Como é possível sentir tanta dor por um “ser” que conhecemos há semanas ou dias? Como é possível sentir que nos tiraram o chão com um simples silêncio numa ecografia ou com um papel a mostrar resultados não satisfatórios.
Como é possível, que depois desta dor, da constatação que já não vai crescer, ainda temos de lidar com a dor física? As alterações hormonais, que acumularam durante semanas ou mesmo dias…
Em 2019 descobri as 9s que o meu “bebé” já não tinha batimentos, agora, há dias, descobri por análises, que a minha gravidez não vai à frente e estou aqui a espera que o processo se desenrole sozinho, a “rezar” para não ter de tomar medicação, cheia de medo por não saber que tipo de gravidez é… Se ectópica, se não viável…tantas perguntas, tantas dúvidas..
É uma dor psicológica /física que ninguém quer, claro que há coisas piores, perdas piores, pais a passarem por isso sem nem sequer terem um filho, já tenho duas, posso agarrar-me a elas com todas as minhas forças, mas mesmo assim, ninguém nos tira essa dor.
Não há nada que se possa dizer, fazer, apenas aguardar que o tempo “cure”… Sinto, sinceramente, que da outra vez foi pior. Desta vez nem sequer ouvi o coração antes de levar com este desfecho, mas mesmo assim, quando se vê um positivo, por mais que saibamos que pode haver algo menos bom, temos esperança, ficamos felizes por mais uma pessoinha nossa, pela esperança de ser o tão desejado rapaz… Enfim, que dor!
Agora tenho medo da dor física, medo que não corra “bem” como da outra vez, medo de sofrer mais, medo de não me conseguir erguer, medo de desistir de mais uma gravidez…
Gostaria tanto que estas coisas deixassem de existir nas nossas vidas, que não houvesse abortos indesejados.
Que todos os pais que o querem ser, que possam ter o seu bebé, sem stress e sofrimentos, que nenhuma mãe e pai perca o seu filho (seja em que “idade” for)…
O meu desejo, é que todos esses pais encontrem paz, de alguma forma.
Estávamos de férias quando notei que tinha um atraso de 5 dias e pensei que já devia ter vindo o período, tendo em conta que sou regular. Numa dessas noites, passo na farmácia e faço o teste pela manhã; o qual dá positivo: duas linhas já bem demarcadas.
No dia seguinte pensei, “ok, se calhar é melhor avisar o nosso obstetra”. Enviei uma mensagem de WhatsApp com a imagem do teste, à qual o nosso obstetra responde a felicitar-me e a dizer-me que deveria iniciar iodo e ácido fólico, coisa que não estava a fazer, pois não tinha sido planeado ao contrário da B. e da M., em que foi tudo planeado ao milímetro e correu tudo ok.
Depois combinamos que, três semanas mais tarde, faria a consulta de vigilância e confirmação da idade gestacional.
Sentia-me com energia, sem grande fome e sono, apenas tinha o peito dorido. Numa dessas noites nas férias, senti moinhas fortes e arrepios de frio, mas não liguei. Pensei: “isto faz parte”.
Chegado o dia da consulta, estava ansiosa, pois pressentia que algo não estava bem (sentia que estava a ser diferente das outras vezes, sentia-me menos grávida, com menos sono, sendo um dos meus sintomas). O obstetra mediu a tensão estava bem, o peso estava ok e depois dirigi-me para a máquina de ecografias.
Quando o obstetra me coloca a sonda vaginal, olho para o ecrã e tenho dificuldade em ver o saco gestacional. O obstetra, muito sério, chega o aparelho para mais perto de si e diz-me que lhe parece uma gravidez inicial. Eu não fiquei nada convencida, pois, pelas minhas contas, estaria de 8 semanas e já daria para ver um embrião e ouvir um coração a bater, mas vi apenas um saco pequenino e uma vesícula vitelina.
Eu sabia que algo estava errado, pelas contas estaria de mais tempo e a intuição não me falhou.
No entanto, o obstetra mandou-me ir ter com ele na semana seguinte ao hospital para confirmarmos a evolução desta gravidez.
No dia combinado, fui ao hospital e as minhas desconfianças confirmavam-se: tinha uma gravidez anembrionária.
Eu sabia que algo estava errado. Pelas contas estaria de mais tempo e a intuição não me falhou aqueles arrepios já podiam ser o início de um aborto.
Nesse momento tive de decidir, ou esperar que tudo se desse espontaneamente ou induzir com misoprostol. Eu decidi pelo misoprostol e compareci em jejum no dia previsto.
Depois da medicação, e muitas horas de espera fui com obstetra até ao ecógrafo para vermos como estavam as coisas. Disseram-me que estava limpa e podia ir para casa e que teria de fazer eco 3 semanas depois para avaliação. Chega o dia da ecografia, o ecografista diz-me que o útero está muito heterogéneo e que ainda tinha restos ovulares.
Em conversa com o meu obstetra decidimos que eu iria para um privado fazer a histeroscopia, onde ele em tempos me fez os partos.
Ando há 3 meses em processo de aborto, que só terminará com uma nova eco de avaliação onde terei a luz verde do obstetra.
Não basta o sofrimento que um aborto provoca, senão todo o processo. Esperamos o nosso bebé arco-íris.
Quando estamos no primeiro trimestre de gravidez, para além da ecografia, fazemos também um rastreio bioquímico através da recolha de uma amostra de sangue a ser realizada entre as 9 e as 13 semanas e 6 dias. Este rastreio vai determinar, precocemente, se existe ou não um elevado risco para a Pré-Eclâmpsia (PE) e aumenta a probabilidade de um melhor prognóstico para a gravidez.
Se este exame der positivo, os médicos poderão tomar medidas para evitar o desenvolvimento desta doença, como por exemplo, uma vigilância mais apertada e a toma de aspirina de baixa dosagem.
“É muito importante fazer o rastreio da doença quando se faz a ecografia do primeiro trimestre. Se o risco for elevado, inicia-se a aspirina para baixar a probabilidade da mãe vir a ter PE”, explica a obstetra Lara Caseiro.
Se esta doença se desenvolver, como se manifesta? A Pré-Eclâmpsia começa a ocorrer no início da gravidez e é caracterizada por: Hipertensão (aumento da pressão arterial) e Proteinúria (eliminação das proteínas na urina).
Quais os fatores de risco para a pré-eclâmpsia?
Existem vários fatores de risco e fatores que são usados, como os denominados marcadores bioquímicos, que vão ser utilizados no rastreio do 1º trimestre.
A história materna, por exemplo, se ou não a primeira gravidez ou se é uma gravidez resultante de procriação medicamente assistida, e a idade da mulher são fatores que podem aumentar o risco de pré-eclâmpsia: idades reprodutivas extremas, ou seja, menos de 18 anos e maior do que 35.
Existem também marcadores biofísicos ( Índice de Massa Corporal (IMC) e a Pressão Arterial Média (MAP)), ecográficos (Índice de Pulsatilidade da Artéria Uterina (uA-PI), e bioquímicos (Proteína A plasmática associada à gravidez (PAPP-A) e Fator de Crescimento Placentar (PlGF).
A PAPP-A é uma proteína que está associada ao crescimento da placenta e o PIGF, produzido precisamente na placenta, atua como vasodilatador e que aumenta o diâmetro das artérias existentes.
No primeiro trimestre, o rastreio da PE consiste precisamente na PAPP-A, juntamente com o índice da artéria uterina, a PAM e as características da mãe (IMC, doenças concomitantes e pré-eclâmpsia em gravidez anterior) é que faz o rastreio da PE. “Depois das 20 semanas, outros marcadores, detectados com análises ao sangue, são mais importantes, como o PLGF e o sFLIT (tirosina quinase solúvel)”, explica Lara Caseiro.
Mas o que estará na origem desta doença? Embora a causa exata da pré-eclâmpsia permaneça incerta, existem fortes evidências de que uma das principais causas seja uma implantação deficiente da placenta.
Quais são os sinais e sintomas da Pré-Eclâmpsia?
A hipertensão, que surge após as 20 semanas de gestação, é o sinal mais comum de pré-eclâmpsia. Outros sinais e sintomas podem incluir, por exemplo, aumento súbito de peso, edema das mãos e pés, alterações na visão, náuseas, ou dores de cabeça.
Quais as consequências da Pré-Eclâmpsia e como “tratar”?
A Pré-Eclâmpsia está associada, muitas vezes, a restrições de crescimento do bebé e não tem um tratamento. Uma das formas de “tratamento” é a indução precoce do parto, pois, em casos mais graves, esta doença pode levar à morte da mãe e/ou do bebé, podendo aliás ser uma das causas da perda gestacional. Os partos prematuros são uma das consequências do desenvolvimento desta patologia.
A prevalência da pré-eclâmpsia em Portugal atinge os 2 % das gravidezes.
Este artigo contou, para a sua elaboração, com a colaboração da médica obstetra Lara Caseiro.
Foi no dia 12.08.2021 que, numa consulta, soube que muito silenciosamente vivias dentro de mim. O teu coração batia e, agora consigo dizê-lo, foi naquele momento que te comecei a amar incondicionalmente.
Todas as ecografias, análises, consultas corriam bem, as semanas iam passando e tu cada vez davas mais sinais de ti, reagias aos estímulos dos doces sabores e acordavas-me por vezes bem cedinho com as tuas brincadeiras.
Cada dia que terminava era mais um, até que chegava à sexta-feira e era mais uma semana de vida cá dentro que o papá colocava no calendário.
A barriga cada vez maior e linda. Até que chegou o dia em que tudo parecia desabar…31.10.2021, 23 semanas e 2 dias, rompimento prematuro da membrana com perda do líquido amniótico. “O caso é muito sério”, dizia a médica na urgência gelada daquela Maternidade.
O meu mundo, o meu sonho, a minha vida parecia desabar. Internamento, doses e mais doses de medicação, análises e mais análises e tudo ruía a cada minuto, os valores da infeção aumentavam, o bebé não tinha líquido amniótico suficiente para continuar a desenvolver-se e eu estava em risco.
Era inevitável, tínhamos que interromper o que de melhor tínhamos conseguido, o meu mundo desabou, que dor, por mais que queira expressar por palavras, todas são insuficientes.
Como é que te ia arrancar desta tua casa, deste teu porto seguro, quando te sentia tão vivo, tão bem, o meu maior amor, o meu Lourenço.
04.11.2021, 16:30h, 590 gramas.
Senti tudo, a dor física de um parto normal, sem tempo para epidural, a dor no coração de uma mãe que, depois de tudo, saía daquela sala de parto sem nada. Onde te arrancaram de mim tão cedo e me deixaram um buraco vazio, uma dor insuportável e interminável, tal como as lágrimas que me escorrem desde então.
No dia da alta, descemos aquelas escadas sem nada, nós e a maior dor da nossa vida… Completamente sem norte, sem rumo…
A esperança no futuro é a única coisa que nos pode salvar, mas o medo de não conseguirmos uma nova luz por vezes passa e quebra-me.
Eu sentia-te tanto, conversávamos tanto, ouvíamos música, contava-te histórias, dava-te mimos. Juntos já tínhamos preparado algumas das tuas roupinhas, tínhamos tudo tão arrumadinho…
Um sonho interrompido e roubado e uma ligação para sempre…
Somos pais do Lourenço e ele viveu feliz e brincou dentro de mim e só conheceu Amor durante 23 semanas e 5 dias
Em junho de 2021 descobri que estava grávida. Não quis acreditar. Parecia que estava num sonho.
Preparei toda uma surpresa para anunciar ao meu namorado. Saber que estava a gerar uma vida dentro de mim foi das melhores sensações que já tive. Senti-me tão viva.
Uma vez que isto era tudo novo para mim, pedi ajuda em como prosseguir daí para a frente. Marquei uma consulta de ginecologia para perceber se o embrião estava no sítio certo, de quanto tempo estava e se o coração batia.
Quando finalmente chegou a hora da consulta, lá fui. Estava tudo certo, o embrião estava no sítio certo, estava de 7 semanas (mais uns dias, menos uns dias) e consegui ouvir o coração a bater. Que som lindo. Que alívio.
Passaram-se mais umas semanas e marquei então a minha primeira ecografia obstétrica. Estávamos a 24 de julho quando fui então realizar a ecografia. Estava uma pilha de nervos, pois morria de medo que alguma coisa não estivesse bem. Chegou a hora, entro no consultório, a doutora explica-me o que se iria proceder e até aí tudo muito bem. Começou a fazer a ecografia e senti um silêncio que para mim não fazia sentido. Comecei a perceber que alguma coisa não estava bem. A doutora lança um suspiro e começa por dizer que o meu bebé apresenta um valor de Translucência Nucal elevado e que não estava a conseguir ver uma parte do coração mas que isso podia ser da posição do bebé ou pelo facto do coração ainda ser muito pequenino.
Neste momento, senti o chão a cair. Foi um balde de água fria.
Estamos habituados a ouvir que enquanto somos novas o risco de um bebé vir com algum problema é muito baixo. O que é certo é que com 24 anos e numa primeira gravidez, não esperava isto de todo. Chorei. Chorei muito. A doutora acalmou-me e explicou-me aquilo que a partir daquele momento seria o que eu deveria fazer: Biópsia das Vilosidades ou amniocentese.
Acho que nunca me tinha sentido tão perdida, tão confusa, tão sem saber o que fazer. Fui embora do consultório completamente destroçada e o pior foi tentar explicar ao meu namorado, que não pôde entrar comigo, tudo o que eu tinha ouvido. Contactei de imediato o meu médico de família para explicar a situação e ele fez-me uma carta para ir de urgência para o Hospital Público. Assim foi. Entro nas urgências de ginecologia e obstetrícia, na qual fui rapidamente chamada e aí conheci aquela que eu senti que iria ser a minha médica, a que eu queria que me acompanhasse até ao fim. Uma pessoa de uma empatia extrema.
Ela examinou-me e aconselhou-me a realizar uma biópsia das vilosidades, uma vez que estava entre as 11 e as 12 semanas, e que era o exame que mais rapidamente me iria dizer o que estava errado com o meu bebé. Passaram uns dias e chegou a data marcada para fazer a biópsia. Estava tão nervosa, tinha medo que alguma coisa pudesse correr mal, mas ao mesmo tempo descansada porque tinha sentido de imediato uma grande confiança naquela médica. Correu tudo bem. O exame realizou-se rapidamente e sem complicações e a recuperação também foi boa. Ao fim de uma semana iria receber o resultado rápido do exame onde me seria dito se o bebé tinha algum tipo de trissomia ou síndrome e ao fim de aproximadamente um mês vinha o resultado mais detalhado.
Passou-se uma semana e recebo uma chamada do Hospital a dizer que não tinha sido detectado nenhuma trissomia, mas que sim, havia uma alteração com o bebé. Fomos chamados para ir pessoalmente ao hospital para que a médica nos dissesse qual seria então a alteração. Lá fomos.
Ficámos a saber que era uma menina e tinha síndrome de Turner. Uma alteração no cromossoma sexual feminino e que é sobretudo um problema hormonal.
Em Portugal, não é possível interromper a gravidez numa situação destas, pois é uma síndrome que tem tratamento. Se bem que também não era algo que fossemos fazer num caso desses. Recebemos a notícia, interiorizamos e aceitamos. A nossa filha vinha e nós íamos aceitá-la independentemente se tinha Síndrome de Turner ou não.
Ao fim de um mês recebemos então o resultado detalhado no qual não tinha sido diagnosticado mais nenhuma malformação genética na minha filha. Às 18 semanas ia ter então uma nova ecografia obstétrica com a minha médica. Desta vez eu estava mais calma, já sabia qual era o problema e sentia-me confiante que o resto estaria bem, que já tínhamos tido a nossa dose de stress.
Estava enganada. Estava tudo mal. Quando a minha médica começou a fazer a ecografia houve novamente um grande silêncio. Silêncio demais. Percebi que, afinal, algo mais não estaria bem. Diz-me que o coração não estava normal. Senti-me novamente sem chão. Um balde de água gelada, um choque.
Ouvir que aquele bebé, tão desejado, tão querido por nós, não vai aguentar, foi das piores coisas que já ouvi. Ninguém está preparado para ouvir que o nosso filho não vai sobreviver. Faz-nos duvidar de tudo, de nós, do nosso corpo, da nossa fé.
Tive de interromper a minha gravidez às 19 semanas e 4 dias. Fui internada no dia do aniversário do meu namorado, senti as piores dores da minha vida. Fisicamente e psicologicamente.
Não sei como uma mulher consegue suportar tal dor. Até hoje, não sei como consegui sobreviver àquele que foi para mim o pior dia da minha vida. Foi dar à luz um bebé que não vinha para o meu colo, que fazia parte de mim, mas que não era mais nosso.
Apesar de ter tido o privilégio de poder ter o meu namorado comigo naquele dia, num quarto em que estávamos só os dois, nunca me senti tão sozinha, tão esquecida por Deus.
No dia seguinte após a interrupção uma equipa diferente veio-me visitar e ver se estava tudo bem e se tinham ficado restos dentro de mim. Verificaram que tinham ficado alguns resíduos e perguntaram-me se eu queria continuar internada ou se queria ir para casa onde tinha de fazer medicação para que o corpo expulsasse os restos. Eu só queria sair dali, precisava de sair dali. Optei por fazer a medicação em casa e disseram-me para regressar ao fim de uma semana. Assim foi.
Regressei para a consulta e desta vez seria com a médica que me tinha acompanhado até então. Os resíduos não tinham saído, pelo que tiveram de me tirar na hora. Estava cansada. Não suportava mais todo aquele inferno. Só queria que aquilo acabasse.
A médica mandou-me regressar ao fim de dois dias para verificar novamente se já estava mesmo tudo bem. Ao fim de dois dias regressei, ela verificou e finalmente ouvi as palavras que tinha saído tudo e que estava limpo, tinha acabado.
Só aí senti que finalmente este pesadelo ia acabar. Acabava fisicamente, mas continuava psicologicamente.
Senti que precisava de recomeçar, precisava de me encontrar. Foi-me oferecido apoio psicológico no hospital, mas eu optei por procurar apoio fora do hospital. Aquele sítio dá-me ansiedade.
Neste momento, estou a ter acompanhamento psicológico e estou-me a encontrar. Estou aos poucos a recuperar força em todos os sentidos.
Algo que me ajudou muito também, foi procurar páginas onde eu pudesse ler outros testemunhos e sentir-me abraçada por outras mulheres que também já passaram por isto.
Decido escrever a minha história com algum medo, mas com coragem. Existem vários tipos de perda, a que não controlamos e aquela em que temos a difícil tarefa de decidir. Desta última pouco se fala, pois é tão susceptível de julgamentos. Mas acreditem, o maior julgamento é aquele que fazemos a nós próprias. Mas tem de ser falado, e acima de tudo tem de ser compreendido.
A minha história é composta por um aborto espontâneo, o nascimento do meu bebé arco-íris, e mais recentemente uma interrupção médica da gravidez.
Em finais de 2018, pela primeira vez, um teste positivo de gravidez! Um bebé planeado e muito desejado. Por motivos profissionais tinha de avisar logo no trabalho pelo que pensei: “se os meus colegas iriam saber da minha gravidez, claro que também vou contar à minha família!”. Longe de saber que algo poderia correr mal, o que poderia correr mal? nada! bem, não foi bem assim. Fui uma em quatro. Às seis semanas de gestação comecei com hemorragias, uma ida às urgências em que pude ouvir (pela última vez) o bater do coração do meu filho, mas que nada se podia fazer além de ir para casa em repouso. Mais dois dias com hemorragias até que fui com o meu Obstetra e em que já não havia nada… Um vazio. Foi um choque muito grande. Por ingenuidade, ignorância, e até por tabu da sociedade a questão do aborto espontâneo não é/era uma coisa que se falasse abertamente, até que depois do que me aconteceu comecei a ouvir de pessoas próximas “a mim também já me aconteceu”, “acontece muitas vezes”. Mas diz-se baixinho, porque lá está, não são assuntos para se estar a falar. Tantas de nós sofremos em silêncio, que não conseguimos homenagear e falar sobre um ser que tanto amamos mas que só conheceu o bater do nosso coração.
Consegui engravidar alguns meses depois e 2019 foi um ano mágico, o ano do nascimento do meu bebé lindo, do meu Henrique, que me enche de orgulho de ser Mãe. Tive uma gravidez calma, sem mal-estar, com muita confiança mas com receio, claro. Mas infelizmente certas palavras que ouvimos marcam-nos, e nunca me vou esquecer de no meio de tanta felicidade pelo meu bebé arco-íris alguém me dizer: “vê lá se agora tens cuidado!”…
Entramos aqui num caminho que é tão difícil de lidar, se por um lado precisamos de falar sobre o vazio que sentimos quando perdemos um filho repentinamente, até que ponto não é falado para nos protegermos a nós próprias? O caminho só nós próprias o podemos fazer, o luto é nosso e do companheiro, mas a solidão torna-o numa luta que no meio de tanta dor pode tornar-se difícil de ultrapassar. Mas ultrapassamos.
Assim, depois do meu bebé arco-íris existe outra história nesta minha história que por ser tão recente ainda me dói, e que sei que me vai acompanhar por toda a minha vida. Um poder que nunca quis ter nem pensei em ter, que é o poder da decisão. A vida é feita de decisões, isso todas sabemos, mas a decisão que é feita para a Vida, ou não, é algo que é tão intenso quando destruidor. Mas não podemos deixar que nos destrua, porque sabemos que foi uma decisão de Amor.
Neste ano de 2021, em junho, teste positivo de gravidez! Bebé pensado mas não propriamente planeado, mas que no meio do receio o amor e entusiasmo ia crescendo a cada dia que passava. Na ecografia do primeiro trimestre o Obstetra revelou algo que não contávamos, um valor que não estava em conformidade, que ultrapassava ligeiramente o valor expectável. A amniocentese tinha de ser realizada. O tempo de espera até poder ser realizada a amniocentese e o tempo que leva a saber resultados cria um turbilhão de sentimentos tão ambíguos quanto contraditórios: é a esperança versus o desespero, a certeza de que está tudo bem mas… e se? e se? não pode ser! A ansiedade cresce de uma forma que esgota, cansa, desgasta. Quer seja uma semana, quer seja um mês, nada nos prepara para quando ouvimos “não temos boas notícias”. Alteração do cariótipo, Trissomia. Por termos esperado algum tempo pelos resultados já tínhamos uma decisão, mas que não deixa de ser a decisão mais difícil da nossa vida. Decidimos a interrupção médica da gravidez. Não interrupção voluntária, médica. Apesar das alterações cromossómicas serem compatíveis com a vida, existirá qualidade de vida? Todos queremos qualidade de vida para os nossos filhos, queremos felicidade, autonomia para quando não existirmos no mundo, e saúde acima de tudo, mas… e quando isso não é possível? somos egoístas por não arcarmos com as consequências de dar continuidade à vida ou hipócritas por acharmos que poupamos a uma vida de sofrimento? Ou seremos altruístas por decidirmos sermos nós a sofrer sem um filho para ele não sofrer?
Às 21 semanas e 4 dias conheci e despedi-me do meu filho, tive um parto em que só ouvi o meu choro e um vazio tão grande. Tive o meu bebé nos meus braços, toquei na sua linda cara e mãos perfeitas e pedi-lhe desculpa… desculpa-nos João Eduardo, perdoa-me meu filho…
Este meu testemunho está cheio de reflexões, de dor e dúvidas mas que sei que vou superar. Desengane-se quem desvaloriza o poder de uma decisão, desengane-se quem acha que é de ânimo leve. A perda gestacional também pode ser feita através de uma decisão, também é válida e traz muita dor. A mim dá-me alento a seguinte frase: “Amar um filho é querer o melhor para ele, mesmo que o melhor seja não o ter”. Que ajude a apaziguar alguém, e que ajude na compreensão do que é incompreensível para muitos.
Muito se ouve falar sobre o assunto “Perda Gestacional”, mas não o suficiente para uma sociedade que não está preparada para acolher mães que passam por esta dor, quase parecendo um assunto “tabu”. Diz o povo que rodeia estas mães, que o “tempo cura e tudo passará” ou “para a próxima correrá melhor”.
Mas não, não passa. Não conseguimos pegar numa borracha e apagar aquele que foi o pior dia das nossas vidas… Foi a perda de um filho, de um sonho, de um projeto de vida.
@amorparalemdalua – Claudia
Por expressões como esta, tantas vezes ouvida por mim, que vos falo da minha experiência. Fui mãe…mãe durante umas semanas e no fim do tempo saí, sozinha, de colo vazio.
Tenho 35 anos e desejo ser mãe. O sonho, que enfrentei tanto tempo, tornara-se real, o tão desejado “positivo” naquele teste.
Chorei de felicidade, mais do que qualquer dia da minha vida. Agradeci, e pensei: “Afinal Deus existe!”
No dia em que todo este pesadelo aconteceu, questionei-me… “o Deus a quem agradeci há várias semanas, existiria mesmo?”.
Ainda hoje procuro a razão para fazer as pazes com Ele. Precisei de tempo, ainda preciso de tempo.
Preciso perceber o porquê!
Um dos sentimentos que me invade, é, sem dúvida, o da inferioridade. Por mais que me digam que não, acabo sempre por me ver como uma mulher inferior às outras.
Infelizmente, para muitos casais, um positivo não iguala o bebé desejado (diz a média que 1 bebé em cada 4 positivos).
A perda gestacional e neonatal é a realidade de muitas famílias. Dói, dói muito. É uma dor tão silenciosa, que com toda a certeza, sem ajuda não te consegues erguer! Não há que ter medo, não há que ter vergonha. Fala e deixa que falem contigo e pede-lhes que falem sobre o trágico e insaciável assunto que te invade. Evitar falar, como se nada tivesse acontecido, nada resolve, só atrasa o processo de recuperação e tornar-se-á um trauma ainda maior.
Ele nasceu e ao ver aquele tão pequenino ser, percebi que não havia nada a fazer
Já o era antes, uma “BoaDrasta”, como eles me distinguem das comuns madastras, de três crianças incríveis, tenho um COMPANHEIRO como não existem muitos, e foi com esta família, tão minha, que encontrei forças para aquele momento em que ouvi: “As águas rebentaram, a gravidez chegou ao fim, está tudo bem com o bebé mas infelizmente temos que provocar o parto” não tivesse desistido de tudo.
Foram, sem dúvida, as palavras mais sufocantes que ouvi em toda a minha vida. Perdi o chão, perdi o sentido de viver. Foram 4 dias, sozinha num Hospital, que a cada minuto que passava parecia mais frio e escuro. Não fosse todo este episódio terrível, ainda tive de enfrentar as restrições do tal COVID.
Um primeiro parto, de um primeiro filho, ali sozinha, agarrada ao braço de uma enfermeira, que sem a conhecer de parte alguma, sei que sofreu comigo.
Deixei de perceber o sentido das coisas, e juro, que até ao meu filho nascer, estava convencida que ainda havia esperança. Mas não.
Ele nasceu e ao ver aquele tão pequenino ser, percebi que não havia nada a fazer. O meu sonho tinha chegado ao fim.
Não consigo relembrar-me de muita coisa, acho que o cérebro parou e naquele momento só queria fugir para casa, recuperar forças e encontrar-me novamente.
o nosso filho chegou ao fim da sua viagem com o propósito de nos unir ainda mais.
É importante e urgente haver mudanças no tratamento que se dá a estes casos, a estas que foram mães durante umas semanas.
Não é humano estarmos internadas num serviço, onde à nossa volta só existem bebés, onde o choro deles entoa-nos a perda. Existem mães de colo preenchido com o tão desejado filho, e nós estamos ali, isoladas de tudo, invadidas de uma revolta imensa a questionar a razão de tal perda, de tal acontecimento!
A todas nós que somos mães deste infortúnio, acreditem que não estão sozinhas.
É importante procurarem ajuda. Eu procurei de imediato, não é vergonha nenhuma, bem pelo contrário, é sinal de muita coragem. Façam tudo ao vosso tempo, sem pressa. O luto é importante, mas à vossa maneira. Não se deixem pressionar por ninguém, pois ninguém consegue imaginar o que estás a passar.
Hoje, passados alguns meses, consigo dizer que tudo aconteceu por uma razão. Qual? Não sei, mas tenho sempre na cabeça a frase que o pai do meu filho me disse: “o nosso filho chegou ao fim da sua viagem com o propósito de nos unir ainda mais”.
E eu, acredito que sim.
Hoje, celebro-me como alguém que sobreviveu a esta tão silenciosa batalha, com tantos momentos vulneráveis. Sou uma sobrevivente. Não um super-herói, mas vivo como tal. No fim de tudo, estou aqui, estamos aqui. Sobrevivemos à dor da sua perda.
Como lidar com a perda gestacional e neonatal? É uma pergunta aberta e que não tem nem respostas certas ou erradas. Porquê? Porque cada pessoa faz o seu luto e lida com a perda de forma diferente. Há quem queira falar sobre a perda e que não se evite o assunto. Há pessoas mais reservadas que só querem estar no seu canto e que preferem o silêncio. Cada pessoa tem o ritmo naquela que é uma recuperação que tem muitos altos e baixos. Neste artigo, procuramos ajudar a dar algumas respostas sobre como superar esta perda, aliás, como aprender a viver com ela.
E, lembre-se, o tempo não cura tudo. O nosso processo durante esse tempo e o que fazemos é que vai ajudar a sarar as feridas.
Não havendo uma forma certa ou errada, deixamos alguns conselhos que a podem ajudar.
Conselhos para lidar com a perda gestacional ou neonatal
Peça ajuda, se precisar
Se precisar de ajuda, por favor procure-a. Pode ser através de amigos ou familiares em quem confie, através de apoio psicológico ou contactando com pessoas que tenham passado por uma situação idêntica. O Amor para Além da Lua, por exemplo, tem um grupo privado de apoio à perda gestacional no qual pode participar. Temos também uma secção de testemunhos onde pode ler histórias de perda gestacional (precoce ou tardia) e neonatal.
É muito comum as pessoas, não sabendo o que dizer, tentarem ajudar ao dizer “tens de superar e ter força”, “és nova vais ver que bem rápido vais ter outro filho”, “anima-te”. A intenção é a melhor e a nossa tendência é julgar-nos e acharmos que temos de reagir e ultrapassar. Às vezes, ao querer fazer o caminho mais curto, não nos permitir sentir tristeza e pensar no assunto, é apenas varrer “um assunto para debaixo do tapete” e adiar o inadiável. É importante deixarmo-nos sentir tristeza, levarmos o nosso tempo, fazermos o nosso luto.
Aceite os seus sentimentos e tente esclarecer as suas dúvidas
Os dias, semanas e meses após a perda de um bebé são extremamente dolorosos e a verdade é que sentimos, e é um facto, que não há palavras para nos confortar. Se sentir revolta, raiva e angústia, saiba que é perfeitamente normal. Nestes dias parece que caímos num enorme buraco e que não vamos conseguir sair dele. Sentimos a perda de forma forte no nosso corpo. Arrancaram-nos uma parte de nós.
Procure saber junto dos médicos quais foram as causas da perda do seu bebé. Poderá ajudá-la a amenizar a sua culpa e a encontrar as respostas que necessita para conseguir lidar com a perda gestacional.
Apoie o seu companheiro
“Do lado de fora”, mas também de dentro, está o pai. O pai que luta para ver a mulher bem e que tudo faz para a amparar e ser um pilar no meio da dor. Converse com ele e procure falar sobre os seus sentimentos. Superar uma perda pode ser mais fácil a dois e pode fazer com que o pai se sinta menos sozinho.
Não se culpe, nem julgue (ou pelo menos tente): o impacto na intimidade
É normal, após a perda gestacional ou neonatal, haver um abalo na intimidade. Para além da enorme perda ter impacto na vida íntima, porque nos sentimos mal física e psicologicamente, as relações sexuais são muitas vezes associadas à gravidez. Saiba que é normal haver um afastamento sexual e impacto na intimidade. Dê tempo ao tempo e não se culpe por este impacto.
Lidar com a perda gestacional e neonatal não é fácil e é uma caminhada. Aliás, para uns pode ser uma caminhada e para outros pode ser uma maratona. O importante é não parar de andar e ter esperança porque os dias melhores vão chegar.
Para além de consultas de psicologia com profissionais especializados no luto, há também, para alturas de maior urgência, linhas telefónicas de apoio psicológico. Não está sozinho(a)!
Centro SOS-Voz Amiga: Ajuda na solidão, ansiedade, depressão e risco de suicídio : 213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660 (Diariamente das 15:30 à 00:30)
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Em dezembro de 2020, eu e o Papá tomámos a decisão de, em janeiro de 2021, procurarmos ajuda para conseguirmos o nosso tão desejado bebé que, durante 10 anos não tínhamos conseguido.
E a vida, em janeiro de 2021, acabou por nos presentear com uma bebé, quando nós mesmos já tínhamos perdido a esperança…estava grávida de 4 semanas.
Foi uma emoção tão grande! No meio de tantos negativos, aquele positivo foi um misto de sensações que não soubemos controlar.
Para que tudo corresse bem, procurámos as melhores clínicas de Portugal para realizar todos os exames, no qual todos estavam bem e a correr dentro da normalidade.
Dois dias após perder a minha avó (que era mais que minha mãe), realizei a primeira ecografia mais profunda onde se iria saber o sexo da bebé e ver se estava tudo OK. Foi impedida a entrada de acompanhantes.
Foi detetada uma translucência nucal muito elevada e a menina estava muito inchada, ao qual a médica me disse, sem problemas “A bebé não vai sobreviver, pode morrer a qualquer momento “…
Seguiu-se uma série de exames e ecografias, tal como a biópsia das vilosidades, que não detetou nada…a menina era, aparentemente, saudável.
Chegando às 21 semanas, nas últimas ecografias que realizei, a médica informou-me que a menina tinha uma hérnia diafragmática congénita, problemas cardíacos graves e estômago colapsado. O mais certo era a menina morrer ainda na barriga… mas, caso não acontecesse, acabaria por morrer numa das operações que iria ter que realizar à nascença.
Informaram-me que o melhor seria interromper a gravidez…Não quis acreditar que a vida me iria tirar o chão!
Tinha acabado de perder a minha avó e iria ter que acabar por perder a bebé que me deu força naquela partida tão dura.
A Benedita era a bebé mais desejada deste mundo. Tanto eu, como o Papá dela, a desejávamos com todo o nosso coração.
Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida
A Benedita já tinha o quartinho pronto e mais roupa que os Papás, que reviraram o mundo e percorreram em 6 meses mais médicos diferentes que em 6 gravidezes normais juntas.
A Benedita esteve 21 semanas e 3 dias dentro de mim. Permitiu-me ser mãe, realizou-me um sonho, mesmo tendo-me tornado mãe de colo vazio. A Benedita deixou-me senti-la durante horas, logo após as 17 semanas; não deixava dormir a Mamã e acalmava sempre que sentia o Papá.
Tinha o narizinho e os pés do Papá e adorava dormir toda enroladinha como a Mamã.
A vida é de facto injusta, e comigo tem sido avassaladora desde sempre. Quem diria que eu, que desde pequenina que sonhava com esta menina, iria ter que passar um processo destes tão doloroso. Eu, que me agarrei à esperança de que ela estivesse em crescimento e fosse apenas teimosa como a Mamã.
Tive que ter o acto de coragem mais difícil de toda a minha vida, por ela, para que não sofresse.
Passei pelo meu primeiro parto, sozinha, 4 dias num hospital, devido à pandemia “mais devastadora” do momento. Senti-a encostada às minhas pernas, grandinha e quentinha.
Mesmo tendo dado à luz uma bebé sem vida, ela deu-me o dia mais feliz da minha vida.
O mais fácil é sempre dizer : “ És nova, terás outro! ” … A questão não está em ter outro, a questão está em ter sido uma bebé tão desejada durante anos.
Ninguém sabe, para além de mim e do Papá dela, o quão difícil foi aquele primeiro positivo, que nem sabíamos como reagir de tão felizes que estávamos.
O medo permanecerá sempre. E a saudade também.
E se há coisa que me faz sentir perto da minha filha, é estar abraçada ao Papá dela.
A Benedita será sempre o meu anjinho mais bonito do céu. Tudo acontece por uma razão…O meu arco-íris há-de chegar… Mas a Benedita fará sempre parte das conversas do dia-a-dia cá de casa! E será das maiores luzes na nossa vida, como o tem sido até agora, desde a sua partida para longe de nós!