Vou falar-vos da Francisca, a luz da minha vida. Eu e o pai decidimos que em Setembro de 2021 seria uma boa altura para começarmos a tentar engravidar. E foi, de facto, uma boa altura. A 7 de Novembro veio a boa notícia: a Francisca já estava dentro de mim.
No dia seguinte fomos ao médico e fizemos ecografia que confirmou: lá estava um pequeno saquinho com 5 semanas.
Eu estava cheia de medo, insegurança, receio. Sempre a achar que na próxima ecografia nos diriam algo que não queríamos ouvir. Aquele medo de mãe.
Mas o tempo foi passando, e às 8 semanas ouvimos o coração daquele bebé tão desejado.
Às 12 semanas, a ecografia morfológica confirmou que estava tudo bem e a nossa bebé (ainda sem sabermos que era uma menina) seguia forte.
De três em três semanas lá íamos nós ao nosso médico e lá estava ela, a mexer-se muito. E o médico dizia isto a cada consulta: “Vai ser comprida como o pai”. O pai mede 1,93m.
Em Fevereiro de 2022, ao contrário do que eu previa, é-nos dito que vinha aí uma menina. Não tinha nome, só tínhamos nome para menino…
Até que o pai, um dia, olha para mim e diz “vai chamar se Francisca”. Fomos ver o significado e dizia “francesa livre”. E o pai é francês. Então sem dúvida ficou o nome decidido, Francisca.
O tempo foi passando, a barriga cresceu, a alegria e felicidade também. E aí comecei a crer que sim, que já não ia acontecer nada, que a nossa Francisca tinha vindo para ficar.
No fim de Maio, numa ecografia morfológica, dizem-nos que a Francisca era magrinha e comprida, que a mãe devia repousar mais.
Calhou bem, pois só nessa semana eu tinha acabado de preparar as roupas.
E eu cumpri. De 15 em 15 dias lá íamos nos ver da Francisca e ela engordava mas muito pouco.
Até que, três semanas antes do seu nascimento, comecei a senti-la cada vez menos. Supostamente estava tudo bem, diziam os médicos. Mas eu sentia que não.
Quando ma deram nos braços para me despedir, soltou o único som que lhe havíamos ouvido nos seus poucos 5 dias. Conheceu-me, eu sei que sim.
Entre idas à urgência e a certeza dada que tudo estava bem, entro em trabalho de parto que se revelou muito rápido, rápido demais.
A Francisca não aguentou as contrações porque afinal tinha uma restrição de crescimento grave. Tudo nela era pequeno, a placenta, o cordão. Menos ela: media 53cm.
No trabalho de parto, entrou em sofrimento e ficou privada de oxigénio. Por isso, nasceu de uma cesariana improvisada, no meio do caos. Foi reanimada 5 vezes e internada no Hospital Pediátrico de forma a se conseguir controlar os danos. Mas os danos eram irreparáveis.
A RM confirmou: a Francisca não tinha atividade cerebral e só o ventilador a mantinha ligada a nós.
Então, num dia quente de domingo, cinco dias depois da nossa luz ter vindo ao mundo, decidimos desligar o suporte de vida.
Quando ma deram nos braços para me despedir, soltou o único som que lhe havíamos ouvido nos seus poucos 5 dias. Conheceu-me, eu sei que sim.
Nove meses de amor não se esquecem assim.
E assim, nos braços do seu querido pai, a Francisca esteve sem ventilação uns breves 40 minutos (porque nós queríamos e tínhamos uma vida inteira) e adormeceu na morte.
Gravei o seu toque, o seu cheiro. Fecho os olhos e sinto a sua essência. Beijei-a muito, mexi-lhe nas bochechas. A nossa bonequinha era a coisa mais linda que alguma vez tínhamos conhecido.
Há coisas duras na vida. Mas decidir desligar o ventilador de uma filha recém-nascida não tem descrição.
E agora, 4 semanas depois, estamos a tentar sobreviver. Sem ela, a luz da nossa vida.
A esperança não morreu. A vontade também não. Eu hei-de continuar a ser mãe, o pai há-de continuar a ser pai. E a benção de um irmão para a Francisca há-de chegar.
O nosso foco irá mudar, se isso acontecer. Mas para onde olharmos, onde está um, poderiam estar dois, onde estão dois poderiam estar três. Porque a Francisca é eterna nos nossos corações. Fez de nós pais e se tiver irmãos, vai ser falada e dada a conhecer.
Esta história nunca será de alegria. Espero vir um dia dizer-vos que foi uma história de superação, de resiliência, de coragem. Mas se há coisa que esta história foi, foi de amor. Um amor imensurável, terno e doce como nunca antes havíamos experienciado.
Foi isso que tu vieste trazer ao nosso mundo Francisca: amor. Até um dia, minha bonequinha. É um soninho. Até já.
Quanto às mães e pais que também viram o seu bebé adormecer na morte: não estão sozinhos. Estamos juntos. Amanhã será um dia melhor.
Quando eu e o meu marido nos juntámos sempre desejamos uma casa com família grande e acolhedora, onde houvesse muito amor e união.
Então, aos 18 anos, começámos a jornada de criar família e saiu o primeiro positivo de amor, mas, o pior aconteceu e, com 8 semanas, vimos tudo a desmoronar. Uma primeira dor incontrolável, mas desistir estava longe de ser possível. Ao que aos 21 finalmente tivemos novamente o positivo, claro com muito medo, mas a esperança era grande.
Apesar de ter sido uma gravidez atribulada, fomos abençoados com uma menina linda em que sempre fomos falando em casa de que um dia mais irmãos viriam quando ela tivesse a sua independência. Passaram 5 anos e o desejo sempre a aumentar e começamos novamente na nossa tentativa de aumentar a família. Em 2020, tivemos o nosso positivo e a alegria transbordava. Já se tinham passado 12 semanas e, de repente, tudo foge do controle novamente, surgiu um corrimento, fui logo de imediato as urgências e foi detetado um aborto retido às 8 semanas em que o corpo iniciava a expulsão.
Novamente vieram as lembranças e aquela dor e agora tendo que explicar a uma criança tudo o que se tinha passado. Dói demais, mas ela ensinou-me a ser positiva e a olhar de outra maneira para toda a situação. Afinal tinha tido um parto maravilhoso e uma estrelinha para nos guardar.
Mas a luta para aumentar família permaneceu, e, em 2021, voltamos ao nosso positivo e todo um medo em volta de todo o processo, mas, com coragem, olhámos em frente. Mas, em pouco tempo, a nossa felicidade terminou, pois, apesar de vir com imensa força para este mundo, tinha ficado na trompa.
Todo o processo de uma gravidez ectópica acrescido, mas, apesar de todos os medos, bastou a dita injeção MTX e novamente terminava aquele positivo tão desejado e agora com o medo da reincidência.
A vida tem sido difícil, mas a luz brilhou e, em 2022, tivemos a alegria de duas riscas no tão esperado teste, com todos os medos das anteriores perdas. Fui logo de imediato fazer a ecografia vaginal para confirmar de que desta vez estaria no útero, e, realmente estava no sítio certo. Menos um medo. Veio então o medo da perda, comprei logo um doppler para ouvir o pequeno coração, o que me acalmou bastante. Fizemos a primeira ecografia e o nosso pequenino mexia bastante e adorava dormir encostadinho à minha placenta bem juntinho a mim.
Estava a crescer bem e a evoluir, uff, apesar de enjoos e de vir logo de repouso para casa. Tudo estava a correr na perfeição e um amor infindável de toda a família para receber o meu pequeno Henrique.
Foi então que fomos fazer a morfológica, às 22 semanas e tudo mudou…foi detetada a meningocele (o tipo mais grave da espinha bífida). Fui logo encaminhada para o Hospital Santa Maria em que tivemos todo o apoio de uma equipa maravilhosa que nos explicou o que passava e que chorou connosco.
Tivemos de parar o coração do nosso menino e com ele foi uma parte de nós papás.
Tem sido difícil, mas a esperança mantém-se e temos uma equipa médica que já nos garantiu que não nos vai abandonar. E depois temos uma sociedade toda ela retrógrada que não sabem o que este sofrimento e passa o tempo a questionar se somos bem acompanhados, se tomamos todas as medicações, se não temos a consciência que devemos parar… ninguém sabe o que vai no coração de uns pais que desejam ter filhos independentemente de já termos ou não filhos.
Não esquecemos nenhum filho e nenhum é substituível! Quando olho para o céu, sei que tenho 4 estrelinhas minhas e que têm um pai, mãe, e uma mana que os ama e fala constantemente neles.
O nosso caminho juntos começou quando, em fevereiro, tive o nosso positivo! Chorei tanto de felicidade! No início deu medo, fiquei extremamente aflita pois queria dar o meu melhor e tudo era novidade. O nosso primeiro bebé, e desde logo o amor da nossa vida!
Foi um início duro, com muitas náuseas, enjoos, e onde a minha energia vital estava toda dirigida a ti, filho. Não tinha energia para mais nada.
Com o tempo, as coisas foram melhorando e voltei a ser eu mesma, e tudo corria bem contigo. As semanas foram passando e perto das 18 semanas tive aquela que tantas vezes disse ser “a melhor sensação da vida”: sentir-te pela primeira vez, Manel. O pai tanto tempo passava com a mão na minha barriga para ter um bocadinho daquele elixir da felicidade que tu me davas.
Os momentos contigo foram os melhores de sempre, foste a minha melhor companhia, já tínhamos uma rotina tão boa, tão nossa. As conversas, a música que ouvia contigo antes de dormir, tudo me faz falta. E não entendo…Quero entender o propósito de tudo o que nos aconteceu depois, mas quando penso em ti e em todos os momentos bons fico tão triste e revoltada. E não é suposto, tu foste e és felicidade! Com a notícia da tua chegada fizeste de todos nós à tua volta pessoas felizes, cheios de amor por ti.
Com 21 semanas e 6 dias fomos fazer a Morfológica. Ainda tremo quando recordo o corredor, a sala e a médica insistentemente a procurar “algo”. No fim, quando me olhou nos olhos e disse “Algumas coisas não estão bem!” , o nosso mundo gelou! Após orientações seguiu-se amniocentese e posteriormente uma ressonância magnética fetal.
Todos os dias neste intervalo de exames foram pesados, muito pesados. Eu e o pai tínhamos o peso do mundo no coração, as noites de pouco ou nenhum descanso e muita ansiedade. Chegou o dia da RM, às 23 semanas, e após o exame a médica falou conosco e o pesadelo confirmou-se.
O nosso menino tinha um problema grave no Sistema Nervoso Central, que lhe iria infligir uma vida de sofrimento, preso no seu próprio corpo e onde estaria limitado em muitas coisas. Chorámos tanto nessa noite…por ti, por nós, pelos nossos sonhos e expectativas completamente destruídos. Tínhamos de tomar a pior decisão da nossa vida, até porque estávamos em contra relógio até às 24 semanas.
Após falar com a médica que nos acompanhou e após nos ser dirigida mais informação, a nossa decisão foi tomada cheia de dor, mas também cheia de amor… O nosso amor por ti, Manel. Tinhas direito a uma vida plena, onde poderias fazer o que os outros meninos fazem, ter todas as oportunidades e mais algumas, não era justo para nós e não era justo para ti que assim não fosse.
Após assinar aquele maldito papel e ter recebido informação sobre o que iria acontecer depois, eu e o pai descemos daquela maternidade em lágrimas e muita, muita revolta. Chegámos ao carro e continuámos a chorar abraçados por largos minutos e a tentar digerir que teríamos de te dizer adeus, o adeus mais doloroso! Que crueldade!
Chegámos a casa, envolvidos num sentimento de impotência e de uma dor sem fim na alma, mas queríamos despedir-nos de ti enquanto ainda te tínhamos conosco. Enquanto o teu coração ainda batia dentro de mim! O pai foi tão bom para nós em tudo, acho que sabes isso, ele foi a âncora do maior navio do mundo e esteve sempre lá. Fomos tirar fotos, comprámos as comidinhas que ainda não tinhas “provado” e tentámos dar-te o mimo que merecias. A demora acabou por ser maior que o suposto, e aguardámos uma semana até ser chamada para estar no hospital e dar início ao processo.
O dia 30 de junho chegou, dei entrada na maternidade e esse foi o pior dia desde que me lembro. Nem dores de parto, nem outras dores da vida me doeram como este dia doeu. O meu coração ficou por metade nesse dia, e a metade mais bonita foi a que foi embora!
Apesar de toda a dor, a minha única alegria naquele momento… Ia ver -te. E vi… Estavas tão quentinho no meu peito. O meu menino lindo!
Após internamento a parte mais dolorosa de todas, silêncio… Despedida! Estava na maca, a sala estava numa escuridão refrescante, estava perto da médica o suficiente para ter a minha mão sobre a perna dela, do outro lado a enfermeira. Fechei os olhos e enquanto elas faziam o seu trabalho, do início ao fim estive sempre a murmurar “a mãe ama-te muito, a mãe ama-te muito, a mãe ama-te muito…” Queria que levasses contigo esta certeza Manelinho!
Neste momento o pai não podia estar conosco, nos momentos seguintes sim. No meio de tudo tivemos sempre conosco pessoas cuidadosas que nunca me deixaram sentir sozinha, médicos, enfermeiras e auxiliares que fizeram o que sabiam e podiam para minimizar o nosso sofrimento.
Só lhes posso agradecer, sempre!
O pai esteve connosco até às 22h. E no dia seguinte de manhã já estava lá novamente. E foi no dia seguinte que se iniciou a indução do parto. Dores, tremores, mais dores, frio e mais dores. Foi assim a tarde até que levei epidural, (algo que não seria suposto) por as dores estarem a ser muito fortes. Aliviou muito até ser hora do pai ir embora, já eram quase 23h, ele foi e as dores voltaram.
Ainda estive algum tempo com dores e contrações cada vez mais insuportáveis, tudo era uma grande novidade para mim, tudo! Voltaram a dar-me medicação e voltei a descansar…Pouco. Eram 03:15 acordei e senti que eras tu…Algo estava diferente… chamei e as enfermeiras confirmaram, ia ver-te filho!
Apesar de toda a dor, a minha única alegria naquele momento…Ia ver -te. E vi… Estavas tão quentinho no meu peito. O meu menino lindo!
O resto, foi o resto… Perceber se estava tudo bem comigo, informações sobre o que se iria passar com o meu corpo, recomendações, alta médica, um colo vazio e um coração cheio de amor por ti.
Os dias seguintes foram difíceis, ainda são, passou pouco mais de quinze dias.
As perguntas são muitas, a culpa foi inevitável e ainda o é… Apesar de estarmos a trabalhar nisso! Quero encontrar paz, estar em paz comigo e com os outros. Vamos caminhando e tento todos os dias voltar a sorrir à vida! A nossa família toda tem sido um suporte incrível. Mas este é um processo tão solitário.
A ti meu Manelinho só tenho a agradecer. Vieste dar-me e ensinar-me muita coisa boa e a mais linda de todas elas, a ser Mãe! Obrigada por me teres escolhido, por não teres desistido de mim. Quero muito acreditar que um dia, num lugar onde já não existir tempo, vamos voltar a encontrar-nos e aí, nunca mais vais sair do meu colo.
A gravidez do nosso primeiro bebé foi planeada, mas nada calendarizada. Não segui com muita atenção o período de ovulação; aconteceu de forma muito natural e espontânea. Umas 3 ou 4 semanas passaram-se e lembrei-me “algo falhou este mês”; comentei com o Tomás e disse-lhe com a maior das confianças: estou grávida. Mais uma semana passou e não consegui aguentar a espera da análise beta-hCG para confirmar; comprei então um teste de gravidez: confirmado e com mais de 3 semanas. Enviei uma foto ao Tomás pelo Whatsapp; combinamos em fazer a surpresa aos meus pais, afinal de contas, seriam avós pela primeira vez e queríamos dar a notícia de uma forma memorável. Logo de seguida ele partilhou com os pais dele e irmãos, não conseguindo conter a alegria.
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Os meses desenrolaram-se, de forma geral, pacificamente. Haviam sempre cuidados extra, alguns receios à mistura, muita leitura para colmatar esses receios…o que todas as mães de primeira viagem podem autenticar! Os desconfortos assumidos como “normais” apareciam com o crescimento do bebé e o estiramento dos músculos da barriga, uma ou outra noite mal dormida, um mioma intramural que apenas me deu que fazer (e à equipa no serviço de urgência da maternidade) durante uns dias, mas que se “silenciou” até ao fim da gravidez (contrariando as expectativas dos médicos).
Decidimos não saber o sexo, mas como gostava de falar com o bebé na minha barriga tinha de encontrar um nome neutro além de “criaturinha”; depois de pensar em alguns ficou “pandinha” – tinha que ser, claro, o bebé adora dar pontapés e às vezes parecia que estava numa aula de kung-fu lá dentro (lembrando-me a personagem Panda do Kung-Fu). Criamos um grupo de Whatsapp com amigos e família para lançarem apostas sobre o sexo do bebé, e mais tarde com ideias de nomes. Eram quase 80 pessoas a mandar “bitaites”; podem imaginar o tipo de nomes que eram sugeridos! Foi muito divertido. A maioria apostava que seria menino, mas mantivemos firmes em não sabermos o sexo e fazermos a surpresa a todos.
O terceiro trimestre foi o mais vigiado; tinha surgido uma alteração a nível do intestino do bebé – uma dilatação que nunca desenvolveu mais do que o que tinha sido diagnosticado na ecografia das 31 semanas, que me tinha sido também explicado que poderia ser passageiro ou alvo de uma pequena cirurgia no período neonatal…nada demais a preocupar por agora pois a bebé desenvolvia bem, não havia sinais de stress fetal nem outros que pudessem comprometer a gravidez. Depois de uma ou outra noite mal dormida (congeminando preocupações e soluções), vesti o meu fato de otimista e segui com as marcações planeadas na maternidade e com a vida de grávida dentro da normalidade – agora mais pesada, mas ainda com bastante energia.
Às 36 semanas um aumento de líquido amniótico, mas não se tratava de uma alteração muito significativa, e assim se prosseguiu com as vigilâncias programadas (desta vez, semanais) – CTGs e ecografias realizadas sem intercorrências a acrescentar de acordo com a equipa.
Vivi todo este período como se tivesse divido em duas pessoas – a “Ana que queria ser mãe” fugiu para bem longe e a “Ana que quer sobreviver” ficou…
As últimas 4 semanas foram vividas com normalidade; o único desejo honesto que tínhamos era ter um parto natural, sem necessidade da indução marcada para dia 20 de dezembro (no limite das 41 semanas). Então seguimos as sugestões do obstetra para alcançar esse desejo, mas sempre muito conscientes da possibilidade de nunca ocorrer e necessitar da mesma.
Madrugada de 20 de dezembro de 2021. Acordei subitamente de um sonho. O sonho passava-se no sótão em casa dos meus pais (precisamente o local onde lhes demos a notícia da gravidez) e deixou-me com uma sensação muito desconfortável; senti que algo não estava bem de imediato, mas tentei racionalizar aquele momento e fiz o que sabia serem as melhores tentativas a estimular o bebé a mexer…mas nada; pouco tempo depois, já nas urgências da maternidade veio-se a confirmar o que sentia mas não queria acreditar – “acho que a Ana já sabe o que tenho para lhe dizer…” disse-me a médica que concluiu o diagnóstico da morte fetal; “eu lamento imenso”. O meu corpo mexeu, mas a minha mente paralisou naquele momento. Segui instruções para ligar ao Tomás que me esperava fora das urgências, para me dirigir à sala de partos, mudar de roupa e dar início ao parto…aquele parto que já estava agendado, mas não para este resultado. Vivi todo este período dividida em duas pessoas – a “Ana que queria ser mãe” fugiu para bem longe e a “Ana que quer sobreviver” ficou…
“Era uma menina”, uma das enfermeiras confirmou após o parto. Eu e o Tomás decidimos estar um bocadinho a sós com a nossa bebé. Enchemo-nos de orgulho e lágrimas ao saber que a surpresa ainda seria maior, contrariando a aposta da maioria. Chamamos-lhe Maria – o nome que eu tinha sugerido se fosse menina, mas que ainda não tínhamos chegado a um acordo. Tê-la no colo e vê-la partir foi a sensação mais devastadora que podemos assumir…
Os dias seguintes – até semanas – foram de muita tristeza e solidão, mesmo com imensa gente a cuidar de nós com muita atenção. A sensação de “vazio” no meio do peito lá ficou, lembrando da ausência. Atrás vieram os sentimentos de culpa, “o que é que eu fiz?”, “o que é que eu poderia ter feito?”. A ansiedade ganhava terreno, os dias em que saia à rua com as lágrimas prontas a cair e o nó na garganta acumulavam-se, a falta de forças para enfrentar o dia e para resistir à sensibilidade sublime ao ver um bebé ou uma mulher grávida ia sendo cada vez mais óbvia. Tinha de reagir. Sabia que a procura de respostas tirava muito tempo e energia dos meus dias – não estava a procurar no sítio certo e não era por encontrar uma resposta ao “porquê da morte da Maria” que conseguiria minimizar a minha dor. Comecei a olhar mais para dentro; perceber o que sentia em relação à Maria, perceber o que outras mães testemunhavam após uma experiência semelhante, acolher novas interpretações da perda (quer a nível espiritual como a nível de crescimento pessoal) e, no fundo, encontrar e estabelecer-me nesta nova identidade – uma mãe de colo vazio, que ainda vai enfrentar muitos desafios e medos na busca da felicidade maternal, mas que tem agora uma arma muito poderosa que a ampara nesse caminho, que é o amor incondicional.
Alguns meses passaram até agora – quase 6 no momento em que escrevo este testemunho – e sei que não houve um dia em que não pensei na Maria. Tanto fiz nestes meses por forma a celebrar a sua breve, e relevante, passagem neste mundo…tanto que ainda quero fazer! Tantas vezes peguei na sua fotografia, ora com muito orgulho, um sorriso e uma mão no peito, ora com lágrimas a correr pelo rosto e as mãos a tremer. Tantas vezes falamos, entre casal, família e amigos, no nome Maria. Tantas vezes…
Agora, os dias de orgulho – em que o as nuvens se abrem -são cada vez mais, mas sei que por aí virão dias em que a saudade terá aquele gosto mais amargo. E acredita que há dias que te vão surpreender, lembrando que ainda há algo aí dentro por preencher; acolhe esses dias, é a minha sugestão, pois há sempre uma lição a aprender.
Suzy Pinho Pereira
Psicóloga Clínica e da Saúde
Gabinete de Psicologia SPP
A perda de um filho durante a gravidez, gestacional, ou à nascença, neonatal, independentemente de ser num período precoce ou tardio, origina um dos lutos mais complexos e, infelizmente, com pouca validação social. Isto acontece devido à pouca compreensão, perante a sociedade, da vinculação que é criada, entre pais e bebé, durante a gestação. Vários estudos referem que o luto de uma perda gestacional não se foca só perante a perda do bebé desejado, mas também com a perda das expectativas criadas antes e após a conceção.
Importa salientar que, após uma perda gestacional, se o luto persistir por muito tempo poderá desencadear crises de ansiedade, stress pós-traumático ou perturbação depressiva até alguns meses após a perda, e, além disso, a adaptação psicológica a uma nova gravidez é afetada.
Perturbação de Pânico: o que é?
A perturbação de pânico encontra-se inserida nas perturbações de ansiedade que partilham entre si uma série de características de medo e ansiedade excessivos e alterações do comportamento. Deste modo, é importante distinguir estes dois conceitos: o medo é uma resposta emocional a uma ameaça iminente que tanto pode ser real como percebida, a ansiedade, por sua vez, é a antecipação de uma ameaça futura.
A perturbação de pânico refere-se a uma condição psicopatológica caracterizada por ansiedade, designadamente, episódios recorrentes de ataques de pânico.
Os ataques de pânico são considerados episódios breves de início súbito e com um pico de intensidade em alguns minutos, sendo caracterizados por uma sensação de angústia, ansiedade e/ ou medo extremos, acompanhados por sintomas físicos, comportamentais, emocionais e cognitivos, tais como:
desconforto ou dor no peito;
sensação de falta de ar, asfixia ou dificuldade em respirar;
vertigens;
suores;
tremores;
sensações de frio ou de calor;
náuseas ou mal-estar abdominal;
sensação de desmaio;
sensações de entorpecimento ou formigueiro;
palpitações ou ritmo cardíaco acelerado;
sensações de irrealidade ou de se sentir fora de si;
medo de perder o controlo ou de enlouquecer;
medo de morrer.
Tipos de ataques de pânico
Os ataques de pânico podem ser esperados, quando alguém que tem uma fobia, por exemplo, de cobras, e ao ver uma cobra irá ter um ataque de pânico; mas também podem ser considerados inesperados pois ocorrem de forma espontânea, sem nenhum gatilho presente, como é o caso de um ataque de pânico noturno, que se caracteriza por acordar num estado de pânico.
Estes ataques destacam-se entre as perturbações de ansiedade como um tipo particular de resposta ao medo. Porém estes não estão limitados às perturbações de ansiedade, podendo muitas vezes ser observados noutras perturbações mentais.
A Perturbação de Pânico também é caracterizada pela preocupação persistente com a possibilidade de novos ataques de pânico e com as suas consequências que são percebidas como catastróficas. Alguns exemplos de consequências temidas são: desenvolver uma doença cardíaca ou outra, não receber ajuda ou o impacto social negativo.
Esta perturbação tem início no final da adolescência ou no princípio da idade adulta, estando tipicamente associada a um período com um pico de stress. A sua prevalência varia entre 1,5% e 3,5% da população.
Já o stress pós-traumático é uma perturbação mental que se pode desenvolver em resposta à exposição a um evento traumático, como pode ser o caso de uma perda gestacional/neonatal, de um acidente de viação, de guerra, de agressão sexual, doença, morte. dos sintomas vivenciados nesta perturbação são os ataques de pânico.
Se reconhecer algum destes sintomas ou sinais em si ou em alguém próximo de si procure ajuda: um psicólogo pode ajudar.
Suzy Pinho Pereira
Referências:
American Psychiatric Association (2014). DSM V: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5ª Ed.). Lisboa: Climepsi Editores.
Gabriel, S., Paulino, M., & Baptista, T. (2021). Luto Manual de Intervenção Psicológica. Lisboa: Pactor
Gilbert, P., & Allan, S. (1994). Assertiveness, submissiveness behaviour and social comparison. British Journal of Clinical Psychology, 33, 295-306.
A interrupção da gravidez por razões médicas é mais comum do que possamos pensar. Para além da enorme tristeza pela perda de um bebé, de um filho, tem por detrás uma terrível decisão por parte dos pais. É o choque do diagnóstico, o peso e a culpa de ter de assinar um papel, a espera por uma autorização médica – às vezes vários dias, a espera por notícias sobre o internamento, são os últimos momentos com o nosso bebé, de uma enorme angústia, frustração, desilusão. Assim é o tumulto da interrupção médica da gravidez. Se estão a passar por esta interrupção e nos dias de espera, esperamos, de coração, que este artigo vos possa, de alguma forma, ajudar e trazer algum conforto.
Podemos sentir que, de alguma forma, o nosso corpo falhou. Perguntamo-nos porquê? Porquê a mim? Onde falhei? Em primeiro lugar, queremos dizer que esta não é uma decisão sua — embora às vezes seja apelidada como “voluntária” — porque necessita de autorização dos pais — é, na grande maioria das vezes, uma decisão médica.
Interrupção médica/voluntária da gravidez: quando pode ser feita
É permitida a interrupção até às 12 semanas de gravidez, se for indicada para evitar a morte ou danos físicos ou psicológicos graves e duradouros da grávida e até às 24 semanas de gravidez, caso se preveja que o bebé venha a sofrer de doença grave ou malformação congénita incuráveis. A interrupção médica da gravidez pode estar relacionada com problemas ao nível dos cromossomas, detetados, por exemplo, no 1º trimestre ou por exemplo por malformações fetais, mais comum, descobertas no 2º trimestre e por vezes no 3º — perda gestacional tardia. Cedo ou tarde é sempre uma perda e tem um impacto emocional muito grande no casal. Se está a passar ou passou por esta situação, lamentamos imenso. Saiba que não está sozinha e procure ajuda, se precisar.
Para além destes limites temporais, a interrupção voluntária da gravidez é ainda permitida, a qualquer momento, caso seja essencial para prevenir a morte ou danos físicos ou psicológicos graves e irreversíveis para a grávida ou caso se conclua que o feto não irá sobreviver.
Impacto emocional da interrupção médica da gravidez: e se?
Ainda assim e por mais que nos digam que não há outra opção, que nos aconselhem a avançar com a interrupção porque há uma grande probabilidade de não ser viável, são muitos os “e se” que nos passam pela cabeça. É normal. Mas saiba também que esta decisão, que, em última instância é “nossa” porque nada pode ser feito sem o nosso consentimento escrito — é um ato de amor. É porque os amamos que não os queremos ver sofrer. Mesmo assim é a decisão mais difícil das nossas vidas e nestes casos não existem certos nem errados.
É também muito importante que tire todas as suas dúvidas com a equipa médica e que a informação que lhe seja transmitida sobre o seu bebé seja clara.
O que acontece numa interrupção médica da gravidez?
Depois de ouvir o diagnóstico do médico, às vezes após ouvir até mais do que uma opinião, vão perguntar qual a sua decisão e terá depois uma consulta com alguns papéis para assinar. Se estiver a ser seguida num hospital privado será muito provavelmente encaminhada para um hospital/maternidade pública. Antes da interrupção o caso ainda é analisado por uma comissão de médicos chamada Comissão Técnica de Certificação que existe em cada estabelecimento de saúde oficial que realize interrupções da gravidez. Cada comissão técnica é composta por 3 a 5 médicos. Dela devem fazer parte obrigatoriamente um obstetra/ecografista, um neonatologista e, sempre que possível, um geneticista.
Depois da autorização, segue-se o internamento, medicação e um procedimento semelhante à amniocentese para fazer parar o coração do bebé. Em seguida será induzido o parto.
É importante que, antes de todos estes momentos, tenha conhecimento dos seus direitos e do que pode fazer se se quiser despedir do seu bebé. A equipa médica e de enfermeiros deverão informá-la do que pode ou não pode fazer e perguntar-lhe qual é a sua decisão e é importante que antes consiga saber, pensar e decidir. Uma vez mais, não há certos nem errados e, muitas vezes, nestes casos, a decisão dos pais, mas sobretudo da mãe, é com base em questões de sobrevivência naquele período difícil que estão a passar.
Naquele dia o meu mundo parou e a minha luz deixou de brilhar…
6 de dezembro de 2021. Não existem palavras que descrevam o tamanho da minha felicidade. Tantos meses de luta e finalmente a minha vida ganhou cor, tudo era belo, o dia, a noite, o sol, a chuva, a trovoada, nada me entristecia mais, havia uma vida dentro de mim, uma vida tão desejada e já tão amada. Finalmente iria dar à Alícia o irmão que ela tanto queria e pedia.
Aproximava-se o dia de Natal e juntamente com o Marco decidimos dar a melhor prenda à família, e existe prenda melhor? A família ia aumentar. Decidi aguardar então uns dias para que esse dia fosse memorável. Só me apetecia gritar ao mundo o quão feliz estávamos, íamos ser pais novamente! A felicidade transbordava no meu olhar. Tudo corria bem nesta gravidez, ao contrário da minha primeira onde as dores constantes tinham sido incomodativas e até medonhas. Desta vez estava tudo a correr lindamente, não haviam dores, sentia-me nas nuvens… a barriga começou logo a notar-se às 6 semanas o que também tinha acontecido na gravidez da Alícia, que muito cedo foi descoberta. Agora não estava a ser diferente. E tão bom, mas tão bom olhar o espelho e ver a transformação do nosso corpo.
Os dias passaram e o dia de Natal chegou. A minha irmã era a única na família, à exceção do Marco que sabiam. Ao anunciar o tão desejado bebé que carregava no ventre, fui presenteada com a primeira roupinha. Um fato cinza e uns sapatinhos amarelinhos. Foi um momento mágico, a minha Alicia descobriu naquele momento que tinha sido promovida a mana mais velha. A minha filha com 6 anos chorou de felicidade e eu e o pai chorámos por ver uma criança tão pequena a ser tão sincera no amor que já tinha por aquele ser tão pequenino: “o meu filho” era o irmão dela. A minha filha desde então passou a beijar todos os dias a minha barriga, dizer “olá mano” e “gosto tanto de ti”. Segundo momento, contar aos meus sogros, e qual não é a minha felicidade que, ao anunciar a minha gravidez, descubro que a minha cunhada, esposa do irmão do Marco, estava igualmente de bebé e com diferença de 2 semanas apenas. Mas que alegria, que raio de sol entrou naquela casa. Foram dias absolutamente deliciosos. Não havia amor que coubesse no meu peito… até aquele dia.
Dia 13 de janeiro de 2022, desloquei-me à maternidade Bissaya Barreto para uma consulta de rotina que nada estava relacionada com a gravidez. Era um lindo dia de sol. Estava de 9 semanas. Chegou o momento em que a médica me questionou “Já viu o seu bebé? Quer vê-lo?Ouvi-lo?”. Era tudo aquilo que queria ouvir e saiu um SIM a transbordar de amor. E o meu mundo parou ali, a minha alma escureceu, a minha vida desmoronou e toda a luz que até então me iluminava se tornou na pior das escuridões: “não tenho boas notícias, o desenvolvimento do seu bebé parou há uma semana, não há sinais vitais, Lamento!”
Não sei como tive forças para conduzir até casa SOZINHA, não me recordo sequer do caminho que fiz. O meu corpo ficou sem vida, entrei completamente em piloto automático e tudo deixou de fazer sentido. O meu bebé estava morto no meu ventre e eu iria de ter de o expulsar SOZINHA! Eu não estava a acreditar, eu não queria ouvir mais nada, aquela máquina estava errada e eu ia para a maternidade Daniel de Matos onde ia ser realmente seguida, e tudo não ia passar de um erro! Em casa, chorei, chorei perdidamente até à chegada da Alicia. Quando lhe olhei nos olhos é que tive a noção do que me esperava, ela tinha que saber. Se foi duro perder o meu filho, imaginem o quão duro foi desfazer o sonho dela. Olhar-lhe nos olhos e dizer que não teria mais um irmão e tudo tinha terminado ali naquele momento! Cada lágrima dela foram facas espetadas no meu corpo que jamais cicatrizarão. Chorámos ali, as duas agarradas uma à outra, mas eu, eu sempre com a esperança…
Evitei sofrer, chorar e até me privei de pensar que não estava bem. Não queria preocupar o Marco e por momentos fiz o mesmo, não falei com o objetivo de passar a mensagem de superação!
No dia seguinte, desfeita em cacos, fui à maternidade Daniel de Matos, desta vez com o Marco. A noite tinha sido longa e dolorosa… Aquela senhora jamais sairá da minha cabeça, amável, dócil como nunca mais me cruzei com ninguém, que ao ver-me naquele estado não me voltou a deixar sair, não quis que visse mais a realidade que me rodeava e fez questão que me atendessem LOGO, SEM ESPERAR. O meu corpo tremia, a minha voz não saía…Não haviam realmente mais batimentos cardíacos. Eu já estava realmente SOZINHA naquele momento. Já não existia mais vida dentro de mim. E que dor, que dor dilacerante. Na ignorância, fui para casa seguir todas as indicações e esperar que o corpo fizesse o resto. E pronto! Mais nada! Jamais imaginei o que vinha a seguir. Dia 15 de janeiro… DURO, muito duro, jamais se está preparado para um processo tão doloroso e desumano. Senti cada dor do meu corpo, senti e vi a morte e vi o meu filho nas minhas mãos. Sim, eu peguei e vi! Tinha de o fazer.
Os dias que seguiram foram péssimos, passei dias sozinha a chorar mas hoje, sinto que não foram suficientes, que devia ter-me permitido chorar ainda mais, gritar, deitar tudo cá para fora. O regresso ao trabalho ditou isso mesmo, as perguntas, os comentários fizeram-me engolir em seco “deixa tu és nova”, “tu até já tens uma filha”, “era uma coisita tão pequenina mais vale agora”, “isso vai passar, voltas a tentar”… A TORTURA. Eu não queria ouvir aquilo, eu não devia sequer ouvir aquilo, tinha acabado de perder um filho: o meu filho! Engoli muito em seco e privei-me de chorar para não ouvir “mas ainda estás assim por causa do aborto?”. Devia ter feito o meu luto, deixar-me chorar, receber um ombro, um abraço, mas não…só existiram comentários como “vai procurar um psicólogo”. Eu só precisava de colo. Evitei sofrer, chorar e até me privei de pensar que não estava bem. Não queria preocupar o Marco e por momentos fiz o mesmo, não falei com o objetivo de passar a mensagem de superação!
Duas semanas depois a tortura voltou ao saber que uma colega de trabalho estava grávida! Mas afinal onde estava o deus que eu agradeci quando descobri a 6 de dezembro que a minha maior felicidade estava a chegar? Onde estás? E agora? Como me vou reerguer? A escuridão invadiu-me e nada me conseguiu impedir de chorar, e eu só queria largar tudo e desistir, mas ele estava lá… o meu suporte, o meu ombro amigo, o meu companheiro e confidente, o meu marido esteve lá e só ele me conseguiu acalmar. Pensei muito na minha filha. Eles foram a minha força.
Os dias passaram com muitos altos e baixos, mas eu achei que tinha de voltar a erguer-me e tentar novamente, não desistir do sonho e assim aconteceu, por milagre a 21 de março o teste deu novamente positivo e eu chorei muito, chorei de alegria, agradecimento e medo. Sim, muito medo! Uma nova vida dentro de mim, um novo sonho, uma nova luz para me levar no caminho certo. Contei ao marido. SÓ. Só me pediu para me acalmar e viver os dias com serenidade. E assim tentei fazer, mas as dores nesta terceira gravidez estavam a ser imensas o que me fez recorrer a uma profissional para me acompanhar, SIM eu precisava ter a certeza que estava tudo a correr bem. Afinal, EU ESTAVA NOVAMENTE GRÁVIDA, mas não sentia entusiasmo, não consigo explicar, estava muito apreensiva, receosa, não me sentia sequer grávida, não tinha qualquer sintoma de tal. Sentia dores horríveis e tinha uma sensação inexplicável no meu corpo.
Realizei a primeira ecografia precocemente o que me deixou desanimada. Não se via nada com 4 semanas apesar de me ser transmitido que era normal, mas para uma mãe a sofrer de ansiedade como eu estava, era tudo menos normal. Passados três dias recorri à maternidade, apesar de me sentir muito bem com a profissional que escolhi para me acompanhar, as consultas eram muito caras e não tinha qualquer seguro ativo. Até hoje arrependo-me profundamente de o ter feito. A falta de sensibilidade daquela médica que me atendeu ainda hoje me provoca irritabilidade e tristeza. Eu só queria saber se estava tudo normal e a resposta, arrogantemente, “o que é que você entende por anormal? Isso ainda nem sequer é gravidez o que é que a senhora quer ver? Vá para casa e volte daqui a dias!”. Eu não queria acreditar no que eu estava a ouvir. Como é possível existir no mundo profissionais tão mal formados a este ponto? Como é possível não haver compaixão nem sensibilidade com mulheres que carregam vidas nos seus ventres? Chorei muito, era fim-de-semana e teria de aguardar. Segunda-feira chegou e eu só precisava ouvir palavras de consolo, de esperança. Pessoas com luz é o que precisamos neste momento, e a médica que escolhi toda ela transbordava calma, tranquilidade e generosidade. E pela primeira vez vi o meu saquinho, lá estava ele com 5 semanas e lá estava o meu feijãozinho, o meu potinho de amor.
Naquele dia foram lágrimas de alívio e tudo desapareceu, deixaram de existir dores, o meu corpo sossegou finalmente e sentia-me mais tranquila do que em qualquer dos dias anteriores. Só conseguia pensar que estava a conseguir acalmar-me e que finalmente estava a ter a paz que precisava e merecia. Assim se passaram duas semanas! 7 semanas de gestação, tudo tranquilo até que comecei a perder sangue. O meu rosto vestiu-se de preto e a caminho da consulta de urgência, tive a sensação que estava tudo a acontecer DE NOVO! A ecografia não revelou nada, estava tudo bem, ou melhor, não podia estar melhor, pela primeira vez ouvi o coração do meu feijãozinho. Lá estava ele tão pequenino a bater com tanta intensidade. Assim, mais uma vez o meu coração descansou. Mas as perdas não pararam e tive de voltar à maternidade (era sábado). O discurso foi o mesmo, “o bebé está ótimo, o coração está a bater”. As respostas às minhas questões ficaram em branco “de onde vêm esse sangue?” Tudo era normal, só para mim é que não. E eu sabia-o, sentia-o! Domingo… as dores apoderaram-se do meu corpo, só queria estar deitada e que ninguém falasse comigo. AGUENTEI. Segunda-feira, dia 18 de abril, comecei a perder muito sangue e os coágulos apareceram. Estava num almoço de família e com sorriso no rosto saí, e mais uma vez fui urgência. Eu já sabia, cada lágrima que caia me fazia ter perfeita noção que tinha perdido o meu filho, mas, na minha cabeça o coraçãozinho dele não parava de bater. Mas não, naquele dia perdi o meu terceiro filho. Segunda vez, num espaço de 3 meses. Eu só queria respostas, eu só queria saber que mal eu tinha feito para merecer isto. Eu só queria desparecer. Não queria sequer viver.
Foi tudo natural, não foi necessária medicação… afinal o meu corpo já estava há 5 dias a fazer o trabalho dele. Não queria ver ninguém, estar com ninguém… gritei em silêncio, sufoquei e até hoje ninguém sabe desta perda, muito menos a minha filha que ainda hoje chora ao lembrar-se do seu feijãozinho.
Um dia alguém disse “a dor não se mede pelo tempo de gestação” e não podia ser tão verdade. Perdi o meu filho com 9 e 7 semanas mas para mim não existia amor maior que aquele que carregava no meu ventre.
Hoje ver a minha colega de trabalho grávida é um misto de sentimentos. Muito feliz por ela que me ouviu nas horas difíceis, mas muito infeliz por mim. O meu olhar não consegue desviar e ver a barriga crescer a cada dia que passa. Imagino-me com 28 semanas ou 13 semanas. É muito doloroso. Os dias não têm sido fáceis, tentei resistir e nunca procurei ajuda mas hoje, passados 131 dias do primeiro aborto e 36 do segundo, sinto-me um caco, um farrapo e não consigo superar a perda dos meus dois bebés. Não há dia nenhum que não acorde a pensar neles e no quão desejados eles foram. Hoje sinto-me com vontade de tentar novamente, mas cheia de medos e incertezas.
É muito triste saber que no nosso país a mulher precisa passar por três momentos de perda consecutivos para ter o acompanhamento devido e merecido. A mulher que perde um filho não é valorizada, após a minha segunda perda obrigaram-me a estar uma manhã inteira a ver e ouvir mulheres grávidas a entrar e sair da maternidade e eu, com uma pulseira branca, pulseira essa que fez com que todas me passassem à frente. Hoje sinto-me uma mulher infeliz por tudo o que passei e me proporcionaram. A minha força vou busca-la a grupos de apoio que sigo diariamente. Transcrevo algo que li numa dessas páginas que apoiam mulheres que SOFREM por perdas gestacionais e que não pode ser descrito de forma alguma de outra forma. É isto que eu sinto palavra por palavra:
“Hoje falamos sobre o que não dizer. Pedimos, por favor, que esqueçam estas frases feitas. Sabemos que a intenção é boa. Querem acalmar a dor do vosso(a) amigo(a). A verdade é que estas frases são muito dolorosas de ouvir e desvalorizam o que estamos a sentir. Numa fase inicial, quem perdeu um bebé está tão, mas tão confuso, desorientado e angustiado que pode mesmo sentir-se tentado a minimizar a sua própria dor e luto e isso não deveria acontecer. Varrer para debaixo do tapete, pensar que podia ter sido muito pior, não se deixar sentir, é o pior que podemos fazer. Por isso, por favor, caso pensem em usar o “pelo menos…”, pensem duas vezes. Não sabem o que dizer? Não faz mal. UM ABRAÇO VALE MAIS QUE MUITAS, MAS MUITAS, PALAVRAS! “Pelo menos foi cedo… Pelo menos não veio com problemas… Pelo menos já tens filhos… Pelo menos és nova, podes tentar de novo… Pelo menos está num sítio melhor… O FACTO É QUE NÓS QUERÍAMOS E AMAMOS AQUELE ESPECÍFICO BEBÉ!”
Um dia alguém disse “a dor não se mede pelo tempo de gestação” e não podia ser tão verdade. Perdi o meu filho com 9 e 7 semanas, mas para mim não existia amor maior que aquele que carregava no meu ventre.
A dor ficou e ficará para sempre, faça o que fizer, o amor de um filho não substitui o outro. Obrigada por me terem deixado ser vossa mãe mesmo por pouco tempo. Meus raios de luz, meus potinhos de amor <3 <3
Um dia vou ter coragem para partilhar a minha dor e talvez nesse dia “os outros” conseguirão perceber alguma coisa.
Uma das conversas mais desafiantes que se pode ter com uma família que perdeu um bebé é anunciar uma gravidez a esses pais. De repente, pensamos no que vamos dizer, como o vamos fazer e quando iremos partilhar. Não é fácil anunciar uma gravidez a alguém que perdeu um bebé e, a pensar nisso, decidimos escrever este artigo.
Saiba que são sentimentos semelhantes. Quer sejamos pais que tenhamos perdido filhos, quer sejam amigos ou familiares que nunca passaram por uma perda, há um receio em contar, um medo de magoar os pais, anunciando algo que, infelizmente, para eles não correu bem, um lembrar do que aconteceu que poderá trazer tristeza.
Deste modo, a pensar nas famílias cujos bebés morreram ou que batalham a infertilidade, esperamos que estes conselhos ajudem a dar esta notícia, que poderá sentir ser agridoce, da forma mais sensível possível.
Assim, a primeira coisa que gostaríamos de dizer é: conte-nos… sempre.Não tenha medo, se há alguém que vai estar ansiosa à espera que corra tudo bem e a enviar energias positivas somos nós, pais que sabem o que é vir para casa de braços vazios É que, apesar de ser algo solitário, que sabemos que acontece e estarmos preparadas para acolher, ninguém vai fazer de cheerleader melhor que nós. Nós queremos esse bebé aqui, vivo e saudável, tanto como os pais e não nos contar, com medo que nos magoe, só vai agravar o sentimento de isolamento que sentimos.
No entanto, temos plena consciência que é um tema difícil e esperamos que os próximos conselhos ajudem.
Como anunciar a gravidez a alguém que perdeu o bebé
Se puder, avise-nos antes de publicar nas redes sociais
Claro que isto depende do nível de intimidade e amizade que tem com a pessoa – esta lista é a pensar em pessoas próximas, envolvidas na nossa vida. Por isso, antes de anunciar ao mundo, avise-nos. Não é por mal, mas, dependendo de onde estamos no nosso luto, ver publicações destas podem tornar o nosso estômago num nó. É involuntário, mas depararmo-nos com estas publicações, desta forma abrupta, faz-nos pensar no que perdemos, podendo deixar-nos fragilizadas. Assim, saber de antemão vai oferecer a oportunidade para nos prepararmos ou evitarmos ver essa publicação.
Se puder, evite fazê-lo cara a cara
Pode soar estranho e é de louvar a honestidade de uma conversa assim. Mas considere que nos vai pôr no foco – quando ouvimos uma notícia destas podemos, mesmo sem querer, ser assaltados por emoções desconfortáveis. Então, temos de processar e reagir rapidamente e esta digestão acelerada e podemos dizer ou fazer algo que o vai magoar por não mostrarmos o entusiasmo adequado (e sim…esta é uma preocupação válida!).
Envie uma mensagem
Nós sabemos: parece uma forma impessoal de dar notícias tão grandes. Mas permite-nos processar a informação, pôr em ordem sentimentos difíceis e compor uma resposta apropriada (ou até preparamo-nos para uma chamada celebratória).
Dê-nos tempo
Não leve a mal se demorarmos a responder. Afinal, precisamos de tempo para processar. Saibam que estamos felizes por vocês mas, ao mesmo tempo, incrivelmente tristes por nós, seja porque a perda foi recente, ainda deveríamos estar grávidas ou estejamos a tentar novamente sem sucesso.
Não leve a mal os nossos novos limites
Podemos não conseguir acompanhar a vossa jornada na maternidade. Chás de bebé, festas de revelação de género ou até compras para bebé podem ser experiências dolorosas para pais que perderam um filho. Não se ofenda: apenas estamos a proteger-nos e a não tornar esta vossa fase feliz mais sombria por nossa causa.
Prometemos que estamos felizes por vocês, mas também estamos incrivelmente tristes por nós
Apesar de tudo o que os pais de colo vazio possam estar a sentir, lembre-se que esta é uma fase lindíssima e feliz para si. Poderá notar que estes pais se retraem mais em eventos sociais, mas uma vez que processem o que está a acontecer, vão querer estar envolvidos na sua vida. Não deixe de os convidar mesmo que eles digam que não. O importante é manter o espaço aberto para acolher, apoiar e abraçar quando for a altura.
E obrigada por terem os nossos sentimentos em consideração!
Uma gravidez ectópica é uma das causas de perda gestacional no 1º trimestre de gravidez. Se passou ou está a passar por uma gravidez ectópica, lamentamos imenso. Procuraremos, neste artigo, apresentar o máximo de informação sobre sintomas, causas, tratamento, e cuidados.
A gravidez ectópica é caracterizada pela implantação e desenvolvimento do embrião fora do útero, podendo acontecer nas trompas, ovário, colo do útero, cavidade abdominal ou cérvix. A forma mais comum é a tubária, que ocorre dentro das trompas de Falópio. Como sintomas podem surgir uma forte dor abdominal e um substancial sangramento vaginal, sobretudo no 1º trimestre. Se sentir algum destes sintomas, deve contactar de imediato o seu médico.
Causas e tratamento da gravidez ectópica
Esta é uma situação muito delicada e é importante perceber em que local se encontra o embrião através de uma ecografia. Desta forma, é possível determinar qual o tratamento mais adequado.
A gravidez ectópica é uma situação pouco frequente. Gestações fora do útero correspondem a cerca de 1 a 2% de todas as gravidezes. No entanto, há causas que estão muito associadas a este tipo de gravidez, como alterações na tuba uterina, gravidez ectópica anterior, histórico de endometriose, doença inflamatória pélvica anterior, uso do DIU (que raramente falha, mas quando ocorre o risco de gravidez tubária é muito elevado), entre outras.
Se não for tratada, a gravidez ectópica pode representar risco de morte para a mãe, por isso é importante que seja detetada o quanto antes. Sabemos que é triste e que é estranho pensar no termo “tratamento” associado a uma gravidez, mas infelizmente, nestes casos, não há nada que se possa fazer a não ser cuidar de si.
Existem dois tipos de tratamento: cirúrgico ou medicamentoso. Se for diagnosticada precocemente, é possível tomar um medicamento que impede o desenvolvimento do embrião. Nesse caso, será como um aborto.
O tratamento cirúrgico consiste na retirada do embrião e da trompa, o que pode ter de acontecer em caso de rutura de trompa. No caso de haver a necessidade de laquear uma trompa de Falópio, as probabilidades de engravidar novamente diminuem cerca de 50%, sendo que após a existência de uma gravidez ectópica, há ainda cerca de 15% a 20% de probabilidade de vir a ter outra.
Como prevenir?
Infelizmente é muito difícil de prevenir, pois a grande maioria deste tipo de gravidez surge em mulheres sem fatores de risco conhecidos. No entanto, a maioria das gravidez ectópicas são casos únicos.
Após o tratamento da gravidez ectópica
Seguem-se consultas de acompanhamento. Os exames e testes que vai precisar vão depender do tipo de tratamento que seguir. Se o tratamento foi medicamentoso, deverá, por norma, esperar três meses antes de voltar a engravidar. Normalmente, é recomendado esperar, nestes casos, dois ciclos menstruais antes de voltar a tentar, o que também pode ajudar a processar o que aconteceu e a fazer o seu luto.
Uma gravidez deste género é sempre uma perda gestacional. Por favor, faça o seu luto e não carregue esta dor sozinha. Procure ajuda, sempre que precisar! Seja ajuda médica ou psicológica.
Após uma gravidez ectópica, é fundamental que a primeira ecografia de uma gravidez seguinte seja realizada um pouco antes do normal, por volta das sete semanas.
Fontes consultadas:
Pumpkin – Gravidez ectópica: o que é, quais os sintomas e o que fazer
Mãe me quer – Gravidez ectópica: o que é, causas e tratamento
Zoe e o seu marido passaram pela devastadora perda de 5 bebés. Neste livro acompanhamos a sua história, incluindo a criação da fundação Mariposa Trust que acolhe pais enlutados.