensinar-me muita coisa boa e a mais linda de todas elas, a ser Mãe!  Obrigada por me teres escolhido, por não teres desistido de mim. Quero muito acreditar que um dia, num lugar onde já não existir tempo, vamos voltar a encontrar-nos e aí, nunca mais vais sair do meu colo. 

Amo-te

A tua mãe.

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Perda gestacional Perda tardia

A interrupção da gravidez por razões médicas é mais comum do que possamos pensar. Para além da enorme tristeza pela perda de um bebé, de um filho, tem por detrás uma terrível decisão por parte dos pais. É o choque do diagnóstico, o peso e a culpa de ter de assinar um papel, a espera por uma autorização médica – às vezes vários dias, a espera por notícias sobre o internamento, são os últimos momentos com o nosso bebé, de uma enorme angústia, frustração, desilusão. Assim é o tumulto da interrupção médica da gravidez. Se estão a passar por esta interrupção e nos dias de espera, esperamos, de coração, que este artigo vos possa, de alguma forma, ajudar e trazer algum conforto. 

Podemos sentir que, de alguma forma, o nosso corpo falhou. Perguntamo-nos porquê? Porquê a mim? Onde falhei? Em primeiro lugar, queremos dizer que esta não é uma decisão sua — embora às vezes seja apelidada como “voluntária” — porque necessita de autorização dos pais — é, na grande maioria das vezes, uma decisão médica. 

interrupção médica da gravidez

Interrupção médica/voluntária da gravidez: quando pode ser feita

É permitida a interrupção até às 12 semanas de gravidez, se for indicada para evitar a morte ou danos físicos ou psicológicos graves e duradouros da grávida e até às 24 semanas de gravidez, caso se preveja que o bebé venha a sofrer de doença grave ou malformação congénita incuráveis. A interrupção médica da gravidez pode estar relacionada com problemas ao nível dos cromossomas, detetados, por exemplo, no 1º trimestre ou por exemplo por malformações fetais, mais comum, descobertas no 2º trimestre e por vezes no 3º — perda gestacional tardia. Cedo ou tarde é sempre uma perda e tem um impacto emocional muito grande no casal. Se está a passar ou passou por esta situação, lamentamos imenso. Saiba que não está sozinha e procure ajuda, se precisar.

Para além destes limites temporais, a interrupção voluntária da gravidez é ainda permitida, a qualquer momento, caso seja essencial para prevenir a morte ou danos físicos ou psicológicos graves e irreversíveis para a grávida ou caso se conclua que o feto não irá sobreviver.

Impacto emocional da interrupção médica da gravidez: e se?

Ainda assim e por mais que nos digam que não há outra opção, que nos aconselhem a avançar com a interrupção porque há uma grande probabilidade de não ser viável, são muitos os “e se” que nos passam pela cabeça. É normal. Mas saiba também que esta decisão, que, em última instância é “nossa” porque nada pode ser feito sem o nosso consentimento escrito — é um ato de amor. É porque os amamos que não os queremos ver sofrer. Mesmo assim é a decisão mais difícil das nossas vidas e nestes casos não existem certos nem errados. 

Sabemos que são momentos extremamente difíceis e, se necessitar, procure ajuda profissional

É também muito importante que tire todas as suas dúvidas com a equipa médica e que a informação que lhe seja transmitida sobre o seu bebé seja clara. 

O que acontece numa interrupção médica da gravidez?

Depois de ouvir o diagnóstico do médico, às vezes após ouvir até mais do que uma opinião, vão perguntar qual a sua decisão e terá depois uma consulta com alguns papéis para assinar. Se estiver a ser seguida num hospital privado será muito provavelmente encaminhada para um hospital/maternidade pública. Antes da interrupção o caso ainda é analisado por uma comissão de médicos chamada Comissão Técnica de Certificação que existe em cada estabelecimento de saúde oficial que realize interrupções da gravidez. Cada comissão técnica é composta por 3 a 5 médicos. Dela devem fazer parte obrigatoriamente um obstetra/ecografista, um neonatologista e, sempre que possível, um geneticista. 

Depois da autorização, segue-se o internamento, medicação e um procedimento semelhante à amniocentese para fazer parar o coração do bebé. Em seguida será induzido o parto

É importante que, antes de todos estes momentos, tenha conhecimento dos seus direitos e do que pode fazer se se quiser despedir do seu bebé. A equipa médica e de enfermeiros deverão informá-la do que pode ou não pode fazer e perguntar-lhe qual é a sua decisão e é importante que antes consiga saber, pensar e decidir. Uma vez mais, não há certos nem errados e, muitas vezes, nestes casos, a decisão dos pais, mas sobretudo da mãe, é com base em questões de sobrevivência naquele período difícil que estão a passar. 

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